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<journal-title>Quaderns de Psicologia</journal-title>
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<article-id pub-id-type="publisher-id">QPs.1778</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.5565/rev/qpsicologia.1778</article-id>
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<subject>Articles</subject>
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<article-title>&#x201C;Se n&#x00E3;o posso dan&#x00E7;ar, n&#x00E3;o &#x00E9; minha revolu&#x00E7;&#x00E3;o&#x201D;: autocuidado e hapticalidade como pr&#x00E1;ticas pol&#x00ED;ticas</article-title>
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<trans-title xml:lang="en"><italic>&#x201C;If I can't dance, it's not my revolution&#x201D;: self-care and hapticality as political practices</italic></trans-title>
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<contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0002-9978-4014</contrib-id>
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<surname>Guzzo</surname>
<given-names>Marina Souza Lobo</given-names>
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<bio><p>Marina Guzzo &#x00E9; artista e professora Associada da Unifesp no Campus Baixada Santista, pesquisadora do Laborat&#x00F3;rio Corpo e Arte no Instituto Sa&#x00FA;de e Sociedade. Tem p&#x00F3;s-doutorado pelo Departamento de Artes C&#x00EA;nicas da ECA-USP e &#x00E9; mestra e doutora em Psicologia Social pela PUC-SP.</p></bio>
<email>marina.guzzo@unifesp.br</email>
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<license-p>Aquesta obra est&#x00E0; sota una llic&#x00E8;ncia internacional Creative Commons Reconeixement 4.0. CC BY</license-p>
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<abstract>
<title><bold>Resumo</bold></title>
<p>Este artigo pretende cartografar e articular duas pr&#x00E1;ticas em torno do corpo e do cuidado na &#x00E1;rea da sa&#x00FA;de: o autocuidado e a hapticalidade. Essas duas pr&#x00E1;ticas e perspectivas entrela&#x00E7;am-se na frase emblem&#x00E1;tica atribu&#x00ED;da &#x00E0; feminista Emma Goldman &#x201C;se n&#x00E3;o posso dan&#x00E7;ar, n&#x00E3;o &#x00E9; minha revolu&#x00E7;&#x00E3;o&#x201D;. A partir das perspectivas dos gestos menores de Erin Manning, a dan&#x00E7;a &#x00E9; apresentada como encontro que possibilita e estimula esses conhecimentos pouco abordados nas forma&#x00E7;&#x00F5;es da &#x00E1;rea da sa&#x00FA;de. Alegria, poesia e conhecimento do pr&#x00F3;prio corpo e do corpo do outro, assim como aten&#x00E7;&#x00E3;o, respira&#x00E7;&#x00E3;o e sustenta&#x00E7;&#x00E3;o s&#x00E3;o eixos para escutar e atuar no mundo. Uma dan&#x00E7;a menor, que entende o corpo como processo de inven&#x00E7;&#x00E3;o, cria&#x00E7;&#x00E3;o e espa&#x00E7;o de experi&#x00EA;ncia. Esse exerc&#x00ED;cio de escrita se prop&#x00F5;e a aproximar cuidado e luta, numa possibilidade de transforma&#x00E7;&#x00E3;o, revolu&#x00E7;&#x00E3;o e &#x00E9;tica na &#x00E1;rea da sa&#x00FA;de.</p>
</abstract>
<trans-abstract xml:lang="en">
<title><bold><italic>Abstract</italic></bold></title>
<p><italic>This article aims to map and articulate two practices around the body and health care: self-care and hapticality. These two practices and perspectives are intertwined in the emblematic phrase attributed to feminist Emma Goldman &#x201C;if I can't dance, it's not my revolution&#x201D;. From the perspective of Erin Manning&#x2019;s minor gestures, dance is presented as a meeting that enables and stimulates this knowledge that is rarely addressed in health education. Joy, poetry and knowledge of one&#x2019;s own body and the body of the other, as well as attention, breathing and support are axes for listening and acting in the world. A smaller dance, which understands the body as a process of invention, creation and space of experience. This writing exercise aims to bring care and struggle together, in a possibility of transformation, revolution and ethics in the health area.</italic></p>
</trans-abstract>
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<title>Palavras-chave:</title>
<kwd><bold>Autocuidado</bold></kwd>
<kwd><bold>Hapticalidade</bold></kwd>
<kwd><bold>Corpo</bold></kwd>
<kwd><bold>Pol&#x00ED;tica</bold></kwd>
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<title><italic>Keywords:</italic></title>
<kwd><bold><italic>Self-care</italic></bold></kwd>
<kwd><bold><italic>Hapticality</italic></bold></kwd>
<kwd><bold><italic>Body</italic></bold></kwd>
<kwd><bold><italic>Politics</italic></bold></kwd>
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<sec id="sec-1-1778" sec-type="intro">
<title><bold>I<sc>ntrodu&#x00E7;&#x00E3;o</sc></bold></title>
<disp-quote><p>Aprender a lutar contra esse desespero em todas as suas manifesta&#x00E7;&#x00F5;es n&#x00E3;o &#x00E9; apenas terap&#x00EA;utico. &#x00C9; vital. Sublinhar o que &#x00E9; alegre e afirmativo na minha vida torna-se crucial. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-15-1778">Lorde, 2017</xref>, p. 231, tradu&#x00E7;&#x00E3;o minha)</p></disp-quote>
<p>Este artigo pretende cartografar e articular duas pr&#x00E1;ticas em torno do corpo e do cuidado na &#x00E1;rea da sa&#x00FA;de: o autocuidado (<xref ref-type="bibr" rid="ref-15-1778">Lorde, 2017</xref>) e a hapticalidade (<xref ref-type="bibr" rid="ref-24-1778">Moten e Harney, 2013</xref>). Essas duas pr&#x00E1;ticas e perspectivas entrela&#x00E7;am-se na frase emblem&#x00E1;tica atribu&#x00ED;da &#x00E0; feminista Emma Goldman &#x201C;se n&#x00E3;o posso dan&#x00E7;ar, n&#x00E3;o &#x00E9; minha revolu&#x00E7;&#x00E3;o&#x201D;. O texto apresenta os dois conceitos discutidos por seus autores e colaboradores, e termina com propostas pr&#x00E1;ticas de pensar a dan&#x00E7;a como espa&#x00E7;o de encontro para essa reflex&#x00E3;o e forma&#x00E7;&#x00E3;o.</p>
<p>A forma&#x00E7;&#x00E3;o em sa&#x00FA;de, em suas diferentes &#x00E1;reas, opera com conceitos e aprendizagens que se colocam, quase sempre, a partir de uma perspectiva que privilegia uma determinada maneira de fazer/ensinar/pensar o cuidado &#x2014; com discursos de representa&#x00E7;&#x00F5;es dominantes e normativas. H&#x00E1; uma lacuna de olhares m&#x00FA;ltiplos, na forma&#x00E7;&#x00E3;o de profissionais de sa&#x00FA;de e nas pesquisas desenvolvidas por projetos que envolvem estudantes e comunidades. Essa lacuna j&#x00E1; foi debatida amplamente e publicada por outros autores como na &#x00E1;rea da psicologia, por <xref ref-type="bibr" rid="ref-22-1778">Jacqueline. Meireles et al. (2019)</xref> e o pr&#x00F3;prio <xref ref-type="bibr" rid="ref-7-1778">Conselho Federal de Psicologia (2017)</xref></p>
<disp-quote><p>Historicamente, a Psicologia brasileira posicionou-se como c&#x00FA;mplice do racismo, tendo produzido conhecimento que o legitimasse, validando cientificamente estere&#x00F3;tipos infundados por meio de teorias euroc&#x00EA;ntricas discriminat&#x00F3;rias, inclusive por tomar por padr&#x00E3;o uma realidade que n&#x00E3;o contempla a diversidade brasileira. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-7-1778">Conselho Federal de Psicologia, 2017</xref>, p. 75)</p></disp-quote>
<p>O feminismo negro produziu e produz uma s&#x00E9;rie de discuss&#x00F5;es sobre cuidado, luta e transforma&#x00E7;&#x00E3;o social, que prop&#x00F5;e a inclus&#x00E3;o de tecnologias de cuidado, afeto e saberes comuns que precisam ser divulgados amplamente. Como sugere Chandra Mohanty (como citado em <xref ref-type="bibr" rid="ref-13-1778">hooks, 2020</xref>), num ensaio sobre ra&#x00E7;a, voz e liberdade na Educa&#x00E7;&#x00E3;o:</p>
<disp-quote><p>Descobrir conhecimentos subjugados e tomar posse deles &#x00E9; um dos meios pelos quais hist&#x00F3;rias alternativas podem ser resgatadas. Mas, para transformar radicalmente as institui&#x00E7;&#x00F5;es educacionais, esses conhecimentos t&#x00EA;m de ser compreendidos e definidos pedagogicamente n&#x00E3;o s&#x00F3; como quest&#x00E3;o acad&#x00EA;mica, mas como quest&#x00E3;o de estrat&#x00E9;gia e pr&#x00E1;tica. (Mohanty, 1990, como citado em <xref ref-type="bibr" rid="ref-13-1778">hooks, 2020</xref>, p. 36)</p></disp-quote>
<p>H&#x00E1; necessidade de forjar gestos menores para essa &#x00E1;rea &#x2014; n&#x00E3;o s&#x00F3; no momento da pandemia, mas principalmente agora &#x2014; com foco na pot&#x00EA;ncia dos pequenos movimentos que funcionam como redes de resist&#x00EA;ncia e modos poss&#x00ED;veis de agir coletivamente frente aos processos de adoecimento, exclus&#x00E3;o, racismo e domestica&#x00E7;&#x00E3;o. Modos de cuidar que acontecem n&#x00E3;o somente no momento da pr&#x00E1;tica do cuidado em si, mas em toda pr&#x00E1;tica relacional que se d&#x00E1; para que os corpos possam estar presentes, atentos ao que lhes acontece tamb&#x00E9;m em outros momentos. Pensar o cuidado, o amor, o toque e movimentos a partir da pr&#x00E1;tica operada por estas perspectivas, n&#x00E3;o s&#x00F3; amplia o olhar para a vida e para o corpo, mas tamb&#x00E9;m contrap&#x00F5;e-se &#x00E0;s pol&#x00ED;ticas e biopoderes hegem&#x00F4;nicos contempor&#x00E2;neos, impostos ao sistema de sa&#x00FA;de e &#x00E0; aten&#x00E7;&#x00E3;o ao corpo e &#x00E0; subjetividade.</p>
<p>Autocuidado (<xref ref-type="bibr" rid="ref-15-1778">Lorde, 2017</xref>) e hapticalidade (<xref ref-type="bibr" rid="ref-24-1778">Moten e Harney, 2013</xref>) constituem-se como gestos menores, aqui pensados a partir do referencial proposto pelo pensamento de Erin Manning em seu livro <italic>The Minor Gesture</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="ref-19-1778">2016</xref>). A autora prop&#x00F5;e a seguinte defini&#x00E7;&#x00E3;o para &#x201C;o gesto menor: a for&#x00E7;a gestual que abre a experi&#x00EA;ncia para sua pot&#x00EA;ncia de varia&#x00E7;&#x00E3;o&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-21-1778">Manning, 2019</xref>, p. 12). Essa pot&#x00EA;ncia do gesto menor, de poder cuidar de si, e tamb&#x00E9;m poder ser solid&#x00E1;rio ao movimento do outro, de partir da pele, do toque e do amor como caminho para pr&#x00E1;ticas de cuidado, acontece de dentro da experi&#x00EA;ncia, ativando diferen&#x00E7;as, outras formas de tonicidade e tonalidade. E essa varia&#x00E7;&#x00E3;o da experi&#x00EA;ncia, o gesto menor, estaria sempre entrela&#x00E7;ado com tons maiores &#x2014; n&#x00E3;o precisar estar fora do que vivemos e praticamos como sa&#x00FA;de e cuidado.</p>
</sec>
<sec id="sec-2-1778">
<title><bold>F<sc>azer</sc> A<sc>utocuidado</sc></bold></title>
<p>A etimologia de palavra cuidado vem do latim <italic>cogitatus</italic>, que significa meditado, pensado e refletido. Em portugu&#x00EA;s, significa: aten&#x00E7;&#x00E3;o especial, inquieta&#x00E7;&#x00E3;o, preocupa&#x00E7;&#x00E3;o, zelo, desvelo que se dedica a algu&#x00E9;m ou algo, objeto ou pessoa desse desvelo, encargo, incumb&#x00EA;ncia, responsabilidade, lida, trabalho, ocupa&#x00E7;&#x00E3;o (<xref ref-type="bibr" rid="ref-12-1778">Houaiss, 2009</xref>). Cuidar &#x00E9; sempre rela&#x00E7;&#x00E3;o: posso cuidar de uma crian&#x00E7;a, de uma planta, de uma casa, de um planeta. A no&#x00E7;&#x00E3;o de cuidado, no entanto, tem-se transformado e identificado com a&#x00E7;&#x00F5;es de profissionais que atuam na &#x00E1;rea da sa&#x00FA;de (<xref ref-type="bibr" rid="ref-8-1778">Contatore et al., 2017</xref>).</p>
<p>Oct&#x00E1;vio Augusto <xref ref-type="bibr" rid="ref-8-1778">Contatore et al. (2017)</xref> afirmam que embora o cuidado seja necess&#x00E1;rio para algo/algu&#x00E9;m viva ou sobreviva (inclusive em termos planet&#x00E1;rios), n&#x00E3;o aprendemos a cuidar de maneira sistematizada. O cuidado ficou a cargo da fam&#x00ED;lia e por consequ&#x00EA;ncia corroborou para a constru&#x00E7;&#x00E3;o dos modelos do que se entende por mulheres. &#x201C;Como resultado, os cuidados e a sua import&#x00E2;ncia para a vida social foram subvalorizados pelas ci&#x00EA;ncias humanas e reduzidos pelas ci&#x00EA;ncias naturais&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-8-1778">Contatore et al., 2017</xref>, p. 554). Com isso, tr&#x00EA;s quest&#x00F5;es importantes se abrem: 1- fica &#x00E0; cargo das mulheres a maioria das a&#x00E7;&#x00F5;es e formas de cuidado, principalmente, cuidados referentes a outros seres humanos, como crian&#x00E7;as, idosos e enfermos. 2- essas mulheres, que cuidam, acabam n&#x00E3;o tendo elas mesmas um espa&#x00E7;o de cuidado, uma vez que s&#x00E3;o sobrecarregadas com essa &#x201C;obriga&#x00E7;&#x00E3;o&#x201D; social e laboral. 3 - A forma&#x00E7;&#x00E3;o e produ&#x00E7;&#x00E3;o de conhecimento nas &#x00E1;reas da sa&#x00FA;de, entendem &#x201C;cuidado&#x201D;, como algo menos importante dentro da forma&#x00E7;&#x00E3;o, tendo como foco e privil&#x00E9;gio quest&#x00F5;es t&#x00E9;cnicas e objetivas, advindas das respostas biol&#x00F3;gicas e fisiol&#x00F3;gicas do corpo, deixando uma lacuna na forma&#x00E7;&#x00E3;o de profissionais de sa&#x00FA;de. Pr&#x00E1;ticas e conceitos mais afetivos, amorosos e solid&#x00E1;rios &#x2014; n&#x00E3;o s&#x00F3; para quem ser&#x00E1; cuidado, mas para os pr&#x00F3;prios profissionais, que acabam n&#x00E3;o se observando, n&#x00E3;o se escutando e n&#x00E3;o se cuidando. Uma esp&#x00E9;cie de cis&#x00E3;o entre o saber, fazer e sentir. E por isso, a import&#x00E2;ncia do gesto do autocuidado.</p>
<p>Entre as tantas contribui&#x00E7;&#x00F5;es que o pensamento interseccional de Audre Lorde nos permite, seu questionamento sobre a cis&#x00E3;o entre o saber e o sentir se faz fundamental quando pensamos a forma&#x00E7;&#x00E3;o em sa&#x00FA;de. A poesia, assim como a teoria nos ajudam a entender e criar formas de ser e agir no mundo.</p>
<disp-quote><p>Os patriarcas brancos nos disseram: &#x201C;Penso, logo existo&#x201D;. A m&#x00E3;e negra dentro de cada uma de n&#x00F3;s &#x2014; a poeta &#x2014; sussurra em nossos sonhos: &#x201C;Sinto, logo posso ser livre&#x201D;. A poesia cria a linguagem para expressar e registrar essa demanda revolucion&#x00E1;ria, a implementa&#x00E7;&#x00E3;o da liberdade. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-16-1778">Lorde, 2020</xref>, p. 48)</p></disp-quote>
<p>O conceito de autocuidado proposto por Lorde surgiu no ep&#x00ED;logo do livro <italic>A Burst of light</italic>, de 1988: &#x201C;Crucial. Fisicamente. Psiquicamente. Cuidar de mim n&#x00E3;o &#x00E9; auto indulg&#x00EA;ncia, &#x00E9; autopreserva&#x00E7;&#x00E3;o, e isso &#x00E9; um ato de guerra pol&#x00ED;tica&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-15-1778">Lorde, 2017</xref>, p. 229, tradu&#x00E7;&#x00E3;o minha).</p>
<p>A escrita &#x00ED;ntima encarnada por <xref ref-type="bibr" rid="ref-15-1778">Lorde (2017)</xref> relata a experi&#x00EA;ncia da autora em rela&#x00E7;&#x00E3;o aos profissionais de sa&#x00FA;de, &#x00E0;s institui&#x00E7;&#x00F5;es bem como &#x00E0;s formas de cuidado e escolhas feitas frente &#x00E0; uma doen&#x00E7;a terminal. Como viver e cuidar de si quando se est&#x00E1; em constante ataque? Quem cuida de quem cuida? A partir disso, Audre Lorde parece frisar a conex&#x00E3;o entre autocuidado e pol&#x00ED;tica nos fazendo pensar que as pr&#x00E1;ticas de prote&#x00E7;&#x00E3;o de si fazem parte das pr&#x00E1;ticas de luta. A sa&#x00FA;de f&#x00ED;sica e emocional ganha destaque na sustenta&#x00E7;&#x00E3;o do seu fazer frente ao sofrimento que encontramos durante nosso percurso de cuidar dos outros, especialmente frente a realidades devastadas pelas pol&#x00ED;ticas de vulnerabilza&#x00E7;&#x00E3;o e viol&#x00EA;ncia.</p>
<p>O autocuidado tamb&#x00E9;m foi um dos eixos da pesquisa de <xref ref-type="bibr" rid="ref-3-1778">Jane Barry e Jelena Djordjevic (2007)</xref> publicada no livro <italic>Que sentido tem a revolu&#x00E7;&#x00E3;o se n&#x00E3;o podemos dan&#x00E7;ar?</italic> Segundo o conceito de autocuidado, as pesquisadoras conversaram com mais de 100 mulheres ativistas, cuidadoras e militantes sobre como faziam para cuidar de si mesmas. Os resultados evidenciaram que a maioria das entrevistadas, trabalhadoras de pr&#x00E1;ticas de cuidado e ativismo, n&#x00E3;o cuidam de si e sofrem de alguma maneira (f&#x00ED;sica e emocional). Quest&#x00F5;es como prazer, espiritualidade, rela&#x00E7;&#x00E3;o com o pr&#x00F3;prio corpo, sexualidade e a possibilidade de descanso s&#x00E3;o abordadas na pesquisa, que revela a import&#x00E2;ncia de um esfor&#x00E7;o constante em se manter ativa e forte o desempenho dessas. As a&#x00E7;&#x00F5;es de cuidados e ativismo levam grande parte das mulheres que participaram da pesquisa a situa&#x00E7;&#x00F5;es de <italic>burnout</italic> e adoecimento (<xref ref-type="bibr" rid="ref-3-1778">Barry e Djordjevic, 2007</xref>). Essa &#x00E9; uma Importante informa&#x00E7;&#x00E3;o para aqueles que v&#x00E3;o cuidar de quem cuida &#x2014; ou para aqueles que v&#x00E3;o trabalhar na &#x00E1;rea da sa&#x00FA;de, e precisam tamb&#x00E9;m olhar para si.</p>
<p>Ao lidar com alunos que v&#x00E3;o se tornar profissionais de sa&#x00FA;de, percebo que grande n&#x00FA;mero experimenta sofrimento durante a forma&#x00E7;&#x00E3;o (independente da &#x00E1;rea de atua&#x00E7;&#x00E3;o na sa&#x00FA;de). N&#x00E3;o somente o sofrimento de se deparar com a dor do outro (algumas incur&#x00E1;veis) e com o sistema de exclus&#x00E3;o em que vivemos, sobretudo na realidade brasileira, mas tamb&#x00E9;m o sofrimento pela falta de tempo para si. Essa falta &#x00E9; refletida em um cansa&#x00E7;o e desinteresse constante, pelo conte&#x00FA;do, pelo pr&#x00F3;prio processo de forma&#x00E7;&#x00E3;o e pelo &#x201C;outro&#x201D; que precisa de seu olhar atento. Isso &#x00E9; uma consequ&#x00EA;ncia de uma sa&#x00FA;de pensada a partir do processo de coloniza&#x00E7;&#x00E3;o: algo que est&#x00E1; fora e distante de n&#x00F3;s, que precisa ser &#x201C;conquistado&#x201D; e n&#x00E3;o algo que j&#x00E1; temos e precisamos cuidar e preservar.</p>
<p>O conceito de autocuidado tem sido cooptado como um discurso do individualismo presente no sistema neoliberal &#x2014; afinal, muitos dos &#x201C;influencers&#x201D; da sa&#x00FA;de na internet falam sobre isso o tempo todo, com suporte de produtos, pr&#x00E1;ticas e realidades inacess&#x00ED;veis para a maioria da popula&#x00E7;&#x00E3;o brasileira. No entanto, para o movimento feminista, trata-se de uma organiza&#x00E7;&#x00E3;o que come&#x00E7;a pelo pr&#x00F3;prio corpo, uma estrat&#x00E9;gia ou t&#x00E1;tica de sobreviv&#x00EA;ncias, para aqueles que &#x201C;nunca foram destinados a sobreviver&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-16-1778">Lorde, 2020</xref>, p.14).</p>
<disp-quote><p>Mas cuidar da minha pr&#x00F3;pria sa&#x00FA;de, obter informa&#x00E7;&#x00F5;es suficientes para me ajudar a entender e participar das decis&#x00F5;es tomadas sobre meu corpo por pessoas que sabem mais medicina do que eu, s&#x00E3;o estrat&#x00E9;gias cruciais na minha batalha pela vida. Eles tamb&#x00E9;m me fornecem prot&#x00F3;tipos importantes para travar batalhas em todas as outras arenas da minha vida.</p>
<p>A luta contra o racismo, a luta contra o heterossexismo e a luta contra o apartheid compartilham a mesma urg&#x00EA;ncia dentro de mim que lutar contra o c&#x00E2;ncer. Nenhuma dessas lutas &#x00E9; f&#x00E1;cil, e mesmo a menor vit&#x00F3;ria nunca deve ser considerada garantida. Cada vit&#x00F3;ria deve ser aplaudida, porque &#x00E9; t&#x00E3;o f&#x00E1;cil n&#x00E3;o batalhar, apenas aceitar e chamar essa aceita&#x00E7;&#x00E3;o de inevit&#x00E1;vel.</p>
<p>E todo poder &#x00E9; relativo. Reconhecer a exist&#x00EA;ncia, bem como as limita&#x00E7;&#x00F5;es de meu pr&#x00F3;prio poder, e aceitar a responsabilidade de us&#x00E1;-lo em meu pr&#x00F3;prio benef&#x00ED;cio, envolve-me em a&#x00E7;&#x00F5;es diretas e di&#x00E1;rias que impedem a nega&#x00E7;&#x00E3;o como um poss&#x00ED;vel ref&#x00FA;gio. As palavras de Simone de Beauvoir ecoam em minha cabe&#x00E7;a: &#x201C;&#x00C9; no reconhecimento das condi&#x00E7;&#x00F5;es genu&#x00ED;nas de nossas vidas que ganhamos for&#x00E7;a para agir e nossa motiva&#x00E7;&#x00E3;o para a mudan&#x00E7;a.&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-15-1778">Lorde, 2017</xref>, p. 203)</p></disp-quote>
<p>Outras experi&#x00EA;ncias feministas tamb&#x00E9;m falam sobre a import&#x00E2;ncia de cuidado e autocuidado para ativistas. Na publica&#x00E7;&#x00E3;o <italic>Cuidado entre ativistas tecendo redes para a resist&#x00EA;ncia feminista,</italic> <xref ref-type="bibr" rid="ref-25-1778">Guacira Oliveira e Jelena Dordevic (2015)</xref> prop&#x00F5;e o cuidado e o autocuidado como um tipo de interven&#x00E7;&#x00E3;o pol&#x00ED;tica para lidar com situa&#x00E7;&#x00F5;es dif&#x00ED;ceis no cotidiano de quem trabalha com a tarefa de cuidar, transformar as formas de acolhimento. O autocuidado e o cuidado s&#x00E3;o vistos como um &#x201C;caminho para interpelar o individualismo, o sexismo, o racismo e outras formas de discrimina&#x00E7;&#x00E3;o que interiorizamos e que continuam nos oprimindo dia ap&#x00F3;s dia&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-25-1778">Oliveira e Dordevic, 2015</xref>, p. 17).</p>
<p>N&#x00E3;o h&#x00E1; consenso sobre o que &#x00E9; autocuidado, as experi&#x00EA;ncias s&#x00E3;o muito variadas, assim como as metodologias para trabalhar o autocuidado. Temos que verificar o que funciona para o grupo/coletivo/contexto que trabalhamos e implementar isso deliberadamente, como parte das nossas pr&#x00E1;ticas de organiza&#x00E7;&#x00E3;o di&#x00E1;ria (<xref ref-type="bibr" rid="ref-25-1778">Oliveira e Dordevic, 2015</xref>).</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="ref-2-1778">Jos&#x00E9; Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres (2004)</xref> quase se aproxima dessa discuss&#x00E3;o, quando apresenta que o sentido de cuidado j&#x00E1; consagrado pelo seu uso, refere-se a um conjunto de procedimentos que tecnicamente refletem o &#x00EA;xito de um tratamento. &#x00C9; necess&#x00E1;rio ampliar uma compreens&#x00E3;o de cuidado como pr&#x00E1;tica de responsabilidade, acolhimento e atitude frente aos processos sociais e individuais, incluindo a&#x00ED; perspectivas n&#x00E3;o-humanas tamb&#x00E9;m. Nesse sentido, o autocuidado &#x2014; assim como &#x00E9; o cuidado, deve ser pensado como conhecimento t&#x00E1;cito, ou seja, que acontece como processo de socializa&#x00E7;&#x00E3;o, de uma pr&#x00E1;tica pessoal coletivamente constru&#x00ED;da, fruto de experi&#x00EA;ncia, conviv&#x00EA;ncia e transmiss&#x00E3;o complexa, ensinadas em institui&#x00E7;&#x00F5;es de ensino desde muito cedo, principalmente, por mulheres em situa&#x00E7;&#x00F5;es subalternas. Isso j&#x00E1; acontece e muitas vezes &#x00E9; chamado pelo feminismo negro de reconhecimento e aten&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0; ancestralidade.</p>
<disp-quote><p>Quando entramos em contato com nossa ancestralidade, com a consci&#x00EA;ncia n&#x00E3;o europ&#x00E9;ia de vida como situa&#x00E7;&#x00E3;o a ser experimentada e com a qual se interage, aprendemos cada vez mais a apreciar nossos sentimentos e a respeitar essas fontes ocultas do nosso poder &#x2014; &#x00E9; delas que surge o verdadeiro conhecimento e, com ela as atitudes duradouras (<xref ref-type="bibr" rid="ref-16-1778">Lorde, 2020</xref>, p. 46)</p></disp-quote>
<p>Importante incluir a consci&#x00EA;ncia de que essas mulheres, com essa ancestralidade, dizem respeito a todos n&#x00F3;s. Enquanto o processo de explora&#x00E7;&#x00E3;o e viol&#x00EA;ncia do corpo de mulheres negras continua no Antropoceno &#x2014; ou Capitaloceno, ou&#x00A0; Plantationoceno ou&#x00A0; Chthuluceno como diria <xref ref-type="bibr" rid="ref-11-1778">Haraway (2016)</xref> &#x2014; n&#x00F3;s sofreremos o impacto tamb&#x00E9;m nos nossos corpos brancos e privilegiados: no planeta, tudo est&#x00E1; conectado. A crise clim&#x00E1;tica &#x00E9; tamb&#x00E9;m uma crise de cuidado, de autocuidado: um sentido que extrapola nosso corpo individual e humano e atinge outros seres e o pr&#x00F3;prio corpo planet&#x00E1;rio.</p>
<p>Nesse sentido, torna-se importante ampliar a concep&#x00E7;&#x00E3;o de sa&#x00FA;de e cuidado e pens&#x00E1;-la a partir da perspectiva do Bem Viver (<xref ref-type="bibr" rid="ref-6-1778">Chuji et al., 2021</xref>). Pensar o cuidado nessa perspectiva &#x00E9; questionar radicalmente alguns dos componentes centrais da modernidade, a partir de mudan&#x00E7;as profundas na maneira como conhecemos, nos relacionamos e nos afetamos. O Bem Viver parte de uma ontologia plural e assume express&#x00F5;es espec&#x00ED;ficas em diferentes lugares e regi&#x00F5;es sobre o que &#x00E9; ser saud&#x00E1;vel e ser feliz &#x2014; n&#x00E3;o baseados na centralidade dos seres humanos como &#x00FA;nicos sujeitos dotados de necessidades de cuidado e representa&#x00E7;&#x00E3;o. Um cuidado anti-colonial, que passa por uma ideia de comunidades ampliadas, formadas por humanos e n&#x00E3;o humanos, que conferem &#x201C;import&#x00E2;ncia substancial &#x00E0; afetividade e &#x00E0; espiritualidade&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-6-1778">Chuji et al., 2021</xref>, p. 211).</p>
</sec>
<sec id="sec-3-1778">
<title><bold>F<sc>azer pele</sc></bold></title>
<p><xref ref-type="bibr" rid="ref-23-1778">Ashley Montagu (1986)</xref> em seu livro <italic>Tocar, o significado humano da pele</italic>, descreve a pele como o primeiro e principal &#x00F3;rg&#x00E3;o de comunica&#x00E7;&#x00E3;o humana, sendo uma por&#x00E7;&#x00E3;o exposta do sistema nervoso &#x2014; lugar fundamental para todo o desenvolvimento do que entendemos como afeto. A pele &#x00E9;, portanto, o primeiro lugar que sentimos o cuidado &#x2014;. &#x00C9; tamb&#x00E9;m na pele que muitas pessoas experimentam os primeiros sentidos da viol&#x00EA;ncia e do que significa ser &#x201C;subalterno&#x201D; se pensarmos como exemplo a constru&#x00E7;&#x00E3;o das estruturas racistas e patriarcais. Pensar a pele, o toque e as consequ&#x00EA;ncias que isso tem para a transforma&#x00E7;&#x00E3;o pol&#x00ED;tica &#x00E9; fundamental. A pele carrega um sentido muito mais amplo que o tato e o toque. Ela atua como uma esp&#x00E9;cie de &#x201C;sensor&#x201D; da experi&#x00EA;ncia que produz o pensamento/sensa&#x00E7;&#x00E3;o de ser e estar no mundo. Para al&#x00E9;m da press&#x00E3;o, dor, calor, prazer, movimentos, temperatura, fric&#x00E7;&#x00E3;o, e muitos outros sentidos, a pele nos proporciona o sentido h&#x00E1;ptico. H&#x00E1;ptico vem do termo termo grego <italic>haptikos</italic>, que significa o que &#x00E9; relativo ao tato.</p>
<disp-quote><p>O termo h&#x00E1;ptico &#x00E9; usado para descrever o sentido do tato em sua extens&#x00E3;o mental, desencadeada diante da experi&#x00EA;ncia total de se viver e agir no espa&#x00E7;o. (...) o sentido h&#x00E1;ptico &#x00E9; adquirido pois se aplica a objetos vistos que tenham sido tocados ou usados em manipula&#x00E7;&#x00F5;es. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-23-1778">Montagu, 1986</xref>, p. 33)</p></disp-quote>
<p>&#x00C9; o sistema h&#x00E1;ptico que nos mant&#x00E9;m em contato, que conecta o corpo e o pensamento em uma &#x00FA;nica experi&#x00EA;ncia. O que experimentamos e vivemos na pele &#x00E9; tamb&#x00E9;m reflexo da maneira como agimos e atuamos no mundo. A pele &#x00E9;, portanto, sempre reflexo. <xref ref-type="bibr" rid="ref-24-1778">Fred Moten e Stefano Harney (2013)</xref> no livro <italic>The Undercommons</italic> tamb&#x00E9;m dedicam um cap&#x00ED;tulo para pensar o que seria &#x201C;hapticalidade&#x201D; e o amor, como caminho da constru&#x00E7;&#x00E3;o de um bem comum.</p>
<disp-quote><p>Largados juntos tocando um ao outro, nos foi negado todo sentimento, negado todas as coisas que deveriam produzir sentimento, fam&#x00ED;lia, na&#x00E7;&#x00E3;o, idioma, religi&#x00E3;o, lugar, lar. Embora for&#x00E7;ados a tocar e sermos tocados, a sentir e sermos sentidos naquele espa&#x00E7;o, embora negado o sentimento de hist&#x00F3;ria e de lar, n&#x00F3;s sentimos um (pelo) outro. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-24-1778">Moten e Harney, 2013</xref>, p. 98)</p></disp-quote>
<p>Os autores falam da hapticalidade como essa capacidade de sentir pelo outro. &#x00C9; por meio da pele, do toque e do amor que se constr&#x00F3;i algo comum. Esse toque comum faz frente a maneira que tradicionalmente os bens foram teorizados como um conjunto de recursos e rela&#x00E7;&#x00F5;es que s&#x00E3;o criados, protegidos e gerenciados coletivamente. O que <xref ref-type="bibr" rid="ref-24-1778">Moten e Harney (2013)</xref> apontam &#x00E9; que esse conjunto de rela&#x00E7;&#x00F5;es e recursos &#x00E9; apresentado como um estado alcan&#x00E7;ado por indiv&#x00ED;duos que decidem entrar em rela&#x00E7;&#x00F5;es por meio do poder, e os bens comuns, acabam sendo entendidos como estados e na&#x00E7;&#x00F5;es (Moten e Harney, 2019). Como forma de transformar essa l&#x00F3;gica, a hapticalidade &#x00E9; proposta como pr&#x00E1;tica afirmativa, com o que est&#x00E1; por baixo dos processos de individua&#x00E7;&#x00E3;o, o que n&#x00E3;o precisa um momento de regula&#x00E7;&#x00E3;o, corre&#x00E7;&#x00E3;o, liquida&#x00E7;&#x00E3;o. Porque os <italic>undercommons</italic> j&#x00E1; est&#x00E3;o. &#x201C;J&#x00E1; estamos aqui, nos movendo. N&#x00F3;s estivemos por a&#x00ED;. Somos mais do que pol&#x00ED;tica, mais do que estabelecidos, mais do que democr&#x00E1;ticos&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-24-1778">Moten e Harney, 2013</xref>, p. 19). Uma solidariedade comum: &#x201C;uma forma de sentir atrav&#x00E9;s dos outros, uma sensa&#x00E7;&#x00E3;o de sentir os outros sentindo voc&#x00EA;&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-24-1778">Moten e Harney, 2013</xref>, p. 98). Um sentimento que n&#x00E3;o pode ser sentido individualmente, mas nem coletivamente como um sentimento homog&#x00EA;neo. &#x00C9; uma sensa&#x00E7;&#x00E3;o que n&#x00E3;o pode ser fixada em um territ&#x00F3;rio, estado, na&#x00E7;&#x00E3;o, hist&#x00F3;ria &#x2014; ou institui&#x00E7;&#x00F5;es. &#x00C9; uma esp&#x00E9;cie de &#x201C;fechamento&#x201D; pelo toque, pela pele, do que podemos sentir, construir e fazer juntos.</p>
<p>Durante a pandemia de COVID-19, que vivemos desde o in&#x00ED;cio de 2020, tocar e estar em contato foi proibido, mesmo que o aparente sentimento de solidariedade entre as pessoas tenha crescido como demanda social. A import&#x00E2;ncia do toque, do cuidado e da presen&#x00E7;a do profissional da sa&#x00FA;de se fez crucial para sobrevivermos a uma trag&#x00E9;dia social e planet&#x00E1;ria, com maior impacto para popula&#x00E7;&#x00F5;es vulnerabilizadas pelo sistema econ&#x00F4;mico de exclus&#x00E3;o. Se, por um lado, vivemos uma guerra de discursos m&#x00E9;dicos e de formas de cuidar para n&#x00E3;o propagar o v&#x00ED;rus com vigil&#x00E2;ncia e viol&#x00EA;ncia, por outro, pudemos observar a pot&#x00EA;ncia de gestos menores e de ajuda m&#x00FA;tua, cuidado comum que (j&#x00E1;) sustentava a vida social. Assim, at&#x00E9; certo ponto, a excepcionalidade poderia ajudar a multiplicar a hapticalidade, a tocar a solidariedade j&#x00E1; comum, a espalhar a sensa&#x00E7;&#x00E3;o de sentimento por outros, a fugir enquanto cercava os recintos cotidianos, a inventar novos dispositivos de cuidado m&#x00FA;tuo. A for&#x00E7;a da solidariedade comum que poderia, ao mesmo tempo, antagonizar os comandos capitalistas sobre a vida, fundamenta o poder e o toque desse subconsciente sentir e viver. Outras formas de movimento, sentido e cuidado. Um cuidado que esteja engajado nas maneiras de transforma&#x00E7;&#x00E3;o da vida, da pol&#x00ED;tica, do encontro.</p>
<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="ref-18-1778">Erin Manning (2015)</xref>, a maneira como nos movemos &#x00E9; sempre pol&#x00ED;tica. Ent&#x00E3;o, o toque, tamb&#x00E9;m pode ser pensado como uma forma de pensar este corpo em movimento. E isso n&#x00E3;o &#x00E9; estabelecer uma hierarquia ao toque, mas entend&#x00EA;-lo como opera&#x00E7;&#x00E3;o cinest&#x00E9;sica fundamental para os vetores de rela&#x00E7;&#x00E3;o, sempre em di&#x00E1;logo com outros sentidos &#x2014; todos e muito mais que os cinco tradicionais, definidos fisiologicamente.</p>
<p>Pensar o toque cinestesicamente &#x00E9; apreciar todas as maneiras pelas quais o movimento altera qualitativamente um corpo, como se torna aparente ao final da pol&#x00ED;tica do tato, os sentidos alteram as dimens&#x00F5;es do corpo. Incitando o corpo a se mover al&#x00E9;m de si mesmo, em dire&#x00E7;&#x00E3;o ao mundo. Sentir em dire&#x00E7;&#x00E3;o ao mundo implica o corpo em um turbilh&#x00E3;o que reorganiza as concep&#x00E7;&#x00F5;es de espa&#x00E7;o e tempo. O corpo em a&#x00E7;&#x00E3;o na pol&#x00ED;tica do toque &#x00E9; um corpo sens&#x00ED;vel em movimento. Este n&#x00E3;o &#x00E9; um novo corpo, e sim um corpo que sempre emergiu atrav&#x00E9;s e ao lado de outros corpos &#x2014; como os <italic>undercommons</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="ref-24-1778">Moten e Hardney, 2013</xref>). O que h&#x00E1; de novo sobre o corpo por estar alicer&#x00E7;ado na pol&#x00ED;tica do tato, n&#x00E3;o &#x00E9; a forma ou a formato, mas as matrizes relacionais que ele possibilita.</p>
<p>A hapticalidade &#x00E9; definida por <xref ref-type="bibr" rid="ref-24-1778">Moten e Hardney (2013)</xref> como &#x201C;um sentimento de sentir os outros sentindo voc&#x00EA;&#x201D; (p. 98). A hapticalidade assim proposta preenche o vazio do t&#x00E1;cito, do que &#x00E9; silencioso. Coloca-nos abertos para a vida e para o mundo. Podemos a partir dessa pr&#x00E1;tica perceber n&#x00E3;o s&#x00F3; os outros humanos mas tamb&#x00E9;m n&#x00E3;o humanos. Seres, objetos, naturezas. Ouvir o barulho do rio, conhecer o movimento da mar&#x00E9;, olhar o c&#x00E9;u e se conectar com o vento nas folhas das &#x00E1;rvores. Hapticalidade est&#x00E1; no lugar do que n&#x00E3;o pode ser dito. Mas sentido junto. E n&#x00E3;o se trata de integra&#x00E7;&#x00E3;o, a zona da hapticalidade &#x00E9; uma zona de diferen&#x00E7;as, um caminho de encontro de campos de pr&#x00E1;ticas (<xref ref-type="bibr" rid="ref-14-1778">Ingold, 2019</xref>).</p>
<disp-quote><p>Com efeito, a hapticidade preenche o vazio do t&#x00E1;cito. Onde o t&#x00E1;cito &#x00E9; silencioso, o h&#x00E1;ptico &#x00E9; ruidoso; onde o t&#x00E1;cito &#x00E9; corporificado, o h&#x00E1;ptico &#x00E9; animado; onde o t&#x00E1;cito est&#x00E1; imerso nas profundezas do ser, o h&#x00E1;ptico est&#x00E1; aberto e vivo para os outros e para o mundo. Isso tamb&#x00E9;m n&#x00E3;o precisa ser limitado &#x00E0; esfera das rela&#x00E7;&#x00F5;es humanas. Outros tipos de seres, ou outros fen&#x00F4;menos, fazem sua presen&#x00E7;a ser sentida de v&#x00E1;rias maneiras, e devemos atend&#x00EA;-los tamb&#x00E9;m. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-14-1778">Ingold, 2019</xref>, p. 9)</p></disp-quote>
<p><xref ref-type="bibr" rid="ref-27-1778">Rizvana Bradley (2014)</xref> organizou um volume da revista <italic>Women &#x0026; Performance: a journal of feminist theory</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="ref-27-1778">Bradley, 2014</xref>), com v&#x00E1;rios artigos que provocados pelo conceito de hapticalidade de <xref ref-type="bibr" rid="ref-24-1778">Moten e Hardney (2013)</xref>, que ampliaram a no&#x00E7;&#x00E3;o do h&#x00E1;ptico como objeto de investiga&#x00E7;&#x00E3;o. O dossi&#x00EA; apresentado por <xref ref-type="bibr" rid="ref-27-1778">Bradley (2014)</xref>, reuniu ensaios sobre economias t&#x00E1;teis emergentes e abordou o sistema h&#x00E1;ptico como um conjunto espec&#x00ED;fico de negocia&#x00E7;&#x00F5;es materiais entre corpos, espa&#x00E7;os e objetos. O toque, a dobra, o dedilhado, a pele em rela&#x00E7;&#x00E3;o com a textura de um objeto, se oferecem como t&#x00E9;cnicas de conhecimento em arte e performance. Mas podemos pensar que tamb&#x00E9;m &#x00E9; importante saber-fazer da &#x00E1;rea da sa&#x00FA;de. A partir da hapticalidade, podemos expandir os par&#x00E2;metros de encontros e presen&#x00E7;as, n&#x00E3;o apenas em diversos contextos art&#x00ED;sticos e educacionais, mas mais especificamente, nas bordas cruciais da pr&#x00E1;tica social e de contextos de cuidado e transforma&#x00E7;&#x00E3;o pol&#x00ED;tica.</p>
<p>Arrisco uma aproxima&#x00E7;&#x00E3;o entre o conceito de hapticalidade (<xref ref-type="bibr" rid="ref-24-1778">Moten e Hardney, 2013</xref>) com o conceito de &#x201C;aquilombar-se&#x201D; proposto por Antonio Bispo dos Santos, ou N&#x00EA;go <xref ref-type="bibr" rid="ref-4-1778">Bispo (2015)</xref>. Aquilombar-se contra a destrui&#x00E7;&#x00E3;o decorrente da coloniza&#x00E7;&#x00E3;o, gera um movimento que o autor, chama de contra-coloniza&#x00E7;&#x00E3;o. S&#x00E3;o saberes, que assim como em Underccomons (<xref ref-type="bibr" rid="ref-24-1778">Moten e Harney, 2013</xref>), surgem como processos de resist&#x00EA;ncia e de luta em defesa dos territ&#x00F3;rios dos povos contra-colonizadores, com seus s&#x00ED;mbolos, as significa&#x00E7;&#x00F5;es e os modos de vida.</p>
<p>Em sua trajet&#x00F3;ria nessa luta, N&#x00EA;go Bispo espalha com sua obra e pensamento, uma chance de um &#x201C;devir quilombola&#x201D;, quando sugere que a gente se &#x201C;aquilombe&#x201D;, para entender a terra e o territ&#x00F3;rio no sentido de universos existenciais vinculados, n&#x00E3;o somente &#x00E0; produ&#x00E7;&#x00E3;o econ&#x00F4;mica, mas aos corpos e aos esp&#x00ED;ritos desses povos, para poder cuidar e proteger os territ&#x00F3;rios f&#x00ED;sicos e simb&#x00F3;licos que est&#x00E3;o em jogo nessa guerra de mundos (<xref ref-type="bibr" rid="ref-4-1778">Bispo, 2015</xref>). Aquilombar &#x00E9; criar ref&#x00FA;gio, com tecnologias potentes e ancestrais. Um cuidado tamb&#x00E9;m h&#x00E1;ptico, um saber que passa pela pele.</p>
<p>A hapticalidade nesse sentido n&#x00E3;o pode ser &#x201C;ensinada&#x201D;, mas existem muitas formas de fazer a conex&#x00E3;o e a ativa&#x00E7;&#x00E3;o desses &#x201C;receptores&#x201D; h&#x00E1;pticos a partir de exerc&#x00ED;cios de dan&#x00E7;a, educa&#x00E7;&#x00E3;o som&#x00E1;tica e jogos de presen&#x00E7;a. &#x00C9; um saber que transforma o encontro: quando te toco, ou quando voc&#x00EA; me toca, podemos nos conhecer a partir de outro lugar.</p>
<p>E nesse sentido, o toque &#x00E9; sempre pol&#x00ED;tico &#x2014; podendo ser algo que abre uma imensa possibilidades de sentidos e pot&#x00EA;ncias como tamb&#x00E9;m in&#x00FA;meras formas de viol&#x00EA;ncias e imposi&#x00E7;&#x00F5;es normativas (<xref ref-type="bibr" rid="ref-17-1778">Manning, 2007</xref>).</p>
</sec>
<sec id="sec-4-1778">
<title><bold>F<sc>azer dan&#x00E7;a</sc></bold></title>
<p>A dan&#x00E7;a do autocuidado e da hapticalidade &#x00E9; uma dan&#x00E7;a como &#x201C;processualidade&#x201D; de aproxima&#x00E7;&#x00E3;o entre o corpo, o espa&#x00E7;o, o gesto e o desejo de movimento. Dentro da processualidade pensamos a forma, a posi&#x00E7;&#x00E3;o do corpo, o jeito de se mover, de respirar, de pausar. Essa forma, que n&#x00E3;o &#x00E9; est&#x00E1;tica, tem rela&#x00E7;&#x00E3;o de correspond&#x00EA;ncia com o fora e n&#x00E3;o se explica em si mesma. Escutar, sentir, tocar, perceber s&#x00E3;o a&#x00E7;&#x00F5;es necess&#x00E1;rias.</p>
<p>Uma dan&#x00E7;a menor, aqui pensada junto com o autocuidado e a haptcalidade, seria ent&#x00E3;o a proposi&#x00E7;&#x00E3;o de um campo de processo de aten&#x00E7;&#x00E3;o para o corpo, numa dan&#x00E7;a que amplia o olhar para a vida e suas paisagens. A dan&#x00E7;a menor n&#x00E3;o &#x00E9; pequena. &#x00C9; aquela que articula possibilidades de novas coreografias, com novos posicionamentos de corpos e institui&#x00E7;&#x00F5;es. Dan&#x00E7;a menor (<xref ref-type="bibr" rid="ref-10-1778">Guzzo e Alves, 2021</xref>), pensada como a produ&#x00E7;&#x00E3;o material e imaterial, subjetiva e afetiva, que significa que a vida e os corpos n&#x00E3;o podem ser reduzidos a processos biol&#x00F3;gicos e econ&#x00F4;micos j&#x00E1; estabilizados. A dan&#x00E7;a menor pode ser pensada em dan&#x00E7;as que sugerem e geram novas ativa&#x00E7;&#x00F5;es de presen&#x00E7;as e corpos (n&#x00E3;o necessariamente minorias). A dan&#x00E7;a menor, pode ser pensada como ativadora, portadora de um agenciamento que desenha o acontecimento que acontece no corpo, mas tamb&#x00E9;m fora dele, movendo-se em novos modos de exist&#x00EA;ncia (<xref ref-type="bibr" rid="ref-21-1778">Manning, 2019</xref>).</p>
<p>Importante delimitar a complexidade e heterogeneidade dos poss&#x00ED;veis entendimentos e pr&#x00E1;ticas de dan&#x00E7;a. Por isso, este artigo pretende delinear uma linha de for&#x00E7;a para o trabalho com movimento, n&#x00E3;o delimitando uma &#x201C;t&#x00E9;cnica&#x201D; de dan&#x00E7;a espec&#x00ED;fica, mas ampliando o olhar para o que pode acontecer em uma proposta interdisciplinar que abra&#x00E7;a a expressividade, sensualidade e inven&#x00E7;&#x00E3;o de corpo como ponto de partida para profissionais da &#x00E1;rea da sa&#x00FA;de.</p>
<p>A proposi&#x00E7;&#x00E3;o de construir uma dan&#x00E7;a em comum com a &#x00E1;rea da sa&#x00FA;de, pensada como experi&#x00EA;ncia est&#x00E9;tica e som&#x00E1;tica &#x2014; um outro saber sobre o corpo &#x2014; pode ser um modo de percorrer e investigar as no&#x00E7;&#x00F5;es de presen&#x00E7;a, cuidado, comum e pol&#x00ED;tica.</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="ref-19-1778">Erin Manning (2016)</xref> destaca que est&#x00E1; no &#x201C;gesto menor&#x201D;, um campo est&#x00E9;tico e pol&#x00ED;tico orientado na no&#x00E7;&#x00E3;o de processualidade como estrat&#x00E9;gia a novas formas de pensamento e produ&#x00E7;&#x00E3;o em arte, como tamb&#x00E9;m, a convoca&#x00E7;&#x00E3;o de insurg&#x00EA;ncias coletivas no contexto atual. &#x201C;&#x00C9; enfatizar que arte &#x00E9;, acima de tudo, uma qualidade, uma diferen&#x00E7;a, um processo operativo que mapeia caminhos rumo a uma certa afina&#x00E7;&#x00E3;o entre mundo e express&#x00E3;o&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-21-1778">Manning, 2019</xref>, p.12).</p>
<p>A autora prop&#x00F5;e uma defini&#x00E7;&#x00E3;o, &#x201C;o gesto menor: a for&#x00E7;a gestual que abre a experi&#x00EA;ncia para sua pot&#x00EA;ncia de varia&#x00E7;&#x00E3;o&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-21-1778">Manning, 2019</xref>, p. 12). Essa pot&#x00EA;ncia do gesto menor, acontece de dentro da experi&#x00EA;ncia, ativando diferen&#x00E7;as, outras formas de tonicidade e tonalidade. Essa varia&#x00E7;&#x00E3;o da experi&#x00EA;ncia, o gesto menor, estaria sempre entrela&#x00E7;ado com tons maiores. A autora ainda nos exp&#x00F5;e a contraposi&#x00E7;&#x00E3;o da arte como produ&#x00E7;&#x00E3;o exclusiva de objetos e objetivos como fim: essas defini&#x00E7;&#x00F5;es priorizam o objeto produzido pela arte e o que ele suscita de um modo passivo-ativo, onde separa quem observa e quem realiza a arte (<xref ref-type="bibr" rid="ref-19-1778">Manning, 2016</xref>). O pensamento contraposto &#x00E9; de uma arte entendida como maneira e modo de se fazer, considerando o processo como a arte em movimento (a atividade). Entendendo o lugar de poss&#x00ED;vel atividade de cada sujeito de um acontecimento, fazer arte &#x00E9; ent&#x00E3;o realizar processos que acoplam um campo pr&#x00E1;tico e simb&#x00F3;lico simult&#x00E2;neo evidenciando os corpos presentes como agentes.</p>
<p>Para pensar a dan&#x00E7;a que se preocupa em produzir um objeto (coreogr&#x00E1;fico) h&#x00E1; de se considerar que para essa produ&#x00E7;&#x00E3;o tamb&#x00E9;m exige-se passar por um processo, a autora (<xref ref-type="bibr" rid="ref-19-1778">Manning, 2016</xref>) nos traz elementos para pensarmos a qualidade e finalidade de tais processos. Ou seja, uma defini&#x00E7;&#x00E3;o de arte como &#x201C;processualidade&#x201D;. Dentro da processualidade pensamos a forma, essa forma que n&#x00E3;o &#x00E9; est&#x00E1;tica, tem rela&#x00E7;&#x00E3;o de correspond&#x00EA;ncia com o fora e n&#x00E3;o se explica em si mesma.</p>
<p>Uma dan&#x00E7;a menor, pensada aqui, seria ent&#x00E3;o, a proposi&#x00E7;&#x00E3;o de um campo de processo em dan&#x00E7;a (em suas multiplicidades e possibilidades heterog&#x00EA;neas), que evidencia as passagens necess&#x00E1;rias para o encontro, entre as pessoas e as proposi&#x00E7;&#x00F5;es coreogr&#x00E1;ficas, com foco na pot&#x00EA;ncia dos pequenos movimentos que funcionam como redes de resist&#x00EA;ncia e modos poss&#x00ED;veis de agir e criar coletivamente &#x2014; modos de criar ou coreografar pot&#x00EA;ncias de varia&#x00E7;&#x00E3;o, que acontecem n&#x00E3;o somente no momento da pr&#x00E1;tica coreogr&#x00E1;fica, mas em toda pr&#x00E1;tica relacional que se d&#x00E1; para que os corpos possam estar presentes e dan&#x00E7;ar.</p>
<p>E que dan&#x00E7;a? Uma dan&#x00E7;a que amplia o olhar para a vida e para o corpo e que se contrap&#x00F5;e &#x00E0;s pol&#x00ED;ticas e biopoderes hegem&#x00F4;nicos contempor&#x00E2;neos, tamb&#x00E9;m impostos aos artistas e suas produ&#x00E7;&#x00F5;es coreogr&#x00E1;ficas. Uma dan&#x00E7;a que amplia a no&#x00E7;&#x00E3;o de corpo, para um corpo coletivo a partir de for&#x00E7;as e gestos de encontro.</p>
<p>Uma dan&#x00E7;a proposta para articular possibilidades de novas coreografias, com novos posicionamentos de corpos e institui&#x00E7;&#x00F5;es, considerando tamb&#x00E9;m os momentos em que arte e n&#x00E3;o-arte se provocam e contaminam, colocando em quest&#x00E3;o a pr&#x00F3;pria exist&#x00EA;ncia de uma separa&#x00E7;&#x00E3;o entre as pr&#x00E1;ticas art&#x00ED;sticas e a vida cotidiana.</p>
<p>A dan&#x00E7;a menor pode ser pensada como novas ativa&#x00E7;&#x00F5;es de presen&#x00E7;as e corpos, que se reconhe&#x00E7;am mesmo dentro de um dissenso como experi&#x00EA;ncias comuns. O movimento coreogr&#x00E1;fico, ou a pausa (que tamb&#x00E9;m &#x00E9; igualmente importante para a coreografia), pode ser pensada como ativadora, portadora de um agenciamento que desenha o acontecimento, que acontece no corpo, mas tamb&#x00E9;m fora dele, movendo-se em novos modos de exist&#x00EA;ncia (<xref ref-type="bibr" rid="ref-21-1778">Manning, 2019</xref>).</p>
<p>Atrav&#x00E9;s do processo art&#x00ED;stico concebemos a dan&#x00E7;a como pr&#x00E1;tica est&#x00E9;tica porque promove a condu&#x00E7;&#x00E3;o e sustenta&#x00E7;&#x00E3;o de uma experimenta&#x00E7;&#x00E3;o afetiva e perceptiva de si e do mundo, a partir do corpo. Esse corpo, que dan&#x00E7;a, que observa outros corpos que dan&#x00E7;am, que partilha e organiza refer&#x00EA;ncias m&#x00FA;ltiplas de ser e modos de fazer dan&#x00E7;a, adentra uma s&#x00E9;rie de processos de regenera&#x00E7;&#x00E3;o de si e do mundo, a partir da est&#x00E9;tica.</p>
<p>Essa dan&#x00E7;a pode ser estudada, praticada e proposta em situa&#x00E7;&#x00F5;es de ensino aprendizagem, em situa&#x00E7;&#x00F5;es de cuidado, na forma&#x00E7;&#x00E3;o em sa&#x00FA;de &#x2014; em suas diversas &#x00E1;reas de atua&#x00E7;&#x00E3;o interdisciplinar. E estudar e (des)aprender juntos (mesmo que separados no contexto pand&#x00EA;mico) &#x00E9; uma das formas como <xref ref-type="bibr" rid="ref-24-1778">Moten e Harney (2013)</xref> prop&#x00F5;em o lugar e o comprometimento da universidade &#x2014; um espa&#x00E7;o de especula&#x00E7;&#x00E3;o, que aproxima-se tamb&#x00E9;m da cria&#x00E7;&#x00E3;o da dan&#x00E7;a (e tamb&#x00E9;m da m&#x00FA;sica, do teatro), como um espa&#x00E7;o de ensaio:</p>
<disp-quote><p>Estamos comprometidos com a ideia de que estudar &#x00E9; o que voc&#x00EA; faz com outras pessoas. &#x00C9; conversar e caminhar com outras pessoas, trabalhando, dan&#x00E7;ando, sofrendo, alguma converg&#x00EA;ncia irredut&#x00ED;vel dos tr&#x00EA;s, realizada sob o nome de pr&#x00E1;tica especulativa. A no&#x00E7;&#x00E3;o de um ensaio &#x2014; estar em uma esp&#x00E9;cie de oficina, tocar em uma banda, em uma jam session, ou velhos sentados em uma varanda ou pessoas trabalhando juntas em uma f&#x00E1;brica &#x2014; existem esses v&#x00E1;rios modos de atividade. O objetivo de cham&#x00E1;-lo de &#x201C;estudo&#x201D; &#x00E9; marcar que a intelectualidade incessante e irrevers&#x00ED;vel dessas atividades j&#x00E1; est&#x00E1; presente. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-24-1778">Moten e Harney, 2013</xref>, p. 110)</p></disp-quote>
<p>Essa sala de ensaio, pode ser qualquer lugar. Pode ser um equipamento de cultura, de sa&#x00FA;de ou de educa&#x00E7;&#x00E3;o. Pode ser uma sala de aula, ou pode ser uma sala do Google Meet/ Zoom. O encontro especulativo que inspira estar junto e sentir junto, &#x00E9; uma forma de construir essa presen&#x00E7;a firme e precisa, diante de situa&#x00E7;&#x00F5;es de sofrimento, que implicam cuidado.</p>
<p>Um exemplo que fundamenta esse referencial &#x00E9; Steve Paxton<xref ref-type="fn" rid="fn-1-1778"><sup>1</sup></xref> e o que ele nomeia de &#x201C;pequena dan&#x00E7;a&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-26-1778">Paxton, 1997</xref>). Essa pequena dan&#x00E7;a, consiste em ficar de p&#x00E9; e em seguida relaxar, e observar seu corpo a realizar todos os processos necess&#x00E1;rios para se estabelecer e se sustentar nessa posi&#x00E7;&#x00E3;o.</p>
<disp-quote><p>Ent&#x00E3;o, em um certo momento, voc&#x00EA; percebe que relaxou tudo o que p&#x00F4;de relaxar, mas voc&#x00EA; ainda est&#x00E1; de p&#x00E9;, e que este estar de p&#x00E9; &#x00E9; uma sequ&#x00EA;ncia de muitos instantes de movimento. O esqueleto te segura na vertical apesar de mentalmente voc&#x00EA; estar relaxando. Agora, o pr&#x00F3;prio fato de voc&#x00EA; estar ordenando a voc&#x00EA; mesmo a relaxar, e ainda continuar de p&#x00E9; &#x2014; encontrando este limite no qual voc&#x00EA; pode relaxar ao m&#x00E1;ximo sem cair, coloca voc&#x00EA; em contato com um esfor&#x00E7;o b&#x00E1;sico de sustenta&#x00E7;&#x00E3;o que est&#x00E1; constantemente no corpo, mas do qual voc&#x00EA; n&#x00E3;o tem consci&#x00EA;ncia o tempo todo&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-26-1778">Paxton, 1997</xref>, p. 23).</p></disp-quote>
<p>Nesse exerc&#x00ED;cio simples de percep&#x00E7;&#x00E3;o e compreens&#x00E3;o, fica evidente que, para nos mover, precisamos tamb&#x00E9;m perceber que muitos movimentos j&#x00E1; acontecem, e que mesmo, pequenos &#x2014; ou invis&#x00ED;veis &#x2014; s&#x00E3;o respons&#x00E1;veis para que a dan&#x00E7;a aconte&#x00E7;a. A partir de uma proposta de conscientiza&#x00E7;&#x00E3;o, Steve Paxton apresenta uma forma de dan&#x00E7;a como processo constante de aten&#x00E7;&#x00E3;o, presen&#x00E7;a e escuta, mas tamb&#x00E9;m a possibilidade de entender a dan&#x00E7;a como uma experi&#x00EA;ncia singular, que nos permite partilhar o encontro com outros corpos, objetos e presen&#x00E7;as.</p>
</sec>
<sec id="sec-5-1778">
<title><bold>F<sc>azer corpo</sc></bold></title>
<p>&#x00C9; importante trazer um referencial de corpo, que se afina nessa rela&#x00E7;&#x00E3;o entre os corpos-mundo e as express&#x00F5;es desses mundos, buscando acender pot&#x00EA;ncias e inaugurar afetos que podem ser amparo para os agenciamentos poss&#x00ED;veis aos pequenos gestos e dan&#x00E7;as envolvidas neste processo de partilha. O corpo aqui &#x00E9; tamb&#x00E9;m pensado como processo. A processualidade &#x00E9; este corpo cuja forma &#x00E9; mut&#x00E1;vel e tem suas express&#x00F5;es em gestos, tem um jeito de operar, o jeito (<italic>manner</italic>) aciona diferentes sensa&#x00E7;&#x00F5;es do tempo e do espa&#x00E7;o. A partir da diferen&#x00E7;a da sensa&#x00E7;&#x00E3;o do tempo &#x2014; do que era e do que &#x00E9; &#x2014;, uma outra coisa &#x00E9; acionada, essa coisa outra aqu&#x00E9;m do cotidiano, mas que reside ali no que pode vir a ser &#x00E9; a experimenta&#x00E7;&#x00E3;o da &#x201C;arte do tempo&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-19-1778">Manning, 2016</xref>).</p>
<p>A arte do tempo &#x00E9; impulsionada pela intui&#x00E7;&#x00E3;o que agencia essa experimenta&#x00E7;&#x00E3;o de atualiza&#x00E7;&#x00E3;o do sujeito. A atualiza&#x00E7;&#x00E3;o se d&#x00E1; &#x00E0; medida que o corpo se percebe em vibra&#x00E7;&#x00F5;es que se sintonizam com os tempos em diferencia&#x00E7;&#x00E3;o. Quando a dan&#x00E7;a convoca perceber como se senta, onde est&#x00E1; a coluna no espa&#x00E7;o, observar a respira&#x00E7;&#x00E3;o, ou apenas fechar os olhos e ouvir o som ao redor. Uma chamada de aten&#x00E7;&#x00E3;o para si e para o outro. Uma chamada para a percep&#x00E7;&#x00E3;o do que est&#x00E1; al&#x00E9;m das palavras. Uma iman&#x00EA;ncia. A iman&#x00EA;ncia de corpo e tempo afirma um presente em atualiza&#x00E7;&#x00E3;o por experienciar uma reorienta&#x00E7;&#x00E3;o da percep&#x00E7;&#x00E3;o conduzida por uma intui&#x00E7;&#x00E3;o agu&#x00E7;ada. Esse presente n&#x00E3;o &#x00E9; um atestado de formas fixas, mas &#x201C;uma qualidade da passagem&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-19-1778">Manning, 2016</xref>), ou seja, o campo do processo.</p>
<p>Ainda, este processo &#x00E9; sobre corpos que se percebem, atuam em descobertas e ent&#x00E3;o podem se afirmar, se sustentar frente aos convites de regenera&#x00E7;&#x00E3;o, reconstru&#x00E7;&#x00E3;o, e principalmente, de inven&#x00E7;&#x00E3;o movimentada e dan&#x00E7;ante de uma experi&#x00EA;ncia coreogr&#x00E1;fica. Podem criar juntos ref&#x00FA;gios e alian&#x00E7;as para seguir, em luto ou em luta &#x2014; em um mundo com crises ambientais, sanit&#x00E1;rias e sociais, nunca foi t&#x00E3;o importante a cria&#x00E7;&#x00E3;o de ref&#x00FA;gios, f&#x00ED;sicos e simb&#x00F3;licos (<xref ref-type="bibr" rid="ref-5-1778">Bona, 2020</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="ref-9-1778">Guzzo, 2022</xref>). Ref&#x00FA;gios para a possibilidade de um corpo que experimenta uma vida potente em sentidos, experimenta&#x00E7;&#x00F5;es e prazeres produzidos por ele mesmo!</p>
<p>Um corpo que se aproxima tamb&#x00E9;m do &#x201C;corpo vibr&#x00E1;til&#x201D; ou &#x201C;corpo puls&#x00E1;til&#x201D; que nos apresenta <xref ref-type="bibr" rid="ref-29-1778">Suely Rolnik (2003)</xref>. Um corpo que proporciona que estejamos &#x201C;captando os sinais das for&#x00E7;as que agitam o mundo e que provocam vibra&#x00E7;&#x00F5;es e efeitos no nosso corpo&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-28-1778">Rolnik, 2018</xref>, p. 53).</p>
<p>Esses sinais tamb&#x00E9;m se ampliam para uma concep&#x00E7;&#x00E3;o de for&#x00E7;as e corpos (n&#x00E3;o s&#x00F3; humanos) como lugar fundante na cria&#x00E7;&#x00E3;o de exist&#x00EA;ncias e presen&#x00E7;as &#x2014; vis&#x00ED;veis e invis&#x00ED;veis. Corpos em processo de refazimento a partir dos encontros, atentos para n&#x00E3;o reproduzir viol&#x00EA;ncias e processos de domina&#x00E7;&#x00E3;o j&#x00E1; estabelecidos dentro das pol&#x00ED;ticas de subjetividade impostas. <xref ref-type="bibr" rid="ref-28-1778">Rolnik (2018)</xref> nos alerta que dentro do sistema capitalista colonialista neoliberal, estamos em constante risco de n&#x00E3;o enxergarmos as &#x201C;transforma&#x00E7;&#x00F5;es que acontecem nos diagramas de vetores de for&#x00E7;as e impedindo que novas maneiras de ver, de sentir e de existir possam emergir&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-28-1778">Rolnik, 2018</xref>, p. 29)</p>
<p>Um fazer &#x00E9;tico, que est&#x00E1; atento aos efeitos das for&#x00E7;as que agitam o mundo em sua condi&#x00E7;&#x00E3;o de vivente, n&#x00E3;o ignorando aquilo que o saber-do-corpo lhe indica (<xref ref-type="bibr" rid="ref-28-1778">Rolnik, 2018</xref>). Essa &#x00E9;tica de escuta se faz importante na &#x00E1;rea da sa&#x00FA;de que sempre tem foco na rela&#x00E7;&#x00E3;o de um ou mais corpos (do pr&#x00F3;prio profissional e do paciente). &#x00C9; importante uma constante aten&#x00E7;&#x00E3;o contra a &#x201C;imagem de uma conserva&#x00E7;&#x00E3;o eterna do status quo de si e do mundo&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-28-1778">Rolnik, 2018</xref>, p. 66).</p>
</sec>
<sec id="sec-6-1778" sec-type="conclusions">
<title><bold>C<sc>onclus&#x00E3;o / muitos jeitos de fazer</sc></bold></title>
<p>N&#x00E3;o h&#x00E1; um &#x00FA;nico jeito de fazer. A proposta desse ensaio n&#x00E3;o &#x00E9; lan&#x00E7;ar um manual, mas sim atentar que o corpo que dan&#x00E7;a pode produzir sentidos importantes para profissionais na &#x00E1;rea da sa&#x00FA;de. A dan&#x00E7;a menor, o autocuidado e a hapticalidade pensadas como lugares de poesia e erotismo &#x2014; tamb&#x00E9;m para a forma&#x00E7;&#x00E3;o em sa&#x00FA;de (<xref ref-type="bibr" rid="ref-10-1778">Guzzo e Alves, 2021</xref>). De inven&#x00E7;&#x00E3;o de trocas e delicadezas, para corpos que experimentam variadas brutalidades cotidianas. Como tamb&#x00E9;m sinaliza <xref ref-type="bibr" rid="ref-16-1778">Audre Lorde (2020)</xref> em &#x201C;Poesia n&#x00E3;o &#x00E9; luxo&#x201D;, muitas cuidadoras, ativistas e profissionais da sa&#x00FA;de, por enfrentarem problemas t&#x00E3;o lim&#x00ED;trofes entre a vida e a morte, desenvolvem grande dificuldade de achar que poesia pode ser importante como pr&#x00E1;tica de cuidado e de sentido. &#x00C9; pela poesia, pela experi&#x00EA;ncia est&#x00E9;tica, pela alegria e pelo prazer que tamb&#x00E9;m constru&#x00ED;mos sonhos e esperan&#x00E7;as para construir tamb&#x00E9;m a&#x00E7;&#x00F5;es de cuidado e esperan&#x00E7;a para outras pessoas. &#x201C;&#x00C9; da poesia que nos valemos para nomear o que ainda n&#x00E3;o tem nome, e que s&#x00F3; ent&#x00E3;o pode ser pensado. Os horizontes mais long&#x00ED;nquos das nossas esperan&#x00E7;as e dos nossos medos s&#x00E3;o pavimentados pelos nossos poemas, esculpidos nas rochas que s&#x00E3;o nossas experi&#x00EA;ncias di&#x00E1;rias.&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-16-1778">Lorde, 2020</xref>, p. 47)</p>
<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="ref-1-1778">Tarcisio Almeida (2021)</xref>, o termo hapticalidade tem rela&#x00E7;&#x00E3;o com a possibilidade de explicitar o &#x201C;direito ao saber-sentir&#x201D;. O autor (<xref ref-type="bibr" rid="ref-1-1778">Almeida, 2021</xref>) tece essa conclus&#x00E3;o a partir de uma experi&#x00EA;ncia educacional e formativa na &#x00E1;rea das artes e aponta que aos recusarmos fronteiras normativas e ainda socialmente n&#x00E3;o reconhecidas, &#x00E9; poss&#x00ED;vel que apare&#x00E7;a &#x201C;uma linguagem que se d&#x00E1; num espa&#x00E7;o de aprendizagem (um territ&#x00F3;rio existencial) que requer uma escuta de corpo inteiro (de corpo presente)&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-1-1778">Almeida, 2021</xref>, p. 106). Um caminho poss&#x00ED;vel para encontrar tamb&#x00E9;m um saber-sentir-se e saber-cuidar-se.</p>
<p>Caminho essa de se fazer e constituir as pr&#x00E1;ticas e saberes a partir dos encontros e de como eles s&#x00E3;o constitu&#x00ED;dos &#x2014; entendendo que presen&#x00E7;as vis&#x00ED;veis e invis&#x00ED;veis tamb&#x00E9;m fazem parte dessa constru&#x00E7;&#x00E3;o. E n&#x00E3;o h&#x00E1; uma f&#x00F3;rmula para definir isso, o caminho &#x00E9; feito em cada experi&#x00EA;ncia e por cada experi&#x00EA;ncia.</p>
<p>S&#x00E3;o in&#x00FA;meras varia&#x00E7;&#x00F5;es que constituem a possibilidade de haver uma dan&#x00E7;a menor, um gesto menor e conseguir dan&#x00E7;ar, firme e docemente, enquanto se luta. Alongar, respirar, meditar, abra&#x00E7;ar (durante a pandemia n&#x00E3;o podemos, mas quem sabe logo), fortalecer, reunir, rebolar, sustentar, fugir, plantar, fazer roda, ouvir, silenciar e gritar. Verbos no infinitivo para serem conjugados com o corpo em a&#x00E7;&#x00E3;o, com o corpo presente. N&#x00E3;o separando, como Audre <xref ref-type="bibr" rid="ref-15-1778">Lorde (2017)</xref> indica, o saber do sentir, ou como <xref ref-type="bibr" rid="ref-24-1778">Moten e Harney (2013)</xref> sugerem, a pele e o amor. <italic>Dancemos e vejamos onde nos leva a dan&#x00E7;a</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="ref-3-1778">Barry e Djordjevic, 2007</xref>, p. 133).</p>
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<back>
<ack>
<title>A<sc>gradecimientos</sc></title>
<p>Agrade&#x00E7;o Conrado Federici pela leitura e parceiros do Laborat&#x00F3;rio Corpo e Arte UNIFESP pela continuidade da pesquisa.</p>
</ack>
<fn-group>
<fn fn-type="other" id="fn-1-1778"><label>1</label> <p>Steve Paxton (1939) &#x00E9; uma figura importante da hist&#x00F3;ria da dan&#x00E7;a. Participou do Judson Dance Theatre e foi um membro fundador do grupo experimental Grand Union, em Nova Iorque. Em 1972, nomeou e come&#x00E7;ou a desenvolver a forma de dan&#x00E7;a conhecida como Contact Improvisation (Contato Improvisa&#x00E7;&#x00E3;o).</p></fn>
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