<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?>
<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.1 20151215//EN" "JATS-journalpublishing1.dtd">
<article article-type="research-article" dtd-version="1.1" specific-use="sps-1.9" xml:lang="pt" xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink">
<front>
<journal-meta>
<journal-id journal-id-type="publisher-id">QPs</journal-id>
<journal-title-group>
<journal-title>Quaderns de Psicologia</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">qpsicologia</abbrev-journal-title>
</journal-title-group>
<issn pub-type="ppub">0211-3481</issn>
<issn pub-type="epub">2014-4520</issn>
<publisher>
<publisher-name>Universitat Aut&#x00F2;noma de Barcelona</publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id pub-id-type="publisher-id">QPs.1810</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.5565/rev/qpsicologia.1810</article-id>
<article-categories>
<subj-group subj-group-type="heading">
<subject>Articles</subject>
</subj-group>
</article-categories>
<title-group>
<article-title>O deixar-se cair e a estrutura do ato suicida</article-title>
<trans-title-group>
<trans-title xml:lang="en"><italic>Letting oneself fall and the structure of the suicidal act</italic></trans-title>
</trans-title-group>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author" corresp="yes">
<contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0003-3654-6948</contrib-id>
<name>
<surname>Ra&#x00F1;a</surname>
<given-names>Lu&#x00ED;sa Monte Real</given-names>
</name>
<bio><p>Psic&#x00F3;loga graduada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)</p></bio>
<email>luisa.rana@hotmail.com</email>
<xref ref-type="aff" rid="aff1"/>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0002-6470-861X</contrib-id>
<name>
<surname>Silva</surname>
<given-names>Nat&#x00E1;lia Pereira da</given-names>
</name>
<bio><p>Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)</p>
<p>Psic&#x00F3;loga graduada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)</p></bio>
<email>nataliapsiuerj@gmail.com</email>
<xref ref-type="aff" rid="aff1"/>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0002-5369-2915</contrib-id>
<name>
<surname>Brunhari</surname>
<given-names>Marcos Vinicius</given-names>
</name>
<bio><p>Professor Adjunto do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Membro do Programa de P&#x00F3;s-gradua&#x00E7;&#x00E3;o em Psican&#x00E1;lise da UERJ.</p></bio>
<email>mvbrunhari@gmail.com</email>
<xref ref-type="aff" rid="aff1"/>
</contrib>
<aff id="aff1">
<institution content-type="original">Universidade do Estado do Rio de Janeiro</institution>
<institution content-type="orgname">Universidade do Estado do Rio de Janeiro</institution>
<country>&#x00A0;</country>
</aff>
</contrib-group>
<pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
<day>06</day>
<month>03</month>
<year>2023</year>
</pub-date>
<pub-date publication-format="electronic" date-type="collection">
<year>2023</year>
</pub-date>
<volume>25</volume>
<issue>1</issue>
<elocation-id>e1810</elocation-id>
<history>
<date date-type="received">
<day>18</day>
<month>03</month>
<year>2021</year>
</date>
<date date-type="rev-request">
<day>10</day>
<month>06</month>
<year>2021</year>
</date>
<date date-type="accepted">
<day>25</day>
<month>01</month>
<year>2022</year>
</date>
</history>
<permissions>
<copyright-statement>&#x00A9; 2023 Els autors / The authors</copyright-statement>
<copyright-year>2023</copyright-year>
<license license-type="open-access" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.en" xml:lang="pt">
<license-p>Aquesta obra est&#x00E0; sota una llic&#x00E8;ncia internacional Creative Commons Reconeixement 4.0. CC BY</license-p>
</license>
</permissions>
<abstract>
<title><bold>Resumo</bold></title>
<p>O trabalho tem como prop&#x00F3;sito discutir o suic&#x00ED;dio e sua estrutura de ato, adotando como premissa que a satisfa&#x00E7;&#x00E3;o presente na autopuni&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; indutora da perspectiva lacaniana sobre passagem ao ato e acting out. Para a constru&#x00E7;&#x00E3;o deste estudo, tomou-se como base a metapsicologia da melancolia em sua diferencia&#x00E7;&#x00E3;o do luto, o mito de &#x00C1;jax, de S&#x00F3;focles, e o caso freudiano da Jovem Homossexual, para explorar o posicionamento do Eu e do objeto como engrenagem intr&#x00ED;nseca ao ato suicida. Dado que Ajax se deixa cair sobre a espada e a Jovem Homossexual sobrevive ap&#x00F3;s se atirar de uma ponte, o que se percebe &#x00E9; que h&#x00E1; na queda o desfecho de algo que n&#x00E3;o mais seria suport&#x00E1;vel. &#x00C9; neste movimento que a constitui&#x00E7;&#x00E3;o do Eu &#x00E9; atravessada e o sujeito lan&#x00E7;a-se para fora da cena, ao se identificar ao objeto <italic>a</italic>, em uma &#x00FA;ltima sa&#x00ED;da.</p>
</abstract>
<trans-abstract xml:lang="en">
<title><bold><italic>Abstract</italic></bold></title>
<p><italic>The purpose of this work is to discuss the suicide and its structure of the act, taking as its premise that the satisfaction present in self-punishment introduces the Lacanian perspective on passage to the act and acting out. For the construction of this study, the metapsychology of melancholia in its differentiation from the mourning process, the myth of Ajax, of Sophocles, and the Freudian case about the Young Homosexual Woman were used as basis, to explore the positioning of the Ego and the object as intrinsic gear to the suicidal act. Given that Ajax lets himself fall on the sword and the Young Homosexual Woman survives after throwing herself off a bridge, what is noticeable is that there is in the fall the outcome of something that would no longer be bearable. It is in this movement that the egoic constitution is transposed and the subject throws himself out of the scene, by identifying himself with object a, in a last exit.</italic></p>
</trans-abstract>
<kwd-group xml:lang="pt">
<title>Palavras-chave:</title>
<kwd><bold>Melancolia</bold></kwd>
<kwd><bold>Psican&#x00E1;lise</bold></kwd>
<kwd><bold>Suic&#x00ED;dio</bold></kwd>
<kwd><bold>Passagem ao ato</bold></kwd>
</kwd-group>
<kwd-group xml:lang="en">
<title><italic>Keywords:</italic></title>
<kwd><bold><italic>Melancholy</italic></bold></kwd>
<kwd><bold><italic>Psychoanalysis</italic></bold></kwd>
<kwd><bold><italic>Suicide</italic></bold></kwd>
<kwd><bold><italic>Passage to the act</italic></bold></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front>
<body>
<sec id="sec-1-1810" sec-type="intro">
<title><bold>I<sc>ntrodu&#x00E7;&#x00E3;o</sc></bold></title>
<p>Esse estudo &#x00E9; derivado do Projeto de Extens&#x00E3;o &#x201C;A cl&#x00ED;nica do ato suicida&#x201D;<xref ref-type="fn" rid="fn-1-1810"><sup>1</sup></xref>, vinculado ao Laborat&#x00F3;rio de Psican&#x00E1;lise e Sa&#x00FA;de da UERJ (LaPSa), que se prop&#x00F5;e a promover e a articular pesquisa, forma&#x00E7;&#x00E3;o e aprimoramento de pr&#x00E1;ticas cl&#x00ED;nicas voltadas aos pacientes com hist&#x00F3;rico de tentativa(s) de suic&#x00ED;dio. A partir da perspectiva psicanal&#x00ED;tica que se debru&#x00E7;a sobre a obra de Freud, particularmente &#x201C;Luto e melancolia&#x201D; (1917/2019), e tra&#x00E7;ando um percurso at&#x00E9; o ensino de Lacan, em seu &#x201C;O Semin&#x00E1;rio, livro 10: a ang&#x00FA;stia&#x201D; (1962-1963/2005), este artigo tem como objetivo discutir o suic&#x00ED;dio e sua estrutura de ato. Procura-se circunscrever a rela&#x00E7;&#x00E3;o da melancolia com o ato, uma vez que esta apresenta uma din&#x00E2;mica de autopuni&#x00E7;&#x00E3;o na qual a sombra do objeto recobre o Eu em um processo que aponta para a possibilidade de se autodestruir.</p>
<p>Desde a proposta de articula&#x00E7;&#x00E3;o entre a metapsicologia da melancolia e a conceitua&#x00E7;&#x00E3;o lacaniana de passagem ao ato (<xref ref-type="bibr" rid="ref-1-1810">Brunhari, 2018</xref>), buscamos localizar a irredutibilidade dessa posi&#x00E7;&#x00E3;o em que o sujeito deixa-se cair para fora da cena do Outro desvelando algo da ordem do insuport&#x00E1;vel como fulgurante no ato suicida. O irredut&#x00ED;vel ao significante &#x00E9; crucial do ato suicida e seu estatuto real pode ser aqui pensado a partir da refer&#x00EA;ncia ao mito e &#x00E0; cl&#x00ED;nica. Tomou-se, assim, como base para a constru&#x00E7;&#x00E3;o deste argumento, o mito de &#x00C1;jax de <xref ref-type="bibr" rid="ref-11-1810">S&#x00F3;focles (1993)</xref> e o caso da Jovem Homossexual, descrito no artigo de Freud &#x201C;Sobre a psicog&#x00EA;nese de um caso de homossexualidade feminina&#x201D; (1920/2019). Ambos s&#x00E3;o oportunos ao intento de sustentar a proposta em torno da irredutibilidade ao significante que localiza o objeto <italic>a</italic> como central no momento do ato suicida.</p>
</sec>
<sec id="sec-2-1810">
<title><bold>A <sc>melancolia e o trabalho de luto</sc></bold></title>
<p>O luto, segundo Freud (1917/2019), &#x00E9; um processo n&#x00E3;o patol&#x00F3;gico que se estabelece como a rea&#x00E7;&#x00E3;o frente &#x00E0; perda de um objeto amado, reconhecido como um ente querido ou uma representa&#x00E7;&#x00E3;o, enquanto a melancolia se caracteriza como uma perda de natureza ideal e como um quadro patol&#x00F3;gico. Essa diferencia&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; relevante na medida em que oferece um lugar leg&#x00ED;timo ao luto como um momento comum de sofrimento: &#x201C;confiamos que ele ter&#x00E1; sido superado depois de certo tempo e consideramos sem prop&#x00F3;sito e mesmo prejudicial perturb&#x00E1;-lo&#x201D; (Freud, 1917/2019, p. 100). J&#x00E1; a melancolia, por seu turno, se caracteriza como um forte des&#x00E2;nimo, em um momento extremamente doloroso no qual h&#x00E1; o embotamento de si, desinteresse pela vida e um esvaziamento de sentido; h&#x00E1; um forte investimento de autorrecrimina&#x00E7;&#x00E3;o, podendo atingir uma delirante experi&#x00EA;ncia de puni&#x00E7;&#x00E3;o. Ocorre a perda da capacidade de amar e investir libidinalmente, bem como uma diminui&#x00E7;&#x00E3;o consider&#x00E1;vel do sentimento de si. Este &#x00FA;ltimo ganha destaque, pois &#x00E9; aquilo que se op&#x00F5;e ao quadro do luto.</p>
<p>Interessante pensar que a palavra &#x201C;luto&#x201D;, em portugu&#x00EA;s, pode ser tamb&#x00E9;m a conjuga&#x00E7;&#x00E3;o no presente da Primeira Pessoa do Singular do verbo &#x201C;lutar&#x201D;, podendo se servir dessa compara&#x00E7;&#x00E3;o para expressar que h&#x00E1; uma luta interna, um trabalho, uma grande for&#x00E7;a processando e rearranjando isso que se perdeu e que passa a causar sofrimento. &#x00C9; essa dimens&#x00E3;o de esfor&#x00E7;o e de trabalho que Freud (1917/2019) percebe atrelado ao luto, e que o garante enquanto um processo de elabora&#x00E7;&#x00E3;o, no qual a fun&#x00E7;&#x00E3;o se apresenta a partir da perda de um objeto amoroso, passando a ser redirecionada, doravante, a libido, antes ali investida. Esta n&#x00E3;o &#x00E9; uma tarefa f&#x00E1;cil para o Eu, que sofre e luta contra a separa&#x00E7;&#x00E3;o. Em alguns casos, se encontra de forma t&#x00E3;o intensa essa recusa que h&#x00E1;, at&#x00E9; mesmo, um afastamento da realidade o que chega a reproduzir &#x201C;uma psicose alucinat&#x00F3;ria de desejo&#x201D; (Freud, 1917/2019, p. 101), em uma tentativa de garantir um reencontro com o que se perdeu. Nos termos de uma economia, h&#x00E1; de fato um grande desprazer em realizar tal processo e, encerrado o trabalho com o desprendimento e uma reorganiza&#x00E7;&#x00E3;o libidinal, o Eu se reencontra livre e renovado.</p>
<p>Na metapsicologia da melancolia, segundo Freud (1917/2019), o que se apresenta enquanto perda n&#x00E3;o se confere como dado de realidade, n&#x00E3;o se sabe ao certo o que se perdeu, mas, mais do que isso, o que exatamente se perdeu nisso que se foi. Tanto no luto quanto na melancolia se apresenta um absorvimento do Eu por conta da inibi&#x00E7;&#x00E3;o e falta de interesse que a perda proporciona. Mas, a condi&#x00E7;&#x00E3;o enigm&#x00E1;tica da melancolia torna tudo mais turvo e intenso pelo esvaziamento, em um processo &#x201C;auto&#x201D;, do sentimento de si. Segundo o psicanalista, &#x201C;no luto, o mundo se tornou pobre e vazio; na melancolia, foi o pr&#x00F3;prio Eu&#x201D; (1917/2019, p. 102). Trata-se nisto de uma diferencia&#x00E7;&#x00E3;o que incide sobre a cl&#x00ED;nica, visto localizar o Eu e a determina&#x00E7;&#x00E3;o de seu sofrimento em uma estrutura que comporta o objeto e certa temporalidade.</p>
<p>A devasta&#x00E7;&#x00E3;o causada pela perda de objeto na melancolia &#x00E9; metaforizada como ferida aberta, em outras palavras, em forma de um excesso que n&#x00E3;o pode ser barrado, por uma &#x0022;insufici&#x00EA;ncia de representa&#x00E7;&#x00F5;es&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-8-1810">Lambotte, 1997</xref>, p. 146), funcionando como uma hemorragia que gera um esvaimento no Eu (<xref ref-type="bibr" rid="ref-3-1810">Freud, 1895/1996</xref>). A luta para manter o objeto presente abre a ferida dolorosa que n&#x00E3;o pode ser estancada at&#x00E9; que as representa&#x00E7;&#x00F5;es tenham se reduzido; um enorme gasto de energia &#x00E9; colocado em cena na tentativa da manuten&#x00E7;&#x00E3;o de algo relativo ao objeto. Perante a amplitude da dor, o que resta ao Eu &#x00E9; a busca arrebatadora para defender a preserva&#x00E7;&#x00E3;o e presen&#x00E7;a do objeto que se perdera, ainda que, para isso, seja fundamental recusar a realidade da aus&#x00EA;ncia. &#x00C9; pela identifica&#x00E7;&#x00E3;o com o objeto perdido que se encontra a possibilidade de burlar a arrebatadora verdade do processo melanc&#x00F3;lico.</p>
<p>Ao manter o objeto presente por meio de sua incorpora&#x00E7;&#x00E3;o, o Eu opera sobre a dor ocasionada pela aus&#x00EA;ncia imposta pela realidade rigorosa cuja sinaliza&#x00E7;&#x00E3;o revela que o objeto n&#x00E3;o existe mais. O processo de identifica&#x00E7;&#x00E3;o melanc&#x00F3;lica ao objeto se evidencia como sa&#x00ED;da pautada em um processo narc&#x00ED;sico de retorno ao Eu e origin&#x00E1;ria de efeitos devastadores. Concomitantemente &#x00E0; introje&#x00E7;&#x00E3;o do objeto em nome da manuten&#x00E7;&#x00E3;o do amor, o &#x00F3;dio a este que o abandonou &#x00E9; voltado, em um processo auto, ao pr&#x00F3;prio Eu. &#x00C9; assim que a sombra do objeto se sobrep&#x00F5;e ao Eu melanc&#x00F3;lico de maneira avassaladora, na medida em que a desfus&#x00E3;o pulsional possibilita a manuten&#x00E7;&#x00E3;o do objeto que, por sua vez, passa a ser sadicamente atacado pelo pr&#x00F3;prio Eu. Destaca-se que a identifica&#x00E7;&#x00E3;o melanc&#x00F3;lica &#x00E9; como a sombra do objeto que, desde ent&#x00E3;o, passa a eclipsar o Eu em uma profus&#x00E3;o de esvaziamento simb&#x00F3;lico e imagin&#x00E1;rio.</p>
<p>Na melancolia, o outro &#x00E9; amado, mas &#x00E9; tamb&#x00E9;m odiado por ter abandonado o Eu, h&#x00E1; ambival&#x00EA;ncia. O Eu se autopune, se agride sadicamente na tentativa de manter o objeto. Frente a isso surge um impasse, pois torturar o objeto na melancolia significa tamb&#x00E9;m se torturar. Nesse caso, satisfa&#x00E7;&#x00F5;es s&#x00E1;dicas e masoquistas se encontram presentes e alimentadas pelos pares de opostos: o &#x00F3;dio e o amor. Quando o &#x00F3;dio se converte em ataques ao objeto, o pr&#x00F3;prio retorno ao Eu se inscreve como possibilidade de amenizar a agressividade voltada ao objeto. Sofrer e se punir pelos ataques &#x00E9; preservar e colocar em evid&#x00EA;ncia o amor que o Eu n&#x00E3;o abre m&#x00E3;o de nutrir, embora se coloque em posi&#x00E7;&#x00E3;o de abrir m&#x00E3;o de si. O componente s&#x00E1;dico &#x00E9; preponderante no processo melanc&#x00F3;lico e, concomitante, o masoquismo na posi&#x00E7;&#x00E3;o do Eu como fator crucial na compreens&#x00E3;o de que h&#x00E1; uma satisfa&#x00E7;&#x00E3;o no processo de autodestrui&#x00E7;&#x00E3;o promovido pelo Eu no processo melanc&#x00F3;lico. Isto ser&#x00E1; discutido a partir dos pr&#x00F3;ximos t&#x00F3;picos em que nos ocuparemos do mito de &#x00C1;jax, de S&#x00F3;focles, e do caso da Jovem Homossexual (Freud, 1920/2019) com o objetivo de discutir o processo identificat&#x00F3;rio da melancolia como fundamento para articular conceitualmente a passagem ao ato suicida.</p>
</sec>
<sec id="sec-3-1810">
<title><bold>&#x00C1;<sc>jax e a sombra do objeto</sc></bold></title>
<p>Para guiar e aprofundar a discuss&#x00E3;o, introduz-se aqui &#x00C1;jax, a trag&#x00E9;dia de <xref ref-type="bibr" rid="ref-11-1810">S&#x00F3;focles (1993)</xref>. &#x00C1;jax, filho de Telamon, &#x00E9; um personagem da mitologia grega com presen&#x00E7;a na trag&#x00E9;dia de S&#x00F3;focles em que retrata uma perda de raz&#x00E3;o. A trag&#x00E9;dia se apresenta a partir do enfurecimento de &#x00C1;jax, que est&#x00E1; pr&#x00F3;ximo a Troia, pois os chefes gregos haviam tomado a decis&#x00E3;o de entregar as armas de Aquiles, que havia morrido, para Odisseu. Com isso, &#x00C1;jax decide que ir&#x00E1; assassinar Agam&#x00EA;mnon, que &#x00E9; comandante das guerras, junto de seu irm&#x00E3;o Menelau, al&#x00E9;m de outros chefes. Por&#x00E9;m, Atena vem em defesa e boicota &#x00C1;jax por meio de uma ilus&#x00E3;o, fazendo-o matar um rebanho de carneiros, enquanto pensava matar seus inimigos. Quando sua vis&#x00E3;o volta ao normal, o personagem central se encontra com o que realmente havia assassinado, e n&#x00E3;o podendo suportar ver o que havia feito, resolve tirar sua pr&#x00F3;pria vida lan&#x00E7;ando-se sobre a espada presa no ch&#x00E3;o. Teucro, seu meio-irm&#x00E3;o, tenta impedir que &#x00C1;jax se suicide. Sem &#x00EA;xito, decide que ir&#x00E1; sepult&#x00E1;-lo, ainda que tenha que contrariar as ordens de Menelau e Agam&#x00EA;mnon. Desenrola-se uma discuss&#x00E3;o entre eles a respeito do sepultamento do cad&#x00E1;ver, mas Odisseu interv&#x00E9;m convencendo a respeito de que fosse permitido o funeral.</p>
<p>O que se destaca aqui &#x00E9; que, ap&#x00F3;s a recupera&#x00E7;&#x00E3;o da alucina&#x00E7;&#x00E3;o causada por Atena, &#x00C1;jax se arrepende de seu feito. Deparar-se com a verdade &#x00E9; fundamental no desdobramento rumo ao ato suicida e nos sugere que o feito heroico se desvanece revelando um resto insuport&#x00E1;vel. Tal como no processo melanc&#x00F3;lico, em que h&#x00E1; algo preservado pela via da identifica&#x00E7;&#x00E3;o em nome da manuten&#x00E7;&#x00E3;o do amor, o insuport&#x00E1;vel de uma perda torna-se imperante at&#x00E9; o ponto em que o Eu se coloca a perder-se. &#x00C1;jax n&#x00E3;o suporta uma perda de ordem ideal: ao se iludir como her&#x00F3;i e fazer justi&#x00E7;a com as pr&#x00F3;prias m&#x00E3;os defronta-se com a brusca destitui&#x00E7;&#x00E3;o de si. Isso aparece quando pensa em sua imagem, sendo zombado por seus inimigos e pela cidade de Troia, se sente desonrado perante todos e principalmente, seu pai.</p>
<disp-quote><p>Meu pai voltou h&#x00E1; algum tempo desta terra pr&#x00F3;xima ao Ida, onde com sua bravura fez jus ao primeiro lugar entre os soldados vindos da Gr&#x00E9;cia antes desta expedi&#x00E7;&#x00E3;o, trazendo para sua casa grande gl&#x00F3;ria sem qualquer m&#x00E1;cula. E eu, sendo seu filho, dotado de valor igual, cheguei a Troia, e aqui meu bra&#x00E7;o realizou feitos dignos dos dele, mas agora estou aqui, morrendo, v&#x00ED;tima do desprezo dos chefes argivos! (<xref ref-type="bibr" rid="ref-11-1810">S&#x00F3;focles, 1993</xref>, pp. 96-97, versos 590-595)</p></disp-quote>
<p>&#x00C1;jax passa por uma tortuosa autopuni&#x00E7;&#x00E3;o assim como prop&#x00F4;s Freud (1917/2019) na melancolia, onde o Eu se sente totalmente incapaz, se humilha, n&#x00E3;o &#x00E9; digno nem merecedor do amor de seus entes queridos. O sofrimento com a desonra, para &#x00C1;jax, &#x00E9; t&#x00E3;o impiedoso, que no suic&#x00ED;dio encontrou o fim de sua dor e o restabelecimento da sua honra. Freud aponta que na melancolia o Eu se humilha e se sente uma pessoa insuficiente, n&#x00E3;o merecedora de seus familiares. Pode-se articular esse aspecto nas falas de &#x00C1;jax que chega a se perguntar como &#x00E9; que teria coragem de ver seu pai depois do que havia cometido: &#x201C;As divindades obviamente me detestam; todo o ex&#x00E9;rcito dos gregos me abomina; sou odiado pela cidade de Troia e por esta plan&#x00ED;cie onde combatemos&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-11-1810">S&#x00F3;focles, 1993</xref>, p. 97).</p>
<p>Um importante fator que Freud destaca no envilecimento de si do melanc&#x00F3;lico &#x00E9; que h&#x00E1; uma verdade, uma raz&#x00E3;o do sujeito de pensar isso de si mesmo, h&#x00E1; uma incapacidade de amar. Freud diz at&#x00E9; mesmo que o melanc&#x00F3;lico parece ter chegado a um autoconhecimento, a quest&#x00E3;o seria a causa de tamanho sofrimento ao se deparar com a verdade de si, &#x201C;Ele perdeu o respeito de si mesmo e deve ter tido um bom motivo para isso&#x201D; (Freud, 1917/2019, p. 104). Destaca-se aqui, o que Freud percebe de maneira sens&#x00ED;vel a respeito da dura autorrecrimina&#x00E7;&#x00E3;o do melanc&#x00F3;lico, isto que em sua obra ganhara o estatuto de Supereu. No aparelho ps&#x00ED;quico &#x00E9; apresentado uma divis&#x00E3;o do Eu, em que parte se dirige &#x00E0; outra vociferando cr&#x00ED;ticas morais e punitivas. Essa puni&#x00E7;&#x00E3;o est&#x00E1; atrelada ao &#x00F3;dio que seria dirigido ao objeto perdido e que, por isso, permite que haja falta de arrependimentos nas autoacusa&#x00E7;&#x00F5;es do melanc&#x00F3;lico. O &#x00F3;dio que poderia ser dirigido para realizar uma separa&#x00E7;&#x00E3;o, uma desilus&#x00E3;o, &#x00E9; retido no pr&#x00F3;prio Eu em uma supervaloriza&#x00E7;&#x00E3;o do sofrimento e do sacrif&#x00ED;cio de si. Assim como &#x00C1;jax se coloca entregue aos deuses, o Eu se autodeprecia julgando-se indigno aos olhos de outro.</p>
<p>Segundo Freud (1917/2019), &#x201C;no melanc&#x00F3;lico, quase que se poderia destacar o tra&#x00E7;o oposto, o de uma premente comunicabilidade, que encontra certo apaziguamento [<italic>Befriedigung</italic>] na exposi&#x00E7;&#x00E3;o de si mesmo&#x201D; (p. 104). A satisfa&#x00E7;&#x00E3;o na autodeprecia&#x00E7;&#x00E3;o se apresenta como sentimento de ofensa, como se o Eu fosse v&#x00ED;tima de uma grande injusti&#x00E7;a, sente pena de si mesmo e a pr&#x00F3;pria piedade muitas vezes tem um ar de desprezo. Essa caracter&#x00ED;stica pode ser notada em &#x00C1;jax que sente grande pesar em ser quem &#x00E9; na vida em que vive, e com o orgulho ferido por se ver enquanto perdedor de seus inimigos, cai v&#x00ED;tima de sua pr&#x00F3;pria ira. Em seu ato, a morte &#x00E9; o desdobramento da injusti&#x00E7;a acometida contra ele, o her&#x00F3;i, como se denominava, encontrando apenas na morte a solu&#x00E7;&#x00E3;o. &#x00C1;jax cai sobre sua pr&#x00F3;pria espada bem como os inimigos eram golpeados em sua alucina&#x00E7;&#x00E3;o ao atacar o rebanho. &#x00C9; como se &#x00C1;jax se tornasse inimigo de si e se sacrificasse como um carneiro. &#x00C9; poss&#x00ED;vel questionar se o ato de &#x00C1;jax seria endere&#x00E7;ado aos inimigos e a Atena para que sentissem remorso pela perda de um grande her&#x00F3;i. Seria esta uma maneira de preservar-se como her&#x00F3;i: &#x201C;&#x00E9; realmente vergonhoso querer viver por muito tempo quando a vida &#x00E9; uma sucess&#x00E3;o constante de amarguras. Que prazer nos traria o perpassar dos dias se eles nos afastam da morte fatal apenas para ouvirmos express&#x00F5;es de esc&#x00E1;rnio?&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-11-1810">S&#x00F3;focles, 1993</xref>, p. 98).</p>
<p>O carneiro &#x00E9; a presa e, em posi&#x00E7;&#x00E3;o similar, &#x00C1;jax se colocava como v&#x00ED;tima diante de Agam&#x00EA;mnon e manipulado por Atena. &#x00C1;jax perde a si mesmo no momento em que se coloca apenas como igual ao objeto perdido. O que pode ser lido em &#x00C1;jax &#x00E9; o empobrecimento do Eu no processo melanc&#x00F3;lico que aponta a dimens&#x00E3;o no ato suicida a partir da identifica&#x00E7;&#x00E3;o com o que deveria ter morrido e com o que morreu, de fato; respectivamente, ele se sacrifica se equivalendo aos inimigos, assim como deixa-se cair sobre a l&#x00E2;mina de sua arma, se reduzindo &#x00E0; morte dos carneiros. Frisamos que, quando Freud prop&#x00F5;e a identifica&#x00E7;&#x00E3;o do Eu ao objeto na melancolia, menciona-se que &#x201C;a sombra do objeto caiu sobre o Eu&#x201D; (Freud, 1917/2019, p. 107). Nesse sentido, h&#x00E1; a afirma&#x00E7;&#x00E3;o de Odisseu, sobre o sofrimento de &#x00C1;jax, que tamb&#x00E9;m remete a essa condi&#x00E7;&#x00E3;o sombria: &#x201C;somos sombras ou ef&#x00EA;meros fantasmas vivendo a nossa vida como os deuses querem&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-11-1810">S&#x00F3;focles, 1993</xref>, p. 83).</p>
<p>Freud prop&#x00F5;e que essa posi&#x00E7;&#x00E3;o s&#x00E1;dica &#x00E9; central no suic&#x00ED;dio entendido a partir da metapsicologia da melancolia. A quest&#x00E3;o que se abre &#x00E9;, como o Eu que em sua origem &#x00E9; investido por uma grande carga de libido narc&#x00ED;sica o protegendo, e que dedica um forte amor a si mesmo, pode chegar a decidir por destruir a si mesmo? O que a melancolia mostra &#x00E9; que o Eu apenas alcan&#x00E7;a tais condi&#x00E7;&#x00F5;es ao realizar uma regress&#x00E3;o, direcionando a si uma hostilidade primariamente dirigida ao mundo externo e, em seguida, voltada aos objetos. Em um ditado de origem desconhecida afirma-se que &#x201C;guardar ressentimento &#x00E9; como beber veneno e esperar que a outra pessoa morra&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-2-1810">Bodhipaksa, 2012</xref>)<xref ref-type="fn" rid="fn-2-1810"><sup>2</sup></xref> e isso pode ser alinhado ao que temos destacado sobre a melancolia em que o Eu, antes, deseja a morte de um outro, mas acaba por condenar a si pr&#x00F3;prio. Freud refor&#x00E7;a esse movimento ao escrever que &#x201C;na regress&#x00E3;o da escolha narc&#x00ED;sica de objeto, o objeto foi de fato suspenso [<italic>aufgehoben</italic>], mas provou ser mais poderoso do que o pr&#x00F3;prio Eu&#x201D; (Freud, 1917/2019, p. 111). &#x00C9; sob o imp&#x00E9;rio da sombra do objeto que o Eu pode enveredar ao decl&#x00ED;nio de si e, como indicaremos no pr&#x00F3;ximo t&#x00F3;pico, essa din&#x00E2;mica de foro metapiscol&#x00F3;gico encontra na conceitua&#x00E7;&#x00E3;o de passagem ao ato uma estrutura.</p>
</sec>
<sec id="sec-4-1810">
<title><bold>A <sc>queda da Jovem Homossexual</sc></bold></title>
<p>A partir da conceitua&#x00E7;&#x00E3;o de melancolia e em sua compara&#x00E7;&#x00E3;o ao luto, &#x00E9; poss&#x00ED;vel explorar e destacar elementos importantes que s&#x00E3;o aprofundados no artigo de Freud (1920/2019) &#x201C;Sobre a psicog&#x00EA;nese de um caso de homossexualidade feminina&#x201D;. Pretendemos avan&#x00E7;ar sobre isso e ampliar a discuss&#x00E3;o sobre o ato suicida j&#x00E1; que, diferentemente de &#x00C1;jax, a Jovem Homossexual fala sobre seu ato posteriormente &#x00E0; tentativa de suic&#x00ED;dio.</p>
<p>A ida da jovem ao encontro de Freud acontece atrav&#x00E9;s do pai que, meio ano depois da tentativa de suic&#x00ED;dio da jovem, vai &#x00E0; procura de um m&#x00E9;dico para tentar conduzi-la ao imperativo padr&#x00E3;o social de normalidade, pois se preocupava com sua conduta amorosa. O pai se portava de maneira r&#x00ED;gida diante da homossexualidade da filha, tentando a qualquer custo a combater por medidas rigorosas. J&#x00E1; a m&#x00E3;e, n&#x00E3;o se opunha &#x00E0; orienta&#x00E7;&#x00E3;o sexual da filha &#x2014; inclusive j&#x00E1; havia sido sua confidente &#x2014;, no entanto se fez contr&#x00E1;ria a isso quando a inclina&#x00E7;&#x00E3;o da jovem se tornou declarada publicamente. Algo que chamava muito aten&#x00E7;&#x00E3;o da jovem em sua m&#x00E3;e, era a diferen&#x00E7;a com que tratava seus filhos. Enquanto os meninos pareciam receber muitos cuidados, a m&#x00E3;e era totalmente fria com a filha e a via como uma rival que interferia na rela&#x00E7;&#x00E3;o dela com o pai.</p>
<p>A jovem n&#x00E3;o esbo&#x00E7;ava ter interesse algum pelo sexo masculino, e nem mesmo parecia ter vergonha ou ser discreta quando caminhava publicamente com certa dama de n&#x00E3;o grata reputa&#x00E7;&#x00E3;o na sociedade, e que era dona de uma grande admira&#x00E7;&#x00E3;o por parte da jovem. N&#x00E3;o seria a primeira vez que seus pais verificavam essa sua inclina&#x00E7;&#x00E3;o e prefer&#x00EA;ncia para o sexo feminino e, muito embora fosse algo que preocupava a fam&#x00ED;lia de alta posi&#x00E7;&#x00E3;o na sociedade, n&#x00E3;o se mostrava vi&#x00E1;vel para Freud uma proposta de revers&#x00E3;o da homossexualidade bem como n&#x00E3;o &#x00E9; poss&#x00ED;vel tal ajuste na escolha objetal da heterossexualidade.</p>
<p>Por outro lado, Freud se viu diante de um caso muito importante e interessante a respeito do ato suicida. A tentativa de suic&#x00ED;dio ocorreu quando ela estava passeando com a dama e, em um encontro que n&#x00E3;o era improv&#x00E1;vel, o pai dirigiu um olhar de reprova&#x00E7;&#x00E3;o para a sua filha. A dama, ao perceber a situa&#x00E7;&#x00E3;o, sustenta e reafirma a posi&#x00E7;&#x00E3;o do pai da jovem encerrando o que acontece entre elas. Diante disso, a jovem corre e se joga de uma ponte sob a qual passava uma linha f&#x00E9;rrea. Essa tentativa fracassada de suic&#x00ED;dio gera modifica&#x00E7;&#x00F5;es em sua posi&#x00E7;&#x00E3;o diante dos pais e da dama idealizada. Os pais n&#x00E3;o a contrariavam com tanta brutalidade quanto antes e, no entanto, n&#x00E3;o parecia ser isto que a faria alterar a escolha objetal; por isso procuraram Freud. Ademais, a dama reavaliou a recusa e continuou com a amizade, comovida por tamanha paix&#x00E3;o demonstrada em um ato atroz.</p>
<p>Observa-se que a tentativa de suic&#x00ED;dio causa resson&#x00E2;ncia, mas, al&#x00E9;m disso, o momento do ato n&#x00E3;o deixa de ser objeto de interesse para Freud. Propomos aqui que &#x00E9; nesse instante que seu mundo caiu, parafraseando a cantora <xref ref-type="bibr" rid="ref-9-1810">Maysa (1958)</xref>: o cen&#x00E1;rio desaba, desmorona, o palco quebrou e, diante da perda de sua amada e da reprova&#x00E7;&#x00E3;o do pai, a Jovem Homossexual se lan&#x00E7;a &#x00E0; morte. Diferentemente de Maysa que canta &#x201C;n&#x00E3;o fui eu que ca&#x00ED;&#x201D;, a jovem tomba junto ao cen&#x00E1;rio que se desmontou. Com os sonhos que ela relatava &#x00E0; Freud, se apresentam tamb&#x00E9;m outros elementos que contribuem para a finaliza&#x00E7;&#x00E3;o executada em forma de queda. &#x00C9; poss&#x00ED;vel compreender que o suic&#x00ED;dio n&#x00E3;o &#x00E9; uma a&#x00E7;&#x00E3;o sem uma verdade hist&#x00F3;rica, ou seja, h&#x00E1; um enredo e um roteiro, n&#x00E3;o h&#x00E1; um &#x00FA;nico acontecimento que dispara o ato. O suic&#x00ED;dio &#x00E9; uma narrativa lan&#x00E7;ada rumo &#x00E0; queda, &#x00E0; defenestra&#x00E7;&#x00E3;o. Precipitado, pois em um precip&#x00ED;cio, se cai depressa. Ele apresenta algo que ainda n&#x00E3;o foi poss&#x00ED;vel de ser elaborado, &#x00E9; um excesso.</p>
<p>Para Freud, h&#x00E1; dois aspectos importantes que estariam em quest&#x00E3;o: a autopuni&#x00E7;&#x00E3;o junto &#x00E0; realiza&#x00E7;&#x00E3;o de um desejo. Que desejo poderia vir com o fim da pr&#x00F3;pria vida? Parece algo contradit&#x00F3;rio e de dif&#x00ED;cil compreens&#x00E3;o. H&#x00E1; um desejo que n&#x00E3;o seja possibilidade de vida? O desejo em causa seria aquele de gerar um filho do pai, o qual Freud aponta que foi este mesmo que a levou a seguir a homossexualidade, ou seja, pela decep&#x00E7;&#x00E3;o de n&#x00E3;o ser poss&#x00ED;vel tal realiza&#x00E7;&#x00E3;o, optou por um outro caminho, deixando de lado o desejo de ter um filho ligado ao desejo de amar um homem. Ou seja, ap&#x00F3;s seu primeiro fracasso (n&#x00E3;o ter um filho do pai), rejeitou sua feminilidade procurando outro lugar para sua libido.</p>
<p>Tomando, ent&#x00E3;o, uma posi&#x00E7;&#x00E3;o de amor cordial, sem que fosse amada de volta, e em uma fantasia de salvar a dama da m&#x00E1; reputa&#x00E7;&#x00E3;o. Por&#x00E9;m, este desejo, lido por Freud em uma perspectiva ed&#x00ED;pica, teve uma fun&#x00E7;&#x00E3;o naquele momento. Freud (1920/2019) afirma que a Jovem Homossexual &#x201C;ca&#x00ED;a [niederkommen] por culpa do pai&#x201D; (p. 177) e nos permite verificar que no ato, mesmo no suic&#x00ED;dio, h&#x00E1; um car&#x00E1;ter sexual e, por isso, que jogar-se tem a conota&#x00E7;&#x00E3;o tanto de cair quanto de parir. Em alem&#x00E3;o, a palavra niederkommen significa parir, dar &#x00E0; luz, e &#x00E9; composta por &#x201C;embaixo, para baixo&#x201D; (<italic>nieder</italic>) e vir (<italic>kommen</italic>), o que formaria &#x201C;vir para baixo&#x201D;, despencar e cair. O olhar de reprova&#x00E7;&#x00E3;o de seu pai era refor&#x00E7;ado por sua amada, colocando em cena algo proibido a ser executado como uma autopuni&#x00E7;&#x00E3;o. &#x00C9; importante destacar que 1920 &#x00E9; o mesmo ano em que Freud postula a puls&#x00E3;o de morte e, mesmo que o psicanalista n&#x00E3;o tenha feito essa articula&#x00E7;&#x00E3;o direta no texto sobre a Jovem Homossexual, &#x00E9; vi&#x00E1;vel compreender que a autodestrutividade envolve satisfa&#x00E7;&#x00E3;o. A autopuni&#x00E7;&#x00E3;o realizada no ato indica isso ao expor o mais &#x00ED;ntimo desejo de morte da jovem pelos pais.</p>
<p>Freud retoma a dimens&#x00E3;o da identifica&#x00E7;&#x00E3;o em que o suic&#x00ED;dio &#x00E9; poss&#x00ED;vel de ser realizado quando o Eu se coloca na posi&#x00E7;&#x00E3;o de objeto e dedica a si uma puni&#x00E7;&#x00E3;o, um &#x00F3;dio e uma vingan&#x00E7;a que &#x00E9; internalizada contra si que seria, anteriormente, dirigida ao outro. Freud introduz nessa discuss&#x00E3;o, em seu trabalho e em suas pesquisas o que chamou de &#x201C;desejos de morte&#x201D; (Freud, 1920/2019, p. 177), afirmando que no inconsciente de todos h&#x00E1; uma dedica&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0; morte, at&#x00E9; mesmo de pessoas queridas. O que pode ser associado com a ambival&#x00EA;ncia, muito tratada aqui no trabalho, que &#x00E9; constitutiva do sujeito, para investir e se separar do objeto amoroso. Nesse sentido, h&#x00E1; uma dimens&#x00E3;o de insatisfa&#x00E7;&#x00E3;o que est&#x00E1; em jogo nessa rela&#x00E7;&#x00E3;o com a dama, um amor proibido e, a partir do momento em que o pai a impede e desaprova as duas andarem juntas, sua vingan&#x00E7;a fracassa tal como fracassou a realiza&#x00E7;&#x00E3;o de ter um filho dele. A vingan&#x00E7;a recai sobre si mesma em uma autopuni&#x00E7;&#x00E3;o que remete ao processo melanc&#x00F3;lico de retorno s&#x00E1;dico sobre o Eu.</p>
<p>O que se pode observar &#x00E9; que h&#x00E1; nessa autopuni&#x00E7;&#x00E3;o a concomit&#x00E2;ncia da realiza&#x00E7;&#x00E3;o de um desejo. O processo identificat&#x00F3;rio que j&#x00E1; apontamos a partir de &#x00C1;jax, que precipita seu ato, se apresenta novamente aqui como uma identifica&#x00E7;&#x00E3;o com a m&#x00E3;e quando quase morreu no parto do irm&#x00E3;o. A Jovem Homossexual cai como sua m&#x00E3;e deveria ter ca&#x00ED;do ao parir e, concomitantemente, deflagra o desejo de ter parido um filho de seu pai. Mais do que isso, a sua autopuni&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; a realiza&#x00E7;&#x00E3;o do desejo de morte que era dirigido ao objeto investido de ambival&#x00EA;ncia. E, pelo mecanismo melanc&#x00F3;lico, a identifica&#x00E7;&#x00E3;o viabiliza com que o Eu se puna como a um outro objeto e que isto seja levado &#x00E0;s &#x00FA;ltimas consequ&#x00EA;ncias, como &#x00C1;jax que se lan&#x00E7;ou ao castigo e &#x00E0; condena&#x00E7;&#x00E3;o que desejava a seus inimigos. Com a Jovem Homossexual &#x00E9; poss&#x00ED;vel ampliar as perspectivas a respeito do momento do ato, j&#x00E1; que h&#x00E1; um depois dele no caso de Freud, e vislumbrar que o que fulgura nessa identifica&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; da ordem do sombrio na medida em que n&#x00E3;o &#x00E9; propriamente um tra&#x00E7;o do objeto. Reduzir-se ao que cai &#x00E9; ser um resto no instante em que se consuma a tentativa de suic&#x00ED;dio. Esse momento n&#x00E3;o &#x00E9; desprovido da satisfa&#x00E7;&#x00E3;o pulsional que, em termos freudianos, indica a realiza&#x00E7;&#x00E3;o de desejo no momento da autopuni&#x00E7;&#x00E3;o. Ao remeter o determinismo do ato suicida ao inconsciente, Freud lan&#x00E7;a um argumento cl&#x00ED;nico ao tema que alcan&#x00E7;ar&#x00E1;, como veremos a seguir, a conceitua&#x00E7;&#x00E3;o lacaniana de passagem ao ato em 1962-1963/2005.</p>
</sec>
<sec id="sec-5-1810">
<title><bold>A <sc>estrutura da passagem ao ato suicida</sc></bold></title>
<p>A quest&#x00E3;o da puni&#x00E7;&#x00E3;o que retorna sobre o Eu pode ser explorada a partir de &#x201C;O problema econ&#x00F4;mico do masoquismo&#x201D; (1924/2019). Freud divide o masoquismo em tr&#x00EA;s: o er&#x00F3;geno, o moral e o feminino. Comentaremos os dois primeiros, pois &#x00E9; a partir deles que se coloca em quest&#x00E3;o sobre se h&#x00E1; um elemento no masoquismo que se concentra no retorno s&#x00E1;dico da puls&#x00E3;o de morte sobre o Eu. &#x00C9; pela proposta da &#x201C;necessidade de puni&#x00E7;&#x00E3;o&#x201D; (Freud, 1924/2019, p. 296), que se pode compreender o Eu como causador de sua pr&#x00F3;pria tortura na medida em que o sadismo n&#x00E3;o &#x00E9; apenas um retorno, pois o masoquismo &#x00E9; inerente ao Eu que, por sua vez, admite o pr&#x00F3;prio castigo. Freud relaciona este masoquismo origin&#x00E1;rio ao masoquismo moral do Supereu sobre o Eu, visto que a moralidade &#x00E9; constru&#x00ED;da da dessexualiza&#x00E7;&#x00E3;o e supera&#x00E7;&#x00E3;o do complexo de &#x00C9;dipo. A atua&#x00E7;&#x00E3;o do masoquismo moral inverte a situa&#x00E7;&#x00E3;o, levando o Eu a se colocar em risco para que seja repreendido pelo sadismo supereg&#x00F3;ico. Aquilo que ocorre com a Jovem Homossexual, ao vir a p&#x00FA;blico com a dama sem se importar em esconder o caso, pode ser entendido como uma provoca&#x00E7;&#x00E3;o com fins de puni&#x00E7;&#x00E3;o. A partir do olhar do pai, o castigo &#x00E9; recebido e essa realiza&#x00E7;&#x00E3;o se torna da ordem do insustent&#x00E1;vel.</p>
<p>A dimens&#x00E3;o de satisfa&#x00E7;&#x00E3;o do sofrimento se d&#x00E1; pela din&#x00E2;mica de sadismo e masoquismo er&#x00F3;geno. Esse sadismo que retorna sobre o Eu &#x00E9; alinhado, por Freud, &#x00E0;s incid&#x00EA;ncias da cultura que exige ren&#x00FA;ncias pulsionais em nome do impedimento de destrui&#x00E7;&#x00E3;o do outro. Assim, &#x201C;o sadismo do Supereu e o masoquismo do Eu se completam um ao outro e se unem para a promo&#x00E7;&#x00E3;o dos mesmos resultados&#x201D; (Freud, 1924/2019, p. 300). O masoquismo moral deriva da puls&#x00E3;o de morte que n&#x00E3;o p&#x00F4;de ser totalmente revertida como puls&#x00E3;o de destrui&#x00E7;&#x00E3;o para fora. Essa destrutividade, que se acresce os poderes do Supereu e &#x00E0; necessidade de puni&#x00E7;&#x00E3;o intr&#x00ED;nseca ao Eu, abre a possibilidade de compreender como algu&#x00E9;m poderia n&#x00E3;o necessariamente almejar o pr&#x00F3;prio bem. Trata-se aqui de um problema &#x00E9;tico que coloca o suic&#x00ED;dio em um patamar de reflex&#x00E3;o que extrapola a moraliza&#x00E7;&#x00E3;o e os discursos de efic&#x00E1;cia. Segundo Freud (1924/2019, p. 301), &#x201C;mas como, por outro lado, ele tem o valor de um componente er&#x00F3;tico, a autodestrui&#x00E7;&#x00E3;o da pessoa tamb&#x00E9;m n&#x00E3;o pode se realizar sem uma satisfa&#x00E7;&#x00E3;o libidinal&#x201D;. Se a pr&#x00F3;pria destrui&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; parte da constitui&#x00E7;&#x00E3;o do Eu, &#x00E9; preciso considerar que isso &#x00E9; uma quest&#x00E3;o cl&#x00ED;nica que deve ser articulada em termos conceituais. Esse &#x00E9; o motivo de recorrermos ao ensino de Lacan.</p>
<p>O caso da Jovem Homossexual, ponto essencial do trabalho a respeito do ato suicida, &#x00E9; aprofundado sob a perspectiva de Lacan em seu &#x201C;O Semin&#x00E1;rio, livro 10: a ang&#x00FA;stia&#x201D; (1962-1963/2005). O verbo <italic>Niederkomemt</italic> &#x00E9; um eixo central pelo qual <xref ref-type="bibr" rid="ref-7-1810">Lacan (1962-1963/2005</xref>) introduz e aprofunda a problem&#x00E1;tica do suic&#x00ED;dio a partir da proposi&#x00E7;&#x00E3;o do objeto <italic>a</italic>. &#x00C9; ao resgatar e subverter o conceito caro &#x00E0; psiquiatria francesa (<xref ref-type="bibr" rid="ref-10-1810">Mu&#x00F1;os, 2009</xref>) que Lacan fundamenta a passagem ao ato em sua condi&#x00E7;&#x00E3;o primeira: a identifica&#x00E7;&#x00E3;o absoluta do sujeito ao objeto <italic>a</italic>. Neste processo, an&#x00E1;logo ao sombrio eclipsamento do Eu melanc&#x00F3;lico, ocorre a identifica&#x00E7;&#x00E3;o com o resto irredut&#x00ED;vel ao simb&#x00F3;lico e ao imagin&#x00E1;rio que leva o sujeito a uma cin&#x00E9;tica, ele &#x201C;se atirar pela janela&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-7-1810">Lacan, 1962-1963/2005</xref>, p. 124) em uma sa&#x00ED;da da cena constitu&#x00ED;da pelo Outro do significante. A identifica&#x00E7;&#x00E3;o absoluta com o resto, aquilo que cai como &#x00ED;ndice do real, como apontado no caso da Jovem Homossexual com a quase morte da m&#x00E3;e no parto, e o desejo de ter um filho com o pai que promulgam o embara&#x00E7;o maior ap&#x00F3;s ser olhada com f&#x00FA;ria pelo pai e rejeitada pela dama. Diante desse confronto entre o desejo e a lei, algo cai e, no caso, a jovem se identifica a isto.</p>
<p>&#x00C9; ent&#x00E3;o, diante disso, que a jovem deixa-se cair da ponte. Deixou-se cair junto &#x00E0; narrativa que se sustentava, entre o limite da cena e o mundo. Relembrando o que foi trazido com a m&#x00FA;sica de <xref ref-type="bibr" rid="ref-9-1810">Maysa (1958)</xref>, ressalta-se que, diferentemente da can&#x00E7;&#x00E3;o, n&#x00E3;o apenas o mundo cai, mas a pr&#x00F3;pria jovem se deixa levar junto. Como em um enroscamento nas cortinas de seu pr&#x00F3;prio teatro, algo se solta junto a panos e cen&#x00E1;rios, e &#x00E9; colocada para fora do palco. Nessa aritm&#x00E9;tica que proporciona a identifica&#x00E7;&#x00E3;o ao objeto <italic>a</italic>, h&#x00E1; algo que n&#x00E3;o mais cabe na fantasia e que se torna insuport&#x00E1;vel para a Jovem. O desfiladeiro da fantasia &#x00E9; o que leva o sujeito a se desprender de sua arruma&#x00E7;&#x00E3;o com o objeto <italic>a</italic> e vir a baixo sem recursos simb&#x00F3;licos e imagin&#x00E1;rios. Esse momento de apneia atinge o Eu que, proposto por <xref ref-type="bibr" rid="ref-7-1810">Lacan (1962-1963/2005</xref>) como i(<italic>a</italic>), &#x00E9; atravessado perdendo suas camadas at&#x00E9; que reste apenas o <italic>a</italic>.</p>
<p>&#x00C9; a sa&#x00ED;da de cena a caracter&#x00ED;stica que diferencia a passagem ao ato de uma outra modalidade de ato: o <italic>acting out</italic>. A passagem ao ato estaria justamente no que se d&#x00E1; o <italic>Niederkomemt</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="ref-7-1810">Lacan<italic>,</italic>1962-1963/ 2005</xref>), o largar de m&#x00E3;o, deixar cair que delimita um apagamento radical do sujeito. Segundo o psicanalista franc&#x00EA;s, &#x201C;O momento da passagem ao ato, &#x00E9; o do embara&#x00E7;o maior do sujeito, com o acr&#x00E9;scimo comportamental da emo&#x00E7;&#x00E3;o como dist&#x00FA;rbio do movimento&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-7-1810">Lacan, 1962-1963/ 2005</xref>, p. 129). A ang&#x00FA;stia engendrada neste embara&#x00E7;o se apresenta no entre da cena e rumo &#x00E0; precipita&#x00E7;&#x00E3;o para fora. A ang&#x00FA;stia marca a certeza do que passa ao ato e coloca esta modalidade como sa&#x00ED;da frente ao n&#x00E3;o poder lidar com a ang&#x00FA;stia por outra via, n&#x00E3;o encontra lugar, nem palavra. &#x00C9; a&#x00ED; que se faz a passagem, a passagem da cena para o mundo, o atirar-se da janela. O jogar-se da ponte da jovem e o jogar-se em cima da espada de &#x00C1;jax. J&#x00E1; o <italic>acting out</italic> demonstra outra rela&#x00E7;&#x00E3;o com a cena e pode ser entendido como oposto da passagem ao ato.</p>
<p>No caso da Jovem Homossexual, enquanto o jogar-se da ponte &#x00E9; a passagem ao ato, toda a cena constru&#x00ED;da no espa&#x00E7;o p&#x00FA;blico e sustentada entorno da dama &#x00E9; da ordem do <italic>acting out</italic>. E aqui, Lacan abre para a quest&#x00E3;o do que est&#x00E1; articulado com o desejo de ter um filho do pai. O que est&#x00E1; colocado nisso &#x00E9; que, necessariamente, se tenha um substituto do falo. Essa vontade de ter um filho do pai, n&#x00E3;o se consiste de uma ordem materna, mas sim de um encontro do falo, como aquilo que &#x00E9; representante da falta, que a sustenta. A jovem se decepciona por seu pai n&#x00E3;o lhe dar o falo, como se isso mesmo n&#x00E3;o fosse da ordem do imposs&#x00ED;vel. E em n&#x00E3;o aceitar sua condi&#x00E7;&#x00E3;o faltante, contorna isso e se coloca no lugar de ser o falo para Dama, &#x201C;Em outras palavras, coloca-se naquilo que ela n&#x00E3;o tem, o falo, e, para mostrar que o tem, ela o d&#x00E1;&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-7-1810">Lacan, 1962-1963/ 2005</xref>, p. 138). Ao inv&#x00E9;s de se transformar a partir da interdi&#x00E7;&#x00E3;o, permanece nela. No que tenta fugir do inevit&#x00E1;vel, o sustenta. A aus&#x00EA;ncia faz e marca uma presen&#x00E7;a. Isso que faz falta e que se perdeu &#x00E9; presente enquanto saudade. E ao inv&#x00E9;s de deixar cair o que n&#x00E3;o se pode ter totalmente (o falo), podendo ent&#x00E3;o, se encontrar com a falta e desejar, trazendo objetos que lhe coloquem uma satisfa&#x00E7;&#x00E3;o parcial e n&#x00E3;o-toda, a Jovem escolhe n&#x00E3;o aceitar a perda e n&#x00E3;o abrir m&#x00E3;o dessa completude, o que presentifica ainda mais o que n&#x00E3;o se tem, fica na falta, fica no resto. Se ela se faz ser o pr&#x00F3;prio falo, prefere n&#x00E3;o ter nada a ter o que perder, lembrando de seu amor cort&#x00EA;s e de sua tend&#x00EA;ncia a amores n&#x00E3;o correspondidos. O <italic>acting out</italic> se d&#x00E1; assim, como uma forma&#x00E7;&#x00E3;o sintom&#x00E1;tica, sendo uma mostra&#x00E7;&#x00E3;o e um direcionamento ao Outro, pois sustenta algo na fantasia enquanto gozo.</p>
</sec>
<sec id="sec-6-1810">
<title><bold>C<sc>onsidera&#x00E7;&#x00F5;es finais</sc></bold></title>
<p>O fator importante que Freud (1920/2019) ressalta, &#x00E9; a dimens&#x00E3;o inconsciente de todos esses processos aqui trabalhados. Essa dimens&#x00E3;o inconsciente &#x00E9; fundamental e nos remete &#x00E0;quilo que foi destacado a respeito da melancolia: o que &#x00E9; que se perdeu nisso que se perdeu? A perda traz an&#x00FA;ncios e not&#x00ED;cias de uma verdade sobre o objeto amoroso e, na melancolia, essa perda demonstra ter um estatuto que remete ao vazamento simb&#x00F3;lico. Uma das raz&#x00F5;es &#x00E9; que a perda do objeto amoroso se torna t&#x00E3;o exacerbada por ser de escolha narc&#x00ED;sica e, por isso, sustenta a si mesmo no outro, bem como, parece haver uma forte liga&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0; perda de poss&#x00ED;veis investimentos em objetos anteriores que n&#x00E3;o puderam ser enlutados. O Eu se coloca a perder a si mesmo, e em uma din&#x00E2;mica pulsional na qual h&#x00E1; satisfa&#x00E7;&#x00E3;o na tortura pr&#x00F3;pria. De todo modo, o saber e a verdade s&#x00E3;o incompletos, h&#x00E1; sempre restos, o inconsciente d&#x00E1; sinais, e &#x00E9; a partir de peda&#x00E7;os que se pode escut&#x00E1;-lo. &#x201C;Parece que justamente a informa&#x00E7;&#x00E3;o que a nossa consci&#x00EA;ncia recebe de nossa vida amorosa pode ser, com especial facilidade, incompleta, lacunosa ou falseada&#x201D; (Freud, 1920/2019, p. 183). Na melancolia, o que se indica &#x00E9; uma dificuldade com essa lacuna, com isso que sobra, pois remete a perdas e incompletude.</p>
<p>Al&#x00E9;m disso, &#x00E9; de suma import&#x00E2;ncia que se coloque em quest&#x00E3;o os desdobramentos que o trabalho abriu com um retorno &#x00E0; Freud e ao her&#x00F3;i &#x00C1;jax. A busca para evitar a dor, que amedronta o sujeito em decorr&#x00EA;ncia de reconhecer e vivenciar a perda; a identifica&#x00E7;&#x00E3;o com o outro de forma narcisista; a agressividade do Eu ao outro incorporado e, consequentemente, ao pr&#x00F3;prio Eu. S&#x00E3;o encaminhados para instigar novas elabora&#x00E7;&#x00F5;es capazes de tornar articul&#x00E1;veis a partir da conceitua&#x00E7;&#x00E3;o da melancolia. Ao passo que, esses casos t&#x00EA;m sido muito encontrados nos consult&#x00F3;rios de analistas e psiquiatras na contemporaneidade, e discuss&#x00F5;es que pontuam isso ao aumento exagerado de individualismo numa sociedade considerada narcisista. Visa-se a utiliza&#x00E7;&#x00E3;o do modelo freudiano da melancolia como forma de an&#x00E1;lise dos novos sofrimentos ps&#x00ED;quicos que surgem atualmente devido, tamb&#x00E9;m, ao aspecto narc&#x00ED;sico que ela al&#x00E7;a e os frequentes relatos de impossibilidades frente ao que se mostra cada vez mais avassalador e disruptivo no campo social e pol&#x00ED;tico.</p>
</sec>
</body>
<back>
<fn-group>
<fn fn-type="other" id="fn-1-1810"><label>1</label> <p>O Projeto &#x00E9; cadastrado junto ao Departamento de Extens&#x00E3;o (DEPEXT) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e conta com uma bolsa de extens&#x00E3;o.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn-2-1810"><label>2</label> <p>&#x201C;Hold onto anger is like drinking poison and expecting the other person to die.&#x201D;</p></fn>
</fn-group>
<ref-list>
<title><bold>R<sc>efer&#x00EA;ncias</sc></bold></title>
<ref id="ref-1-1810"><element-citation publication-type="journal"><person-group person-group-type="author"><name><surname>Brunhari</surname> <given-names>Marcos Vinicius</given-names></name></person-group> <year>2018</year> <article-title>Melancolia e (im)perman&#x00EA;ncia: fundamentos para uma teoria freudiana do suic&#x00ED;dio</article-title> <source>Quaderns de Psicologia</source> <volume>20</volume><issue>3</issue> <fpage>245</fpage><lpage>254</lpage> <pub-id pub-id-type="doi">10.5565/rev/qpsicologia.1462</pub-id></element-citation>
<mixed-citation>Brunhari, Marcos Vinicius (2018). Melancolia e (im)perman&#x00EA;ncia: fundamentos para uma teoria freudiana do suic&#x00ED;dio. <italic>Quaderns de Psicologia, 20</italic>(3), 245-254. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://doi.org/10.5565/rev/qpsicologia.1462">https://doi.org/10.5565/rev/qpsicologia.1462</ext-link></mixed-citation></ref>
<ref id="ref-2-1810"><element-citation publication-type="webpage"><person-group person-group-type="author"><collab>Bodhipaksa</collab></person-group> <year>2012</year> <source>Holding onto anger is like drinking poison and expecting the other person to die</source> <comment>blog</comment> <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://fakebuddhaquotes.com/holding-onto-anger-is-like-drinking-poison/">https://fakebuddhaquotes.com/holding-onto-anger-is-like-drinking-poison/</ext-link></element-citation>
<mixed-citation>Bodhipaksa (2012). <italic>Holding onto anger is like drinking poison and expecting the other person to die</italic> [blog]. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://fakebuddhaquotes.com/holding-onto-anger-is-like-drinking-poison/">https://fakebuddhaquotes.com/holding-onto-anger-is-like-drinking-poison/</ext-link></mixed-citation></ref>
<ref id="ref-3-1810"><element-citation publication-type="journal"><person-group person-group-type="author"><name><surname>Freud</surname> <given-names>Sigmund</given-names></name></person-group> <year>1895/1996</year> <article-title>Rascunho G &#x2013; Melancolia</article-title> <comment>In</comment> <source>Edi&#x00E7;&#x00E3;o Standard Brasileira das obras psicol&#x00F3;gicas completas de Sigmund Freud</source> <person-group person-group-type="author"><name><surname>Salom&#x00E3;o</surname> <given-names>J.</given-names></name></person-group> <role>trad.</role> <volume>Vol. 1</volume> <comment>pp.</comment> <fpage>246</fpage><lpage>253</lpage> <publisher-name>Imago</publisher-name></element-citation>
<mixed-citation>Freud, Sigmund (1895/1996) Rascunho G &#x2013; Melancolia. In <italic>Edi&#x00E7;&#x00E3;o Standard Brasileira das obras psicol&#x00F3;gicas completas de Sigmund Freud.</italic> (J. Salom&#x00E3;o, trad. Vol. 1, pp. 246-253). Imago.</mixed-citation></ref>
<ref id="ref-4-1810"><element-citation publication-type="book"><person-group person-group-type="author"><name><surname>Freud</surname> <given-names>Sigmund</given-names></name></person-group> <year>1917/2019a</year> <chapter-title>Luto e melancolia</chapter-title> <comment>In</comment> <person-group person-group-type="editor"><name><surname>Freud</surname> <given-names>Sigmund</given-names></name></person-group> <role>Ed.</role> <source>Neurose, psicose, pervers&#x00E3;o das Obras incompletas de Sigmund Freud</source> <comment>pp.</comment> <fpage>99</fpage><lpage>123</lpage> <publisher-name>Aut&#x00EA;ntica Editora</publisher-name></element-citation>
<mixed-citation>Freud, Sigmund (1917/2019a). Luto e melancolia. In Sigmund Freud (Ed.), <italic>Neurose, psicose, pervers&#x00E3;o das Obras incompletas de Sigmund Freud</italic>. (pp. 99-123). Aut&#x00EA;ntica Editora.</mixed-citation></ref>
<ref id="ref-5-1810"><element-citation publication-type="book"><person-group person-group-type="author"><name><surname>Freud</surname> <given-names>Sigmund</given-names></name></person-group> <year>1920/2019b</year> <chapter-title>Sobre a psicog&#x00EA;nese de um caso de homossexualidade feminina</chapter-title> <comment>In</comment> <person-group person-group-type="editor"><name><surname>Freud</surname> <given-names>Sigmund</given-names></name></person-group> <role>Ed.</role> <source>Neurose, psicose, pervers&#x00E3;o das Obras incompletas de Sigmund Freud</source> <comment>pp.</comment> <fpage>157</fpage><lpage>193</lpage> <publisher-name>Aut&#x00EA;ntica Editora</publisher-name></element-citation>
<mixed-citation>Freud, Sigmund (1920/2019b). Sobre a psicog&#x00EA;nese de um caso de homossexualidade feminina. In Sigmund Freud (Ed.), <italic>Neurose, psicose, pervers&#x00E3;o das Obras incompletas de Sigmund Freud</italic>. (pp. 157-193). Aut&#x00EA;ntica Editora.</mixed-citation></ref>
<ref id="ref-6-1810"><element-citation publication-type="book"><person-group person-group-type="author"><name><surname>Freud</surname> <given-names>Sigmund</given-names></name></person-group> <year>1924/2019c</year> <chapter-title>O problema econ&#x00F4;mico do masoquismo</chapter-title> <comment>In</comment> <source>Neurose, psicose, pervers&#x00E3;o das Obras incompletas de Sigmund Freud</source> <comment>pp.</comment> <fpage>287</fpage><lpage>305</lpage> <publisher-name>Aut&#x00EA;ntica Editora</publisher-name></element-citation>
<mixed-citation>Freud, Sigmund (1924/2019c). O problema econ&#x00F4;mico do masoquismo. In <italic>Neurose, psicose, pervers&#x00E3;o das Obras incompletas de Sigmund Freud</italic>. (pp. 287-305). Aut&#x00EA;ntica Editora.</mixed-citation></ref>
<ref id="ref-7-1810"><element-citation publication-type="book"><person-group person-group-type="author"><name><surname>Lacan</surname> <given-names>Jaques</given-names></name></person-group> <year>1962-1963/2005</year> <source>O Semin&#x00E1;rio, livro 10: a ang&#x00FA;stia</source> <publisher-name>Jorge Zahar</publisher-name></element-citation>
<mixed-citation>Lacan, Jaques (1962-1963/2005). <italic>O Semin&#x00E1;rio, livro 10: a ang&#x00FA;stia</italic>. Jorge Zahar.</mixed-citation></ref>
<ref id="ref-8-1810"><element-citation publication-type="book"><person-group person-group-type="author"><name><surname>Lambotte</surname> <given-names>Marie-Claude</given-names></name></person-group> <year>1997</year> <source>O discurso melanc&#x00F3;lico</source> <publisher-name>Companhia de Freud</publisher-name></element-citation>
<mixed-citation>Lambotte, Marie-Claude (1997). <italic>O discurso melanc&#x00F3;lico</italic>. Companhia de Freud.</mixed-citation></ref>
<ref id="ref-9-1810"><element-citation publication-type="book"><person-group person-group-type="author"><collab>Maysa</collab></person-group> <year>1958</year> <source>Meu Mundo Caiu</source> <comment>In Convite para ouvir Maysa n.2 [Disco]</comment> <publisher-loc>S&#x00E3;o Paulo</publisher-loc> <publisher-name>RGE</publisher-name></element-citation>
<mixed-citation>Maysa (1958) <italic>Meu Mundo Caiu</italic>. In Convite para ouvir Maysa n.2 [Disco]. S&#x00E3;o Paulo: RGE</mixed-citation></ref>
<ref id="ref-10-1810"><element-citation publication-type="book"><person-group person-group-type="author"><name><surname>Mu&#x00F1;oz</surname> <given-names>Pablo</given-names></name></person-group> <year>2009</year> <source>La invenci&#x00F3;n lacaniana del passaje al acto: de la psiquiatr&#x00ED;a al psicoan&#x00E1;lisis</source> <publisher-name>Manantial</publisher-name></element-citation>
<mixed-citation>Mu&#x00F1;oz, Pablo (2009) <italic>La invenci&#x00F3;n lacaniana del passaje al acto: de la psiquiatr&#x00ED;a al psicoan&#x00E1;lisis.</italic> Manantial.</mixed-citation></ref>
<ref id="ref-11-1810"><element-citation publication-type="journal"><person-group person-group-type="author"><collab>S&#x00F3;focles</collab></person-group> <year>1993</year> <article-title>&#x00C1;jax</article-title> <comment>In</comment> <source>&#x00C9;squilo, S&#x00F3;focles, Eur&#x00ED;pides. Prometeu Acorrentado, &#x00C1;jax, Alceste</source> <comment>Trag&#x00E9;dia Grega</comment> <volume>vol. VI</volume> <comment>pp.</comment> <fpage>177</fpage><lpage>227</lpage> <publisher-name>Jorge Zahar</publisher-name></element-citation>
<mixed-citation>S&#x00F3;focles (1993). &#x00C1;jax. In: <italic>&#x00C9;squilo, S&#x00F3;focles, Eur&#x00ED;pides. Prometeu Acorrentado, &#x00C1;jax, Alceste</italic> (Trag&#x00E9;dia Grega, vol. VI, pp. 177-227). Jorge Zahar.</mixed-citation></ref>
</ref-list>
</back>
</article>
