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<journal-title>Quaderns de Psicologia</journal-title>
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<issn pub-type="epub">2014-4520</issn>
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<publisher-name>Universitat Aut&#x00F2;noma de Barcelona</publisher-name>
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<subject>Articles</subject>
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<article-title><bold>Armamentismo e liberdade individual no neoliberalismo: uma perspectiva psicanal&#x00ED;tica</bold></article-title>
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<trans-title xml:lang="en"><italic>Armamentism and Individual Freedom in Neoliberalism: A Psychoanalytic Perspective</italic></trans-title>
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<surname>Santos</surname>
<given-names>Luciano Henrique Moreira</given-names>
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<bio><p>P&#x00F3;s-graduando na Universidade Federal de Uberl&#x00E2;ndia. Bacharel em psicologia pela Universidade Federal do Tri&#x00E2;ngulo Mineiro.</p></bio>
<email>lucianomoreira.psi@gmail.com</email>
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<surname>Neves</surname>
<given-names>Anamaria Silva</given-names>
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<bio><p>Professora titular na Universidade Federal de Uberl&#x00E2;ndia. Graduada em psicologia pela Universidade Federal de Uberl&#x00E2;ndia, mestra em psicologia pela Pontif&#x00ED;cia Universidade Cat&#x00F3;lica de Campinas e doutora em psicologia pela Universidade de S&#x00E3;o Paulo (USP).</p></bio>
<email>anamaria.neves@ufu.br</email>
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<surname>Paravidini</surname>
<given-names>Jo&#x00E3;o Luiz Leit&#x00E3;o</given-names>
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<bio><p>Professor associado na Universidade Federal de Uberl&#x00E2;ndia. Graduado em psicologia pela Universidade Estadual Paulista J&#x00FA;lio de Mesquita Filho, mestre em psicologia pela Pontif&#x00ED;cia Universidade Cat&#x00F3;lica de Campinas, doutor em ci&#x00EA;ncias m&#x00E9;dicas pela Universidade Estadual de Campinas.</p></bio>
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<institution content-type="original">Universidade Federal de Uberl&#x00E2;ndia</institution>
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<license-p>Aquesta obra est&#x00E0; sota una llic&#x00E8;ncia internacional Creative Commons Reconeixement 4.0. CC BY</license-p>
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<abstract>
<title><bold>R<sc>esumo</sc></bold></title>
<p>Trata-se de uma pesquisa psicanal&#x00ED;tica que busca investigar as pol&#x00ED;ticas e os aspectos ideol&#x00F3;gicos forjados a partir do neoliberalismo, que fundamentam a experi&#x00EA;ncia da liberdade individual na contemporaneidade, por meio do exame do fen&#x00F4;meno armamentista. Ao mesmo tempo, examinar-se-&#x00E1; as tens&#x00F5;es psicol&#x00F3;gicas e sociais que decorrem desse processo. O modelo neoliberal analisado &#x00E9; compreendido a partir das teoriza&#x00E7;&#x00F5;es propostas por Von Mises e Hayek, no que se refere ao estatuto da liberdade na atualidade. Como conclus&#x00E3;o, defende-se a ideia de que o armamentismo &#x00E9; uma forma de nega&#x00E7;&#x00E3;o do outro e de si mesmo, que expressa um sintoma neur&#x00F3;tico de recusa do processo subjetivo e do pacto civilizat&#x00F3;rio.</p>
</abstract>
<trans-abstract xml:lang="en">
<title><bold>A<sc>bstract</sc></bold></title>
<p>This is a psychoanalytic research that seeks to investigate the policies and the ideological aspects, forged from neoliberalism, that underlie the experience of individual freedom in contemporaneity through the examination of the armamentist phenomenon. At the same time, the psychological and social tensions that result from this process will be examined. The neoliberal model, analyzed, is understood from the theorizations proposed by Von Mises and Hayek regarding the status of freedom in the present. As a conclusion, it is argued that armamentism is a form of denial of the other and of oneself that expresses a neurotic symptom of refusal of the subjective process and of the civilizing pact.</p>
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<title>Palavras-chaves:</title>
<kwd><bold>Neoliberalismo</bold></kwd>
<kwd><bold>Armamentismo</bold></kwd>
<kwd><bold>Psican&#x00E1;lise</bold></kwd>
<kwd><bold>Liberdade</bold></kwd>
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<title>Keywords:</title>
<kwd><bold>Neoliberalism</bold></kwd>
<kwd><bold>Armamentism</bold></kwd>
<kwd><bold>Psychoanalysis</bold></kwd>
<kwd><bold>Freedom</bold></kwd>
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<institution>Coordena&#x00E7;&#x00E3;o de Aperfei&#x00E7;oamento de Pessoal de N&#x00ED;vel Superior (CAPES)</institution>
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<sec id="sec-1-2121" sec-type="intro">
<title><bold>I<sc>ntrodu&#x00E7;&#x00E3;o</sc></bold></title>
<p>Este estudo configura-se como uma pequena parte, um recorte de um projeto de mestrado que se encontra em andamento, o qual est&#x00E1; vinculado ao Programa de P&#x00F3;s-Gradua&#x00E7;&#x00E3;o em Psicologia da Universidade Federal de Uberl&#x00E2;ndia (PPGPSI/UFU). Diante disso, percorreremos um caminho te&#x00F3;rico-metodol&#x00F3;gico a fim de sustentar a proposi&#x00E7;&#x00E3;o de que a eleva&#x00E7;&#x00E3;o da ideia de liberdade individual a um patamar de autonomia, iniciada no liberalismo e potencializada no neoliberalismo, &#x00E9; uma tentativa radical de eliminar toda e qualquer alteridade que &#x00E9; pr&#x00F3;pria e fundamental &#x00E0; constitui&#x00E7;&#x00E3;o da subjetividade humana. Nesse mesmo sentido, trata-se de uma busca por romper com a din&#x00E2;mica de identifica&#x00E7;&#x00E3;o dos sujeitos. Por fim, al&#x00E7;ar a liberdade &#x00E0; condi&#x00E7;&#x00E3;o de ente, isto &#x00E9;, de objeto materializ&#x00E1;vel, &#x00E9; uma maneira de, por meio da dimens&#x00E3;o social, dissolver em absoluto a civiliza&#x00E7;&#x00E3;o e a cultura. Em s&#x00ED;ntese, a autonomiza&#x00E7;&#x00E3;o da liberdade &#x00E9;, profundamente, anti-civilizat&#x00F3;ria.</p>
<p>Para tanto, partir-se-&#x00E1; da ascens&#x00E3;o de movimentos de extrema-direita organizados em partidos pol&#x00ED;ticos, no Brasil, compreendidos como express&#x00E3;o do projeto de uma suposta &#x201C;consolida&#x00E7;&#x00E3;o&#x201D; da chamada liberdade individual que, no entanto, &#x00E9; sublinhado por um programa de rompimento da democracia e do aniquilamento da alteridade, bem como do apagamento do distinto e do exterm&#x00ED;nio do estrangeiro. Esse fato &#x00E9; percebido, incontestavelmente, no fen&#x00F4;meno do armamentismo e na discursividade posta em sua prote&#x00E7;&#x00E3;o, que &#x00E9; marcada pela necessidade de defender, a todo custo, a propriedade privada e, portanto, a si-mesmo como o bem-supremo.</p>
<p>Portanto, esta pesquisa tem como objetivo investigar as pol&#x00ED;ticas e os aspectos ideol&#x00F3;gicos forjados a partir do neoliberalismo, que fundamentam a experi&#x00EA;ncia da liberdade individual na contemporaneidade, por meio do exame do fen&#x00F4;meno armamentista. Ao mesmo tempo, examinar-se-&#x00E1; as tens&#x00F5;es psicol&#x00F3;gicas e sociais que decorrem desse processo. Para tanto, o m&#x00E9;todo psicanal&#x00ED;tico ser&#x00E1; utilizado como chave de leitura para o empreendimento citado. E, ainda, sustenta-se, ante ao exposto, a decis&#x00E3;o de circunscrever a empreita anal&#x00ED;tica &#x2014; ante a discuss&#x00E3;o realizada sobre o conceito de liberdade &#x2014; a alguns te&#x00F3;ricos e autores espec&#x00ED;ficos ao campo neoliberal, a saber: Ludwig von Mises e Friedrich Hayek.</p>
</sec>
<sec id="sec-2-2121">
<title><bold>O <sc>drama neoliberal &#x00E0; brasileira</sc></bold></title>
<p>De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="ref-28-2121">Carlos Rodrigues (2022)</xref>, entre 1950 e 1970, ocorreu um processo chamado de transnacionaliza&#x00E7;&#x00E3;o do capital, isto &#x00E9;, um per&#x00ED;odo marcado pela queda do padr&#x00E3;o ouro, que organizava as transa&#x00E7;&#x00F5;es econ&#x00F4;micas; pela descentraliza&#x00E7;&#x00E3;o da produ&#x00E7;&#x00E3;o de empresas multinacionais, em busca de m&#x00E3;o-de-obra barata e legisla&#x00E7;&#x00F5;es tribut&#x00E1;rias e trabalhistas menos rigorosas, e, por fim, pela amplia&#x00E7;&#x00E3;o da depend&#x00EA;ncia ao d&#x00F3;lar, principalmente, por pa&#x00ED;ses considerados subdesenvolvidos ou em desenvolvimento.</p>
<disp-quote>
<p>Os determinantes externos, expressos pela transnacionaliza&#x00E7;&#x00E3;o e pela financeiriza&#x00E7;&#x00E3;o, deixaram o Estado sem condi&#x00E7;&#x00F5;es de mediar os fins aos meios, ou seja, a acumula&#x00E7;&#x00E3;o capitalista foi prioritariamente usada para atender os interesses privados dos capitalistas sem a possibilidade de se levar adiante um projeto de na&#x00E7;&#x00E3;o. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-28-2121">Rodrigues, 2022</xref>, pp. 556-557).</p>
</disp-quote>
<p>Embora tenha-se implementado uma pol&#x00ED;tica de gest&#x00E3;o da economia, n&#x00E3;o formulou-se, no Brasil, um projeto de desenvolvimento econ&#x00F4;mico (<xref ref-type="bibr" rid="ref-28-2121">Rodrigues, 2022</xref>). Os Anos de Chumbo engendraram um arcabou&#x00E7;o pol&#x00ED;tico-econ&#x00F4;mico que favoreceu a entrada de capital estrangeiro, sobretudo o d&#x00F3;lar, mas n&#x00E3;o foi capaz de fomentar um cen&#x00E1;rio interno que estimulasse a ind&#x00FA;stria brasileira de maneira eficaz e eficiente (<xref ref-type="bibr" rid="ref-28-2121">Rodrigues, 2022</xref>).</p>
<p>Na d&#x00E9;cada de 1970, foi desenvolvido o II Plano Nacional de Desenvolvimento, durante o governo do ditador Geisel, cujo objetivo era estimular o setor produtivo brasileiro. No entanto, de acordo com <xref ref-type="bibr" rid="ref-28-2121">Carlos Rodrigues (2022)</xref>, esse planejamento, na verdade, propiciou a depend&#x00EA;ncia da economia p&#x00FA;blica do pa&#x00ED;s ao setor privado.</p>
<disp-quote>
<p>Sem os recursos externos, de acordo com o governo, o plano se tornaria frustrante, assim como a previs&#x00E3;o de crescimento para a ind&#x00FA;stria na ordem de 12% ao ano no quinqu&#x00EA;nio. Para essa amplia&#x00E7;&#x00E3;o, reservava-se ao setor privado papel de destaque enquanto as empresas estatais atuariam para dar suporte &#x00E0; iniciativa privada em setores que n&#x00E3;o eram do interesse do capital privado, mas importantes para o seu desenvolvimento industrial. A orienta&#x00E7;&#x00E3;o do plano era deixar com a iniciativa privada a fun&#x00E7;&#x00E3;o de investir e produzir, com rentabilidade adequada. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-28-2121">Rodrigues, 2022</xref>, p. 558).</p>
</disp-quote>
<p>A realiza&#x00E7;&#x00E3;o de empr&#x00E9;stimos &#x2014; via Banco Mundial e Fundo Monet&#x00E1;rio Internacional (FMI) &#x2014;, a balan&#x00E7;a comercial deficit&#x00E1;ria &#x2014; importa&#x00E7;&#x00E3;o maior que exporta&#x00E7;&#x00E3;o &#x2014; e a Crise do Petr&#x00F3;leo &#x2014; que redundou no aumento da taxa de juros do d&#x00F3;lar, por meio do Banco Central do Estados Unidos da Am&#x00E9;rica &#x2014;, cristalizou o cen&#x00E1;rio de deteriora&#x00E7;&#x00E3;o econ&#x00F4;mica no Brasil (<xref ref-type="bibr" rid="ref-28-2121">Rodrigues, 2022</xref>). Diante disso, o poder executivo adotou medidas para tentar reduzir o desequil&#x00ED;brio econ&#x00F4;mico, controlar a infla&#x00E7;&#x00E3;o &#x2014; que atingiu 243% em 1985, ano da redemocratiza&#x00E7;&#x00E3;o do Brasil (<xref ref-type="bibr" rid="ref-26-2121">Ribeiro, 2022</xref>) &#x2014; e, por fim, reduzir a participa&#x00E7;&#x00E3;o p&#x00FA;blica do Estado na economia, para assim, instalarem-se as regras mercadol&#x00F3;gicas do n&#x00E3;o-intervencionismo (<xref ref-type="bibr" rid="ref-28-2121">Rodrigues, 2022</xref>). O contexto, portanto, foi ideal para o advento e a consolida&#x00E7;&#x00E3;o do neoliberalismo, no Brasil.</p>
<p>Forjou-se, a partir da perspectiva do per&#x00ED;odo ditatorial brasileiro, as bases para a introdu&#x00E7;&#x00E3;o e consuma&#x00E7;&#x00E3;o de um modelo pol&#x00ED;tico-econ&#x00F4;mico de destrui&#x00E7;&#x00E3;o de direitos sociais, constru&#x00ED;do a duras penas, ao longo da hist&#x00F3;ria. A Greve Geral de 1917, por exemplo, contribuiu significativamente para a Consolida&#x00E7;&#x00E3;o das Leis dos Trabalho (CLT), em 01 de maio de 1943, que assegurou prerrogativas legais, necess&#x00E1;rias e fundamentais, para os agentes envolvidos em uma rela&#x00E7;&#x00E3;o de trabalho, sobretudo, aos trabalhadores (<xref ref-type="bibr" rid="ref-21-2121">Moraes, 2021</xref>).</p>
<p>Com esse cen&#x00E1;rio pol&#x00ED;tico-econ&#x00F4;mico desenhado no horizonte brasileiro, outros agentes entraram em cena, na tentativa de majorarem suas influ&#x00EA;ncias no corpo social e institucional, para, enfim, assentarem-se como for&#x00E7;a pol&#x00ED;tica, em busca de legitimidade. Trata-se da partidariza&#x00E7;&#x00E3;o de movimentos de extrema-direita, que foi iniciado na d&#x00E9;cada de 1930. De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="ref-1-2121">Guilherme Andrade (2013)</xref>, a A&#x00E7;&#x00E3;o Integralista Brasileira (1932 a 1937), representada por Pl&#x00ED;nio Salgado, tornou-se o principal ator pol&#x00ED;tico da extrema-direita e, ao mesmo tempo, estabeleceu bases para a constitui&#x00E7;&#x00E3;o de ideologias referenciadas ao nazismo e ao fascismo. J&#x00E1; na d&#x00E9;cada de 1980, inspirados nos grupos <italic>skinheads</italic> da Inglaterra, surgiram movimentos que apoiavam as pol&#x00ED;ticas autorit&#x00E1;rias de regimes ditatoriais, como no caso do Brasil, que pregavam a divis&#x00E3;o racial da sociedade (<xref ref-type="bibr" rid="ref-1-2121">Andrade, 2013</xref>).</p>
<p>Com isso, a partir do exposto, a figura de Jair Bolsonaro, na atualidade, n&#x00E3;o surgiu sem respaldo hist&#x00F3;rico, como uma esp&#x00E9;cie de abiog&#x00EA;nese, isto &#x00E9;, sem resqu&#x00ED;cios de anterioridade fundante. Mas, antes, tratou-se de um processo longo e conflituoso, em que o neoliberalismo foi instaurado como modelo in&#x00E9;dito de organiza&#x00E7;&#x00E3;o pol&#x00ED;tico-social no Brasil. O Partido dos Trabalhadores, fundado no ano de 1980 na cidade de S&#x00E3;o Paulo, tornou-se, entre 1990 e 2000, a principal for&#x00E7;a antag&#x00F4;nica no que se refere ao arranjo partid&#x00E1;rio nacional e &#x00E0;s pol&#x00ED;ticas neoliberalizantes e autorit&#x00E1;rias. Isso n&#x00E3;o significa, no entanto, que a sigla seja absolutamente coerente e esmerada. Contudo, n&#x00E3;o se pode negar o contraponto ideol&#x00F3;gico, ao menos no campo estatut&#x00E1;rio, frente &#x00E0;s bases fundamentais do neoliberalismo (<xref ref-type="bibr" rid="ref-23-2121">Partido dos Trabalhadores, 2017</xref>).</p>
<p>No quadro macrossocial mundial, segundo <xref ref-type="bibr" rid="ref-24-2121">Alejandro P&#x00E9;rez Polo (2023)</xref>, os anos recentes foram marcados por uma ampla ascens&#x00E3;o de movimentos ideol&#x00F3;gicos alinhados &#x00E0; extrema-direita, com seus l&#x00ED;deres assumindo postos importantes das m&#x00E1;quinas p&#x00FA;blicas, tais como: Viktor Orb&#x00E1;n, em 2010, na Hungria; Donald Trump, em 2016, nos Estados Unidos da Am&#x00E9;rica; Jair Bolsonaro, em 2019, no Brasil; Nayib Bukele, em 2019, em El Salvador; Giorgia Meloni, em 2022, na It&#x00E1;lia e, mais recentemente, Javier Milei, em 2023, na Argentina.</p>
<p>Nesse contexto, surgiu a sustenta&#x00E7;&#x00E3;o da discursividade dos representantes da extrema-direita, assentada na defesa da liberdade individual a todo custo, como patrim&#x00F4;nio dos indiv&#x00ED;duos que comp&#x00F5;em a comunidade. Essa posi&#x00E7;&#x00E3;o precipitou-se em um manique&#x00ED;smo pol&#x00ED;tico: a divis&#x00E3;o entre o &#x201C;bem&#x201D;, os defensores da moralidade e da autonomia, e o &#x201C;mau&#x201D;, associado &#x00E0; esquerda, na suposi&#x00E7;&#x00E3;o de uma contrariedade &#x00E0; liberdade individual. O debate p&#x00FA;blico entre diferentes vis&#x00F5;es ideol&#x00F3;gicas tornou-se uma esp&#x00E9;cie de guerra civil nos sistemas pol&#x00ED;ticos de v&#x00E1;rios pa&#x00ED;ses.</p>
<p>As elei&#x00E7;&#x00F5;es presidenciais de 2018 e de 2022 no Brasil foram marcadas por temas sens&#x00ED;veis como censura, liberdade e economia, que influenciaram a escolha dos eleitores e a forma&#x00E7;&#x00E3;o de consensos entre as massas. O representante da extrema-direita, Jair Bolsonaro, difundiu a ideia de que seu advers&#x00E1;rio, Luiz In&#x00E1;cio Lula da Silva &#x2014; que se elegeu em 2022 &#x2014;, iria suprimir todas as liberdades essenciais, como a social, a religiosa, a econ&#x00F4;mica e a individual, caso fosse vitorioso. Al&#x00E9;m disso, durante seu mandato, de 2019 a 2022, Bolsonaro defendeu a amplia&#x00E7;&#x00E3;o do acesso &#x00E0;s armas de fogo, que ele considerava um direito inalien&#x00E1;vel dos cidad&#x00E3;os. Isso se concretizou na facilita&#x00E7;&#x00E3;o da obten&#x00E7;&#x00E3;o de registros para Ca&#x00E7;adores, Atiradores e Colecionadores (CAC).</p>
<p>De acordo com o 17&#x00BA; Anu&#x00E1;rio Brasileiro de Seguran&#x00E7;a P&#x00FA;blica, de 2019 a 2022, houve um aumento de 474% na concess&#x00E3;o de certificado de registro de CAC, no Brasil (<xref ref-type="bibr" rid="ref-11-2121">F&#x00F3;rum Brasileiro de Seguran&#x00E7;a P&#x00FA;blica, 2023</xref>). E, ainda, entre 2017 e 2022, ocorreu um aumento de 147% no n&#x00FA;mero de vendas de muni&#x00E7;&#x00F5;es, dentro do mercado nacional, de modo que, havia, no final do per&#x00ED;odo, 1 558 416 registros de armas ativas. Para al&#x00E9;m disso, considera-se, tamb&#x00E9;m, um total de 1 532 803 dispositivos com registro expirado e, portanto, o governo n&#x00E3;o tinha ci&#x00EA;ncia de suas localiza&#x00E7;&#x00F5;es (<xref ref-type="bibr" rid="ref-11-2121">F&#x00F3;rum Brasileiro de Seguran&#x00E7;a P&#x00FA;blica, 2023</xref>).</p>
<disp-quote>
<p>Os anos Bolsonaro provocaram profundas mudan&#x00E7;as no mercado legal de armas de fogo. Armas que antes eram de calibre restrito passaram a ser de calibre permitido e algumas, como a pistola 9mm, passaram a aparecer como as armas mais vendidas no pa&#x00ED;s. Por&#x00E9;m, isso tamb&#x00E9;m transformou o mercado ilegal. Porque a conex&#x00E3;o entre os mercados legal e ilegal sempre existiu, mas a dimens&#x00E3;o que o mercado legal tomou acabou influenciando o ilegal. J&#x00E1; h&#x00E1; relatos de policiais da linha de frente que indicam que a pistola calibre 9mm tem sido uma das armas mais apreendidas por for&#x00E7;as policiais, ocupando um lugar que historicamente foi ocupado por rev&#x00F3;lveres, principalmente os adquiridos nas d&#x00E9;cadas de 80 e 90, quando o controle era quase inexistente. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-11-2121">F&#x00F3;rum Brasileiro de Seguran&#x00E7;a P&#x00FA;blica, 2023</xref>, pp. 229-230).</p>
</disp-quote>
<p>O governo de extrema-direita no Brasil promoveu uma pol&#x00ED;tica de aquartelamento da liberdade individual, ou seja, transformou-a em um bem material, que, supostamente, poderia ser adquirido e garantido por meio do armamentismo. Para defender a liberdade, propriedade b&#x00E1;sica e insepar&#x00E1;vel do indiv&#x00ED;duo, a extrema-direita brasileira, por meio de decretos presidenciais &#x2014; cassados posteriormente &#x2014;, induziu ao estado de luta de todos contra todos, numa perspectiva de &#x201C;salve-se quem puder&#x201D;, ou melhor, &#x201C;salve-se a si mesmo&#x201D;. O indiv&#x00ED;duo, propriet&#x00E1;rio de si e de sua liberdade, tem o direito de proteger-se contra qualquer amea&#x00E7;a que venha contra a sua exist&#x00EA;ncia e as suas posses. Essa foi a l&#x00F3;gica que sustentou a sociedade nos &#x00FA;ltimos anos.</p>
<p>Defender a propriedade, portanto, defender a si mesmo e, ainda, agir no mundo com o intuito de gerar lucro e, assim, acumular riquezas, &#x00E9; a formula b&#x00E1;sica e essencial do que &#x00E9; compreendido como empreendedorismo (<xref ref-type="bibr" rid="ref-7-2121">Dardot &#x0026; Laval, 2013</xref>). O intervencionismo estatal e a legisla&#x00E7;&#x00E3;o, que adv&#x00E9;m da presen&#x00E7;a forte do governo, produz uma sociedade totalit&#x00E1;ria e autorit&#x00E1;ria, em detrimento ao que &#x00E9; substancial: o indiv&#x00ED;duo (<xref ref-type="bibr" rid="ref-31-2121">Von Mises, 2010</xref>). No neoliberalismo, como forma de assegurar as pr&#x00F3;prias necessidades, isto &#x00E9;, proteger os bens, &#x00E9; imprescind&#x00ED;vel que a pessoa possua e porte uma arma, pois, para n&#x00E3;o ficar &#x00E0; merc&#x00EA; do monop&#x00F3;lio da viol&#x00EA;ncia &#x2014; este que compete ao Estado &#x2014;, &#x00E9; necess&#x00E1;rio atuar, tamb&#x00E9;m, com viol&#x00EA;ncia. Assim, consolida-se o estado, denominado por <xref ref-type="bibr" rid="ref-6-2121">Pierre Dardot, Haud Gu&#x00E9;guen, Christian Laval e Pierre Sauv&#x00EA;tre (2021)</xref>, em que os indiv&#x00ED;duos deliberam por permanecerem, constantemente, em uma guerra civil. O indiv&#x00ED;duo neoliberal conduz-se, necessariamente, a uma condi&#x00E7;&#x00E3;o de viol&#x00EA;ncia contra o outro, pois, &#x00E9; somente dessa maneira que o modelo pol&#x00ED;tico-econ&#x00F4;mico pode sustentar-se e desenvolver-se.</p>
</sec>
<sec id="sec-3-2121">
<title><bold>A <sc>perspectiva neoliberal da liberdade individual</sc></bold></title>
<p>O liberalismo, de acordo com <xref ref-type="bibr" rid="ref-19-2121">Adriane Lemos (2020)</xref>, &#x00E9; uma doutrina pol&#x00ED;tica e econ&#x00F4;mica que surgiu, no s&#x00E9;culo XVII, ao defender a ideia de liberdade individual, o direito &#x00E0; propriedade privada, a livre iniciativa comercial e a limita&#x00E7;&#x00E3;o do poder do Estado, como princ&#x00ED;pios naturais e inviol&#x00E1;veis. O liberalismo assenta-se na ideia de que o mercado, regulado pela din&#x00E2;mica de oferta e de demanda, &#x00E9; capaz de garantir o bem-estar social, sem a necessidade de interven&#x00E7;&#x00F5;es externas em sua l&#x00F3;gica de funcionamento. No entanto, segundo <xref ref-type="bibr" rid="ref-7-2121">Pierre Dardot e Christian Laval (2013)</xref>, devido &#x00E0; incapacidade de apreender a necessidade da regula&#x00E7;&#x00E3;o estatal na consolida&#x00E7;&#x00E3;o da economia de mercado, iniciou-se um longo per&#x00ED;odo de crises. Em meados dos s&#x00E9;culos XIX e XX, essas instabilidades no liberalismo foram marcantes, sobretudo, diante das transforma&#x00E7;&#x00F5;es sociais e econ&#x00F4;micas provocadas pelas guerras, especialmente, as mundiais, pela Grande Depress&#x00E3;o de 1929 e pelo surgimento de outros modelos pol&#x00ED;tico-econ&#x00F4;micos, como o socialismo.</p>
<p>Dessa feita, desenvolveu-se o neoliberalismo, como uma maneira de &#x201C;consertar&#x201D; os erros liberais, uma corrente que retomou alguns princ&#x00ED;pios do liberalismo, adaptando-os &#x00E0; realidade da economia globalizada e do capitalismo financeiro. Para <xref ref-type="bibr" rid="ref-7-2121">Pierre Dardot e Christian Laval (2013)</xref>, foi no Col&#x00F3;quio de Walter Lippmann, realizado em Paris (Fran&#x00E7;a), em 1938, que se localizou o g&#x00E9;rmen da corrente neoliberal de pensamento. Vale ressaltar, em tempo, que n&#x00E3;o se trata de um modelo unificado e, portanto, central, mas, antes, &#x00E9; uma modalidade com diversas ramifica&#x00E7;&#x00F5;es e conflitos internos. O chamado ordoliberalismo, por exemplo, capitaneado por expoentes importantes da pol&#x00ED;tica e economia alem&#x00E3;, como Walter Eucken e Alexander R&#x00FC;stow, comp&#x00F5;e, tamb&#x00E9;m, o neoliberalismo. No entanto, a perspectiva ordoliberal se diferencia na compreens&#x00E3;o sobre a fun&#x00E7;&#x00E3;o do Estado, em pontos te&#x00F3;ricos, em rela&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0; escola austro-americana, formada por Von Mises e Hayek, principalmente.</p>
<p>Sinteticamente, o neoliberalismo, para Von Mises e Hayek, fundamenta-se na desregulamenta&#x00E7;&#x00E3;o dos mercados, na privatiza&#x00E7;&#x00E3;o das empresas estatais, na redu&#x00E7;&#x00E3;o dos gastos p&#x00FA;blicos, na flexibiliza&#x00E7;&#x00E3;o das leis trabalhistas e na abertura comercial (<xref ref-type="bibr" rid="ref-19-2121">Lemos, 2020</xref>). Esse modelo tem sido fortemente criticado por agravar as desigualdades sociais, enfraquecer os direitos dos trabalhadores, gerar instabilidade econ&#x00F4;mica e ambiental e comprometer a soberania dos pa&#x00ED;ses.</p>
<p>Isso posto, o conceito de liberdade torna-se central, tanto para o liberalismo quanto para o neoliberalismo, mas, ele &#x00E9; entendido e aplicado de maneiras diferentes nesses dois modelos. No liberalismo, a liberdade &#x00E9; vista como um direito natural e inalien&#x00E1;vel dos indiv&#x00ED;duos, que deve ser protegida contra as interfer&#x00EA;ncias do Estado e, inclusive, da sociedade (<xref ref-type="bibr" rid="ref-7-2121">Dardot &#x0026; Laval, 2013</xref>). A liberdade &#x00E9;, assim, a condi&#x00E7;&#x00E3;o para o exerc&#x00ED;cio da autonomia, da raz&#x00E3;o e da moralidade dos seres humanos. Na verdade, a liberdade se confunde, profundamente, com a autonomia, assumindo a perspectiva de que ser livre &#x00E9; ser &#x201C;senhor de si&#x201D;, isto &#x00E9;, ser propriet&#x00E1;rio de si mesmo (<xref ref-type="bibr" rid="ref-29-2121">Safatle, 2020a</xref>). O liberalismo defende, portanto, a liberdade pol&#x00ED;tica, civil e econ&#x00F4;mica, baseada na separa&#x00E7;&#x00E3;o dos poderes e na garantia dos direitos fundamentais &#x2014; como citado anteriormente (<xref ref-type="bibr" rid="ref-7-2121">Dardot &#x0026; Laval, 2013</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="ref-19-2121">Lemos, 2020</xref>).</p>
<p>No neoliberalismo, por sua vez, a liberdade &#x00E9; reinterpretada como um valor instrumental e condicional, que depende do desempenho dos indiv&#x00ED;duos no mercado (<xref ref-type="bibr" rid="ref-7-2121">Dardot e Laval, 2013</xref>). A liberdade &#x00E9; a capacidade de escolher entre as op&#x00E7;&#x00F5;es oferecidas pelo mercado, que &#x00E9; considerado o &#x00FA;nico mecanismo eficiente e justo de aloca&#x00E7;&#x00E3;o dos recursos. O neoliberalismo defende, portanto, a liberdade de mercado, baseada na desregulamenta&#x00E7;&#x00E3;o, na privatiza&#x00E7;&#x00E3;o e na redu&#x00E7;&#x00E3;o do papel do Estado (<xref ref-type="bibr" rid="ref-19-2121">Lemos, 2020</xref>). Nesse modelo, enfim, aprofunda-se a l&#x00F3;gica de liberdade como autonomia e, ainda, estende a radicalidade do princ&#x00ED;pio da n&#x00E3;o-interfer&#x00EA;ncia &#x00E0; todas as dimens&#x00F5;es da vida humana, de modo a afirmar que somente com a posse absoluta de si mesmo, em nega&#x00E7;&#x00E3;o do outro, inevitavelmente, &#x00E9; que &#x00E9; poss&#x00ED;vel &#x201C;ser livre&#x201D;.</p>
<p>Al&#x00E9;m disso, o conceito de liberdade, no liberalismo e no neoliberalismo, tem implica&#x00E7;&#x00F5;es diferentes para a vida social e pol&#x00ED;tica dos indiv&#x00ED;duos e das massas. Enquanto o primeiro valoriza a liberdade como um fim em si mesmo, o segundo a subordina e a aprofunda aos interesses do mercado; o liberalismo busca equilibrar a liberdade com a igualdade e a justi&#x00E7;a, o neoliberalismo ignora ou nega esses valores (<xref ref-type="bibr" rid="ref-7-2121">Dardot e Laval, 2013</xref>). Enquanto o modelo liberal reconhece a diversidade e a pluralidade das formas de express&#x00E3;o do que &#x00E9; entendido por liberdade, a f&#x00F3;rmula neoliberal imp&#x00F5;e uma &#x00FA;nica maneira de liberdade, baseada no consumo e na competi&#x00E7;&#x00E3;o (<xref ref-type="bibr" rid="ref-19-2121">Lemos, 2020</xref>).</p>
<p>A liberdade, para <xref ref-type="bibr" rid="ref-31-2121">Ludwig Von Mises (2010)</xref>, decorre do fato de que sua exist&#x00EA;ncia se desenvolve no plano das rela&#x00E7;&#x00F5;es, isto &#x00E9;, entre duas pessoas e, diante disso, parte-se da premissa de uma hierarquiza&#x00E7;&#x00E3;o biol&#x00F3;gica, ou seja, &#x00E9; pela dimens&#x00E3;o da for&#x00E7;a que se pode conceber rela&#x00E7;&#x00F5;es livres ou n&#x00E3;o. Portanto, a liberdade, no pensamento do autor, assume duas perspectivas: (1) existe, se existir o outro e (2) consolida-se na sobreviv&#x00EA;ncia do mais forte sobre o mais fraco. Nota-se, j&#x00E1; nesse ponto, a ideia impl&#x00ED;cita de que, inclusive para ser &#x201C;livre&#x201D;, &#x00E9; necess&#x00E1;rio competir. Mas, n&#x00E3;o apenas isso, &#x00E9; imprescind&#x00ED;vel sobreviver e sobrepujar o outro. Apesar de se depreender a liberdade no plano relacional, a alteridade &#x00E9; tomada como um empecilho para a sua afirma&#x00E7;&#x00E3;o.</p>
<p>Ser livre &#x00E9; ter a possibilidade para agir de distintas maneiras, &#x00E9; escolher quais comportamentos ser&#x00E3;o realizados em qualquer situa&#x00E7;&#x00E3;o (<xref ref-type="bibr" rid="ref-31-2121">Von Mises, 2010</xref>). A liberdade individual &#x00E9;, portanto, fundamental para a economia baseada no mercado ou, ainda, &#x00E9; inconceb&#x00ED;vel a economia de mercado sem, antes, a consolida&#x00E7;&#x00E3;o da liberdade individual. Ser livre &#x00E9; responsabilizar-se pelas pr&#x00F3;prias decis&#x00F5;es, isto &#x00E9;, &#x00E9; ter a posse dos pr&#x00F3;prios desejos, pensamentos e comportamentos (<xref ref-type="bibr" rid="ref-31-2121">Von Mises, 2010</xref>). A liberdade &#x00E9; (re)tomada, conforme no liberalismo, como a propriedade absoluta de si mesmo, sem nenhum tipo de inger&#x00EA;ncia externa (<xref ref-type="bibr" rid="ref-29-2121">Safatle, 2020a</xref>). Mas, mais que isso, &#x00E9;, ao ser senhor de si mesmo, ser capaz de se sobrepor e de competir com outros indiv&#x00ED;duos em busca do lucro (<xref ref-type="bibr" rid="ref-29-2121">Safatle, 2020a</xref>).</p>
<p>Consequentemente, como figura de coer&#x00E7;&#x00E3;o e de restri&#x00E7;&#x00E3;o, entra em cena o Estado, que &#x00E9; gerido por um governo com a fun&#x00E7;&#x00E3;o &#x2014; diga-se, inclusive, a &#x00FA;nica &#x201C;aceita&#x201D; por Von Mises &#x2014; de impedir a dissolu&#x00E7;&#x00E3;o do corpo social (<xref ref-type="bibr" rid="ref-31-2121">Von Mises, 2010</xref>). Em outras palavras, para o economista austr&#x00ED;aco, o governo pode e deve atuar para que um agrupamento coletivo n&#x00E3;o se desintegre, devido &#x00E0; natureza violenta e agressiva dos seres humanos, no entanto, essa atribui&#x00E7;&#x00E3;o n&#x00E3;o deve ser estendida &#x00E0; liberdade individual (<xref ref-type="bibr" rid="ref-31-2121">Von Mises, 2010</xref>). Isso significa que a liberdade se pauta por um princ&#x00ED;pio universal, inalien&#x00E1;vel e indissol&#x00FA;vel, contudo, o limite disso &#x00E9; o espa&#x00E7;o de liberdade de um outro indiv&#x00ED;duo. Nesse &#x00ED;nterim, &#x00E9; cr&#x00ED;vel afirmar que a sociedade &#x00E9; forjada por pequenos n&#x00FA;cleos de pessoas que s&#x00E3;o &#x201C;donas de si&#x201D; ou, ainda, propriet&#x00E1;rias de si mesmas. O equivalente pode ser atribu&#x00ED;do a Friedrich Hayek.</p>
<disp-quote>
<p>Nossa gera&#x00E7;&#x00E3;o esqueceu que o sistema de propriedade privada &#x00E9; a mais importante garantia da liberdade, n&#x00E3;o s&#x00F3; para os propriet&#x00E1;rios, mas tamb&#x00E9;m para os que n&#x00E3;o o s&#x00E3;o. Ningu&#x00E9;m disp&#x00F5;e de poder absoluto sobre n&#x00F3;s, e, como <italic>indiv&#x00ED;duos,</italic> podemos escolher o sentido de nossa vida &#x2014; isso porque o controle dos meios de produ&#x00E7;&#x00E3;o se acha dividido entre muitas pessoas que agem de modo independente. Se todos os meios de produ&#x00E7;&#x00E3;o pertencessem a uma &#x00FA;nica entidade, fosse ela a &#x201C;sociedade&#x201D; como um todo ou um ditador, quem exercesse esse controle teria poder absoluto sobre n&#x00F3;s. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-17-2121">Hayek, 2010</xref>, p. 128, grifo do autor)</p>
</disp-quote>
<p>O Estado, ao fugir dessa incumb&#x00EA;ncia, torna-se um empecilho, principalmente, ao intervir diretamente no modo de funcionamento da sociedade, assentada na economia de mercado, pois atrapalha o fluxo competitivo e estabelece pontos de incongru&#x00EA;ncia na formata&#x00E7;&#x00E3;o da liberdade individual (<xref ref-type="bibr" rid="ref-31-2121">Von Mises, 2010</xref>). Isso quer dizer que o Estado &#x00E9; incompat&#x00ED;vel com a concep&#x00E7;&#x00E3;o neoliberal de sociedade, inclusive, sua inexist&#x00EA;ncia ou baixa presen&#x00E7;a &#x00E9; desej&#x00E1;vel. H&#x00E1; uma necessidade, no entanto, de um governo, que n&#x00E3;o deve ser confundido com Estado, conforme exposto anteriormente, pois:</p>
<disp-quote>
<p>A fim de estabelecer e preservar a coopera&#x00E7;&#x00E3;o social e a civiliza&#x00E7;&#x00E3;o, s&#x00E3;o necess&#x00E1;rias medidas para impedir que indiv&#x00ED;duos antissociais cometam atos que poderiam desfazer tudo o que o homem realizou desde que saiu das cavernas. Para preservar um estado de coisas onde haja prote&#x00E7;&#x00E3;o do indiv&#x00ED;duo contra a ilimitada tirania dos mais fortes e mais h&#x00E1;beis, &#x00E9; necess&#x00E1;ria uma institui&#x00E7;&#x00E3;o que reprima a atividade antissocial. A paz &#x2014; aus&#x00EA;ncia de luta permanente de todos contra todos &#x2014; s&#x00F3; pode ser alcan&#x00E7;ada pelo estabelecimento de um sistema no qual o poder de recorrer &#x00E0; a&#x00E7;&#x00E3;o violenta &#x00E9; monopolizado por um aparato social de compuls&#x00E3;o e coer&#x00E7;&#x00E3;o, e a aplica&#x00E7;&#x00E3;o deste poder em qualquer caso individual &#x00E9; regulada por um conjunto de regras &#x2014; as leis feitas pelo homem, distintas tanto das leis da natureza como das leis da praxeologia. O que caracteriza um sistema social &#x00E9; a exist&#x00EA;ncia desse aparato, comumente chamado de governo. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-31-2121">Von Mises, 2010</xref>, p. 379)</p>
</disp-quote>
<p>Com isso, a liberdade &#x00E9; a possibilidade de um indiv&#x00ED;duo, consciente e respons&#x00E1;vel por si, deliberar sobre quais comportamentos ser&#x00E3;o realizados, ante &#x00E0;s possibilidades da realidade (<xref ref-type="bibr" rid="ref-31-2121">Von Mises, 2010</xref>). Ser livre &#x00E9;, em &#x00FA;ltima inst&#x00E2;ncia, n&#x00E3;o ser molestado pelos ditames legais de um Estado, representado por um seleto grupo de indiv&#x00ED;duos que comp&#x00F5;e o seu governo (<xref ref-type="bibr" rid="ref-31-2121">Von Mises, 2010</xref>). Qualquer forma de pol&#x00ED;tica que busque, de certa maneira, produzir uma redistribui&#x00E7;&#x00E3;o de renda, o aumento de arrecada&#x00E7;&#x00E3;o tribut&#x00E1;ria ou, ainda, a amplia&#x00E7;&#x00E3;o de servi&#x00E7;os p&#x00FA;blicos, financiados pelo tesouro nacional, significa um estado de calamidade e de interfer&#x00EA;ncia nas regras mercadol&#x00F3;gicas que pautam a ideologia neoliberal.</p>
<p>Assentado nessa perspectiva, entre 2016 e 2022, no Brasil, notou-se uma intensa pol&#x00ED;tica de altera&#x00E7;&#x00E3;o, via legisla&#x00E7;&#x00E3;o, daquilo que se caracterizava como dispositivos essenciais &#x00E0; manuten&#x00E7;&#x00E3;o do &#x201C;estado de bem-estar social&#x201D;. Entre 2019 e 2021, aprovou-se, no Congresso Nacional do Brasil, a Reforma da Previd&#x00EA;ncia, que elevou o tempo de contribui&#x00E7;&#x00E3;o e a idade m&#x00ED;nima para os cidad&#x00E3;os aposentarem-se; privatizou-se empresas estatais que eram consideradas estrat&#x00E9;gicas para a manuten&#x00E7;&#x00E3;o da economia brasileira, a saber: a Liquig&#x00E1;s e a BR Distribuidora; foi sancionado, pelo ent&#x00E3;o presidente da Rep&#x00FA;blica, a lei que concedeu autonomia ao Banco Central do Brasil (<xref ref-type="bibr" rid="ref-5-2121">Cruz et al., 2022</xref>). Al&#x00E9;m disso, em 2022, foi detectado, pela <xref ref-type="bibr" rid="ref-25-2121">Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Seguran&#x00E7;a Alimentar e Nutricional (2022)</xref>, que aproximadamente 33 milh&#x00F5;es de brasileiros estavam em situa&#x00E7;&#x00E3;o de miserabilidade, com impossibilidade de se alimentarem.</p>
<p>Al&#x00E9;m disso, na compreens&#x00E3;o de defesa absoluta da liberdade individual e da propriedade de si, em 2021, o presidente da Rep&#x00FA;blica, no Pal&#x00E1;cio da Alvorada, sua resid&#x00EA;ncia oficial, afirmou: &#x201C;Tem que todo mundo comprar um fuzil, p&#x00F4;. Povo armado jamais ser&#x00E1; escravizado. Eu sei que custa caro. A&#x00ED;, tem um idiota: Ah, tem que comprar &#x00E9; feij&#x00E3;o. Cara, se voc&#x00EA; n&#x00E3;o quer comprar fuzil, n&#x00E3;o enche o saco de quem quer comprar&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-10-2121">Fagundes, 2021</xref>, se&#x00E7;&#x00E3;o &#x201C;&#x2018;Tem que todo mundo comprar fuzil, p&#x00F4;&#x2019;, diz Bolsonaro&#x201D;). Isso demonstra a situa&#x00E7;&#x00E3;o grotesca de uma concep&#x00E7;&#x00E3;o pautada no exterm&#x00ED;nio, por completo, da alteridade. Em nenhuma medida, nessa perspectiva, &#x00E9; necess&#x00E1;rio a rela&#x00E7;&#x00E3;o entre pessoa-pessoa, se n&#x00E3;o for adotada a obten&#x00E7;&#x00E3;o de lucro ou de privil&#x00E9;gio econ&#x00F4;mico, de acordo com preceitos neoliberais. O pacto civilizat&#x00F3;rio &#x00E9; reduzido &#x00E0; dimens&#x00E3;o contratual, &#x00E0; perspectiva de objeto. O outro &#x00E9; pass&#x00ED;vel de existir, t&#x00E3;o somente, at&#x00E9; o momento que deixa de conferir alguma fun&#x00E7;&#x00E3;o que produza mat&#x00E9;ria ou que resulte em possibilidade de extra&#x00E7;&#x00E3;o de mais-valia, por meio da explora&#x00E7;&#x00E3;o do seu trabalho.</p>
<p>A liberdade individual &#x00E9; tomada como a liberdade para matar. Conforme explicitado por <xref ref-type="bibr" rid="ref-20-2121">Achille Mbembe (2018)</xref>, o Estado, por meio de sua governamentalidade, recrudesce as rela&#x00E7;&#x00F5;es entre dominador-dominado &#x00E0; dimens&#x00E3;o do &#x201C;fazer morrer&#x201D;, em detrimento &#x00E0; pol&#x00ED;tica de manuten&#x00E7;&#x00E3;o da vida de seus cidad&#x00E3;os. O neoliberalismo, conforme essa perspectiva, &#x00E9; uma pol&#x00ED;tica socioecon&#x00F4;mica que engendra uma face perversa de sele&#x00E7;&#x00E3;o social, isto &#x00E9;, de permitir e de fabricar a morte dos seres humanos que n&#x00E3;o se qualificam como m&#x00E3;o-de-obra ativa e geradora de dinheiro e de lucro. N&#x00E3;o se confere, de nenhuma forma, ao cidad&#x00E3;o a garantia do reconhecimento de seu <italic>status</italic> de pertencimento &#x00E0;quela sociedade.</p>
<p>Ao al&#x00E7;ar a liberdade ao plano da autonomia, nega-se o car&#x00E1;ter conflitivo que &#x00E9; inerente &#x00E0; vida em sociedade, cuja maior express&#x00E3;o &#x00E9; o debate democr&#x00E1;tico dos contr&#x00E1;rios, e erige-se o imperativo da destrui&#x00E7;&#x00E3;o, da guerra contra o divergente, contra o opositor. A liberdade individual, enquanto propriedade, &#x00E9; a marca indel&#x00E9;vel daquilo que &#x00E9; tido como a onipot&#x00EA;ncia narc&#x00ED;sica do Eu.</p>
<p>Tomamos aqui que, para <xref ref-type="bibr" rid="ref-12-2121">Sigmund Freud (1914/2004)</xref>, o narcisismo &#x00E9; um processo que n&#x00E3;o &#x00E9; inerente ao ser, mas, antes, &#x00E9; um produto da articula&#x00E7;&#x00E3;o da pessoa com o mundo, isto &#x00E9;, &#x00E9; relacional. Trata-se da constru&#x00E7;&#x00E3;o de um autoinvestimento que, em sua esteira, adv&#x00E9;m o Eu como g&#x00E9;rmen. O narcisismo prim&#x00E1;rio, ou seja, o reservat&#x00F3;rio do narcisismo parental, &#x00E9;, inexoravelmente, o engendramento da identifica&#x00E7;&#x00E3;o com o desejo do outro (<xref ref-type="bibr" rid="ref-12-2121">Freud, 1914/2004)</xref>. Isso permite a dissolu&#x00E7;&#x00E3;o do enquistamento do Eu, estabelecendo a rela&#x00E7;&#x00E3;o com o objeto, com a alteridade. No entanto, ap&#x00F3;s esse desenvolvimento, h&#x00E1; a instaura&#x00E7;&#x00E3;o de uma perda, de uma falha que tange &#x00E0; incorpora&#x00E7;&#x00E3;o do objeto, em rala&#x00E7;&#x00E3;o ao Eu, com o intuito da completude (<xref ref-type="bibr" rid="ref-13-2121">Freud, 1917/2004</xref>). O amadurecimento &#x00E9;, justamente, o processo de perder.</p>
<p>Isso significa, com base na &#x00F3;tica freudiana, que a autonomiza&#x00E7;&#x00E3;o da liberdade, marcada pelo fen&#x00F4;meno armamentista, &#x00E9; a destitui&#x00E7;&#x00E3;o do outro como tra&#x00E7;o essencial na formata&#x00E7;&#x00E3;o da din&#x00E2;mica da sociabilidade, que &#x00E9; chamada, nesta pesquisa, de civiliza&#x00E7;&#x00E3;o, considerando a l&#x00F3;gica da vida em sociedade. Nega-se o outro, e no outro, para, em &#x00FA;ltima medida, negar o pr&#x00F3;prio fato do limite do Eu. A liberdade assume, por fim, a condi&#x00E7;&#x00E3;o de um duplo, como pensado por <xref ref-type="bibr" rid="ref-14-2121">Sigmund Freud (1919/2019)</xref>: 1) a face como suplanta&#x00E7;&#x00E3;o do outro, como empecilho e como amea&#x00E7;a, no que concerne &#x00E0; manifesta&#x00E7;&#x00E3;o do que &#x00E9; tido como livre-arb&#x00ED;trio; 2) o lado de destitui&#x00E7;&#x00E3;o do processo de subjetiva&#x00E7;&#x00E3;o, o que al&#x00E7;a a ang&#x00FA;stia como produto e a puls&#x00E3;o de morte em sua plena tentativa de satisfa&#x00E7;&#x00E3;o.</p>
<disp-quote>
<p>N&#x00E3;o apenas esse conte&#x00FA;do reprovado pela cr&#x00ED;tica do Eu pode ser incorporado pelo duplo, mas tamb&#x00E9;m, do mesmo modo, todas as possibilidades pressupostas das formas do destino, &#x00E0;s quais a fantasia ainda quer se aferrar, e todas as aspira&#x00E7;&#x00F5;es do Eu, que n&#x00E3;o puderam se realizar devido a expressas circunst&#x00E2;ncias desfavor&#x00E1;veis, assim como todas as decis&#x00F5;es volitivas reprimidas, que resultaram da ilus&#x00E3;o de livre arb&#x00ED;trio. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-14-2121">Freud, 1919/2019</xref>, p. 67).</p>
</disp-quote>
<p>O fen&#x00F4;meno armamentista, por conseguinte, &#x00E9; a tentativa, mesmo que fr&#x00E1;gil, do ponto de vista da rela&#x00E7;&#x00E3;o subjetiva Eu-outro, de o indiv&#x00ED;duo fortificar-se contra a amea&#x00E7;a que &#x00E9; o investimento no/do outro. &#x00C9; a fixa&#x00E7;&#x00E3;o aguerrida da fantasia de autoprote&#x00E7;&#x00E3;o e de autodetermina&#x00E7;&#x00E3;o. Armar-se &#x00E9; arvorar-se no sentimento de desprote&#x00E7;&#x00E3;o social, no desamparo; &#x00E9; demonstrar a extrema fraqueza constitucional de enla&#x00E7;ar-se no pacto civilizat&#x00F3;rio. O armamentismo, em &#x00FA;ltima inst&#x00E2;ncia, n&#x00E3;o &#x00E9; produzido para o Eu proteger-se do outro, ou dos outros, mas para salvaguardar-se de si mesmo e de sua verve debilidade.</p>
</sec>
<sec id="sec-4-2121">
<title><bold>O <sc>resto neoliberal</sc></bold></title>
<p>Com a exposi&#x00E7;&#x00E3;o da manifesta&#x00E7;&#x00E3;o pol&#x00ED;tico-econ&#x00F4;mica neoliberal e de seu fator reacion&#x00E1;rio, o armamentismo, devemos considerar, a partir de agora, os efeitos que incidem tanto no quadro social quanto no aspecto subjetivo, no que concerne &#x00E0;s tens&#x00F5;es produzidas. Nesse ponto, afirmamos que um se relaciona ao outro e, portanto, n&#x00E3;o &#x00E9; poss&#x00ED;vel compreender os efeitos coletivos sem a manifesta&#x00E7;&#x00E3;o singular. Para isso, utilizamos o estudo de Milton Friedman, um dos principais te&#x00F3;ricos do neoliberalismo. Em sua obra <xref ref-type="bibr" rid="ref-16-2121"><italic>Capitalismo e Liberdade</italic> (2014)</xref>, Friedman classifica os gastos, sejam eles p&#x00FA;blicos ou privados, em quatro categorias principais:</p>
<list list-type="simple">
<list-item><label>a)</label> <p>o uso do pr&#x00F3;prio dinheiro consigo mesmo; de acordo com o economista, essa categoria produz uma maior efici&#x00EA;ncia no disp&#x00EA;ndio, pois a pessoa adquire consci&#x00EA;ncia do que realmente necessita, o que se traduz em racionalidade econ&#x00F4;mica;</p></list-item>
<list-item><label>b)</label> <p>o uso do pr&#x00F3;prio dinheiro com outra pessoa; esta, por sua vez, redunda no merecimento do outro em receber algum tipo de benef&#x00ED;cio;</p></list-item>
<list-item><label>c)</label> <p>o gasto do dinheiro de outra pessoa consigo mesmo; isso significa receber um benef&#x00ED;cio de outrem, o que indica, dessa vez, o automerecimento;</p></list-item>
<list-item><label>d)</label> <p>o gasto do dinheiro de outra pessoa com terceiros. &#x00C9; nesse ponto que, para <xref ref-type="bibr" rid="ref-16-2121">Friedman (2014)</xref>, reside a g&#x00EA;nese e a l&#x00F3;gica de funcionamento do Estado, cuja fun&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9;, exatamente, administrar o dinheiro p&#x00FA;blico e gast&#x00E1;-lo com todos. Este &#x00E9; o modo mais dispendioso e menos eficiente de gasto do dinheiro, segundo o autor.</p></list-item>
</list>
<p>Pode-se afirmar, portanto, com base na compreens&#x00E3;o de <xref ref-type="bibr" rid="ref-16-2121">Milton Friedman (2014)</xref>, que o Estado, ao atuar de modo securit&#x00E1;rio e garantidor, age de maneira inepta, pois, assim, gera privil&#x00E9;gio a uma parcela da popula&#x00E7;&#x00E3;o. H&#x00E1;, nesse sentido, conforme teorizou <xref ref-type="bibr" rid="ref-7-2121">Pierre Dardot e Christian Laval (2013)</xref>, um imperativo de redu&#x00E7;&#x00E3;o a uma condi&#x00E7;&#x00E3;o existencial &#x2014; a &#x00FA;nica poss&#x00ED;vel &#x2014;, em que a pessoa se torna indivis&#x00ED;vel e &#x201C;individida&#x201D;, isto &#x00E9;, o indiv&#x00ED;duo. Ao perder todas as garantias sociais, direitos e reconhecimentos, o sujeito neoliberal &#x00E9; lan&#x00E7;ado em um profundo abismo de incertezas: a) quanto &#x00E0; sua pr&#x00F3;pria exist&#x00EA;ncia coletiva; b) quanto ao seu futuro pessoal e c) quanto &#x00E0; sua pr&#x00F3;pria subjetividade.</p>
<p>Ante isso, paradoxalmente, o Estado assume, de acordo com <xref ref-type="bibr" rid="ref-4-2121">Pierre Bourdieu (2014)</xref>, de maneira sint&#x00E9;tica, a perspectiva divina de um pai infal&#x00ED;vel e castrador, no que se refere ao ordenamento do <italic>corpus</italic> que o comp&#x00F5;e, isto &#x00E9;, os indiv&#x00ED;duos. E na ideologia neoliberal, essa &#x00E9;, conforme j&#x00E1; exposto, a &#x00FA;nica fun&#x00E7;&#x00E3;o poss&#x00ED;vel para o aparato estatal. Isso significa que &#x2014; como o neoliberalismo quer reduzir e, at&#x00E9; mesmo, abolir o Estado, conforme indicado por <xref ref-type="bibr" rid="ref-31-2121">Ludwig Von Mises (2010)</xref> &#x2014;, o indiv&#x00ED;duo neoliberal coloca-se diante da exacerba&#x00E7;&#x00E3;o da din&#x00E2;mica conflitiva neur&#x00F3;tica, a partir da queda do Nome-do Pai, como proposto por <xref ref-type="bibr" rid="ref-2-2121">Joel Birman (2017)</xref>. Eis, portanto, a imbrica&#x00E7;&#x00E3;o entre efeitos sociais e singulares. Esse processo traduz a ambival&#x00EA;ncia basal estrutural: ao mesmo tempo em que o pai, atrav&#x00E9;s de seu nome, &#x00E9; colocado em posi&#x00E7;&#x00E3;o de perfei&#x00E7;&#x00E3;o e completude, no drama neur&#x00F3;tico busca-se incessantemente destitu&#x00ED;-lo de seu poder e, assim, demonstrar sua face de miserabilidade e de precariedade (<xref ref-type="bibr" rid="ref-18-2121">Lacan, 1955-1956/1981)</xref>. Em outras palavras, o sistema neoliberal, por meio de suas caracter&#x00ED;sticas, e o armamentismo &#x00E9; um deles, tem como objetivo ceifar a pr&#x00F3;pria constitui&#x00E7;&#x00E3;o fundante do ser humano, no que implica a falta-a-ser, e, assim, consagrar a puls&#x00E3;o de morte como o derradeiro resto dessa produ&#x00E7;&#x00E3;o. Portanto, trata-se de uma organiza&#x00E7;&#x00E3;o pol&#x00ED;tica-econ&#x00F4;mica, profundamente, n&#x00E3;o-social, o que revela sua dimens&#x00E3;o paradoxal e violenta.</p>
<p>Em <italic>O Eu e o Id</italic> (publicado originalmente em 1923), Sigmund Freud organiza sua proposta metapsicol&#x00F3;gica em algumas estruturas fundamentais, no que se refere &#x00E0; composi&#x00E7;&#x00E3;o do psiquismo. &#x00C9; importante retom&#x00E1;-lo, aqui, para considerarmos o dinamismo do funcionamento egoico. H&#x00E1; for&#x00E7;as, de acordo com o autor, que atuam de maneira a recalcar, isto &#x00E9;, lan&#x00E7;ar para o Inconsciente certos conte&#x00FA;dos do sistema Consciente, e esse &#x00ED;mpeto opera por meio do Eu (<xref ref-type="bibr" rid="ref-15-2121">Freud, 1923/2011)</xref>. Assim, o psicanalista afirmou que o Eu, sobremodo, &#x00E9; uma deriva&#x00E7;&#x00E3;o, de maneira francamente diferenciada, de um conglomerado, que &#x00E9; completamente pulsional &#x2014; seja Eros ou seja T&#x00E2;natos &#x2014; e inconsciente, chamado de Id ou d&#x2019;Isso (<xref ref-type="bibr" rid="ref-15-2121">Freud, 1923/2011)</xref>. Al&#x00E9;m de tudo, &#x00E9; nessa estrutura que se depositam as paix&#x00F5;es, o <italic>p&#x00E1;thos</italic>. De modo que, sinteticamente, n&#x00E3;o h&#x00E1; fronteiras claras entre o Eu e o Isso.</p>
<disp-quote>
<p>&#x00C9; f&#x00E1;cil ver que o Eu &#x00E9; a parte do Id modificada pela influ&#x00EA;ncia direta do mundo externo, sob media&#x00E7;&#x00E3;o do <italic>Pcp-Cs</italic>, como que um prosseguimento da diferencia&#x00E7;&#x00E3;o da superf&#x00ED;cie. Ele tamb&#x00E9;m se esfor&#x00E7;a em fazer valer a influ&#x00EA;ncia do mundo externo sobre o Id e os seus prop&#x00F3;sitos, empenha-se em colocar o princ&#x00ED;pio da realidade no lugar do princ&#x00ED;pio do prazer, que vigora irrestritamente no Id. A percep&#x00E7;&#x00E3;o tem, para o Eu, o papel que no Id cabe ao instinto. O Eu representa o que se pode chamar de raz&#x00E3;o e circunspec&#x00E7;&#x00E3;o, em oposi&#x00E7;&#x00E3;o ao Id, que cont&#x00E9;m as paix&#x00F5;es. Tudo isso corresponde a not&#x00F3;rias distin&#x00E7;&#x00F5;es populares, mas deve ser entendido t&#x00E3;o s&#x00F3; como aproximadamente ou idealmente correto. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-15-2121">Freud, 1923/2011</xref>, pp. 22-23, grifo do autor)</p>
</disp-quote>
<p>Uma outra perspectiva dessa articula&#x00E7;&#x00E3;o do Eu, de acordo com <xref ref-type="bibr" rid="ref-30-2121">Vladimir Safatle (2020b)</xref>, a partir da compreens&#x00E3;o psicanal&#x00ED;tica, ocorre pela composi&#x00E7;&#x00E3;o desse sistema como um precipitado forjado por complexos identificat&#x00F3;rios e, consequentemente, por mecanismos projetivos e introdutivos. Tal qual a paranoia, por via de suas estruturas delirantes e alucinat&#x00F3;rias, que s&#x00E3;o marcadas, tamb&#x00E9;m, por esses dispositivos (<xref ref-type="bibr" rid="ref-30-2121">Safatle, 2020b</xref>). Isso significa, enfim, que a forma&#x00E7;&#x00E3;o do Eu assenta-se sobre as mesmas bases de organiza&#x00E7;&#x00E3;o da modalidade paranoica. O que demonstra a frui&#x00E7;&#x00E3;o do Eu como, em si mesmo, um estado fronteiri&#x00E7;o, cujas bordas s&#x00E3;o fragilmente constitu&#x00ED;das.</p>
<disp-quote>
<p>Segue da&#x00ED; ainda todas as formas paranoicas de permitir o retorno das rela&#x00E7;&#x00F5;es de identifica&#x00E7;&#x00E3;o e constitui&#x00E7;&#x00E3;o que foram negadas, como a persegui&#x00E7;&#x00E3;o, a invas&#x00E3;o, a imuniza&#x00E7;&#x00E3;o, entre tantas outras formas de del&#x00ED;rio e alucina&#x00E7;&#x00E3;o. Ou seja, tudo se passa como se houvesse uma psicose generalizada resultante do funcionamento normal dos processos de socializa&#x00E7;&#x00E3;o do desejo. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-30-2121">Safatle, 2020b</xref>, p. 24)</p>
</disp-quote>
<p>Um ponto importante, que diz respeito ao estatuto do Eu na contemporaneidade, &#x00E9; que, a partir de uma (re)organiza&#x00E7;&#x00E3;o do sentido do adoecimento ps&#x00ED;quico, isto &#x00E9;, da psicopatologia, h&#x00E1; um rompimento, em absoluto, com a ideia de sofrimento &#x2014; do <italic>p&#x00E1;thos</italic> &#x2014; e, em seu lugar, adv&#x00E9;m a l&#x00F3;gica do aprimoramento do Eu (<xref ref-type="bibr" rid="ref-22-2121">Neves et al., 2020</xref>). Isso ocorre, segundo os autores, devido ao espalhamento e &#x00E0; apropria&#x00E7;&#x00E3;o que o sistema neoliberal produz, no sentido de gerar o consumismo em todas as dimens&#x00F5;es dos seres humanos. A ind&#x00FA;stria farmacol&#x00F3;gica assume contornos de imposi&#x00E7;&#x00E3;o cotidiana, ao promover a dissemina&#x00E7;&#x00E3;o do uso indiscriminado de seus produtos (<xref ref-type="bibr" rid="ref-22-2121">Neves et al., 2020</xref>).</p>
<p>Dessa maneira, afirmamos, com base nisso, que, se o sistema neoliberal engendra indiv&#x00ED;duos &#x201C;senhores de si&#x201D;, isto &#x00E9;, propriet&#x00E1;rios de si e, se h&#x00E1; uma l&#x00F3;gica de funcionamento que &#x00E9; contr&#x00E1;ria &#x00E0; concep&#x00E7;&#x00E3;o de adoecimento, portanto, o indiv&#x00ED;duo neoliberal &#x00E9; autodestrutivo, pois nega sua pr&#x00F3;pria dimens&#x00E3;o passional &#x2014; ou melhor, pulsional &#x2014;, com base na defesa daquilo que &#x00E9; apenas consciente e que, em tese, assume uma perspectiva de possibilidade de domina&#x00E7;&#x00E3;o. A sanha armamentista, nesse sentido, &#x00E9; um sintoma, absolutamente, pr&#x00F3;prio a essa pessoa neoliberal. A figura da arma, propriamente dita, ascende ao Ideal de Eu, como maneira de proteger o Eu do outro, no entanto, vale considerar antes disso, que a busca por prote&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; contra si mesmo, contra o estrangeiro que habita no &#x00ED;ntimo e que, devido &#x00E0; civiliza&#x00E7;&#x00E3;o, &#x00E0; cultura, &#x00E9; projetada na comunidade.</p>
<p>No sistema neoliberal, oblitera-se aquilo que Lacan denominou de tra&#x00E7;o un&#x00E1;rio, que se trata, sinteticamente, de acordo com <xref ref-type="bibr" rid="ref-27-2121">Doris Rinaldi (2008)</xref>, da marca da singularidade, ao instaurar, via institui&#x00E7;&#x00E3;o da linguagem, um tra&#x00E7;o distintivo do Eu em rela&#x00E7;&#x00E3;o ao outro. Portanto, o Eu torna-se, ao mesmo tempo, estranho e fundamentalmente absoluto, isto &#x00E9;, relacionado &#x00E0; din&#x00E2;mica da dor e do amor, surge, ent&#x00E3;o, uma condi&#x00E7;&#x00E3;o de deprecia&#x00E7;&#x00E3;o &#x2014; como na melancolia &#x2014; e de exalta&#x00E7;&#x00E3;o a si-mesmo. Conceber um horizonte de possibilidades futuras, nessa perspectiva, relacionadas ao pr&#x00F3;prio Eu, &#x00E0; subjetividade e &#x00E0; coletividade, configura-se ante a uma impossibilidade.</p>
<p>Decorre dessa oblitera&#x00E7;&#x00E3;o, em suma, um dos efeitos, que se relaciona &#x00E0; l&#x00F3;gica pol&#x00ED;tico-social-econ&#x00F4;mica &#x2014; que &#x00E9; o neoliberalismo &#x2014;, no sujeito, para <xref ref-type="bibr" rid="ref-3-2121">Joel Birman (2020)</xref>, a nova modalidade de subjetiva&#x00E7;&#x00E3;o que delineia o campo da constitui&#x00E7;&#x00E3;o fundamental dos seres humanos e que diz respeito ao desalento.</p>
<disp-quote>
<p>Esse desalento se evidencia assim pela dor lancinante, uma vez que, pela aus&#x00EA;ncia do desejo, do tempo e da alteridade, a subjetiva&#x00E7;&#x00E3;o em quest&#x00E3;o &#x00E9; inconsistente, de modo que o sofrimento n&#x00E3;o poderia ent&#x00E3;o ser promovido pelo sujeito. Com isso, o sujeito se esvai de maneira hemorr&#x00E1;gica, de forma radical. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-3-2121">Birman, 2020</xref>, p. 119).</p>
</disp-quote>
<p>Al&#x00E9;m disso, <xref ref-type="bibr" rid="ref-3-2121">Joel Birman (2020)</xref> prop&#x00F5;e, tamb&#x00E9;m, que na contemporaneidade &#x00E9; a melancolia e a insist&#x00EA;ncia Real do trauma que toca o mal-estar do sujeito. Eis, portanto, aquilo que &#x00E9; denominado por melancoliza&#x00E7;&#x00E3;o do la&#x00E7;o social (<xref ref-type="bibr" rid="ref-8-2121">Douville, 2004</xref>).</p>
<disp-quote>
<p>Para simplificar, &#x00E9; poss&#x00ED;vel propor a defini&#x00E7;&#x00E3;o seguinte e dizer que a melancoliza&#x00E7;&#x00E3;o do la&#x00E7;o &#x00E9; este estado, este pendor pelo qual se satisfaz uma forma de neutraliza&#x00E7;&#x00E3;o do pensamento da dist&#x00E2;ncia e da diferen&#x00E7;a no culto de uma origem que retorna para o sujeito at&#x00E9; o ponto da mascarada e do pesadelo da autofunda&#x00E7;&#x00E3;o. N&#x00E3;o haveria mais diferen&#x00E7;a que valesse. Reina a indiferen&#x00E7;a generalizada em rela&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0;s escolhas &#x00E9;ticas e &#x00E0; segrega&#x00E7;&#x00E3;o selvagem do que se coloca para o estrangeiro como uma outra montagem do sexual, da l&#x00ED;ngua e da morte. Estar&#x00ED;amos em face de uma economia ps&#x00ED;quica impotente para se ligar a representa&#x00E7;&#x00F5;es do futuro e inapta para desejar uma figura&#x00E7;&#x00E3;o do que &#x00E9; num al&#x00E9;m da borda, dos limites e das fronteiras. Esta economia ps&#x00ED;quica &#x00E9; desesperada. O psiquismo parece um luxo, um &#x201C;a mais&#x201D;. O psiquismo serve ainda ao que quer que seja quando a rela&#x00E7;&#x00E3;o ao outro n&#x00E3;o serve para mais nada? S&#x00E3;o justamente condi&#x00E7;&#x00F5;es de aquisi&#x00E7;&#x00E3;o da alteridade que est&#x00E3;o aqui em quest&#x00E3;o. Esta proposi&#x00E7;&#x00E3;o leva a algumas conseq&#x00FC;&#x00EA;ncias. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-8-2121">Douville, 2004</xref>, pp. 198-199).</p>
</disp-quote>
<p>Outro ponto, trabalhado por <xref ref-type="bibr" rid="ref-3-2121">Joel Birman (2020)</xref>, diz respeito ao estatuto do narcisismo na contemporaneidade e, utilizando-se da ideia freudiana acerca do narcisismo das pequenas diferen&#x00E7;as, o autor explica que, na atualidade, elege-se obrigatoriamente a diferen&#x00E7;a como tra&#x00E7;o de igualdade naquilo que toca a refer&#x00EA;ncia do inimigo. Isto &#x00E9;, o outro &#x00E9; um advers&#x00E1;rio e, assim, deve ser eliminado, para que o Eu seja eternamente presentificado e exaltado.</p>
<p>Tange-se a esse mecanismo narc&#x00ED;sico do Eu, que foi analisado profundamente por <xref ref-type="bibr" rid="ref-9-2121">Christian Dunker (2020)</xref>, a elei&#x00E7;&#x00E3;o da depress&#x00E3;o como condi&#x00E7;&#x00E3;o <italic>sine qua non</italic> do <italic>savoir-faire</italic> neoliberal, isto quer dizer que h&#x00E1;, concomitantemente, uma necessidade imperiosa de se colocar o Eu em evid&#x00EA;ncia, que &#x00E9; produzido pelo &#x201C;rebaixamento&#x201D; da sintomatologia depressiva, e, tamb&#x00E9;m, de gerir farmacologicamente o sofrimento pessoal. Os significantes linguagem, desejo e trabalho, segundo o autor, superp&#x00F5;em-se nesse contexto. Tomamos a liberdade de, neste ponto, incluir &#x00E0; superposi&#x00E7;&#x00E3;o, junto &#x00E0;queles, do sofrimento como significante. Para isso, tomamos como base a chave de leitura de que, por nos inserirmos na linguagem, o neoliberalismo nos convoca a gerenciar o sofrimento, em busca da realiza&#x00E7;&#x00E3;o pessoal, enquanto reverenciamos condi&#x00E7;&#x00F5;es extremamente prec&#x00E1;rias de trabalho, numa busca por realizar o desejo-mor de sermos livres, isto &#x00E9;, propriet&#x00E1;rios de n&#x00F3;s mesmos.</p>
<disp-quote>
<p>O neoliberalismo n&#x00E3;o &#x00E9; apenas uma teoria econ&#x00F4;mica que acabou por favorecer a financeiriza&#x00E7;&#x00E3;o das empresas, o nascimento do capitalismo imaterial, onde o valor da marca pode superar a import&#x00E2;ncia da produ&#x00E7;&#x00E3;o. Ele tamb&#x00E9;m n&#x00E3;o &#x00E9; apenas o reflexo de uma valoriza&#x00E7;&#x00E3;o do consumo, como padr&#x00E3;o de forma&#x00E7;&#x00E3;o de identidades e como ponto de defini&#x00E7;&#x00E3;o negocial. Ele representou uma nova moralidade que prescreve como devemos sofrer sobre o neoliberalismo, tendo na sua c&#x00FA;spide preferencial a s&#x00ED;ndrome depressiva. Agora o sofrimento n&#x00E3;o &#x00E9; mais um obst&#x00E1;culo para o desenvolvimento da ind&#x00FA;stria, mas pode ser metodicamente produzido e administrado para aumentar o desempenho e &#x00E9; isso que caracteriza o neoliberalismo no contexto das pol&#x00ED;ticas de sofrimento: individualiza&#x00E7;&#x00E3;o, intensifica&#x00E7;&#x00E3;o e instrumentaliza&#x00E7;&#x00E3;o. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-9-2121">Dunker, 2020</xref>, p. 185).</p>
</disp-quote>
<p>A arma &#x00E9;, por fim, a representante material do conflito do Eu consigo mesmo; da imperiosa e impiedosa conspira&#x00E7;&#x00E3;o pulsional que busca anular toda e qualquer alteridade que adv&#x00E9;m do outro, isto &#x00E9;, de mecanismos identificat&#x00F3;rios. &#x00C9; pela discursividade da liberdade como propriedade, portanto, que o fen&#x00F4;meno armamentista encontra sustenta&#x00E7;&#x00E3;o, pois, na exalta&#x00E7;&#x00E3;o do Eu e de suas posses, ocorre a tentativa de romper com a singularidade; &#x00E9; pelo afastamento do outro &#x2014; pela suposi&#x00E7;&#x00E3;o de seu apagamento, por meio da destrutividade causada pela arma de fogo &#x2014; que o Eu encontra uma sa&#x00ED;da para anular o enla&#x00E7;amento do pacto civilizacional. Al&#x00E9;m disso, o Supereu, nessa din&#x00E2;mica, trabalha incansavelmente para a interposi&#x00E7;&#x00E3;o da consolida&#x00E7;&#x00E3;o do gozo advindo da ideia de autodestrui&#x00E7;&#x00E3;o. O armamentismo &#x00E9;, antes, a muni&#x00E7;&#x00E3;o do Eu ante sua condi&#x00E7;&#x00E3;o distinta.</p>
</sec>
<sec id="sec-5-2121">
<title><bold>C<sc>onsidera&#x00E7;&#x00F5;es finais</sc></bold></title>
<p>A an&#x00E1;lise do fen&#x00F4;meno do armamentismo, aqui empreendida sob a &#x00F3;tica do neoliberalismo, revela um esfor&#x00E7;o individual para se desvencilhar da alteridade, ou seja, da capacidade de reconhecer e internalizar a exist&#x00EA;ncia do outro como distinto de si mesmo. Este movimento &#x00E9; impulsionado pelo modelo do Capital, que valoriza a competi&#x00E7;&#x00E3;o e o consumismo, enfatizando a no&#x00E7;&#x00E3;o de que a liberdade individual &#x00E9; sin&#x00F4;nimo de autodom&#x00ED;nio.</p>
<p>Segundo a psican&#x00E1;lise freudiana, o Eu &#x00E9; uma inst&#x00E2;ncia ps&#x00ED;quica que busca equilibrar as demandas do Isso, as proibi&#x00E7;&#x00F5;es do Supereu e a realidade externa. No contexto neoliberal, a competitividade e o imperativo de autoaperfei&#x00E7;oamento levam o Eu a um estado de paranoia, caracterizado por uma rela&#x00E7;&#x00E3;o conflituosa tanto com o outro quanto consigo mesmo. Esse estado de paranoia &#x00E9; marcado por uma constante vigil&#x00E2;ncia e defesa contra amea&#x00E7;as percebidas, tanto internas quanto externas.</p>
<p>Como consequ&#x00EA;ncia dessa din&#x00E2;mica, observa-se uma melancoliza&#x00E7;&#x00E3;o das rela&#x00E7;&#x00F5;es sociais, em que a depress&#x00E3;o emerge como uma condi&#x00E7;&#x00E3;o para o Eu posicionar-se perante si e perante o outro. Essa conjuntura &#x00E9; frequentemente acompanhada por um sentimento de desalento, uma vez que a busca incessante por autoafirma&#x00E7;&#x00E3;o e reconhecimento pode resultar em isolamento e desesperan&#x00E7;a.</p>
<p>Portanto, o armamentismo &#x00E9; um sintoma do sistema de produ&#x00E7;&#x00E3;o contempor&#x00E2;neo, que se fundamenta no princ&#x00ED;pio do Eu como entidade aut&#x00F4;noma e autossuficiente. Essa perspectiva, embora promova a ideia de liberdade individual, paradoxalmente, conduz a um estado de aliena&#x00E7;&#x00E3;o e descontentamento, &#x00E0; medida que o indiv&#x00ED;duo se distancia da alteridade e, assim, busca o rompimento do la&#x00E7;o com o outro e consigo mesmo.</p>
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<p><bold>F<sc>inanciamento</sc></bold></p>
<p>Coordena&#x00E7;&#x00E3;o de Aperfei&#x00E7;oamento de Pessoal de N&#x00ED;vel Superior (CAPES).</p>
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<title><bold>R<sc>efer&#x00EA;ncias</sc></bold></title>
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