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<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.1 20151215//EN" "https://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.1/JATS-journalpublishing1.dtd">
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<journal-id journal-id-type="publisher-id">QPs</journal-id>
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<journal-title>Quaderns de Psicologia</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">qpsicologia</abbrev-journal-title>
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<issn pub-type="ppub">0211-3481</issn>
<issn pub-type="epub">2014-4520</issn>
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<publisher-name>Universitat Aut&#x00F2;noma de Barcelona</publisher-name>
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<article-id pub-id-type="publisher-id">QPs.2232</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.5565/rev/qpsicologia.2232</article-id>
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<subject>Art&#x00ED;culos</subject>
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<article-title>Intelig&#x00EA;ncia artificial, desejo e apagamento: Uma perspectiva psicanal&#x00ED;tica</article-title>
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<trans-title xml:lang="en">Artificial Intelligence, Desire, and Erasure: A Psychoanalytic Perspective</trans-title>
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<contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0002-4617-2620</contrib-id>
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<surname>Silveira</surname>
<given-names>Paulo Victor dos Reis</given-names>
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    <bio><p>Mestre e Doutorando pelo Instituto de Psicologia, Programa de P&#x00F3;s-gradua&#x00E7;&#x00E3;o em Psicologia da Universidade Federal de Uberl&#x00E2;ndia (UFU), Uberl&#x00E2;ndia/MG, Brasil.</p></bio>
<email>paulo.silveira1@ufu.br</email>
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<surname>Paravidini</surname>
<given-names>Jo&#x00E3;o Luiz Leit&#x00E3;o</given-names>
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<bio><p>Doutor em Ci&#x00EA;ncias da Sa&#x00FA;de (Sa&#x00FA;de Mental) pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Docente do Instituto de Psicologia - Universidade Federal de Uberl&#x00E2;ndia (UFU), Uberl&#x00E2;ndia/MG, Brasil.</p></bio>
<email>paravidini@ufu.br</email>
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<surname>Neves</surname>
<given-names>Anamaria Silva</given-names>
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<bio><p>Doutora em Psicologia (USP). Professora Titular no Instituto de Psicologia, Curso de Gradua&#x00E7;&#x00E3;o e Programa de P&#x00F3;s-Gradua&#x00E7;&#x00E3;o em Psicologia, Uberl&#x00E2;ndia/MG, Brasil.</p></bio>
<email>anamaria.neves@ufu.br</email>
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<institution content-type="original">Universidade Federal de Uberl&#x00E2;ndia</institution>
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<pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
<day>25</day>
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<volume>28</volume>
<issue>1</issue>
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<copyright-statement>&#x00A9; 2026 Els autors / The authors</copyright-statement>
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<license-p>Aquesta obra est&#x00E0; sota una llic&#x00E8;ncia internacional Creative Commons Reconeixement 4.0. CC BY</license-p>
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<abstract>
<title>R<sc>esumo</sc></title>
<p>Neste artigo, s&#x00E3;o discutidas quest&#x00F5;es &#x00E9;ticas no desenvolvimento e uso da Intelig&#x00EA;ncia Artificial (IA), com foco na rela&#x00E7;&#x00E3;o entre sujeito e m&#x00E1;quina. Utilizando uma perspectiva psicanal&#x00ED;tica, a an&#x00E1;lise aborda o apagamento do sujeito no contexto da IA, considerando o desejo inconsciente e os discursos de Lacan. Destaca-se como a IA perpetua desigualdades sociais e econ&#x00F4;micas, exacerbando a explora&#x00E7;&#x00E3;o de trabalhadores na minera&#x00E7;&#x00E3;o de l&#x00ED;tio e na rotulagem de dados. A IA tamb&#x00E9;m captura o desejo do usu&#x00E1;rio, prometendo satisfazer suas necessidades, mas sempre mantendo uma falta inerente, conforme a teoria lacaniana. Al&#x00E9;m disso, o artigo explora a &#x00E9;tica nos algoritmos de IA, incluindo quest&#x00F5;es de privacidade, vi&#x00E9;s e responsabilidade. Sugere-se que a IA promove o apagamento do sujeito, tanto no desenvolvimento quanto como consumidor desejante. O artigo argumenta que a constru&#x00E7;&#x00E3;o de IAs &#x00E9;ticas deve considerar a implica&#x00E7;&#x00E3;o subjetiva e social dos usu&#x00E1;rios, propondo a psican&#x00E1;lise como ferramenta crucial.</p>
</abstract>
<trans-abstract xml:lang="en">
<title>A<sc>bstract</sc></title>
<p>In this article, it is discussed the ethical issues in the development and use of Artificial Intelligence (AI), focusing on the relationship between subject and machine. Using a psychoanalytic perspective, the analysis addresses the erasure of the subject in the context of AI, considering unconscious desire and Lacan&#x2019;s discourses. It highlights how AI perpetuates social and economic inequalities, exacerbating the exploitation of workers in lithium mining and data labeling. AI captures the user&#x2019;s desire, promising to satisfy their needs, but always maintaining an inherent lack, according to Lacanian theory. Additionally, the article explores ethics in AI algorithms, including privacy, bias, and responsibility issues. It suggests that AI promotes the erasure of the subject, both in development and as a desiring consumer. The article argues that the construction of ethical AIs must consider the subjective and social implications of users, proposing psychoanalysis as a crucial tool.</p>
</trans-abstract>
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<title>Palavras-chave:</title>
<kwd><bold>Intelig&#x00EA;ncia artificial</bold></kwd>
<kwd><bold>Psican&#x00E1;lise</bold></kwd>
<kwd><bold>&#x00C9;tica</bold></kwd>
<kwd><bold>Desejo inconsciente</bold></kwd>
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<title>Keywords:</title>
<kwd><bold>Artificial intelligence</bold></kwd>
<kwd><bold>Psychoanalysis</bold></kwd>
<kwd><bold>Ethics</bold></kwd>
<kwd><bold>Unconscious desire</bold></kwd>
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<sec id="sec-1-2232" sec-type="intro">
<title>I<sc>ntrodu&#x00E7;&#x00E3;o</sc></title>
<p>As quest&#x00F5;es &#x00E9;ticas relacionadas ao campo das intelig&#x00EA;ncias artificiais (IAs) s&#x00E3;o um assunto amplamente discutido. <xref ref-type="bibr" rid="ref-21-2232">Abgail Thorn (2023)</xref> apresentou suas ideias em Here&#x2019;s What Ethical AI Really Means (Isso &#x00E9; o que IA &#x00E9;tica realmente significa &#x2014; tradu&#x00E7;&#x00E3;o pr&#x00F3;pria), nas quais s&#x00E3;o apresentados uma s&#x00E9;rie de desafios &#x00E9;ticos e reflex&#x00F5;es sobre as solu&#x00E7;&#x00F5;es para estabelecer um processo mais justo e menos prejudicial no desenvolvimento de intelig&#x00EA;ncias artificiais. Seu trabalho cont&#x00E9;m uma vis&#x00E3;o cr&#x00ED;tica sobre como os desafios s&#x00E3;o mais complexos do que se imagina e algumas dessas vis&#x00F5;es ser&#x00E3;o discutidas nesse artigo em di&#x00E1;logo com a Psican&#x00E1;lise. <xref ref-type="bibr" rid="ref-21-2232">Thorn (2023)</xref> formula uma instigante proposi&#x00E7;&#x00E3;o em seu v&#x00ED;deo:</p>
<disp-quote>
<p>Mesmo que constru&#x00ED;ssemos uma IGA (Intelig&#x00EA;ncia Geral Artificial) mal alinhada, seu poder n&#x00E3;o viria da tecnologia, mas dos sistemas humanos nos quais essa tecnologia est&#x00E1; inserida. Ent&#x00E3;o, quando as pessoas falam sobre IA &#x00E9;tica, talvez n&#x00E3;o dev&#x00EA;ssemos pensar em Skynet. Talvez dev&#x00EA;ssemos pensar em condi&#x00E7;&#x00F5;es de trabalho, mudan&#x00E7;as clim&#x00E1;ticas e como fazer a economia servir aos humanos, em vez do contr&#x00E1;rio. N&#x00E3;o devemos presumir que a IGA &#x00E9; inevit&#x00E1;vel e tentar adicionar a &#x00E9;tica como uma reflex&#x00E3;o posterior, mas sim perguntar como podemos fazer da justi&#x00E7;a, sustentabilidade e equidade o objetivo de cada peda&#x00E7;o de tecnologia que constru&#x00ED;mos. Se realmente queremos criar uma IA &#x00E9;tica, ent&#x00E3;o talvez gostar&#x00ED;amos de considerar essa perspectiva. N&#x00E3;o h&#x00E1; computa&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9;tica sob o capitalismo!</p>
</disp-quote>
<p>Essa perspectiva &#x00E9; muito coerente com o caminho percorrido pela autora, uma vez que ela apresenta cr&#x00ED;ticas e reflex&#x00F5;es em cada uma das possibilidades de refletir sobre o problema &#x00E9;tico das IAs, passando por t&#x00F3;picos que servir&#x00E3;o de plano de fundo para a presente discuss&#x00E3;o. O processo de cria&#x00E7;&#x00E3;o e evolu&#x00E7;&#x00E3;o da IA esbarra em implica&#x00E7;&#x00F5;es diretas no campo social e subjetivo, motivo pelo qual a Psican&#x00E1;lise ser&#x00E1; acionada para fomentar conex&#x00F5;es no processo de articula&#x00E7;&#x00E3;o entre sujeito e m&#x00E1;quina por meio do usu&#x00E1;rio.</p>
<p>O trabalho de <xref ref-type="bibr" rid="ref-21-2232">Thorn (2023)</xref> apresenta uma reflex&#x00E3;o instigante que reconfigura o debate tradicional sobre &#x00E9;tica e IA. Pode-se observar que o poder de uma IGA n&#x00E3;o reside intrinsecamente na tecnologia, mas est&#x00E1; subordinado &#x00E0;s estruturas humanas &#x2014; sociais, pol&#x00ED;ticas e econ&#x00F4;micas &#x2014; que, por sua vez, encontram-se &#x00E0; merc&#x00EA; das esferas de poder que as controlam, configurando e amplificando os potenciais impactos. &#x00C9; a forma como essa ferramenta &#x00E9; empregada que determinar&#x00E1; esses impactos, os quais podem exacerbar ainda mais a explora&#x00E7;&#x00E3;o, as desigualdades e as opress&#x00F5;es.</p>
<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="ref-18-2232">Lenhart Schubert (2020)</xref>, a lingu&#x00ED;stica computacional busca processar a linguagem humana para facilitar intera&#x00E7;&#x00F5;es entre humanos e m&#x00E1;quinas. H&#x00E1; uma aproxima&#x00E7;&#x00E3;o entre humanos e m&#x00E1;quinas no que diz respeito ao campo da linguagem, seja ela humana ou computacional. Para o autor, essa conex&#x00E3;o permite que a compreens&#x00E3;o computacional forne&#x00E7;a <italic>insights</italic> valiosos tanto sobre a intelig&#x00EA;ncia quanto sobre os processos da mente humana.</p>
<p>Nos &#x00FA;ltimos anos, o progresso no campo das IAs tem sido not&#x00E1;vel. O investimento em startups de IA cresceu de 670 milh&#x00F5;es de d&#x00F3;lares para 36 bilh&#x00F5;es em 2020, conforme <xref ref-type="bibr" rid="ref-20-2232">Bergur Thormundsson (2023)</xref>, e tecnologias como IA de borda, Redes Advers&#x00E1;rias Generativas (GANs) e Transformadores Pr&#x00E9;-Treinados Generativos (GPT) v&#x00EA;m revolucionando tarefas humanas com extrema efici&#x00EA;ncia. Essas tecnologias, derivadas da lingu&#x00ED;stica computacional, t&#x00EA;m mostrado impacto significativo na automa&#x00E7;&#x00E3;o, cria&#x00E7;&#x00E3;o de conte&#x00FA;dos e personaliza&#x00E7;&#x00E3;o de servi&#x00E7;os.</p>
<p>A IA de borda, segundo <xref ref-type="bibr" rid="ref-19-2232">Yifei Shen et al. (2023)</xref>, implementa intelig&#x00EA;ncia diretamente nos dispositivos dos usu&#x00E1;rios, proporcionando maior efici&#x00EA;ncia e privacidade ao reduzir a depend&#x00EA;ncia da nuvem. J&#x00E1; as IAs de gera&#x00E7;&#x00E3;o de imagem, segundo <xref ref-type="bibr" rid="ref-4-2232">Steven Durr et al. (2022)</xref>, utilizam como m&#x00E9;todo treinamento GANs, que empregam geradores e discriminadores para criar amostras realistas, t&#x00EA;m aplica&#x00E7;&#x00F5;es em &#x00E1;reas como cria&#x00E7;&#x00E3;o de imagens e simula&#x00E7;&#x00F5;es visuais. Por sua vez, conforme <xref ref-type="bibr" rid="ref-17-2232">Michele Salvagno et al. (2023)</xref>, o GPT, exemplificado pelo ChatGPT, representa um avan&#x00E7;o na simula&#x00E7;&#x00E3;o de intera&#x00E7;&#x00F5;es humanas, utilizando algoritmos de aprendizado de m&#x00E1;quina e processamento de linguagem natural para atender &#x00E0;s necessidades dos usu&#x00E1;rios.</p>
<p>A evolu&#x00E7;&#x00E3;o das tecnologias de IA acontece com custos altos tanto no meio ambiente quanto na explora&#x00E7;&#x00E3;o humana e pode perpetuar estere&#x00F3;tipos enviesados que afetam as minorias. &#x00C9; importante que seja explicitado como tais tecnologias, que por um lado apresentam solu&#x00E7;&#x00F5;es para problem&#x00E1;ticas extremamente complexas, por outro, atritam com a cultura e a subjetividade, conforme ser&#x00E1; apresentado nos pr&#x00F3;ximos t&#x00F3;picos. Os principais grupos afetados s&#x00E3;o pessoas trans, por IAs de seguran&#x00E7;a, trabalhadores mineradores que trabalham em condi&#x00E7;&#x00F5;es de alto preju&#x00ED;zo a sua sa&#x00FA;de e pessoas de baixa renda que se submetem a condi&#x00E7;&#x00F5;es de trabalho sem nenhuma prote&#x00E7;&#x00E3;o trabalhista na rotulagem de dados (<xref ref-type="bibr" rid="ref-21-2232">Thorn, 2023</xref>).</p>
<p>Considerados os argumentos apresentados, este trabalho tem como objetivo evidenciar o apagamento do sujeito no desenvolvimento e produ&#x00E7;&#x00E3;o de IAs e a rela&#x00E7;&#x00E3;o com o desejo inconsciente. Para tal, buscar-se-&#x00E1; demonstrar como as etapas do processo de desenvolvimento dessas tecnologias apresentam problemas e desafios &#x00E9;ticos, desde a forma&#x00E7;&#x00E3;o da base de dados at&#x00E9; a parte f&#x00ED;sica e material. No segundo tempo, ser&#x00E1; apresentada uma leitura da intera&#x00E7;&#x00E3;o entre humanos e m&#x00E1;quinas por meio do discurso do mestre de <xref ref-type="bibr" rid="ref-11-2232">Jacques Lacan (1969&#x2013;1970/1992)</xref>, a partir do qual a IA pode servir como dispositivo cujo imperativo &#x00E9; capturar o desejo do usu&#x00E1;rio cifrando-lhe um objeto desej&#x00E1;vel. Todas essas etapas, conforme a hip&#x00F3;tese norteadora, confluem para uma perspectiva de apagamento do sujeito dividido.</p>
</sec>
<sec id="sec-2-2232">
<title>&#x00C9;<sc>tica e</sc> IA: <sc>a problem&#x00E1;tica da base de dados</sc></title>
<p>As bases de dados s&#x00E3;o essenciais para a IA, fornecendo material bruto para seus algoritmos. O uso desses dados levanta quest&#x00F5;es &#x00E9;ticas, como privacidade, propriedade intelectual e vi&#x00E9;s. Al&#x00E9;m disso, h&#x00E1; o risco de vi&#x00E9;s nos algoritmos de IA, que podem perpetuar ou at&#x00E9; mesmo amplificar preconceitos existentes se forem treinados em dados tendenciosos. Na medida em que os dados s&#x00E3;o transformados, ocorre ent&#x00E3;o o <italic>data flattening</italic> (achatamento de dados).</p>
<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="ref-21-2232">Thorn (2023)</xref>, o achatamento de dados &#x00E9; um fen&#x00F4;meno que ocorre quando os sistemas de IA coletam e processam grandes volumes de dados de maneira indiscriminada, sem considerar o contexto, a origem ou o consentimento dos indiv&#x00ED;duos aos quais os dados pertencem. No entanto, o m&#x00E9;todo de coleta de dados levanta diversas quest&#x00F5;es &#x00E9;ticas, pois nenhum consentimento &#x00E9; obtido, nenhum cuidado ou regulamenta&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; realizado; e os profissionais que desenvolvem esses modelos assumem que podem fazer dessa forma, pois se trata somente de dados, apenas abstrato e imaterial. A verdade, por&#x00E9;m, &#x00E9; que os dados de treinamento s&#x00E3;o feitos por e a partir de pessoas.</p>
<p>Al&#x00E9;m disso, a intratabilidade dos dados no produto final da IA apresenta outro desafio significativo. Chama-se de produto final o que foi gerado por uma IA ap&#x00F3;s uma solicita&#x00E7;&#x00E3;o de um usu&#x00E1;rio, como no caso de <italic>text-to-image</italic>, no qual um usu&#x00E1;rio pode, por exemplo, pedir para uma IA &#x201C;desenhar um papagaio no estilo de Romero Brito&#x201D;. Uma vez que os dados s&#x00E3;o processados e transformados pelo algoritmo de IA, torna-se extremamente dif&#x00ED;cil, se n&#x00E3;o imposs&#x00ED;vel, rastrear os dados de sa&#x00ED;da at&#x00E9; a sua fonte original. Isso tem implica&#x00E7;&#x00F5;es diretas nos crit&#x00E9;rios dos direitos autorais, pois n&#x00E3;o h&#x00E1; uma escolha expl&#x00ED;cita sobre permitir ou n&#x00E3;o que uma IA treine com as cria&#x00E7;&#x00F5;es dos artistas. Al&#x00E9;m disso, torna-se invi&#x00E1;vel verificar se houve viola&#x00E7;&#x00E3;o autoral, uma vez que n&#x00E3;o se pode rastrear quais dados espec&#x00ED;ficos foram usados na gera&#x00E7;&#x00E3;o de determinadas imagens. A falta de transpar&#x00EA;ncia em rela&#x00E7;&#x00E3;o a como os dados s&#x00E3;o utilizados e transformados pode tamb&#x00E9;m resultar em desfechos tendenciosos ou injustos em aplica&#x00E7;&#x00F5;es de IA voltadas para a seguran&#x00E7;a. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-21-2232">Thorn, 2023</xref>).</p>
<p>Essa impossibilidade de identificar o autor inicial naquilo que &#x00E9; produzido levanta quest&#x00F5;es &#x00E9;ticas importantes sobre a responsabilidade e transpar&#x00EA;ncia das empresas que desenvolvem IAs, pois pode ser &#x00E1;rduo determinar quem &#x00E9; respons&#x00E1;vel por uma decis&#x00E3;o desse programa, se &#x00E9; o usu&#x00E1;rio, o programador ou uma falha de programa (<italic>bug</italic>) e como essa decis&#x00E3;o foi tomada pelo programa. Essas quest&#x00F5;es se tornam ainda mais pertinentes &#x00E0; medida que a IA se integra cada vez mais em &#x00E1;reas cr&#x00ED;ticas da sociedade, como sa&#x00FA;de e justi&#x00E7;a criminal. Outro problema &#x00E9; que certos processos que envolvem a tomada de decis&#x00E3;o de uma IA, como, por exemplo, por que ela escolheu certo perfil para contrata&#x00E7;&#x00E3;o na an&#x00E1;lise de curr&#x00ED;culo, precisam ser identificados para que se possa dar uma explica&#x00E7;&#x00E3;o ao candidato. Esse processo, que deveria ser acess&#x00ED;vel, &#x00E9; extremamente trabalhoso e pouco eficiente, fazendo com que os sujeitos afetados por tais decis&#x00F5;es fiquem impossibilitados de receber uma resposta justa sobre o porqu&#x00EA; dessas escolhas terem sido feitas.</p>
<p>Uma forma de resolver o &#x00FA;ltimo problema citado seria criar uma outra IA para rastrear e entender o processo de decis&#x00E3;o pelas t&#x00E9;cnicas de explica&#x00E7;&#x00E3;o do modelo, explica&#x00E7;&#x00E3;o do resultado e inspe&#x00E7;&#x00E3;o do modelo, conforme <xref ref-type="bibr" rid="ref-1-2232">Ulrich A&#x00EF;vodji et al. (2019)</xref>. Embora essas t&#x00E9;cnicas possam ser ben&#x00E9;ficas ao interpretarem os dados, elas podem ser usadas de maneira negativa, sofrendo <italic>fairwashing</italic>, que &#x00E9; o processo de promover a falsa percep&#x00E7;&#x00E3;o de que um modelo de aprendizado de m&#x00E1;quina respeita alguns valores &#x00E9;ticos. Isso significa que a IA cria um motivo &#x00E9;tico para uma tomada de decis&#x00E3;o n&#x00E3;o &#x00E9;tica. Esse processo n&#x00E3;o auxilia a pensar sobre o que pode ser feito quando o usu&#x00E1;rio utiliza a ferramenta de uma forma n&#x00E3;o &#x00E9;tica ou de forma incorreta que pode produzir resultados n&#x00E3;o &#x00E9;ticos, como no caso de IAs nos sistemas de seguran&#x00E7;a dos aeroportos.</p>
<p>Ao explorar as quest&#x00F5;es &#x00E9;ticas em torno do uso de dados na IA, &#x00E9; crucial examinar como esses problemas se manifestam na pr&#x00E1;tica, particularmente no vi&#x00E9;s, al&#x00E9;m dos estere&#x00F3;tipos identit&#x00E1;rios que podem ser perpetuados e amplificados por sistemas de IA que n&#x00E3;o levam em conta a complexidade e a fluidez das identidades de g&#x00EA;nero, como veremos a seguir.</p>
</sec>
<sec id="sec-3-2232">
<title>V<sc>i&#x00E9;s e estere&#x00F3;tipos identit&#x00E1;rios</sc></title>
<p><xref ref-type="bibr" rid="ref-21-2232">Thorn (2023)</xref> levanta um dilema que envolve a complexidade e as limita&#x00E7;&#x00F5;es da detec&#x00E7;&#x00E3;o de g&#x00EA;nero em sistemas de seguran&#x00E7;a de aeroportos, exemplificado pela m&#x00E1;quina de escaneamento corporal. A m&#x00E1;quina, ao ser projetada por pessoas cisg&#x00EA;nero, baseia-se em pressupostos bin&#x00E1;rios de g&#x00EA;nero, o que causa situa&#x00E7;&#x00F5;es constrangedoras para indiv&#x00ED;duos transg&#x00EA;neros. Ao qualificar a pessoa em homem ou mulher, ela identifica caracter&#x00ED;sticas anat&#x00F4;micas de forma bin&#x00E1;ria, ignorando a diversidade e a n&#x00E3;o conformidade de g&#x00EA;nero. Isso resulta em constrangimentos e situa&#x00E7;&#x00F5;es humilhantes para pessoas trans que possuem caracter&#x00ED;sticas f&#x00ED;sicas fora dos padr&#x00F5;es tradicionais de g&#x00EA;nero, expondo as falhas de um sistema de vigil&#x00E2;ncia que n&#x00E3;o considera a complexidade e a fluidez das identidades de g&#x00EA;nero. Esse exemplo evidencia como a tecnologia incorpora vis&#x00F5;es de mundo limitadas e refor&#x00E7;a estere&#x00F3;tipos de g&#x00EA;nero, que afetam al&#x00E9;m de destacar a import&#x00E2;ncia de repensar as abordagens t&#x00E9;cnicas para garantir a inclus&#x00E3;o e equidade em sistemas de IA em contextos sociais complexos.</p>
<p>Simone <xref ref-type="bibr" rid="ref-2-2232">Browne (2010</xref>, p. 134) amplia o termo &#x201C;epidermaliza&#x00E7;&#x00E3;o&#x201D;, de <xref ref-type="bibr" rid="ref-5-2232">Frantz Fanon (1952/2020)</xref>, na obra Pele negra, M&#x00E1;scaras Brancas, que &#x00E9; utilizado para descrever o processo pelo qual os significados s&#x00E3;o projetados nas caracter&#x00ED;sticas f&#x00ED;sicas de uma pessoa, muitas vezes resultando em estere&#x00F3;tipos e preconceitos. A extens&#x00E3;o do conceito seria a &#x201C;epidermaliza&#x00E7;&#x00E3;o digital&#x201D;, que inclui o dom&#x00ED;nio digital, no qual as tecnologias de vigil&#x00E2;ncia projetam informa&#x00E7;&#x00F5;es e significados no corpo, como no caso citado anteriormente, dos scanners em aeroportos (<xref ref-type="bibr" rid="ref-2-2232">Browne, 2010</xref>, p. 134).</p>
<p>H&#x00E1;, portanto, implica&#x00E7;&#x00F5;es subjetivas na medida em que a padroniza&#x00E7;&#x00E3;o de caracter&#x00ED;sticas cria um movimento de apagamento das diferen&#x00E7;as que constituem o sujeito. &#x00C9; relevante pensar sobre como esses modelos podem influenciar no processo cultural em que est&#x00E3;o inseridos. Mesmo explorando a parte virtual do desenvolvimento das IAs, &#x00E9; importante entender que ela n&#x00E3;o &#x00E9; apenas uma entidade digital, mas tamb&#x00E9;m tem a dimens&#x00E3;o f&#x00ED;sica marcada pelo trabalho humano como necess&#x00E1;rio para sua cria&#x00E7;&#x00E3;o.</p>
</sec>
<sec id="sec-4-2232">
<title>A <sc>parte humana da</sc> IA: <sc>a minera&#x00E7;&#x00E3;o de l&#x00ED;tio e a rotulagem de dados</sc></title>
<p>A IA &#x00E9; uma entidade f&#x00ED;sica que requer recursos tang&#x00ED;veis para existir e operar. A IA depende de eletricidade e do l&#x00ED;tio, um recurso fundamental nas baterias que alimentam dispositivos e infraestruturas tecnol&#x00F3;gicas. No entanto, a obten&#x00E7;&#x00E3;o de l&#x00ED;tio n&#x00E3;o &#x00E9; um processo simples ou limpo. O processo de extra&#x00E7;&#x00E3;o de l&#x00ED;tio &#x00E9; altamente poluente, consumindo recursos n&#x00E3;o renov&#x00E1;veis e contribuindo para a mudan&#x00E7;a clim&#x00E1;tica. Esse processo &#x00E9; feito, primordialmente, utilizando a for&#x00E7;a de trabalho humana. Uma IA precisa de um servidor para realizar seus treinamentos e quanto maior o servidor, melhor o potencial da qualidade de uma IA. Como um servidor &#x00E9; feito de computadores e esses precisam de uma infraestrutura gigantesca para funcionar, h&#x00E1; um grande consumo de recursos naturais (<xref ref-type="bibr" rid="ref-21-2232">Thorn, 2023</xref>).</p>
<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="ref-21-2232">Thorn (2023)</xref>, a minera&#x00E7;&#x00E3;o de l&#x00ED;tio gera danos humanos e ambientais, cujos custos recaem sobre trabalhadores e a popula&#x00E7;&#x00E3;o. Essa realidade contradiz a ideia popular de que a tecnologia, incluindo a IA, &#x00E9; &#x201C;limpa&#x201D;. A ind&#x00FA;stria da IA consome muitos recursos e tem um impacto ambiental significativo.</p>
<p>A rotulagem de dados, essencial para treinar IAs, &#x00E9; realizada por trabalhadores em condi&#x00E7;&#x00F5;es prec&#x00E1;rias, que anotam e categorizam informa&#x00E7;&#x00F5;es para que os sistemas aprendam a partir delas. Esse &#x00E9; um trabalho invis&#x00ED;vel e mal remunerado, mesmo sendo fundamental para o funcionamento dos sistemas de IA, desde o reconhecimento de voz at&#x00E9; a detec&#x00E7;&#x00E3;o de objetos em imagens (<xref ref-type="bibr" rid="ref-21-2232">Thorn, 2023</xref>).</p>
<p>Al&#x00E9;m disso, a IA &#x00E9; vulner&#x00E1;vel &#x00E0;s mudan&#x00E7;as clim&#x00E1;ticas e &#x00E0; a&#x00E7;&#x00E3;o dos trabalhadores. Se os trabalhadores que atuam na minera&#x00E7;&#x00E3;o, transporte ou rotulagem de dados n&#x00E3;o puderem ou n&#x00E3;o quiserem fazer seu trabalho, o sistema pode parar. Da mesma forma, as mudan&#x00E7;as clim&#x00E1;ticas podem interromper o fluxo de componentes necess&#x00E1;rios para a IA, atrav&#x00E9;s de navios (<xref ref-type="bibr" rid="ref-21-2232">Thorn, 2023</xref>).</p>
<p>Os trabalhadores nas minera&#x00E7;&#x00F5;es de l&#x00ED;tio e das rotulagens de dados s&#x00E3;o exclu&#x00ED;dos do produto final como partes descart&#x00E1;veis do processo de produ&#x00E7;&#x00E3;o, mesmo que tenha sido justamente gra&#x00E7;as a esses trabalhadores que o desenvolvimento tecnol&#x00F3;gico no campo da IA decorreu de forma t&#x00E3;o acelerada.</p>
<p>Torna-se fundamental, diante dos avan&#x00E7;os e impactos da IA, acessar outros campos de an&#x00E1;lise para pensar sobre o que torna a IA t&#x00E3;o importante ou sedutora. Aqui, a psican&#x00E1;lise nos auxilia na reflex&#x00E3;o sobre o que torna a IA t&#x00E3;o atrativa, tanto para os usu&#x00E1;rios quanto para os criadores.</p>
</sec>
<sec id="sec-5-2232">
<title>P<sc>sican&#x00E1;lise e</sc> IA: <sc>usu&#x00E1;rio e a</sc> IA <sc>na &#x00F3;tica dos discursos</sc></title>
<p>No Semin&#x00E1;rio 17, <xref ref-type="bibr" rid="ref-11-2232">Lacan (1969&#x2013;1970/1992)</xref> apresenta a ideia de que a estrutura do la&#x00E7;o social &#x00E9; constru&#x00ED;da por meio de discursos. Esses discursos s&#x00E3;o compostos por quatro elementos fundamentais: o objeto pequeno <italic>a</italic> (<italic>a</italic>), que representa o objeto de desejo; o sujeito barrado ($), que simboliza o sujeito do inconsciente; o significante mestre (S1), que &#x00E9; o significante que domina ou determina a estrutura do sujeito; e o saber (S2), que se refere ao conhecimento que o sujeito possui do mundo.</p>
<p>Os discursos s&#x00E3;o representados pelos matemas apresentados na <xref ref-type="fig" rid="fig-1-2232">Figura 1</xref>:</p>
<fig id="fig-1-2232">
<label>Figura 1.</label>
<caption><title>Matemas dos discursos</title></caption>
<graphic xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xlink:href="fig-1-2232.jpg"><alt-text>Matemas dos discursos</alt-text></graphic>
<attrib>Nota: Reproduzido de <xref ref-type="bibr" rid="ref-13-2232">Lacan (1972</xref>, p. 40).</attrib>
</fig>
<p>No discurso do mestre, a impossibilidade reside entre o mestre (S1) e o saber (S2), sugerindo a impossibilidade de governar o que n&#x00E3;o se domina, o desafio de comandar o saber e a incapacidade de fazer o mundo do mestre funcionar. No discurso hist&#x00E9;rico, a impossibilidade &#x00E9; encontrada entre o sujeito barrado ($) e o significante mestre (S1), revelando a incapacidade do sujeito hist&#x00E9;rico de dominar o significante mestre. No discurso universit&#x00E1;rio, a impossibilidade est&#x00E1; entre o saber (S2) e o objeto pequeno <italic>a</italic>, indicando a impossibilidade de educar atrav&#x00E9;s do comando do saber.</p>
<p>O discurso do capitalista (<xref ref-type="bibr" rid="ref-12-2232">Lacan, 1969-1970/2011</xref>), em rela&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0; sua estrutura, faz refer&#x00EA;ncia ao discurso do mestre. H&#x00E1; uma modifica&#x00E7;&#x00E3;o no lugar do saber entre o discurso do senhor antigo e o senhor moderno, que se chama capitalista. Esse discurso &#x00E9; considerado um deslizamento do discurso do mestre. Lacan destaca que todo discurso est&#x00E1; atrelado aos interesses do sujeito. Se o interesse na sociedade capitalista &#x00E9; inteiramente mercantil, h&#x00E1; uma muta&#x00E7;&#x00E3;o capital de um discurso ao outro. No discurso do capitalista, o sujeito passa a ser reduzido a um consumidor, enquanto o objeto causa de seu desejo se torna um <italic>gadget</italic> &#x2014; que ocupa a posi&#x00E7;&#x00E3;o do outro do discurso capitalista. O saber (S2) desse discurso &#x00E9; o da ci&#x00EA;ncia/tecnologia; enquanto o significante-mestre (S1), o poder, &#x00E9; o capital.</p>
<p>A estrutura do discurso do capitalista evidencia a raz&#x00E3;o pela qual esse discurso n&#x00E3;o promove o la&#x00E7;o social. O circuito do discurso passa a ser fechado, em que cada termo &#x00E9; comandado pelo anterior e orienta o seguinte. Isso significa que o sujeito comanda e o objeto <italic>a</italic>, por sua vez, pode tamb&#x00E9;m comandar o sujeito, fazendo um circuito fechado nele mesmo, ou seja, n&#x00E3;o h&#x00E1; circula&#x00E7;&#x00E3;o simb&#x00F3;lica entre os elementos do discurso, diferente dos outros discursos vistos anteriormente, que permitem um movimento din&#x00E2;mico e uma troca significativa entre os sujeitos e os elementos que comp&#x00F5;em o la&#x00E7;o social. &#x00C9; esse circuito fechado que n&#x00E3;o permite a circula&#x00E7;&#x00E3;o do discurso do capitalista com os outros discursos (<xref ref-type="bibr" rid="ref-13-2232">Lacan, 1972</xref>, p. 51).</p>
<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="ref-15-2232">Jamile Luz Morais Monteiro (2019)</xref>, o foco do discurso capitalista &#x00E9; outro: o gozo, entendido como a busca incessante por satisfa&#x00E7;&#x00E3;o. Nesse modelo, o saber (representado pelo S2) se reduz a um instrumento de trabalho voltado para a produ&#x00E7;&#x00E3;o de objetos que prometem prazer ao sujeito consumidor. Enquanto o sujeito consome os objetos, ele tamb&#x00E9;m &#x00E9; consumido por eles, em um ciclo sem fim que n&#x00E3;o oferece satisfa&#x00E7;&#x00E3;o duradoura (<xref ref-type="bibr" rid="ref-15-2232">Monteiro, 2019</xref>).</p>
<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="ref-22-2232">Hub Zwart (2017)</xref>, o &#x201C;matema do desejo&#x201D; ($ &#x25CA; a) descreve a din&#x00E2;mica entre o sujeito e o objeto <italic>a</italic>. O s&#x00ED;mbolo $ (o &#x201C;S barrado&#x201D;) representa o sujeito dividido, marcado pela falta e pelo sofrimento gerado pelo desejo. O <italic>a</italic>, por sua vez, &#x00E9; o objeto imposs&#x00ED;vel e inalcan&#x00E7;&#x00E1;vel que causa o desejo, algo que nunca pode ser plenamente obtido. O losango (&#x25CA;) entre os dois elementos pode ser interpretado como uma seta que aponta em ambas as dire&#x00E7;&#x00F5;es, indicando que o desejo n&#x00E3;o apenas se orienta em dire&#x00E7;&#x00E3;o ao objeto perdido, mas tamb&#x00E9;m pode ser estimulado por objetos que funcionam como substitutos atraentes. Esses substitutos revelam ao sujeito o que lhe falta, oferecendo a ilus&#x00E3;o de que seu desejo essencial poderia ser finalmente satisfeito, ainda que isso seja apenas um engano (<xref ref-type="bibr" rid="ref-22-2232">Zwart, 2017</xref>).</p>
<p>Os objetos produzidos dentro desse discurso, como aparelhos tecnol&#x00F3;gicos ou artefatos modernos, s&#x00E3;o elementos que prometem uma satisfa&#x00E7;&#x00E3;o extra ao sujeito, mas que na verdade refor&#x00E7;am sua sensa&#x00E7;&#x00E3;o de falta. Essa l&#x00F3;gica cria uma rela&#x00E7;&#x00E3;o direta entre o sujeito e o objeto, sem a media&#x00E7;&#x00E3;o de um la&#x00E7;o social significativo. O consumo n&#x00E3;o conecta as pessoas entre si, mas isola o sujeito em sua busca incessante por novos objetos (<xref ref-type="bibr" rid="ref-15-2232">Monteiro, 2019</xref>).</p>
<p>O sujeito nesse discurso &#x00E9; levado a acreditar que pode alcan&#x00E7;ar uma satisfa&#x00E7;&#x00E3;o plena por meio desses objetos de consumo, representados no matema anterior como a, que representa o objeto a. O objeto <italic>a</italic>, segundo <xref ref-type="bibr" rid="ref-10-2232">Lacan (1964/1993)</xref>, &#x201C;&#x00E9; algo de que o sujeito, para se constituir, se separou como &#x00F3;rg&#x00E3;o. Isso vale como s&#x00ED;mbolo da falta, quer dizer, do falo, n&#x00E3;o como tal, mas como fazendo falta&#x201D; (p. 101), ou seja, est&#x00E1; associado a uma dimens&#x00E3;o irrepresent&#x00E1;vel, que n&#x00E3;o pode ser completamente capturada pela linguagem. Toda tentativa de represent&#x00E1;-lo resulta em um excesso ou em um resto que escapa &#x00E0; simboliza&#x00E7;&#x00E3;o.</p>
<p>Esse excesso, denominado mais-de-gozar, refere-se a uma perda inerente ao funcionamento dos discursos e da linguagem. No ato de significar ou de buscar um sentido, uma parte desse gozo se dissipa, criando uma sensa&#x00E7;&#x00E3;o de falta ou incompletude que caracteriza o sujeito. Essa din&#x00E2;mica aponta para o aspecto do real na estrutura da linguagem, um real que n&#x00E3;o se reduz ao que pode ser dito ou compreendido (<xref ref-type="bibr" rid="ref-15-2232">Monteiro, 2019</xref>).</p>
<p>O objeto <italic>a</italic>, portanto, n&#x00E3;o &#x00E9; algo tang&#x00ED;vel ou concreto, mas uma fun&#x00E7;&#x00E3;o que marca a falta estrutural do sujeito. Ele sustenta o desejo, ao mesmo tempo em que evidencia sua impossibilidade de ser plenamente satisfeito. O gozo que ele sinaliza &#x00E9; sempre inacess&#x00ED;vel, e a busca incessante por alcan&#x00E7;&#x00E1;-lo refor&#x00E7;a a condi&#x00E7;&#x00E3;o de incompletude que fundamenta a subjetividade (<xref ref-type="bibr" rid="ref-15-2232">Monteiro, 2019</xref>).</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="ref-8-2232">Lacan (1954/2010</xref>, p. 37) aborda sobre a rela&#x00E7;&#x00E3;o entre o eu e o mundo simb&#x00F3;lico, argumentando que o homem &#x00E9; um sujeito descentrado porque est&#x00E1; inserido em um jogo de s&#x00ED;mbolos. As m&#x00E1;quinas s&#x00E3;o constru&#x00ED;das a partir desse mesmo mundo simb&#x00F3;lico e dos mesmos jogos, sendo feitas a partir da linguagem. A partir desse momento, aquilo que constitui o ser do sujeito surge neste mundo. A tecnologia informatizada e digital &#x00E9; intimamente conectada com a linguagem, a matem&#x00E1;tica e os c&#x00F3;digos de computador (marcado pela &#x201C;ordem simb&#x00F3;lica&#x201D;), e tal proximidade entre humanos e m&#x00E1;quinas &#x00E9; muito mais intensa do que a filosofia da &#x00E9;poca parecia presumir.</p>
<p>Embora Lacan n&#x00E3;o esteja se referindo &#x00E0; IA, <xref ref-type="bibr" rid="ref-22-2232">Zwart (2017)</xref> estende a no&#x00E7;&#x00E3;o de que a m&#x00E1;quina tecnol&#x00F3;gica discutida por Lacan inclui os artefatos modernos, como <italic>gadgets</italic>, nos quais a IA pode ser inclu&#x00ED;da. A modernidade nos cerca de dispositivos eletr&#x00F4;nicos que ordenam serem usados, se comunicando com o usu&#x00E1;rio de forma articulada, sofisticada e insistente. Tais dispositivos est&#x00E3;o repletos de linguagem, funcionando como portadores de mensagens e reivindica&#x00E7;&#x00F5;es, como um superego eletr&#x00F4;nico.</p>
<p>H&#x00E1; no objeto <italic>a</italic>, conforme visto nos par&#x00E1;grafos anteriores, algo da falta f&#x00ED;sica e da intangibilidade. Essa falta de concretude que permite que a IA e outros <italic>gadgets</italic> prometam compensar a falta presente nele. O significante (de presen&#x00E7;a ou aus&#x00EA;ncia) oblitera a coisa org&#x00E2;nica na medida em que a comunica&#x00E7;&#x00E3;o entre sujeitos se medeia pela tecnologia, possibilitando a ideia de que os <italic>gadgets</italic> tamb&#x00E9;m se comuniquem entre si a partir do usu&#x00E1;rio. Uma forma de visualizar melhor essa comunica&#x00E7;&#x00E3;o entre dispositivos &#x00E9; como as informa&#x00E7;&#x00F5;es dos usu&#x00E1;rios podem ser utilizadas na personaliza&#x00E7;&#x00E3;o de propagandas dentro de aplicativos de redes sociais. O usu&#x00E1;rio recobre aquilo que o objeto <italic>a</italic> invoca, remetendo ao desejo de um substituto, e sua imaterialidade faz pensar na possibilidade de uma IA que simbolize isso de forma natural e cont&#x00ED;nua.</p>
<p>A IA surge como promessa de fornecer maior autonomia ao sujeito, no qual seu conhecimento &#x00E9; ampliado de forma complexa na intera&#x00E7;&#x00E3;o tecnol&#x00F3;gica. Essa &#x00E9; a promessa da tecnologia, um ser humano que possui seus atributos ampliados na medida em que a suas incapacidades (aquilo que lhe falta) s&#x00E3;o retiradas, dando lugar a um novo sujeito capaz. Mas a incoer&#x00EA;ncia posta &#x00E9; que as tecnologias se desenvolvem, mas esse novo sujeito ampliado s&#x00F3; &#x00E9; capaz de se desenvolver dentro desse ambiente tecnol&#x00F3;gico. N&#x00E3;o h&#x00E1; mais espa&#x00E7;o para um sujeito que se desenvolve sem um GPS ou uma ferramenta de busca como o Google para orient&#x00E1;-lo. Esse sujeito &#x00E9; um sujeito desatualizado, exatamente como os pr&#x00F3;prios aplicativos que os guiam ficam quando ignorados.</p>
<p>Assim, tomando como base o discurso capitalista e a IA como objeto <italic>a</italic> (no lugar de produto), &#x00E9; poss&#x00ED;vel evidenciar que n&#x00E3;o h&#x00E1; possibilidade de la&#x00E7;o social, uma caracter&#x00ED;stica marcante desse discurso. Por&#x00E9;m, os <italic>gadgets</italic> revelam uma acessibilidade &#x00ED;ntima (e, portanto, vulnerabilidade) do desejo inconsciente para o funcionamento desses dispositivos inteligentes, fazendo surgir um superego novo e coletivo que submete o sujeito &#x00E0; lembran&#x00E7;a constante de que ele deve aproveitar a vida constantemente e de forma absoluta, como um $ (sujeito barrado/sujeito do inconsciente) que &#x00E9; colocado para trabalhar para corresponder a essas expectativas, que s&#x00F3; consegue faz&#x00EA;-lo conforme surgem novas tecnologias, cada vez mais eficientes.</p>
<p>A partir de uma perspectiva lacaniana, o que &#x00E9; perturbador sobre esses dispositivos tecnol&#x00F3;gicos &#x00E9; a proximidade que eles alcan&#x00E7;am, devido &#x00E0; habilidade de imitar o objeto ausente de um jeito convincente e sem causar tanto estranhamento. Eles surgem no mundo exterior como substitutos atraentes, propondo-se a abordar defici&#x00EA;ncias e anseios de maneira surpreendentemente direta. &#x00C9; exatamente essa capacidade de imitar t&#x00E3;o bem o objeto faltante que proporciona a sensa&#x00E7;&#x00E3;o inquietante.</p>
<p>A dial&#x00E9;tica de Lacan, da tecnologia e do desejo, envolve tr&#x00EA;s momentos decisivos. Primeiro, a experi&#x00EA;ncia traum&#x00E1;tica primordial de separa&#x00E7;&#x00E3;o ou perda de objeto. Em seguida, o desejo de substituir o objeto ausente com a ajuda de substitutos, como objetos de desejo. E, finalmente, a proposi&#x00E7;&#x00E3;o de que os novos dispositivos tecnol&#x00F3;gicos emergentes focam sua aten&#x00E7;&#x00E3;o nos sujeitos desejosos de maneira bastante direta. Em outras palavras, esses dispositivos, ao surgirem como objetos sedutores de desejo, tamb&#x00E9;m permitem modificar efetivamente o sujeito como tal, operando em ambos os lados da equa&#x00E7;&#x00E3;o da fantasia ($ &#x25CA; a).</p>
<p>O que &#x00E9; especialmente inquietante sobre os <italic>gadgets</italic> &#x00E9; a convic&#x00E7;&#x00E3;o de que podem acertar onde as tecnologias anteriores erraram, principalmente porque, em vez de simplesmente fornecer mais um conjunto de substitutos question&#x00E1;veis, eles pretendem suturar a impot&#x00EA;ncia ou a falta de maneira mais direta.</p>
</sec>
<sec id="sec-6-2232">
<title>A IA <sc>como desejo do inconsciente</sc></title>
<p><xref ref-type="bibr" rid="ref-6-2232">Luiz Alfredo Garcia-Roza (2009)</xref> aponta que o desejo, colocado como desejo do inconsciente, &#x00E9; central na teoria psicanal&#x00ED;tica de Freud e Lacan. Diferente da necessidade, que pode ser satisfeita por um objeto espec&#x00ED;fico, o desejo &#x00E9; uma rela&#x00E7;&#x00E3;o com um fantasma, n&#x00E3;o um objeto real e, portanto, nunca &#x00E9; satisfeito. Ele pode se realizar em objetos, mas n&#x00E3;o se satisfaz com esses objetos. O objeto do desejo &#x00E9; sempre uma falta, uma lembran&#x00E7;a de um objeto perdido na inf&#x00E2;ncia que continua presente como falta, procurando ser realizado por uma s&#x00E9;rie de substitutos que formam uma rede de significantes que se organizam por contiguidade e similaridade, mantendo a perman&#x00EA;ncia da falta, mas se deslocando por meio da meton&#x00ED;mia.</p>
<p>Antes de adentrar o plano do simb&#x00F3;lico, o desejo se manifesta no plano do imagin&#x00E1;rio. Inicialmente, &#x00E9; em refer&#x00EA;ncia ao outro ou &#x00E0; imagem do outro que a crian&#x00E7;a vai construir seu esbo&#x00E7;o de ego. A partir do primeiro momento em que a crian&#x00E7;a formou seu eu segundo a imagem do outro, ela vai, ao ingressar na ordem simb&#x00F3;lica, produzir uma transforma&#x00E7;&#x00E3;o no objeto por meio da linguagem (<xref ref-type="bibr" rid="ref-6-2232">Garcia-Roza, 2009</xref>, pp. 148&#x2013;149).</p>
<p>&#x00C9; importante enfatizar que o desejo na psican&#x00E1;lise tem suas origens no desejo de Hegel, que se torna um desejo humano na condi&#x00E7;&#x00E3;o de transformar e assimilar o desejo do outro. &#x201C;Em outras palavras, s&#x00F3; posso afirmar o meu desejo na medida em que nego o desejo do outro e tento impor a esse outro meu pr&#x00F3;prio Desejo.&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-6-2232">Garcia-Roza, 2009</xref>, p. 142). Sendo esse outro tamb&#x00E9;m portador de um desejo, h&#x00E1; uma luta entre dois desejos que se faz na condi&#x00E7;&#x00E3;o de vida ou morte, ao mesmo tempo que ambos os advers&#x00E1;rios devem permanecer vivos para que o reconhecimento seja poss&#x00ED;vel. O perdedor, para evitar a morte, aceita ser subjugado e, assim, reconhece o vencedor como seu senhor enquanto se reconhece como escravo (<xref ref-type="bibr" rid="ref-6-2232">Garcia-Roza, 2009</xref>, p. 143).</p>
<p>Ainda, segundo o autor, a rela&#x00E7;&#x00E3;o entre esses dois sujeitos &#x00E9; ilustrada por Lacan com o exemplo do escravo-mensageiro que trazia sob sua cabeleira a mensagem que o condenava &#x00E0; morte, sem que ele mesmo conhecesse o sentido do texto. Portanto, s&#x00E3;o dois sujeitos que est&#x00E3;o em jogo: aquele que enuncia a mensagem (sujeito do enunciado) e aquele outro ligado aos elementos significantes do inconsciente (sujeito da enuncia&#x00E7;&#x00E3;o), exc&#x00EA;ntrico em rela&#x00E7;&#x00E3;o ao primeiro. A pr&#x00E1;tica psicanal&#x00ED;tica se prop&#x00F5;e a tornar expl&#x00ED;cito o sujeito da enuncia&#x00E7;&#x00E3;o, partindo do sujeito do enunciado.</p>
<p>Na intera&#x00E7;&#x00E3;o entre a IA e o usu&#x00E1;rio, pode-se estabelecer uma rela&#x00E7;&#x00E3;o de contiguidade meton&#x00ED;mica, na qual a IA atua como substituto ou representante do objeto de desejo. Como o objeto do desejo &#x00E9; sempre uma falta, e qualquer satisfa&#x00E7;&#x00E3;o obtida &#x00E9; imediatamente seguida por uma insatisfa&#x00E7;&#x00E3;o que mant&#x00E9;m o desejo em movimento, mesmo que a IA possa parecer satisfazer as demandas do usu&#x00E1;rio a curto prazo, ela n&#x00E3;o consegue preencher a falta fundamental que impulsiona o desejo. A intera&#x00E7;&#x00E3;o do usu&#x00E1;rio com a IA, nessa rela&#x00E7;&#x00E3;o de contiguidade, &#x00E9; marcada pela impossibilidade.</p>
<p>Na mesma medida em que a IA substitui o objeto de desejo, ela jamais preenche essa falta, mas continua prometendo satisfa&#x00E7;&#x00E3;o, marcando a rela&#x00E7;&#x00E3;o com o usu&#x00E1;rio por meio dessa impossibilidade, tanto de se fazer la&#x00E7;o devido a sua estrutura com o discurso do capitalista, quanto como objeto a marcado pela falta. A IA fornece ao usu&#x00E1;rio o suficiente para tangenciar seu desejo por meio de textos, ferramentas e imagens que capturam quase que imediatamente aquilo que o usu&#x00E1;rio busca. No entanto, ela sempre insiste em fornecer exatamente o que se pede, como observado na forma em que sempre entrega de forma positiva, pois mesmo que exista algo do que se pede, ela consegue alucinar respostas. O site do <italic>chatbot</italic> (<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://chatgpt.com">https://chatgpt.com</ext-link>) recomenda que informa&#x00E7;&#x00F5;es importantes sejam checadas, pois ele pode cometer erros produzindo respostas incorretas, como dizer que um autor escreveu algo que n&#x00E3;o escreveu. O ChatGPT, segundo <xref ref-type="bibr" rid="ref-7-2232">Fredy Heppell et al. (2024)</xref>, pode gerar desinforma&#x00E7;&#x00E3;o de maneira r&#x00E1;pida, barata e em grande escala, que &#x00E9; ao mesmo tempo realista e coerente, espec&#x00ED;fica para certos p&#x00FA;blicos-alvo. Essas informa&#x00E7;&#x00F5;es geradas s&#x00E3;o indistingu&#x00ED;veis por humanos ou programas de detec&#x00E7;&#x00E3;o existentes.</p>
<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="ref-14-2232">Rosane Lustoza (2006)</xref>, o encontro do sujeito com seu pr&#x00F3;prio desejo pode ser uma experi&#x00EA;ncia angustiante. O desejo, em sua ess&#x00EA;ncia, &#x00E9; sempre o desejo do Outro, e &#x00E9; marcado por uma falta, e a ang&#x00FA;stia &#x201C;sinaliza a emerg&#x00EA;ncia do desejo do Outro, entendido num registro espec&#x00ED;fico, o do real&#x201D; (p. 54). Quando o usu&#x00E1;rio percebe seu pr&#x00F3;prio desejo refletido na IA, ele se depara com essa falta, presente na sensa&#x00E7;&#x00E3;o constante de que ainda falta algo no que a IA produz, e continua sempre insatisfeito, o que o leva a projetar essa satisfa&#x00E7;&#x00E3;o numa nova IA, mais avan&#x00E7;ada. Isso pode levar a um movimento angustiante, pois o usu&#x00E1;rio &#x00E9; confrontado com a impossibilidade de satisfazer completamente seu desejo. Al&#x00E9;m disso, a IA, como um espelho, reflete n&#x00E3;o apenas os desejos conscientes do usu&#x00E1;rio, mas tamb&#x00E9;m seus desejos inconscientes. Esses desejos inconscientes remetem &#x00E0; condi&#x00E7;&#x00E3;o de sujeito barrado ($).</p>
<p>Essa din&#x00E2;mica tamb&#x00E9;m se explicita em plataformas de arte gerativa de IA, como o DALL-E 2, uma IA que transforma texto em imagem. Esses sistemas atraem os usu&#x00E1;rios com a capacidade de renderizar graficamente suas imagina&#x00E7;&#x00F5;es e desejos mais selvagens. No entanto, embora as sa&#x00ED;das possam refletir intimamente os desejos inconscientes do usu&#x00E1;rio, elas permanecem como imagens est&#x00E1;ticas planas que n&#x00E3;o podem capturar totalmente a cena, como a mente a imagina. H&#x00E1; uma falha e um vazio inevit&#x00E1;veis que bifurcam a expectativa e a realidade. Esse desaparecimento da unicidade do objeto imaginado produz um impulso repetitivo para refinar continuamente os comandos e alcan&#x00E7;ar a &#x201C;perfeita&#x201D; representa&#x00E7;&#x00E3;o da imagem interna. Mas isso permanece imposs&#x00ED;vel, pois a renderiza&#x00E7;&#x00E3;o apaga dimens&#x00F5;es subjetivas sutis.</p>
<p>&#x00C9; o desejo do pr&#x00F3;prio usu&#x00E1;rio que escapa de ser satisfeito, como se talvez a luta entre desejos, t&#x00E3;o importante na ideia de Hegel, nunca tivesse a submiss&#x00E3;o ao desejo do outro, parte porque n&#x00E3;o h&#x00E1; um desejo propriamente dito na IA, parte porque n&#x00E3;o h&#x00E1; um outro. Talvez seja a luta entre desejos na &#x201C;dial&#x00E9;tica&#x201D; do senhor-escravo de Hegel que seja importante para a satisfa&#x00E7;&#x00E3;o. No final, a IA oferta imagens perfeitas de seres humanos que s&#x00E3;o indiferenci&#x00E1;veis de suas contrapartes reais, mas todos insuficientemente completos como um mar de corpos sem alma.</p>
<p>Assim, o processo cont&#x00ED;nuo de satisfa&#x00E7;&#x00E3;o das demandas por meio da intera&#x00E7;&#x00E3;o com a IA pode levar ao apagamento do sujeito desejante. A IA oferece substitutos r&#x00E1;pidos e aparentemente satisfat&#x00F3;rios para os objetos de desejo, obscurecendo a falta que caracteriza o desejo humano e resultando em uma satisfa&#x00E7;&#x00E3;o superficial e ilus&#x00F3;ria. O desejo, por defini&#x00E7;&#x00E3;o, nunca pode ser plenamente satisfeito, e a IA, ao fornecer sempre uma resposta &#x2014; mesmo que falsa ou criada &#x2014; e n&#x00E3;o impor limites ao sujeito, intensifica essa din&#x00E2;mica. Suas respostas, imperfeitas e sempre pass&#x00ED;veis de melhoria, induzem o sujeito a um ciclo cont&#x00ED;nuo de ajustes dos prompts na busca de respostas melhores, perpetuando a insatisfa&#x00E7;&#x00E3;o.</p>
<p>A aus&#x00EA;ncia de barreiras reais ao desejo impede a experi&#x00EA;ncia aut&#x00EA;ntica da falta, elemento central na constitui&#x00E7;&#x00E3;o subjetiva. Como constante fonte de substitui&#x00E7;&#x00E3;o meton&#x00ED;mica, a IA mant&#x00E9;m o sujeito preso em uma busca intermin&#x00E1;vel por satisfa&#x00E7;&#x00E3;o, eliminando a profundidade da experi&#x00EA;ncia desejante e promovendo seu apagamento. Assim, o desejo, essencialmente constitu&#x00ED;do pela falta e pelo desejo do Outro, perde vitalidade diante de um substituto desprovido de subjetividade, transformando o sujeito em um consumidor passivo e alienado da verdadeira din&#x00E2;mica desejante.</p>
</sec>
<sec id="sec-7-2232">
<title>T<sc>ra&#x00E7;o un&#x00E1;rio</sc>, <sc>apagamento e repeti&#x00E7;&#x00E3;o</sc></title>
<p>Na teoria de <xref ref-type="bibr" rid="ref-9-2232">Lacan (1961&#x2013;1962/2003</xref>), o tra&#x00E7;o un&#x00E1;rio &#x00E9; um elemento fundamental na constitui&#x00E7;&#x00E3;o do sujeito na linguagem. Para <xref ref-type="bibr" rid="ref-16-2232">Brenda Neves e &#x00C2;ngela Vorcaro (2011)</xref>, ele &#x00E9; &#x201C;o significante que marca a diferen&#x00E7;a fundamental, retirando o ser de sua condi&#x00E7;&#x00E3;o de pura necessidade e inserindo-o no campo do Outro, da linguagem.&#x201D; (p. 282). Tamb&#x00E9;m &#x00E9; o instrumento da identifica&#x00E7;&#x00E3;o do sujeito que tem plena rela&#x00E7;&#x00E3;o com a estrutura simb&#x00F3;lica. O sujeito &#x00E9; o efeito do apagamento de tra&#x00E7;os de alteridade que permite sua entrada na linguagem.</p>
<p>O apagamento, na teoria lacaniana, designa o processo pelo qual o sujeito se forma ao se submeter &#x00E0; linguagem e ao Outro, substituindo seus tra&#x00E7;os originais pelos tra&#x00E7;os un&#x00E1;rios, segundo <xref ref-type="bibr" rid="ref-3-2232">&#x00C9;verton Cordeiro e M&#x00E1;rcia Luchina (2017)</xref>. Os tra&#x00E7;os originais do sujeito s&#x00E3;o apagados e substitu&#x00ED;dos pelos tra&#x00E7;os un&#x00E1;rios da linguagem. A repeti&#x00E7;&#x00E3;o busca a unicidade do significante original perdido, assegurada pela fun&#x00E7;&#x00E3;o de funda&#x00E7;&#x00E3;o do tra&#x00E7;o un&#x00E1;rio (<xref ref-type="bibr" rid="ref-16-2232">Neves e Vorcaro, 2011</xref>).</p>
<p>No inconsciente, a repeti&#x00E7;&#x00E3;o busca a unicidade do significante original, irremediavelmente perdida. Esse processo de constitui&#x00E7;&#x00E3;o do sujeito e a repeti&#x00E7;&#x00E3;o de experi&#x00EA;ncias de satisfa&#x00E7;&#x00E3;o ocorrem antes que o sujeito esteja consciente desses mecanismos. Sem perceber, o sujeito repete, afastando-se de sua exist&#x00EA;ncia vital. H&#x00E1; uma priva&#x00E7;&#x00E3;o real de um objeto simb&#x00F3;lico, n&#x00E3;o pelo interdito, mas pelo n&#x00E3;o dito. Inicialmente, h&#x00E1; um vazio (-1) onde o sujeito ainda n&#x00E3;o &#x00E9; subjetividade. Na intera&#x00E7;&#x00E3;o entre desejo e demanda do Outro, marca-se a priva&#x00E7;&#x00E3;o do sujeito, que erroneamente acredita em um objeto pleno no Outro que trar&#x00E1; satisfa&#x00E7;&#x00E3;o total. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-16-2232">Neves e Vorcaro, 2011</xref>).</p>
<p>O estudo do desenvolvimento de IA pode ser visto pelo conceito de apagamento que a aproxima de uma condi&#x00E7;&#x00E3;o do desenvolvimento humano. Desde seu desenvolvimento, com base de dados que apagam seus autores originais at&#x00E9; o seu processo de treinamento, sem envolvimento dos artistas que contribuem para a base de IAs que utilizam a mesma base de dados, podem gerar resultados diferentes, levantando a possibilidade de uma tentativa de retirar tra&#x00E7;os de alteridade, da mesma forma que ocorre com o sujeito na inscri&#x00E7;&#x00E3;o no campo do Outro no tra&#x00E7;o un&#x00E1;rio. Os dados utilizados para treinar uma Intelig&#x00EA;ncia Artificial s&#x00E3;o transformados de maneira compar&#x00E1;vel a uma s&#x00E9;rie de tra&#x00E7;os un&#x00E1;rios que s&#x00E3;o desprovidos de seu contexto original.</p>
<p>A ideia de <xref ref-type="bibr" rid="ref-9-2232">Lacan (1961&#x2013;1962/2003</xref>) de que a repeti&#x00E7;&#x00E3;o no inconsciente &#x00E9; a busca da unicidade do significante original, para sempre perdida, faz refletir sobre a maneira como a IA gera novas sa&#x00ED;das com base nos mesmos dados de treinamento, sempre em busca de produzir um resultado ideal. Cada sa&#x00ED;da &#x00E9; uma tentativa de repetir e recriar os padr&#x00F5;es encontrados nos dados, mas o contexto original e a unicidade dos dados s&#x00E3;o perdidos nesse processo.</p>
<p>Parece haver o apagamento na produ&#x00E7;&#x00E3;o das IAs em tr&#x00EA;s etapas. H&#x00E1; o apagamento do sujeito na base de dados, na medida em que os autores s&#x00E3;o retirados pelos algoritmos e modelos de treinamento dos seus resultados finais. O apagamento da diferen&#x00E7;a na padroniza&#x00E7;&#x00E3;o de caracter&#x00ED;sticas na classifica&#x00E7;&#x00E3;o de IAs de vigil&#x00E2;ncia. E o terceiro apagamento, dos sujeitos que s&#x00E3;o impactados na extra&#x00E7;&#x00E3;o dos componentes f&#x00ED;sicos da IA, como o l&#x00ED;tio e os trabalhadores encarregados pelas rotula&#x00E7;&#x00F5;es de dados, postos em condi&#x00E7;&#x00F5;es sub-humanas de trabalho. Conv&#x00E9;m distinguir que certos apagamentos, como a elimina&#x00E7;&#x00E3;o de contexto necess&#x00E1;ria &#x00E0; extra&#x00E7;&#x00E3;o de dados, s&#x00E3;o constitutivos do funcionamento da IA e, portanto, inelimin&#x00E1;veis; contudo, &#x00E9; dentro da racionalidade capitalista que esses apagamentos adquirem contornos mais problem&#x00E1;ticos, pois s&#x00E3;o instrumentalizados em favor de l&#x00F3;gicas de acumula&#x00E7;&#x00E3;o, vigil&#x00E2;ncia e performatividade algor&#x00ED;tmica.</p>
<p>Rastrear os arcos de desenvolvimento dessas tecnologias esclarece os processos de apagamento tamb&#x00E9;m criticados. Os dados de treinamento para <italic>chatbots</italic> e IA generativa cont&#x00EA;m imensas entradas textuais e visuais de multid&#x00F5;es de criadores humanos. No entanto, todos os marcadores contextuais dessas obras originais s&#x00E3;o retirados &#x00E0; medida que os algoritmos analisam os dados em busca de padr&#x00F5;es. As nuances do estilo e inten&#x00E7;&#x00E3;o do autor s&#x00E3;o ocultadas, pois os conjuntos de dados s&#x00E3;o achatados em agregados estat&#x00ED;sticos para otimiza&#x00E7;&#x00E3;o computacional. H&#x00E1; um profundo apagamento de sujeitos humanos criativos que sustentam as &#x201C;vis&#x00F5;es&#x201D; finais que essas IAs produzem para os &#x00E1;vidos consumidores de tecnologia.</p>
<p>H&#x00E1; um outro tipo de apagamento incluso e presente no horizonte dessa tecnologia. Existe uma busca constante por um programa ideal, uma IA isenta, neutra e sem vi&#x00E9;s. O objetivo final de uma IA perfeita &#x00E9; ser totalmente neutra, incapaz de se posicionar e incapaz de afetar negativamente a experi&#x00EA;ncia de qualquer usu&#x00E1;rio, ant&#x00ED;poda do mundo em que vivemos. Por&#x00E9;m, isso que se busca apagar &#x00E9; o que &#x00E9; essencialmente humano, acentuando o distanciamento e desconex&#x00E3;o que marcam a contemporaneidade e demonstrando que n&#x00E3;o &#x00E9; poss&#x00ED;vel pensar sobre as IAs sem pensar no contexto social em que ela est&#x00E1; inserida.</p>
<p>Por fim, h&#x00E1; um apagamento do l&#x00FA;dico-criativo, da diversidade e da autonomia subjetiva. As IAs possibilitam automatizar uma ampla gama de tarefas, desde as mais simples, como agendar compromissos, at&#x00E9; as mais complexas, como escrever relat&#x00F3;rios, corrigir textos ou criar designs gr&#x00E1;ficos. Muitos servi&#x00E7;os <italic>online</italic> usam IA para fornecer recomenda&#x00E7;&#x00F5;es personalizadas com base no comportamento passado do usu&#x00E1;rio, recortando o que chega de informa&#x00E7;&#x00E3;o at&#x00E9; esse usu&#x00E1;rio.</p>
</sec>
<sec id="sec-8-2232" sec-type="conclusions">
<title>C<sc>onclus&#x00E3;o</sc></title>
<p>Lidar com quest&#x00F5;es &#x00E9;ticas relacionadas com a IA &#x00E9; extremamente complexo. Por um lado, os vieses aprendidos desses programas podem perpetuar ou amplificar processos discriminat&#x00F3;rios j&#x00E1; existentes na nossa sociedade. Por outro lado, mesmo que fosse poss&#x00ED;vel eliminar os vieses desses modelos, outras informa&#x00E7;&#x00F5;es que s&#x00E3;o descritivas ou eticamente &#x00FA;teis tamb&#x00E9;m poderiam ser eliminadas no processo. Essa rela&#x00E7;&#x00E3;o de causalidade entre informa&#x00E7;&#x00E3;o e vi&#x00E9;s &#x00E9; t&#x00E3;o complexa como no universo humano, lan&#x00E7;ando reflex&#x00F5;es importantes para o pr&#x00F3;prio sujeito e sua rela&#x00E7;&#x00E3;o com seu posicionamento &#x00E9;tico.</p>
<p>A pr&#x00F3;pria produ&#x00E7;&#x00E3;o das IAs &#x00E9; um desafio &#x00E9;tico, como visto no percurso deste trabalho. &#x00C9; preciso pensar em como tornar a sua produ&#x00E7;&#x00E3;o mais justa e digna aos trabalhadores, tanto os envolvidos com suas partes f&#x00ED;sicas, como os mineradores de l&#x00ED;tio, quanto os que atuam naquelas n&#x00E3;o f&#x00ED;sicas, como os rotuladores de dados ou os artistas que t&#x00EA;m seus trabalhos roubados para alimentar a base de dados.</p>
<p>Al&#x00E9;m disso, embora a IA seja regulada para impedir o uso anti&#x00E9;tico por parte dos usu&#x00E1;rios, os c&#x00F3;digos de programa&#x00E7;&#x00E3;o podem ser acessados e modificados, gerando novas vers&#x00F5;es sem restri&#x00E7;&#x00F5;es que s&#x00E3;o comumente encontradas compartilhadas nos f&#x00F3;runs da internet, permitindo, por exemplo, a modifica&#x00E7;&#x00E3;o de fotos sem restri&#x00E7;&#x00F5;es e a cria&#x00E7;&#x00E3;o de fake News que podem ser utilizadas para qualquer fim.</p>
<p>A pr&#x00F3;pria subjetividade sofre consequ&#x00EA;ncias conforme essas tecnologias se desenvolvem. Pessoas s&#x00E3;o escolhidas sem justificativa pelos sistemas de seguran&#x00E7;a de aeroportos por conta de suas caracter&#x00ED;sticas f&#x00ED;sicas, sem ter uma resposta satisfat&#x00F3;ria do porqu&#x00EA;. Outras t&#x00EA;m suas fotos modificadas sem nenhuma autoriza&#x00E7;&#x00E3;o, podendo ser expostas de forma indevida e sem ter como provar que a imagem n&#x00E3;o &#x00E9; real. H&#x00E1; tamb&#x00E9;m a intensifica&#x00E7;&#x00E3;o da depend&#x00EA;ncia tecnol&#x00F3;gica que esses programas geram, uma vez que eles foram criados com a inten&#x00E7;&#x00E3;o de serem atraentes e &#x00FA;teis para os mais diversos setores. E, por &#x00FA;ltimo, h&#x00E1; um certo tipo de analfabetismo tecnol&#x00F3;gico comparado ao dos novos dispositivos eletr&#x00F4;nicos, uma vez que os comandos influenciam muito no tipo de resposta que a IA ir&#x00E1; produzir.</p>
<p>Pensar uma &#x00E9;tica que n&#x00E3;o envolva os sujeitos (no caso, os usu&#x00E1;rios) em seu pr&#x00F3;prio desejo se mostra ineficiente. Nesse ponto, a psican&#x00E1;lise &#x00E9; fundamental, pois ela insere novamente o sujeito nas din&#x00E2;micas relacionais, sejam elas rela&#x00E7;&#x00F5;es humanas ou de humanos com m&#x00E1;quinas. A constru&#x00E7;&#x00E3;o de IAs &#x00E9;ticas est&#x00E1; alinhada ao contexto social e ao sistema no qual o modo de produ&#x00E7;&#x00E3;o capitalista define a demanda e a flexibilidade &#x00E9;tica. O apagamento do sujeito &#x00E9; oferecido como uma solu&#x00E7;&#x00E3;o simples para problemas complexos, pois se busca neutralidade e efici&#x00EA;ncia em detrimento da singularidade e da subjetividade humana.</p>
<p>A proximidade da IA ao objeto a permite que esse seja um produto altamente lucrativo e atrativo ao consumo. Enquanto isso, as empresas ligadas ao desenvolvimento dessas tecnologias n&#x00E3;o s&#x00E3;o responsabilizadas pelo que seus programas produzem. &#x00C9; tamb&#x00E9;m nesse ponto que a discuss&#x00E3;o e a articula&#x00E7;&#x00E3;o dos conceitos psicanal&#x00ED;ticos s&#x00E3;o um caminho poss&#x00ED;vel para se pensar tais quest&#x00F5;es e devolver o sujeito ao seu lugar falante na articula&#x00E7;&#x00E3;o com o seu desejo. Um sujeito implicado em seu pr&#x00F3;prio desejo &#x00E9; um sujeito implicado socialmente na sua forma de se relacionar.</p>
<p>Embora este artigo explore como o capitalismo molda o desenvolvimento da intelig&#x00EA;ncia artificial, h&#x00E1; espa&#x00E7;o para analisar os mecanismos espec&#x00ED;ficos pelos quais as demandas capitalistas impactam a &#x00E9;tica da tecnologia. As empresas privadas investem bilh&#x00F5;es no setor de IA, o ritmo de desenvolvimento frequentemente ultrapassa as verifica&#x00E7;&#x00F5;es e equil&#x00ED;brios &#x00E9;ticos. A prioriza&#x00E7;&#x00E3;o das margens de lucro e dos retornos aos acionistas impulsiona ciclos r&#x00E1;pidos de lan&#x00E7;amento de produtos sem revis&#x00E3;o e regula&#x00E7;&#x00E3;o suficientes. As press&#x00F5;es competitivas no setor de tecnologia desincentivam o reconhecimento aberto de falhas ou impactos sociais prejudiciais dos sistemas de IA. As regulamenta&#x00E7;&#x00F5;es lutam para conter essas for&#x00E7;as ou s&#x00E3;o implementadas muito lentamente para acompanhar as press&#x00F5;es do mercado. Tudo isso fica claro, pois solu&#x00E7;&#x00F5;es puramente t&#x00E9;cnicas falham em resolver quest&#x00F5;es &#x00E9;ticas na produ&#x00E7;&#x00E3;o de IAs. As estruturas econ&#x00F4;micas e incentivos em ambientes capitalistas parecem tornar os desvios &#x00E9;ticos inevit&#x00E1;veis. Reexaminar esses impulsionadores sist&#x00EA;micos &#x00E9; crucial para a composi&#x00E7;&#x00E3;o do humano, do progresso e da &#x201C;vida&#x201D; tecnol&#x00F3;gica.</p>
</sec>
</body>
<back>
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<title>R<sc>efer&#x00EA;ncias</sc></title>
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