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<journal-title>Quaderns de Psicologia</journal-title>
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<issn pub-type="ppub">0211-3481</issn>
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<publisher-name>Universitat Aut&#x00F2;noma de Barcelona</publisher-name>
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<article-id pub-id-type="publisher-id">QPs.1639</article-id>
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<subject>Artigos</subject>
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<article-title>Narrativas ficcionais e interseccionais no acolhimento institucional de crian&#x00E7;as e adolescentes</article-title>
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<trans-title xml:lang="en">Fictional and intersectional narratives in the institutional care of children and teenagers</trans-title>
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<surname>Paula</surname>
<given-names>Leonardo R&#x00E9;gis de</given-names>
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<bio><p>Psic&#x00F3;logo, mestre e doutorando em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.</p></bio>
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<surname>Moraes Battistelli</surname>
<given-names>Bruna</given-names>
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<bio><p>Psic&#x00F3;loga, mestra e doutoranda em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.</p></bio>
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<email>brunabattistelli@gmail.com</email>
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<surname>Rodrigues da Cruz</surname>
<given-names>L&#x00ED;lian</given-names>
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<bio><p>Docente do Instituto de Psicologia &#x2014; Departamento de Psicologia Social e Institucional e do Programa de P&#x00F3;s-Gradua&#x00E7;&#x00E3;o em Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.</p></bio>
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<email>lilian.rodrigues.cruz@gmail.com</email>
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<country>Brasil</country>
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<day>26</day>
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<year>2022</year>
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<volume>24</volume>
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<copyright-statement>&#x00A9; 2022 Els autors / The authors</copyright-statement>
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<license-p>Aquesta obra est&#x00E0; sota una llic&#x00E8;ncia internacional Creative Commons Reconeixement 4.0. CC BY</license-p>
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<abstract>
<title>Resumo</title>
<p>O presente artigo insere-se em um exerc&#x00ED;cio de constru&#x00E7;&#x00E3;o de narrativas ficcionais e interseccionais acerca do Acolhimento Institucional de Crian&#x00E7;as e Adolescentes com o objetivo de visibilizar e problematizar os efeitos do mesmo. As narrativas s&#x00E3;o constru&#x00ED;das a partir do conceito de interseccionalidade e utiliza-se da metodologia da gambiarra, uma vez que esta possibilita a produ&#x00E7;&#x00E3;o de resist&#x00EA;ncia no campo das problematiza&#x00E7;&#x00F5;es. A inspira&#x00E7;&#x00E3;o para a tessitura das narrativas vem de muitos lugares, principalmente (ou inclusive) da experi&#x00EA;ncia de est&#x00E1;gio do primeiro autor no campo das pol&#x00ED;ticas p&#x00FA;blicas de assist&#x00EA;ncia social no Brasil. Neste sentido, as narrativas que fazem parte deste trabalho n&#x00E3;o falam de uma hist&#x00F3;ria ou de uma identidade, mas de v&#x00E1;rias hist&#x00F3;rias que amplificam um presente e plantam incertezas para pensarmos nas pr&#x00E1;ticas que incidem sobre os marcadores sociais da diferen&#x00E7;a como categorias de articula&#x00E7;&#x00E3;o.</p>
</abstract>
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<title>Abstract</title>
<p>This article inserts itself in an exercise of fictional and intersectional narrative construction around the Institutional Care of Children and Teenagers, aiming to highlight and problematize its effects. The narratives are built from the concept of intersectionality and utilize the gambiarra methodology, since this enables the production of resistance in the field of problematizations. The inspiration for this webbing of narratives comes from many places, especially (or in addition to) the internship experience by the first author in the field of Brazil&#x2019;s public policies of social care. In this sense, the narratives that are part of this work don&#x2019;t refer to one story or one identity, but to many stories that amplify a present and plant uncertainties in order for us to think about the practices that influence the social markers of difference as articulation categories.</p>
</trans-abstract>
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<title>Palavras-chave:</title>
<kwd><bold>Obra de Fic&#x00E7;&#x00E3;o</bold></kwd>
<kwd><bold>Psicologia Social</bold></kwd>
<kwd><bold>Pol&#x00ED;tica P&#x00FA;blica</bold></kwd>
<kwd><bold>Interseccionalidade</bold></kwd>
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<title>Keywords:</title>
<kwd><bold><italic>Work of Fiction</italic></bold></kwd>
<kwd><bold><italic>Social Psychology</italic></bold></kwd>
<kwd><bold><italic>Public Policy</italic></bold></kwd>
<kwd><bold><italic>Intersectionality</italic></bold></kwd>
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<sec id="sec-1-1639">
<title>O <sc>primeiro ato</sc>: <sc>o port&#x00E3;o</sc></title>
<disp-quote>
<p>&#x201C;Tem gente no port&#x00E3;o!!!&#x201D;. Essa foi a primeira frase que ouvi de um acolhido quando fui pela primeira vez no abrigo em que iria viver muitas hist&#x00F3;rias durante um bom per&#x00ED;odo. Essa tamb&#x00E9;m foi a frase que eu passei a ouvir todos os dias quando chegava l&#x00E1;. &#x201C;Tem gente no port&#x00E3;o!!!&#x201D;. Cada dia em que eu cruzava aquela grade, alta e marrom, para dentro do abrigo tinha uma hist&#x00F3;ria nova para ser contada, em um final de semana parecia que eu tinha ficado um m&#x00EA;s longe. Lembro-me da frase que a minha supervisora me falou antes mesmo de come&#x00E7;ar a estagiar: &#x201C;o acolhimento institucional &#x00E9; muito din&#x00E2;mico, todo dia &#x00E9; uma aventura nova&#x201D;. E essas palavras n&#x00E3;o foram da boca para fora, eu percebi o qu&#x00E3;o o acolhimento nos toma e nos envolve emocionalmente. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-19-1639">Paula, 2019</xref>, p. 11)</p>
</disp-quote>
<p>Assim como o primeiro ato de uma pe&#x00E7;a teatral, as primeiras cenas fazem a prepara&#x00E7;&#x00E3;o, o que &#x00E9; chamado de <italic>protasis</italic>. O port&#x00E3;o representa a introdu&#x00E7;&#x00E3;o e abertura das cortinas. Entretanto, essa hist&#x00F3;ria do port&#x00E3;o pode parecer contar o percurso do primeiro autor em sua aventura pelo acolhimento institucional de crian&#x00E7;as e adolescentes; mas n&#x00E3;o se engane: &#x00E9; fic&#x00E7;&#x00E3;o! Nosso objetivo com este trabalho &#x00E9; visibilizar os efeitos do Acolhimento Institucional de crian&#x00E7;as e adolescentes a partir do conceito de interseccionalidade na constru&#x00E7;&#x00E3;o ficcional de narrativas. Para isso, partimos das discuss&#x00F5;es produzidas no Trabalho de Conclus&#x00E3;o de Curso do primeiro autor, orientado pelas demais autoras.</p>
<p>As narrativas s&#x00E3;o criadas a partir da metodologia da gambiarra, que nos possibilita uma produ&#x00E7;&#x00E3;o de resist&#x00EA;ncia no campo das problematiza&#x00E7;&#x00F5;es. A gambiarra &#x00E9;, neste sentido, um modo de fazer. Assim como discute <xref ref-type="bibr" rid="ref-5-1639">Fernanda Bruno (2017)</xref>, a gambiarra &#x00E9; o avesso do objeto industrial fechado. O objeto industrial fechado pode ser entendido como uma cr&#x00ED;tica &#x00E0; produ&#x00E7;&#x00E3;o acad&#x00EA;mica e seus moldes aceit&#x00E1;veis de ci&#x00EA;ncia.</p>
<disp-quote>
<p>Suas pe&#x00E7;as, emendas e conex&#x00F5;es est&#x00E3;o comumente expl&#x00ED;citas n&#x00E3;o apenas visualmente e sensorialmente, mas tamb&#x00E9;m cognitivamente, pois ela permite que se leia em suas engrenagens e entranhas expostas os rastros de sua produ&#x00E7;&#x00E3;o, dos gestos e acoplamentos que a constituem. De algum modo, a gambiarra opera num regime de &#x201C;<italic>open knowledge</italic>&#x201D; em sua pr&#x00F3;pria materialidade, uma vez que, desde sua origem, sua montagem e seus usos, &#x00E9; sobre um saber comum, compartilhado e coletivo que ela se constr&#x00F3;i. Esta continuidade entre a opera&#x00E7;&#x00E3;o de produ&#x00E7;&#x00E3;o e a utiliza&#x00E7;&#x00E3;o tamb&#x00E9;m est&#x00E1; inscrita no pr&#x00F3;prio termo lingu&#x00ED;stico &#x201C;gambiarra&#x201D;, que designa na l&#x00ED;ngua portuguesa simultaneamente um objeto (trata-se de um substantivo) e um modo de fazer, mostrando a impossibilidade de se desconectar o objeto das a&#x00E7;&#x00F5;es que o produzem e que v&#x00EA;m de muitas partes. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-5-1639">Bruno, 2017</xref>, p. 147)</p>
</disp-quote>
<p>Para tanto, nos inspiramos em Concei&#x00E7;&#x00E3;o Evaristo e Chimamanda Adichie enquanto refer&#x00EA;ncias literarias para criar narrativas ficcionais, articuladas, prioritariamente, com <xref ref-type="bibr" rid="ref-4-1639">Avtar Brah e Ann Phoenix (2004)</xref>, autoras interseccionais que compreendem o conceito como &#x201C;categorias de articula&#x00E7;&#x00E3;o&#x201D;.</p>
</sec>
<sec id="sec-2-1639">
<title>O <sc>acolhimento institucional de crian&#x00E7;as e adolescentes</sc>: <sc>a pol&#x00ED;tica de assist&#x00EA;ncia social</sc></title>
<disp-quote>
<p>Sexta-feira, final da tarde. Um carro branco estaciona na frente do abrigo. As portas do carro abrem e dele saem um senhor branco, cabelos grisalhos e uma senhora loira, ambos de crach&#x00E1; do judici&#x00E1;rio. Do carro tamb&#x00E9;m saem duas crian&#x00E7;as negras, dois meninos. Entraram na sala calados, olhos nervosos e atentos a qualquer detalhe. A coordenadora do abrigo leu rapidamente um of&#x00ED;cio e devolveu assinado para o senhor que trouxe as crian&#x00E7;as. Logo ficamos sabendo que ambos eram irm&#x00E3;os. O senhor e a senhora foram embora. As crian&#x00E7;as foram ent&#x00E3;o levadas para uma sala no fundo da casa. L&#x00E1; estavam a psic&#x00F3;loga e a assistente social. A primeira conversa com as crian&#x00E7;as. Um deles fazia todas as perguntas, o outro parecia estar tentando entender aquele lugar e tudo que estava acontecendo, permanecia calado. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-19-1639">Paula, 2019</xref>, p. 14)</p>
</disp-quote>
<p>A hist&#x00F3;ria da constru&#x00E7;&#x00E3;o do direito &#x00E0; Assist&#x00EA;ncia Social &#x00E9; recente no Brasil. Em 1988, a chamada Constitui&#x00E7;&#x00E3;o Cidad&#x00E3; confere, pela primeira vez, a condi&#x00E7;&#x00E3;o de pol&#x00ED;tica p&#x00FA;blica &#x00E0; assist&#x00EA;ncia social, constituindo, no mesmo n&#x00ED;vel da sa&#x00FA;de e previd&#x00EA;ncia social, o trip&#x00E9; da seguridade social que ainda se encontra em constru&#x00E7;&#x00E3;o no pa&#x00ED;s. A partir da Constitui&#x00E7;&#x00E3;o, em 1993 temos a promulga&#x00E7;&#x00E3;o da Lei Org&#x00E2;nica da Assist&#x00EA;ncia Social (LOAS), a qual vai afirmar que &#x201C;A assist&#x00EA;ncia social, direito do cidad&#x00E3;o e dever do Estado, &#x00E9; Pol&#x00ED;tica de Seguridade Social n&#x00E3;o contributiva, que prov&#x00EA; os m&#x00ED;nimos sociais, realizada atrav&#x00E9;s de um conjunto integrado de a&#x00E7;&#x00F5;es de iniciativa p&#x00FA;blica e da sociedade, para garantir o atendimento &#x00E0;s necessidades b&#x00E1;sicas&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-16-1639">Lei N&#x00BA; 8.742, 1993</xref>, p. 1).</p>
<p>Em 2005, com base na Pol&#x00ED;tica Nacional de Assist&#x00EA;ncia Social (PNAS), foi aprovada a Norma Operacional B&#x00E1;sica do Sistema &#x00DA;nico de Assist&#x00EA;ncia Social (NOB/SUAS), que regulou a organiza&#x00E7;&#x00E3;o em &#x00E2;mbito nacional do Sistema &#x00DA;nico de Assist&#x00EA;ncia Social (SUAS). Dentro da pol&#x00ED;tica existe uma divis&#x00E3;o em dois n&#x00ED;veis de prote&#x00E7;&#x00E3;o. A Prote&#x00E7;&#x00E3;o Social B&#x00E1;sica (PSB) &#x00E9; uma delas, e tem como objetivo &#x201C;prevenir situa&#x00E7;&#x00F5;es de risco por meio do desenvolvimento de potencialidades e aquisi&#x00E7;&#x00F5;es, e o fortalecimento de v&#x00ED;nculos familiares e comunit&#x00E1;rios&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-23-1639">Secretaria Nacional de Assist&#x00EA;ncia Social, Brasil, 2005</xref>, p. 33). O Centro de Refer&#x00EA;ncia de Assist&#x00EA;ncia Social (CRAS) &#x00E9; a porta de entrada da assist&#x00EA;ncia social e um dos servi&#x00E7;os que comp&#x00F5;em a PSB. O outro n&#x00ED;vel &#x00E9; denominado como Prote&#x00E7;&#x00E3;o Social Especial (PSE), que:</p>
<disp-quote>
<p>&#x00C9; a modalidade de atendimento assistencial destinada a fam&#x00ED;lias e indiv&#x00ED;duos que se encontram em situa&#x00E7;&#x00E3;o de risco pessoal e social, por ocorr&#x00EA;ncia de abandono, maus tratos f&#x00ED;sicos e, ou, ps&#x00ED;quicos, abuso sexual, uso de subst&#x00E2;ncias psicoativas, cumprimento de medidas socioeducativas, situa&#x00E7;&#x00E3;o de rua, situa&#x00E7;&#x00E3;o de trabalho infantil, entre outras. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-23-1639">Secretaria Nacional de Assist&#x00EA;ncia Social, Brasil, 2005</xref>, p. 37)</p>
</disp-quote>
<p>O Centro de Refer&#x00EA;ncia Especializado da Assist&#x00EA;ncia Social (CREAS) &#x00E9; o servi&#x00E7;o que executa essa pol&#x00ED;tica de prote&#x00E7;&#x00E3;o na perspectiva da M&#x00E9;dia Complexidade. Na Alta Complexidade est&#x00E3;o compreendidos servi&#x00E7;os de acolhimento institucional, modalidade de atendimento oferecida para situa&#x00E7;&#x00F5;es de risco social e rompimento dos v&#x00ED;nculos familiares.</p>
<p>Conforme as Normas T&#x00E9;cnicas dos Servi&#x00E7;os de Acolhimento Institucional para Crian&#x00E7;as e Adolescentes (<xref ref-type="bibr" rid="ref-8-1639">Conselho Nacional dos Direitos da Crian&#x00E7;a e do Adolescente e Conselho Nacional de Assist&#x00EA;ncia Social, Brasil, 2009</xref>), os servi&#x00E7;os de acolhimento devem estar localizados em &#x00E1;reas residenciais, sem distanciar-se excessivamente do ponto de vista geogr&#x00E1;fico e socioecon&#x00F4;mico do contexto de origem das crian&#x00E7;as e adolescentes, salvo determina&#x00E7;&#x00E3;o judicial, quando necess&#x00E1;rio afastamento do conv&#x00ED;vio familiar.</p>
<p>A interven&#x00E7;&#x00E3;o dos chamados &#x00F3;rg&#x00E3;os de prote&#x00E7;&#x00E3;o (Conselho Tutelar, Juizado da Inf&#x00E2;ncia e Juventude, Minist&#x00E9;rio P&#x00FA;blico, Programas de Assist&#x00EA;ncia do Governo, etc.) &#x00E9; garantida a qualquer crian&#x00E7;a ou adolescente que tenham seus direitos violados (abandono, maus-tratos, viol&#x00EA;ncia f&#x00ED;sica ou moral, etc.), afastando-a da fam&#x00ED;lia natural, quando necess&#x00E1;rio, e encaminhando-a para um ambiente seguro, at&#x00E9; que sua situa&#x00E7;&#x00E3;o seja definida. Os servi&#x00E7;os, sejam eles de natureza p&#x00FA;blico-estatal ou n&#x00E3;o-estatal, devem pautar-se nos pressupostos do Estatuto da Crian&#x00E7;a e do Adolescente (ECA).</p>
</sec>
<sec id="sec-3-1639">
<title>I<sc>nterseccionalidades e</sc>/<sc>ou categorias de articula&#x00E7;&#x00E3;o no acolhimento institucional de crian&#x00E7;as e adolescentes</sc></title>
<disp-quote>
<p>A crian&#x00E7;a estava com fome. Um prato oferecido pela tia (agente educadora) fez pensar que aquele fosse o rumo certo a seguir confiando. Aqueles olhos nervosos olhando cada detalhe da cozinha fez com que os olhares das outras crian&#x00E7;as se voltassem para ele. Sua roupa chamava aten&#x00E7;&#x00E3;o tamb&#x00E9;m das outras crian&#x00E7;as. Um menino magrinho com uma bermuda bem curta e com uma regata verde neon. O cabelo crespo amarrado em forma de um coque no meio da cabe&#x00E7;a deixa o povo da casa ainda mais intrigado. Os tios tamb&#x00E9;m. Al&#x00E9;m de olharem, ainda cochichavam. Um deles nem cochichou, disse em alto tom, com um ar de repreens&#x00E3;o moral, que essa crian&#x00E7;a teria que ser muito trabalhada. A pele &#x00E9; preta, n&#x00E3;o diferente das outras que estavam ali. N&#x00E3;o &#x00E9; diferente de onde veio tamb&#x00E9;m. Sua cor veio de heran&#x00E7;a de seus antepassados. Mistura da pele preta de sua m&#x00E3;e com a de seu pai, que nunca conheceu. Na c&#x00F3;pia da sua certid&#x00E3;o de nascimento, a paternidade est&#x00E1; vazia. A lacuna. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-19-1639">Paula, 2019</xref>, p. 16)</p>
</disp-quote>
<p>A interseccionalidade &#x00E9; uma ferramenta metodol&#x00F3;gica de pensamento sobre os marcadores sociais de diferen&#x00E7;a que nos ajuda a perceber como diferentes marcadores identit&#x00E1;rios t&#x00EA;m impacto na forma como se ascende aos direitos e &#x00E0;s oportunidades. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="ref-10-1639">Kimberl&#x00E9; Crenshaw (2002)</xref>, as interseccionalidades revelam o desafio no campo acad&#x00EA;mico de incluir o debate sobre a viola&#x00E7;&#x00E3;o de direitos humanos, tendo em vista que determinados grupos da sociedade s&#x00E3;o atingidos com maior intensidade, como no caso das viola&#x00E7;&#x00F5;es caracterizadas pelo sexismo, racismo, cissexismo, heterossexismo, preconceito de classe, de gera&#x00E7;&#x00E3;o, entre outros. Assim sendo, lan&#x00E7;ar uma an&#x00E1;lise interseccional &#x00E9; atentar para as experi&#x00EA;ncias completamente diferentes que os sujeitos enfrentam em suas vidas, ou ainda, que conformam o modo de se colocar e vivenciar o mundo tendo tais marcadores da diferen&#x00E7;a como balizadores das experi&#x00EA;ncias (<xref ref-type="bibr" rid="ref-20-1639">Paula et al., 2020</xref>).</p>
<p>Embora Kimberl&#x00E9; Crenshaw tenha conceituado interseccionalidade, a discuss&#x00E3;o j&#x00E1; acontecia anteriormente atrav&#x00E9;s de outras feministas negras. Isabella Baumfree, nascida em um cativeiro em Swartekill, mais conhecida como Sojourner Truth desde 1843, abolicionista afro-americana, escritora e ativista dos direitos da mulher, j&#x00E1; problematizava a universaliza&#x00E7;&#x00E3;o da categoria mulher. Em seus discursos, Sojourner colocava em discuss&#x00E3;o as v&#x00E1;rias possibilidades de ser mulher, ou seja, do feminismo (branco) abdicar da estrutura universal ao falar como categoria universal e n&#x00E3;o levar em conta as outras intersec&#x00E7;&#x00F5;es, como orienta&#x00E7;&#x00E3;o sexual, identidade de g&#x00EA;nero, ra&#x00E7;a, etc. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-22-1639">Ribeiro, 2017</xref>).</p>
<p>Assim como <xref ref-type="bibr" rid="ref-10-1639">Kimberl&#x00E9; Williams Crenshaw (2002)</xref>, muitas autoras, tanto nos espa&#x00E7;os de academia quanto na milit&#x00E2;ncia, tamb&#x00E9;m se dedicaram a trabalhar a partir do conceito interseccionalidade, como por exemplo <xref ref-type="bibr" rid="ref-15-1639">Gabriela Kyrillos (2020)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="ref-21-1639">Adriana Piscitelli (2008)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="ref-3-1639">Avtar Brah (2006)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="ref-17-1639">Anne McKlintock (1995)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="ref-7-1639">Patricia Hill Collins e Sirma Bilge (2016)</xref>, buscando compreender melhor essa trama das rela&#x00E7;&#x00F5;es m&#x00FA;ltiplas e simult&#x00E2;neas de desigualdade que marcam o nosso corpo. Desta forma, &#x00E9; importante dar destaque para os diversos discursos de mulheres negras que j&#x00E1; vinham trazendo a operacionalidade da interseccionalidade como intelectuais negras.</p>
<disp-quote>
<p>&#x00C9; importante rejeitar eventuais entendimentos que ignoram ou minimizam que a origem da interseccionalidade est&#x00E1; relacionada com os movimentos sociais e, portanto, seu surgimento e potencial n&#x00E3;o se reduz &#x00E0; compreens&#x00E3;o e aos limites impostos pela/na academia. Mais do que uma imprecis&#x00E3;o te&#x00F3;rica, apagar o hist&#x00F3;rico da origem da interseccionalidade tende a promover o silenciamento de um grande grupo de mulheres negras e contribui para que gradativamente o conceito da interseccionalidade perca sua for&#x00E7;a e pot&#x00EA;ncia cr&#x00ED;tica. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-15-1639">Kyrillos, 2020</xref>, p. 8)</p>
</disp-quote>
<p><xref ref-type="bibr" rid="ref-3-1639">Brah (2006)</xref> foi uma das te&#x00F3;ricas que fez uma releitura da interseccionalidade e apresentou em termos de &#x201C;categorias de articula&#x00E7;&#x00E3;o&#x201D;. Para <xref ref-type="bibr" rid="ref-4-1639">Brah e Phoenix (2004)</xref> os marcadores de diferen&#x00E7;a n&#x00E3;o operam na din&#x00E2;mica de um somat&#x00F3;rio, e sim, de articula&#x00E7;&#x00E3;o, conceituando interseccionalidade como &#x201C;indicador dos complexos, irredut&#x00ED;veis, variados e vari&#x00E1;veis efeitos que resultam quando m&#x00FA;ltiplos eixos de diferencia&#x00E7;&#x00E3;o &#x2014; econ&#x00F4;micos, pol&#x00ED;ticos, culturais, ps&#x00ED;quicos, subjetivos, e emp&#x00ED;ricos se cruzam em contextos hist&#x00F3;ricos espec&#x00ED;ficos&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-4-1639">Brah e Phoenix, 2004</xref>, p.2). Essa ideia remete &#x00E0; an&#x00E1;lise de como as formas espec&#x00ED;ficas de discursos sobre a diferen&#x00E7;a se constituem, s&#x00E3;o contestados, reproduzidos e (re)significados, pensando na diferen&#x00E7;a como experi&#x00EA;ncia, como rela&#x00E7;&#x00E3;o social, como subjetividade e como identidade (<xref ref-type="bibr" rid="ref-21-1639">Piscitelli, 2008</xref>).</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="ref-1-1639">Carla Akotirene (2018)</xref> traz a ideia de uma de encruzilhada para pensar a interseccionalidade. Visivelmente, &#x00E9; mais f&#x00E1;cil de entender a interseccionalidade deste modo, pois ela nos impulsiona a pensar que a interseccionalidade n&#x00E3;o &#x00E9; um somat&#x00F3;rio, algo que confunde muito as pessoas. &#x201C;Em vez de somar identidades, analisa-se quais condi&#x00E7;&#x00F5;es estruturais atravessam corpos, quais posicionalidades reorientam significados subjetivos desses corpos&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-1-1639">Akotirene, 2018</xref>, p. 39). Desta forma, partimos da perspectiva interseccional para a produ&#x00E7;&#x00E3;o de hist&#x00F3;rias, considerando a intersec&#x00E7;&#x00E3;o entre os marcadores sociais de g&#x00EA;nero, sexualidade, defici&#x00EA;ncia f&#x00ED;sica e mental, ra&#x00E7;a e classe para lan&#x00E7;ar luz ao modo como os sujeitos s&#x00E3;o constitu&#x00ED;dos a partir de experi&#x00EA;ncias diferenciadas, em um espa&#x00E7;o discursivo, rompendo com um sujeito da experi&#x00EA;ncia dado a priori (<xref ref-type="bibr" rid="ref-24-1639">Soares, 2017</xref>).</p>
<p>Para a perspectiva interseccional h&#x00E1; algumas vertentes; entretanto, este trabalho adotar&#x00E1; a construcionista, que tra&#x00E7;a distin&#x00E7;&#x00F5;es entre categorias de diferencia&#x00E7;&#x00E3;o e sistemas de discrimina&#x00E7;&#x00E3;o, entre diferen&#x00E7;a e desigualdade. Nessa abordagem h&#x00E1;, por exemplo, um questionamento &#x00E0; fus&#x00E3;o entre ra&#x00E7;a e racismo, considerando que nessa fus&#x00E3;o h&#x00E1; uma vis&#x00E3;o est&#x00E1;tica do significado da categoria ra&#x00E7;a e se trata o racismo como um sistema &#x00FA;nico (<xref ref-type="bibr" rid="ref-21-1639">Piscitelli, 2008</xref>). Este questionamento oportuniza pensar outras possibilidades com os marcadores, n&#x00E3;o apenas com o lugar de opress&#x00E3;o.</p>
<p>A partir da experi&#x00EA;ncia com o acolhimento institucional, percebemos que as crian&#x00E7;as e adolescentes negros s&#x00E3;o mais valorizadas no esporte por fazerem parte de um estere&#x00F3;tipo racializado de que a popula&#x00E7;&#x00E3;o negra tem um perfil mais aproveit&#x00E1;vel e chances de sucesso neste meio.</p>
<disp-quote>
<p>O Esporte &#x00E9; uma express&#x00E3;o cultural super potente para a constru&#x00E7;&#x00E3;o de modelos racializados, pois atrav&#x00E9;s das suas experi&#x00EA;ncias do corpo, cria elos significativos com as pessoas despertando paix&#x00F5;es e desejos (conscientes e inconscientes). O Futebol &#x00E9; repleto de exemplos, do Guarrincha ao Neymar, modelos est&#x00E9;ticos carregados de elementos racializadores que d&#x00E3;o forma aos modelos idealizados de jogadores negros e brancos, principalmente no contexto do futebol profissional. (Netto, 2017, p&#x00E1;rr. 5)</p>
</disp-quote>
<p>Essas categorias n&#x00E3;o v&#x00E3;o, necessariamente, se destacar sozinhas. Elas podem estar articuladas com outras, como por exemplo, uma adolescente cis ou trans negra que usa do seu g&#x00EA;nero e da corporifica&#x00E7;&#x00E3;o objetificada da mulher negra para se destacar dentro do abrigo em rela&#x00E7;&#x00E3;o aos meninos h&#x00E9;teros que est&#x00E3;o com &#x201C;os horm&#x00F4;nios a mil&#x201D; e que v&#x00E3;o fazer de tudo para agradar a &#x201C;gatinha do rol&#x00EA;&#x201D;<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>. Da mesma forma, ser louco acaba se constituindo um <italic>status</italic> interessante no Acolhimento Institucional. O louco &#x00E9; tido como uma figura de potencial econ&#x00F4;mico significativo entre os acolhidos, pois costuma ter o Benef&#x00ED;cio da Presta&#x00E7;&#x00E3;o Continuada (BPC). O BPC &#x00E9; o benef&#x00ED;cio assistencial ao idoso e &#x00E0; pessoa com defici&#x00EA;ncia, seja ela f&#x00ED;sica ou intelectual. Desta forma, esse valor ajuda as crian&#x00E7;as e adolescentes com tratamentos, escolas especializadas, valor para locomo&#x00E7;&#x00E3;o e para o lazer. O lazer &#x00E9; a possibilidade de planejar durante o m&#x00EA;s uma sa&#x00ED;da para o t&#x00E3;o sonhado McDonald&#x0027;s, uma ida ao cinema ou simplesmente ter dinheiro para comprar bolacha recheada e refrigerante. Atualmente tem o valor referente a um sal&#x00E1;rio m&#x00ED;nimo brasileiro. Desta forma, esses exemplos ilustram a fus&#x00E3;o que h&#x00E1; do significado da categoria e da opress&#x00E3;o.</p>
</sec>
<sec id="sec-4-1639">
<title>C<sc>onstruindo narrativas</sc>: <sc>inspira&#x00E7;&#x00F5;es para uma gambiarra</sc></title>
<p>Neste trabalho, as narrativas ficcionais t&#x00EA;m inspira&#x00E7;&#x00F5;es liter&#x00E1;rias nas escritoras Concei&#x00E7;&#x00E3;o Evaristo e Chimamanda Ngozi Adichie. As autoras n&#x00E3;o escrevem sobre acolhimento institucional de crian&#x00E7;as e adolescentes, tampouco seus livros s&#x00E3;o sobre o campo da produ&#x00E7;&#x00E3;o de conhecimento em psicologia social; entretanto, eles nos auxiliam a pensar o conceito de interseccionalidade, sobretudo o conceito de &#x201C;categorias de articula&#x00E7;&#x00E3;o&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-4-1639">Brah e Phoenix, 2004</xref>). Para seguir nosso trabalho, coerente com a proposta de contar outras hist&#x00F3;rias, narramos nosso encontro com as autoras Concei&#x00E7;&#x00E3;o Evaristo e Chimamanda Adichie.</p>
<p>Maria da Concei&#x00E7;&#x00E3;o Evaristo de Brito. A hist&#x00F3;ria dela come&#x00E7;ou em 1946. N&#x00E3;o &#x00E9;ramos nascidos ainda, mas Concei&#x00E7;&#x00E3;o Evaristo j&#x00E1; estava fazendo hist&#x00F3;ria l&#x00E1; em Belo Horizonte onde nasceu. Pesquisar sobre a vida de Concei&#x00E7;&#x00E3;o diz muito sobre este trabalho. Nos emocionamos ao ler o seu depoimento concedido durante o I Col&#x00F3;quio de Escritoras Mineiras, realizado em maio de 2009, na Faculdade de Letras da UFMG. Nesse momento ficamos nos questionando e buscando entender essa conex&#x00E3;o entre a inf&#x00E2;ncia de Concei&#x00E7;&#x00E3;o Evaristo, a de seus personagens, dos nossos personagens, das nossas vidas e de tantas outras pessoas negras e mulheres. Sua m&#x00E3;e. Suas m&#x00E3;es. Pai? Concei&#x00E7;&#x00E3;o fala sobre seu pai, ao mesmo tempo em que falou do pai de muitos e muitas. Padrasto. Irm&#x00E3;s. Irm&#x00E3;os. Tias. Tios.</p>
<disp-quote>
<p>A aus&#x00EA;ncia de um pai foi dirimida um pouco pela presen&#x00E7;a de meu padrasto, mas, sem d&#x00FA;vida alguma, o fato de eu ter tido duas m&#x00E3;es suavizou muito o vazio paterno que me rondava. [...] Aos oito anos surgiu meu primeiro emprego dom&#x00E9;stico e ao longo do tempo, outros foram acontecendo. Minha passagem pelas casas das patroas foi alternada por outras atividades, como levar crian&#x00E7;as vizinhas para escola, j&#x00E1; que eu levava os meus irm&#x00E3;os. O mesmo acontecia com os deveres de casa. Ao assistir os meninos de minha casa, eu estendia essa assist&#x00EA;ncia &#x00E0;s crian&#x00E7;as da favela, o que me rendia tamb&#x00E9;m uns trocadinhos. Al&#x00E9;m disso, participava com minha m&#x00E3;e e tia, da lavagem, do apanhar e do entregar trouxas de roupas nas casas das patroas. Troquei tamb&#x00E9;m horas de tarefas dom&#x00E9;sticas nas casas de professores, por aulas particulares, por maior aten&#x00E7;&#x00E3;o na escola e principalmente pela possibilidade de ganhar livros, sempre did&#x00E1;ticos, para mim, para minhas irm&#x00E3;s e irm&#x00E3;os. Conseguir algum dinheiro com os restos dos ricos, lixos depositados nos lat&#x00F5;es sobre os muros ou nas cal&#x00E7;adas, foi um modo de sobreviv&#x00EA;ncia tamb&#x00E9;m experimentado por n&#x00F3;s. (Depoimento de Concei&#x00E7;&#x00E3;o Evaristo concedido durante o I Col&#x00F3;quio de Escritoras Mineiras, realizado em maio de 2009, na Faculdade de Letras da UFMG)<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref></p>
</disp-quote>
<p>Esses trechos, assim como todo o depoimento da Concei&#x00E7;&#x00E3;o Evaristo, nos geram impacto. Impacto semelhante aos prontu&#x00E1;rios da vida social dos acolhidos e acolhidas dos acolhimentos institucionais. Diante da hist&#x00F3;ria de Concei&#x00E7;&#x00E3;o, se fosse hoje poderia ela ser uma acolhida por trabalho infantil e neglig&#x00EA;ncia? Inf&#x00E2;ncias que s&#x00E3;o entrela&#x00E7;adas por marcadores parecidos, mas ao mesmo tempo t&#x00E3;o diferentes... Uma crian&#x00E7;a negra no interior de Minas Gerais, uma crian&#x00E7;a negra em Porto Alegre, uma crian&#x00E7;a negra pobre, classe m&#x00E9;dia&#x2026;</p>
<p>Atualmente, Concei&#x00E7;&#x00E3;o Evaristo &#x00E9;, sem d&#x00FA;vidas, um dos maiores nomes da literatura negra-brasileira e um dos grandes nomes da literatura brasileira. Em suas hist&#x00F3;rias assume sem pudor a presen&#x00E7;a da fic&#x00E7;&#x00E3;o salientando que &#x201C;as hist&#x00F3;rias s&#x00E3;o inventadas, mesmo as reais, quando s&#x00E3;o contadas&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-12-1639">Evaristo, 2017</xref>). Para al&#x00E9;m disso, seus contos e ensaios trazem consigo as marcas da sua subjetiva&#x00E7;&#x00E3;o acerca seus marcadores sociais das diferen&#x00E7;as e os que ecoam em seu entorno. Em um dos seus escritos, Concei&#x00E7;&#x00E3;o Evaristo afirma que:</p>
<disp-quote>
<p>O que caracteriza uma literatura negra n&#x00E3;o &#x00E9; somente a cor da pele ou as origens &#x00E9;tnicas do escritor, mas a maneira como ele vai viver em si a condi&#x00E7;&#x00E3;o e a aventura de ser um negro escritor. N&#x00E3;o podemos deixar de considerar que a experi&#x00EA;ncia negra numa sociedade definida, arrumada e orientada por valores brancos &#x00E9; pessoal e intransfer&#x00ED;vel. E, se h&#x00E1; um comprometimento entre o fazer liter&#x00E1;rio do escritor e essa experi&#x00EA;ncia pessoal, singular, &#x00FA;nica, se ele se faz enunciar enunciando essa viv&#x00EA;ncia negra, marcando ideologicamente o seu espa&#x00E7;o, a sua presen&#x00E7;a, a sua escolha por uma fala afirmativa, de um discurso outro &#x2014; diferente e diferenciador do discurso institucionalizado sobre o negro &#x2014; podemos ler em sua cria&#x00E7;&#x00E3;o refer&#x00EA;ncias de uma literatura negra. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-11-1639">Evaristo, 2010</xref>, p. 5)</p>
</disp-quote>
<p>A autora conta que n&#x00E3;o pensou na escreviv&#x00EA;ncia como um conceito, por&#x00E9;m entende a dimens&#x00E3;o da populariza&#x00E7;&#x00E3;o que seu processo de escrita se tornou. Ela conclui que &#x201C;A nossa &#x2018;escreviv&#x00EA;ncia&#x2019; conta as nossas hist&#x00F3;rias a partir das nossas perspectivas, &#x00E9; uma escrita que se d&#x00E1; colada &#x00E0; nossa viv&#x00EA;ncia, seja particular ou coletiva, justamente para acordar os da Casa Grande&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-12-1639">Evaristo, 2017</xref>). Neste trabalho, nosso objetivo n&#x00E3;o &#x00E9; fazer escreviv&#x00EA;ncias; a nossa &#x00F3;tica sobre o Acolhimento Institucional de Crian&#x00E7;as e Adolescentes &#x00E9; outra. Contudo, n&#x00E3;o podemos ignorar a influ&#x00EA;ncia da autora nas nossas narrativas. A oralidade deste trabalho surge da inspira&#x00E7;&#x00E3;o desta mulher. Usamos a escrita ficcional como ferramenta metodol&#x00F3;gica na produ&#x00E7;&#x00E3;o de conhecimento em Psicologia Social. Investir em hist&#x00F3;rias ficcionais interseccionais &#x00E9; ampliar as lentes e deixar passar pelas brechas da academia muitas vidas. Entretanto, n&#x00E3;o &#x00E9; somente a Concei&#x00E7;&#x00E3;o Evaristo que tomamos como inspira&#x00E7;&#x00E3;o; outra autora que traz consigo a literatura implicada com pautas pol&#x00ED;ticas e que articulam quest&#x00F5;es de identidade e g&#x00EA;nero &#x00E9; a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.</p>
<p>Nascida em 1977, Chimamanda &#x00E9; um exemplo da poderosa voz feminina que se destaca na cena liter&#x00E1;ria do continente Africano e no mundo. Em uma das suas falas para o TED, <italic>The danger of a single story</italic> (O perigo da &#x00FA;nica hist&#x00F3;ria), Chimamanda conta de sua experi&#x00EA;ncia de leitura desde a inf&#x00E2;ncia. Advinda de uma fam&#x00ED;lia intelectual, come&#x00E7;ou a escrever e foi influenciada pelos livros infantis que lia. Suas hist&#x00F3;rias refletiam as hist&#x00F3;rias de vida dos livros brit&#x00E2;nicos e americanos. Neve e divaga&#x00E7;&#x00F5;es sobre o tempo eram frequentes em seus contos, sendo que a Nig&#x00E9;ria n&#x00E3;o precisava falar do tempo, pois nunca era necess&#x00E1;rio. Al&#x00E9;m disso, a neve &#x00E9; uma realidade clim&#x00E1;tica invi&#x00E1;vel para o pa&#x00ED;s da Nig&#x00E9;ria. Chimamanda conta tamb&#x00E9;m que descobriu sua identidade como africana e negra quando foi morar nos Estados Unidos da Am&#x00E9;rica com 19 anos. Ao se deparar com o preconceito e na busca de combater esse estranhamento, a autora decidiu mostrar um outro lado da &#x00C1;frica em seus livros, al&#x00E9;m de us&#x00E1;-los como forma de reafirmar sua identidade como mulher, negra e africana. Chimamanda Adichie assume uma posi&#x00E7;&#x00E3;o pol&#x00ED;tica em todos os seus livros, buscando romper com estere&#x00F3;tipos e trazer visibilidade para as mulheres, negras e africanas.</p>
<disp-quote>
<p>Chimamanda Adichie incorpora o discurso da diferen&#x00E7;a e se vale do pertencimento a ela para expor momentos de discuss&#x00E3;o. Assim, pela compreens&#x00E3;o pr&#x00F3;pria de seu universo (de di&#x00E1;spora, de exclus&#x00E3;o pelo Ocidente, de conhecimento e reconhecimento de seu lugar), a escritora traz diversas hist&#x00F3;rias de representa&#x00E7;&#x00E3;o e com intento pela conscientiza&#x00E7;&#x00E3;o da urg&#x00EA;ncia da busca pelo conhecimento, pelo entendimento do &#x2018;outro&#x2019; e de outros lugares. Enfatiza a fuga do paradigma, do senso comum, da informa&#x00E7;&#x00E3;o pronta, da hist&#x00F3;ria &#x00FA;nica sobre qualquer pessoa, lugar ou aspecto. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-2-1639">Alves e Alves, 2011</xref>, p. 7)</p>
</disp-quote>
<p>No seu livro <italic>The Thing Around Your Neck</italic> (No Seu Pesco&#x00E7;o), a autora tem uma sele&#x00E7;&#x00E3;o de doze contos onde ela re&#x00FA;ne protagonistas mulheres e homens nigerianos para fazer questionamentos sobre opress&#x00F5;es, machismo, racismo e nacionalismo. Esses contos contribu&#x00ED;ram muito na escrita das narrativas. A Chimamanda trabalha muito bem em seus contos os marcadores sociais da diferen&#x00E7;a, e a escrita dela nos impulsiona a pensar a interseccionalidade. Este &#x00E9; nosso dispositivo para pensar as hist&#x00F3;rias que acontecem dentro dos abrigos, pois l&#x00E1; n&#x00E3;o h&#x00E1; uma &#x00FA;nica hist&#x00F3;ria. A fic&#x00E7;&#x00E3;o foi essa ponte para chegar neste fim. Chimamanda trabalha em suas hist&#x00F3;rias a partir da fic&#x00E7;&#x00E3;o:</p>
<disp-quote>
<p>A fic&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; muito mais honesta do que a n&#x00E3;o fic&#x00E7;&#x00E3;o. Sei, da minha experi&#x00EA;ncia limitada na escrita de n&#x00E3;o fic&#x00E7;&#x00E3;o, que no processo de escrita estou constantemente a lidar com diferentes n&#x00ED;veis de autocensura, de prote&#x00E7;&#x00E3;o de pessoas que amo. Quando escrevo fic&#x00E7;&#x00E3;o, n&#x00E3;o penso em nada disso. A honestidade radical &#x00E9; poss&#x00ED;vel. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-6-1639">&#x201C;Chimamanda Ngozi Adichie: Furac&#x00E3;o na luta pelo feminismo&#x201D;, 2016</xref>, p&#x00E1;rr. 2)</p>
</disp-quote>
<p>Chimamanda &#x00E9; inven&#x00E7;&#x00E3;o. Podemos dizer que produzir dados em uma pesquisa &#x00E9; um exerc&#x00ED;cio de inven&#x00E7;&#x00E3;o. Aqui, as narrativas s&#x00E3;o nossos dados e tudo faz parte de uma gambiarra montada para visibilizar o acolhimento institucional de crian&#x00E7;as e adolescentes.</p>
</sec>
<sec id="sec-5-1639">
<title>N<sc>arrativas</sc>: <sc>o ato das possibilidades</sc></title>
<disp-quote>
<p>Aquela fam&#x00ED;lia que n&#x00E3;o &#x00E9; fam&#x00ED;lia. Mora todo mundo junto, almo&#x00E7;a todo mundo junto, janta todo mundo junto. Tio. Tia. Tios. Tias. Tio da manh&#x00E3;, tio da tarde, tio da noite, tia do dia, tia da tarde, tia noite. Tio da psicologia. Tia da cozinha. Tia dos rem&#x00E9;dios. Tia da combi. Tio da van. Tia da casa. A ju&#x00ED;za e o juiz. O promotor e a promotora. O defensor e a defensora p&#x00FA;blica. Os Dias. Dia da visita. Dia da liga&#x00E7;&#x00E3;o. Dia do kit. Dia de evas&#x00E3;o. Dia de baile. &#x201C;Tio, me d&#x00E1; um real&#x201D;. &#x201C;Tio, me d&#x00E1; um salgadinho&#x201D;. &#x201C;Tio, me d&#x00E1; um t&#x00EA;nis Nike&#x201D;. Dias felizes, dias tristes, dias marcantes. Dia dos volunt&#x00E1;rios. Dia de assembleia. Dia de cortar o cabelo. Dia do surto. &#x201C;T&#x00F4; surtando!!! Eu vou quebrar tudo!&#x201D; CHAMA A SAMUUUUU! Hora de se acalmar. Dias. Dia da fam&#x00ED;lia na escola. Dias e mais dias. Dia do CAPS (Centro de Aten&#x00E7;&#x00E3;o Psicossocial). Dia da psic&#x00F3;loga. Dia da madrinha. Dia do evangelho. &#x2014; N&#x00E3;o era laico? &#x2014; Dia de LA (Liberdade Assistida). Dia da m&#x00E9;dica. Dia do refor&#x00E7;o. Dia dos padrinhos e madrinhas. &#x201C;Senhor m&#x00E9;dico, acho que ele tem TDHA, ele &#x00E9; muito agitado&#x201D;. Dia da liga&#x00E7;&#x00E3;o. Dia de confus&#x00E3;o. Ritalina. Dia do kit. Dia de passeio. Risperidona. Dia do dentista. &#x201C;Tio, me d&#x00E1; tua m&#x00E3;o?&#x201D;. Dia de corre. Dia de &#x00C1;cido valproico. Dia de rol&#x00EA;. Dia de dar close, beb&#x00EA;. Dia de fortes emo&#x00E7;&#x00F5;es. Dia da AT. Dia de Respirar. &#x201C;Ele est&#x00E1; desorganizado, algu&#x00E9;m pode medic&#x00E1;-lo?&#x201D;. Quero BPC! Dia de algu&#x00E9;m novo, um novo velho. DECA! Dia de ir para n&#x00E3;o voltar. Dia de se fazer o que estava planejado. Isso existe? Um baseado. Ops! Esse n&#x00E3;o pode. Dia de ir para voltar sem saber que ia voltar. Dia de chorar, n&#x00E3;o disse porqu&#x00EA;, rs. Foto para o PIA, olha o passarinho! Tchutchatchatchutchutcha. Desligamento. Audi&#x00EA;ncia. Oitiva. Interna&#x00E7;&#x00E3;o. Organiza&#x00E7;&#x00E3;o. Desorganiza&#x00E7;&#x00E3;o. Haloperidol. Experi&#x00EA;ncia familiar. Ado&#x00E7;&#x00E3;o. Emo&#x00E7;&#x00E3;o. Festa! Volunt&#x00E1;rios. Mais uma festa! Faz um B.O.! Faz outro B.O.! Por vias de d&#x00FA;vida, s&#x00F3; mais um B.O.! AAAAAAAAAAAAAA. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-19-1639">Paula, 2019</xref>, p. 33)</p>
</disp-quote>
<sec id="sec-6-1639">
<title>Boa m&#x00E3;e, por&#x00E9;m, prostituta</title>
<p>Reuni&#x00E3;o de rede. Est&#x00E1;vamos em quatro servi&#x00E7;os, representantes do acolhimento institucional, Centro de Refer&#x00EA;ncia Especializado de Assist&#x00EA;ncia Social (CREAS), Unidade B&#x00E1;sica de Sa&#x00FA;de (UBS) e o Conselho Tutelar (CT). A fam&#x00ED;lia &#x00E9; acompanhada pela rede desde 2006, quando a m&#x00E3;e se vinculou aos programas do CREAS. A m&#x00E3;e tamb&#x00E9;m tem v&#x00ED;nculo forte com a UBS devido ao tratamento do v&#x00ED;rus da imunodefici&#x00EA;ncia humana (HIV).</p>
<p>Elza &#x00E9; uma mulher negra de 33 anos, moradora da periferia da zona norte de Porto Alegre. &#x00C9; m&#x00E3;e de cinco crian&#x00E7;as, quatro meninas e um menino. Elza &#x00E9; m&#x00E3;e solteira; sofria viol&#x00EA;ncia dom&#x00E9;stica do seu &#x00FA;ltimo companheiro (pai do filho mais novo). O pai das tr&#x00EA;s meninas do meio faleceu devido ao envolvimento com o tr&#x00E1;fico de drogas. O pai da mais velha, assim que soube que Elza estava gr&#x00E1;vida, foi embora para o interior do Rio Grande do Sul e nunca mais a procurou.</p>
<p>Em 2010, o CT recebeu uma den&#x00FA;ncia de que Elza sa&#x00ED;a todas as noites para se prostituir no matagal da avenida principal do bairro e voltava de manh&#x00E3; cedo, deixando as crian&#x00E7;as aos cuidados da irm&#x00E3; mais velha, com 12 anos. O CT, diante da den&#x00FA;ncia e verificando que as informa&#x00E7;&#x00F5;es eram verdadeiras, solicitou acolhimento emergencial do grupo de irm&#x00E3;os.</p>
<p>As quatro meninas e o menino mais novo j&#x00E1; estavam institucionalizados h&#x00E1; cinco meses quando o acolhimento sugeriu uma reuni&#x00E3;o de rede no territ&#x00F3;rio para discutir o caso da fam&#x00ED;lia e estudar uma futura experi&#x00EA;ncia familiar. Todos os servi&#x00E7;os, inclusive o AI, tinha como indiscut&#x00ED;vel o v&#x00ED;nculo e cuidado que a m&#x00E3;e tinha por suas filhas e filho. Durante o per&#x00ED;odo das crian&#x00E7;as no acolhimento, a m&#x00E3;e n&#x00E3;o faltou a nenhuma visita e realizou todas as combina&#x00E7;&#x00F5;es feitas com o abrigo. O CREAS tamb&#x00E9;m apontou que a m&#x00E3;e n&#x00E3;o media esfor&#x00E7;os para ter suas filhas e filho de volta; sempre era uma das primeiras a chegar no servi&#x00E7;o para buscar o TRI, que &#x00E9; a passagem que possibilitava a Elza realizar as visitas para os cinco filhos.</p>
<p>A m&#x00E3;e conseguiu combinar com uma prima que mora pr&#x00F3;ximo de passar as noites com suas crian&#x00E7;as durante o per&#x00ED;odo em que trabalha; esta foi a sa&#x00ED;da que Elza teve para ter seus filhos de volta. O CREAS conseguiu vaga na creche comunit&#x00E1;ria para suas crian&#x00E7;as menores e servi&#x00E7;o de conviv&#x00EA;ncia para as tr&#x00EA;s maiores no hor&#x00E1;rio inverso de aula. Elza conseguiu se organizar para n&#x00E3;o deixar mais seus filhos sozinhos. Entretanto, os servi&#x00E7;os discutiam e indagavam: &#x201C;mas ela ainda est&#x00E1; se prostituindo&#x201D;; &#x201C;Ela ainda chama isso de trabalho&#x201D;; &#x201C;Eu n&#x00E3;o quero ser preconceituosa, mas com a m&#x00E3;e se prostituindo n&#x00E3;o d&#x00E1; para essas crian&#x00E7;as irem para casa&#x201D;; &#x201C;&#x00C9; uma m&#x00E3;e boa com grande potencial, mas ainda est&#x00E1; se prostituindo&#x201D;; &#x201C;&#x00C9; uma m&#x00E3;e que tem toda capacidade de ter um futuro, mas ela escolheu a prostitui&#x00E7;&#x00E3;o&#x201D;; &#x201C;Qual ser&#x00E1; o futuro dessas crian&#x00E7;as?&#x201D;.</p>
</sec>
<sec id="sec-7-1639">
<title>Meu sal&#x00E1;rio, minhas regras</title>
<p>Quinto dia &#x00FA;til. Depois de um m&#x00EA;s de ralar, matando um le&#x00E3;o por dia, ali chegava finalmente o dia de receber o sal&#x00E1;rio do Jovem Aprendiz. Era metade de um sal&#x00E1;rio m&#x00ED;nimo, mas para Linn parecia uma baita grana. No abrigo da Linn e da Monique a regra &#x00E9; absoluta: todo dinheiro que um acolhido ganhar atrav&#x00E9;s de est&#x00E1;gio, metade dele pode ser gastos durante o m&#x00EA;s com o que quiser e a outra metade vai para a poupan&#x00E7;a.</p>
<p>Monique &#x00E9; uma menina que destoa dos outros acolhidos do abrigo; branca e de classe m&#x00E9;dia; estava no abrigo h&#x00E1; quase sete meses. Por&#x00E9;m, n&#x00E3;o era a primeira vez que Monique estivera no acolhimento institucional. Ela foi acolhida pela primeira vez com dois anos e foi para fam&#x00ED;lia substituta com tr&#x00EA;s anos e meio. Ap&#x00F3;s quase treze anos retorna ao acolhimento. A m&#x00E3;e foi atropelada e acabou falecendo e o pai n&#x00E3;o conseguiu lidar emocionalmente com a morte da m&#x00E3;e: teve forte crise de depress&#x00E3;o e se suicidou dois meses depois que a esposa morreu. Monique tinha dois irm&#x00E3;os, que eram filhos biol&#x00F3;gicos dos pais adotivos. Quando a m&#x00E3;e e o pai faleceram, a fam&#x00ED;lia extensa s&#x00F3; quis ficar com os filhos biol&#x00F3;gicos, resultando no acolhimento de Monique. Tr&#x00EA;s v&#x00ED;nculos comunit&#x00E1;rios da Monique estavam tentando a guarda dela. Uma delas era uma professora da escola particular em que a Monique estudava. A outra era uma amiga da m&#x00E3;e da acolhida. E, por fim, um casal, pais de uma colega de escola da Monique. O judici&#x00E1;rio est&#x00E1; avaliando ainda os pedidos de guarda. Ela ficou com uma pens&#x00E3;o pelo falecimento dos pais, como tamb&#x00E9;m ganhou um valor do seguro de vida deles.</p>
<p>Linn, mais conhecida como Linn da Quebrada, &#x00E9; uma menina trans. Negra. Transfeminista. Articulada. Linn &#x00E9; de coletivo negro tamb&#x00E9;m e est&#x00E1; sempre na luta. Ela j&#x00E1; evadiu diversas vezes para ir em protestos no centro da cidade. Ela ingressou no abrigo com sete anos. Entrou com registro de menino, continuou por muito tempo sendo tratada por menino, sofreu muito no abrigo e ainda sofre. Com dezesseis anos, com nome retificado na sua carteira de identidade, Linn ainda continua sendo chamada por nome masculino no abrigo pelos acolhidos e trabalhadores do servi&#x00E7;o de acolhimento. Linn ingressou no acolhimento por maus tratos e neglig&#x00EA;ncia pelos pais; apanhou muito por ser afeminada. O CT conseguiu identificar a fam&#x00ED;lia e acabou indicando acolhimento para a menina. O pai, depois do ingresso da Linn no abrigo, n&#x00E3;o quis mais saber dela em casa. A m&#x00E3;e da Linn foi visit&#x00E1;-la algumas vezes, por&#x00E9;m depois que ela come&#x00E7;ou a se identificar como uma mulher trans, a m&#x00E3;e nunca mais quis contato com a acolhida.</p>
<p>As meninas eram melhores amigas no acolhimento. Elas n&#x00E3;o estudavam juntas, Monique continuou na escola particular que estudava. Estava conseguindo pagar metade da mensalidade, pois depois do acontecido com seus pais ganhou uma bolsa parcial. Linn sempre estudou em escola p&#x00FA;blica. Por&#x00E9;m, elas, al&#x00E9;m de dividirem casa, faziam o est&#x00E1;gio do Jovem Aprendiz juntas em um banco p&#x00FA;blico do estado do Rio Grande do Sul. O abrigo &#x00E9; quem gerencia as contas banc&#x00E1;rias dos acolhidos e acolhidas, o cart&#x00E3;o fica com a respons&#x00E1;vel do abrigo e quando eles querem dinheiro para algo, eles t&#x00EA;m que pedir no m&#x00ED;nimo tr&#x00EA;s dias antes para o abrigo se organizar e sacar o dinheiro e entregar para eles. Foi naquela sexta-feira, quinto dia &#x00FA;til do m&#x00EA;s de novembro que elas decidiram fazer diferente. Elas faziam est&#x00E1;gio no banco, sabiam todos os tr&#x00E2;mites e tamb&#x00E9;m sabiam que n&#x00E3;o precisariam do cart&#x00E3;o para sacar o dinheiro da conta delas, era s&#x00F3; irem com a identidade at&#x00E9; o caixa do banco e tirar o dinheiro. Foi isso que elas fizeram, tiraram o dinheiro, foram para o shopping, compraram umas roupinhas e foram para a casa de uma amiga da Linn com os &#x201C;kit&#x201D; e foram curtir um pagode a noite toda. Eram oito horas da manh&#x00E3; quando elas chegaram de Uber no abrigo. Com sorriso de orelha a orelha.</p>
</sec>
</sec>
<sec id="sec-8-1639">
<title>C<sc>onsidera&#x00E7;&#x00F5;es finais</sc></title>
<p>Neste trabalho, fugimos de um texto acad&#x00EA;mico nos moldes hegem&#x00F4;nicos (impessoal, objetivo e formal). Buscamos imprimir o encontro da literatura com a produ&#x00E7;&#x00E3;o de conhecimento em psicologia social. Produzir fragmentos liter&#x00E1;rios com hist&#x00F3;rias inventadas a partir do nosso encontro com o acolhimento institucional nos permite ampliar o horizonte de possibilidades na pesquisa/interven&#x00E7;&#x00E3;o no campo no campo da Assist&#x00EA;ncia Social. Nesta rela&#x00E7;&#x00E3;o, a fic&#x00E7;&#x00E3;o entra como um dos frutos da uni&#x00E3;o entre ci&#x00EA;ncia e arte (<xref ref-type="bibr" rid="ref-9-1639">Costa, 2014</xref>). Conforme o dicion&#x00E1;rio Aur&#x00E9;lio, em uma das defini&#x00E7;&#x00F5;es, a fic&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; a cria&#x00E7;&#x00E3;o de car&#x00E1;ter art&#x00ED;stico, baseada na imagina&#x00E7;&#x00E3;o, mesmo que idealizada, a partir de dados reais. Nas palavras de <xref ref-type="bibr" rid="ref-9-1639">Luis Artur Costa (2014)</xref>,</p>
<disp-quote>
<p>Reinventando nossa realidade independente dos estados de coisas referentes, podemos torn&#x00E1;-la ainda mais real, mais complexa, densa e intensa ao intrincar suas tramas com novas possibilidades de rela&#x00E7;&#x00E3;o. A fic&#x00E7;&#x00E3;o fia mundos onde a confian&#x00E7;a ultrapassa a fidedignidade sem perder realidade. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-9-1639">Costa, 2014</xref>, p. 553)</p>
</disp-quote>
<p>No seu texto, Costa problematiza as possibilidades das pol&#x00ED;ticas de hibridiza&#x00E7;&#x00E3;o entre as estrat&#x00E9;gias de produ&#x00E7;&#x00E3;o de conhecimento das ci&#x00EA;ncias e das artes. Narrar &#x00E9; nossa ferramenta de an&#x00E1;lise; nossas an&#x00E1;lises sobre o Acolhimento Institucional de crian&#x00E7;as e adolescentes se d&#x00E1; a partir da constru&#x00E7;&#x00E3;o de hist&#x00F3;rias. Com que hist&#x00F3;rias engravidamos o mundo? Como contamos o que nos passa em uma experi&#x00EA;ncia de est&#x00E1;gio/de pesquisa? Como contamos a experi&#x00EA;ncia de acolhimento institucional de crian&#x00E7;as e adolescentes?</p>
<p>Neste trabalho, este encontro se caracteriza nas narrativas inspiradas em contos liter&#x00E1;rios da Concei&#x00E7;&#x00E3;o Evaristo e Chimamanda Ngozi Adichie. Uma jun&#x00E7;&#x00E3;o que nos possibilita uma produ&#x00E7;&#x00E3;o de resist&#x00EA;ncia no campo das problematiza&#x00E7;&#x00F5;es e do Acolhimento Institucional de Crian&#x00E7;as e Adolescentes. Como nos provoca bell hooks (2017), nosso estilo de escrita &#x00E9; uma decis&#x00E3;o pol&#x00ED;tica, uma pol&#x00ED;tica narrativa implicada na produ&#x00E7;&#x00E3;o interseccional de hist&#x00F3;rias. N&#x00E3;o trazemos a solu&#x00E7;&#x00E3;o de um conflito, abrimos questionamentos para pensarmos nas pr&#x00E1;ticas sobre os marcadores sociais da diferen&#x00E7;a como categorias de articula&#x00E7;&#x00E3;o.</p>
<p>O que a hist&#x00F3;ria da Elza e a dos seus filhos nos contam sobre as pr&#x00E1;ticas da pol&#x00ED;tica de assist&#x00EA;ncia social e rede? O que a hist&#x00F3;ria de resist&#x00EA;ncia de Linn da Quebrada e Monique nos conta dos processos institucionais dos acolhimentos? Neste sentido, as narrativas que fazem parte deste trabalho n&#x00E3;o falam de uma hist&#x00F3;ria ou de uma identidade, falam de v&#x00E1;rias hist&#x00F3;rias que amplificam um presente e plantam incertezas. Nossa proposta &#x00E9; ofertar uma possibilidade de an&#x00E1;lise quanto &#x00E0; Assist&#x00EA;ncia Social, apostando na amplia&#x00E7;&#x00E3;o das condi&#x00E7;&#x00F5;es de possibilidade de vida a partir da produ&#x00E7;&#x00E3;o de narrativas, sempre ficcionais e implicadas com a an&#x00E1;lise interseccional do campo.</p>
</sec>
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<back>
<fn-group>
<fn id="fn1" fn-type="other"><label>1</label> <p>Nos aproximamos da linguagem oral em alguns momentos do texto. Usaremos g&#x00ED;rias, a linguagens dos abrigos, das periferias, das nossas linguagens e viv&#x00EA;ncias. N&#x00E3;o sairemos explicando uma por uma, deixaremos os leitores e as leitoras na busca de significados.</p></fn>
<fn id="fn2" fn-type="other"><label>2</label> <p>Para acessar o depoimento de Concei&#x00E7;&#x00E3;o Evaristo concedido durante o I Col&#x00F3;quio de Escritoras Mineiras na &#x00ED;ntegra, realizado em maio de 2009, na Faculdade de Letras da UFMG ver <xref ref-type="bibr" rid="ref-13-1639">Concei&#x00E7;&#x00E3;o Evaristo (2022)</xref>.</p></fn>
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<title>R<sc>efer&#x00EA;ncias</sc></title>
<ref id="ref-1-1639"><element-citation publication-type="book"><person-group person-group-type="author"><name><surname>Akotirene</surname> <given-names>Carla</given-names></name></person-group> <year>2018</year> <source><italic>O que &#x00E9; interseccionalidade?</italic></source> <publisher-name>Editora Letramento</publisher-name></element-citation>
<mixed-citation>Akotirene, Carla (2018). <italic>O que &#x00E9; interseccionalidade?</italic> Editora Letramento.</mixed-citation></ref>
<ref id="ref-2-1639"><element-citation publication-type="journal"><person-group person-group-type="author"><name><surname>Alves</surname> <given-names>Iulo Almeida</given-names></name> <name><surname>Alves</surname> <given-names>Tain&#x00E1; Almeida</given-names></name></person-group> <year>2011</year> <source><italic>O perigo da hist&#x00F3;ria &#x00FA;nica: Di&#x00E1;logos com Chimamanda Adichie</italic></source> <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.bocc.ubi.pt/pag/alves-alves-o-perigo-da-historia-unica.pdf">http://www.bocc.ubi.pt/pag/alves-alves-o-perigo-da-historia-unica.pdf</ext-link></element-citation>
<mixed-citation>Alves, Iulo Almeida &#x0026; Alves, Tain&#x00E1; Almeida (2011). <italic>O perigo da hist&#x00F3;ria &#x00FA;nica: Di&#x00E1;logos com Chimamanda Adichie</italic>. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.bocc.ubi.pt/pag/alves-alves-o-perigo-da-historia-unica.pdf">http://www.bocc.ubi.pt/pag/alves-alves-o-perigo-da-historia-unica.pdf</ext-link></mixed-citation></ref>
<ref id="ref-3-1639"><element-citation publication-type="journal"><person-group person-group-type="author"><name><surname>Brah</surname> <given-names>Avtar</given-names></name></person-group> <year>2006</year> <article-title>Diferen&#x00E7;a, Diversidade, Diferencia&#x00E7;&#x00E3;o</article-title> <source><italic>Cadernos Pagu</italic></source> <volume>26</volume> <fpage>329</fpage><lpage>376</lpage> <pub-id pub-id-type="doi">10.1590/S0104-83332006000100014</pub-id></element-citation>
<mixed-citation>Brah, Avtar (2006). Diferen&#x00E7;a, Diversidade, Diferencia&#x00E7;&#x00E3;o. <italic>Cadernos Pagu, 26</italic>, 329-376. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://doi.org/10.1590/S0104-83332006000100014">https://doi.org/10.1590/S0104-83332006000100014</ext-link></mixed-citation></ref>
<ref id="ref-4-1639"><element-citation publication-type="journal"><person-group person-group-type="author"><name><surname>Brah</surname> <given-names>Avtar</given-names></name> <name><surname>Phoenix</surname> <given-names>Ann</given-names></name></person-group> <year>2004</year> <article-title>Ain&#x2019;t I A Woman? Revisiting Intersectionality</article-title> <source><italic>Journal Of International Women&#x0027;s Studies</italic></source> <volume>5</volume><issue>3</issue> <fpage>75</fpage><lpage>86</lpage></element-citation>
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<ref id="ref-6-1639"><element-citation publication-type="journal"><person-group person-group-type="author"><collab>Chimamanda Ngozi Adichie: Furac&#x00E3;o na luta pelo feminismo</collab></person-group> <date-in-citation content-type="access-date">2016, 12 de dezembro</date-in-citation> <source><italic>Revista Estante</italic></source> <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.revistaestante.fnac.pt/chimamanda-ngozi-adichie-furacao-na-luta-pelo-feminismo/">http://www.revistaestante.fnac.pt/chimamanda-ngozi-adichie-furacao-na-luta-pelo-feminismo/</ext-link></element-citation>
<mixed-citation>Chimamanda Ngozi Adichie: Furac&#x00E3;o na luta pelo feminismo. (2016, 12 de dezembro). <italic>Revista Estante</italic>. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.revistaestante.fnac.pt/chimamanda-ngozi-adichie-furacao-na-luta-pelo-feminismo/">http://www.revistaestante.fnac.pt/chimamanda-ngozi-adichie-furacao-na-luta-pelo-feminismo/</ext-link></mixed-citation></ref>
<ref id="ref-7-1639"><element-citation publication-type="book"><person-group person-group-type="author"><name><surname>Collins</surname> <given-names>Patricia Hill</given-names></name> <name><surname>Bilge</surname> <given-names>Sirma</given-names></name></person-group> <year>2016</year> <source><italic>Intersectionality</italic></source> <publisher-name>Polity Press</publisher-name></element-citation>
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