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<journal-title>Quaderns de Psicologia</journal-title>
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<publisher-name>Universitat Aut&#x00F2;noma de Barcelona</publisher-name>
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<article-id pub-id-type="publisher-id">QPs.1932</article-id>
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<subject>Artigos</subject>
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<article-title>Psicologia, Racismo e Antirracismo: segunda parte</article-title>
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<trans-title xml:lang="en">Psychology, Racism and Anti-racism: second part</trans-title>
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<bio><p>Doutora em Psicologia Social pela Universidade Complutense de Madri (UCM), Espanha; Professora do Departamento e do Programa de P&#x00F3;s-gradua&#x00E7;&#x00E3;o em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Brasil; Coordenadora do N&#x00FA;cleo de Ensino, Pesquisa e Extens&#x00E3;o Conex&#x00F5;es de Saberes &#x2013;UFMG.</p></bio>
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<email>claudiamayorga@ufmg.br</email>
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<surname>Dias de Castro</surname>
<given-names>Ricardo</given-names>
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<bio><p>Doutor em Psicologia Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Brasil; Professor do Centro Universit&#x00E1;rio Est&#x00E1;cio BH; Membro do N&#x00FA;cleo de Ensino, Pesquisa e Extens&#x00E3;o Conex&#x00F5;es de Saberes &#x2013;UFMG.</p></bio>
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<email>ricardodiascastro@gmail.com</email>
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<surname>Lino</surname>
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<bio><p>Doutora em Psicologia Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Brasil; Professora do Centro Universit&#x00E1;rio UNA; Membro do N&#x00FA;cleo de Ensino, Pesquisa e Extens&#x00E3;o Conex&#x00F5;es de Saberes &#x2013;UFMG.</p></bio>
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<year>2022</year>
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<license-p>Aquesta obra est&#x00E0; sota una llic&#x00E8;ncia internacional Creative Commons Reconeixement 4.0. CC BY</license-p>
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<abstract>
<title>Resumo</title>
<p>Apresentamos os artigos publicados no dossi&#x00EA; Psicologia, Racismo e Antirracismo &#x2014; Parte 2. As refer&#x00EA;ncias &#x00E0;s quest&#x00F5;es raciais t&#x00EA;m ganhado espa&#x00E7;o no campo da Psicologia e os olhares sobre as quest&#x00F5;es raciais nessa ci&#x00EA;ncia est&#x00E3;o frequentemente presentes como aspectos espec&#x00ED;ficos de teorias cr&#x00ED;ticas, mas a depender do &#x201C;lugar&#x201D; que tais olhares ocupam dentro dessas teorias, os impactos e cr&#x00ED;ticas para a pr&#x00F3;pria Psicologia ganham dimens&#x00F5;es que apontam para inclus&#x00F5;es pontuais de algumas categoriais ou para revis&#x00F5;es mais amplas e estruturais desse campo do conhecimento. Os artigos publicizados neste dossi&#x00EA; contribuem para interpelar a Psicologia que ao longo da hist&#x00F3;ria contribuiu para a reprodu&#x00E7;&#x00E3;o do racismo, articulado com outras opress&#x00F5;es e viol&#x00EA;ncias e apontam caminhos de mudan&#x00E7;a na &#x00E1;rea e revelam a necessidade de um giro antirracista na Psicologia.</p>
</abstract>
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<title>Abstract</title>
<p>We present the articles published in the dossier Psychology, Racism and Anti-Racism &#x2013; Part 2. References to racial issues have gained space in the field of Psychology and the perspectives on racial issues in this science are often present as specific aspects of critical theories, but depending on the &#x201C;place&#x201D; that such perspectives occupy within these theories, the impacts, and criticisms for Psychology itself gain dimensions that point to punctual inclusions of some categories or to broader and more structural revisions of this field of knowledge. The articles published in this dossier contribute to questioning Psychology that throughout history has contributed to the reproduction of racism, articulated with other oppressions and violence, and point out ways of change in the area and reveal the need for an anti-racist turn in Psychology.</p>
</trans-abstract>
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<title>Palavras-chave:</title>
<kwd><bold>Psicologia</bold></kwd>
<kwd><bold>Racismo</bold></kwd>
<kwd><bold>Giro Antirracista</bold></kwd>
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<title>Keywords:</title>
<kwd><bold><italic>Psychology</italic></bold></kwd>
<kwd><bold><italic>Racism</italic></bold></kwd>
<kwd><bold><italic>Anti-Racist Turn</italic></bold></kwd>
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<sec id="sec-1-1932">
<title>P<sc>sicologia e o necess&#x00E1;rio giro antirracista</sc></title>
<p>As refer&#x00EA;ncias &#x00E0;s quest&#x00F5;es raciais t&#x00EA;m ganhado espa&#x00E7;o no campo da psicologia. Podem ser encontradas nas correntes favor&#x00E1;veis ao trabalho reflexivo, situado e politizado, como a psicologia comunit&#x00E1;ria, a social comunit&#x00E1;ria, a psicologia pol&#x00ED;tica, psicologia da liberta&#x00E7;&#x00E3;o e tamb&#x00E9;m da psicologia feminista e at&#x00E9; mesmo em perspectivas que talvez pens&#x00E1;ssemos que tal debate demorasse um pouco mais de tempo a chegar, como &#x00E9; o caso da psican&#x00E1;lise (<xref ref-type="bibr" rid="ref-3-1932">Pav&#x00F3;n-Cuellar, 2021</xref>). A receptividade das quest&#x00F5;es raciais para analisar a subjetividade e a intera&#x00E7;&#x00E3;o sujeito-sociedade por essas perspectivas possui explica&#x00E7;&#x00F5;es hist&#x00F3;ricas relacionadas com o movimento da chamada crise da psicologia social e a configura&#x00E7;&#x00E3;o, de forma cada vez mais expl&#x00ED;cita, de um <italic>ethos</italic> cr&#x00ED;tico (<xref ref-type="bibr" rid="ref-2-1932">Mayorga, 2007</xref>) dentro da psicologia, desde ent&#x00E3;o.</p>
<p>Tal <italic>ethos</italic> caracteriza-se por reunir posi&#x00E7;&#x00F5;es epistemol&#x00F3;gicas, te&#x00F3;ricas, metodol&#x00F3;gicas e pol&#x00ED;ticas que buscaram e seguem buscando problematizar os reducionismos dos saberes <italic>psi</italic> acerca do humano, da sociedade e da intera&#x00E7;&#x00E3;o entre essas dimens&#x00F5;es. As cr&#x00ED;ticas &#x00E0; psicologiza&#x00E7;&#x00E3;o da realidade, aos olhares dicotomizados sobre os sujeitos, aos par&#x00E2;metros de normalidade, sa&#x00FA;de e desenvolvimento cognitivo, moral e intelectual oriundos de diversas perspectivas <italic>psi</italic> s&#x00E3;o fundamentais para caracterizarmos esse movimento cr&#x00ED;tico na psicologia. Uma das cr&#x00ED;ticas feitas, com forte contribui&#x00E7;&#x00E3;o da psicologia produzida no contexto latino-americano, mas n&#x00E3;o somente a&#x00ED;, foi ao eurocentrismo caracter&#x00ED;stico da ci&#x00EA;ncia moderna e &#x00E0; colonialidade decorrente dessa posi&#x00E7;&#x00E3;o.</p>
<p>A utiliza&#x00E7;&#x00E3;o descontextualizada e acr&#x00ED;tica das teorias psicol&#x00F3;gicas oriundas dos Estados Unidos e da Europa, as l&#x00F3;gicas coloniais presentes na produ&#x00E7;&#x00E3;o do conhecimento, a &#x00EA;nfase nas perspectivas positivistas e quantitativistas nos estudos realizados, a preval&#x00EA;ncia do que se chamou reducionismo psicol&#x00F3;gico foram cr&#x00ED;ticas dirigidas &#x00E0; psicologia e utilizadas para demonstrar que as concep&#x00E7;&#x00F5;es de sujeito e sociedade que fundamentavam essa ci&#x00EA;ncia, acabavam por reproduzir valores, posi&#x00E7;&#x00F5;es e vis&#x00F5;es individualizantes, muito uteis para determinada organiza&#x00E7;&#x00E3;o social, econ&#x00F4;mica e pol&#x00ED;tica prioritariamente defendida e promovida pelas elites mundiais. Poder&#x00ED;amos afirmar que esse movimento de crise perdura na psicologia.</p>
<p>V&#x00E1;rias categorias e teoriza&#x00E7;&#x00F5;es foram sendo delineadas e tamb&#x00E9;m relidas a partir dessa perspectiva e entre elas, as quest&#x00F5;es raciais. Se em outros momentos hist&#x00F3;ricos a ideia de ra&#x00E7;a foi fortemente utilizada para classificar e hierarquizar os povos at&#x00E9; mesmo justificando pr&#x00E1;ticas de explora&#x00E7;&#x00E3;o, domina&#x00E7;&#x00E3;o e exterm&#x00ED;nio, como o racismo cient&#x00ED;fico que ganhou for&#x00E7;a no S&#x00E9;culo XIX, o <italic>ethos</italic> cr&#x00ED;tico na psicologia permitir&#x00E1; uma releitura da categoria ra&#x00E7;a, compreendida como uma constru&#x00E7;&#x00E3;o pol&#x00ED;tica e social assim como o racismo e suas consequ&#x00EA;ncias. Muito al&#x00E9;m de uma experi&#x00EA;ncia cognitiva de organizar o mundo em categorias, a ra&#x00E7;a e o racismo passam a ser compreendidos como dispositivos produtores e reprodutores de desigualdades e sofrimentos.</p>
<disp-quote>
<p>Que la subjetividad que abordamos haya sido previamente colonizada quiere decir que es una subjetividad originariamente europea o europeizada. Esto implica, entre otras cosas, que sea una subjetividad como la que encontramos en Europa: una subjetividad psicol&#x00F3;gica, psicol&#x00F3;gicamente objetivable, separable del sujeto que la estudia, pero tambi&#x00E9;n de todo lo dem&#x00E1;s. Es una subjetividad confinada en un mundo interno individual, en un alma o entidad consciente, mental o cognitiva, que se abstrae lo mismo de la corporeidad que de la comunidad. Esta abstracci&#x00F3;n t&#x00ED;picamente europea, grecorromana y judeocristiana est&#x00E1; em el fundamento de la psicolog&#x00ED;a. (<xref ref-type="bibr" rid="ref-3-1932">Pav&#x00F3;n-Cuellar, 2021</xref>, pp. 97-98)</p>
</disp-quote>
<p>Olhares sobre as quest&#x00F5;es raciais na psicologia est&#x00E3;o frequentemente presentes como aspectos espec&#x00ED;ficos de teorias cr&#x00ED;ticas, mas a depender do &#x201C;lugar&#x201D; que tais olhares ocupam dentro dessas teorias, os impactos e cr&#x00ED;ticas para a pr&#x00F3;pria psicologia ganham dimens&#x00F5;es que apontam para inclus&#x00F5;es pontuais de algumas categoriais ou para revis&#x00F5;es mais amplas e estruturais desse campo do conhecimento.</p>
<p>Estudos sobre ra&#x00E7;a e racismo embasados no positivismo l&#x00F3;gico podem apresentar mapeamentos e descri&#x00E7;&#x00F5;es sobre a quantidade de negros, negras, ind&#x00ED;genas, orientais, etc., seu perfil de moradia, educa&#x00E7;&#x00E3;o, trabalho, &#x00ED;ndices de viol&#x00EA;ncia; estudos articulados com o materialismo hist&#x00F3;rico e dial&#x00E9;tico podem incorporar a no&#x00E7;&#x00E3;o de racismo estrutural e da divis&#x00E3;o racial do trabalho; at&#x00E9; correntes p&#x00F3;s-estruturalistas poder&#x00E3;o dialogar com a no&#x00E7;&#x00E3;o de ra&#x00E7;a, com intuito de desconstru&#x00ED;-la e apontar os efeitos de domina&#x00E7;&#x00E3;o racista que tal categoria estaria difundindo. Essa heterogeneidade de perspectivas que incluem outras n&#x00E3;o mencionadas, marca algumas tens&#x00F5;es importantes para a psicologia &#x2014; tanto para o debate te&#x00F3;rico quanto para o debate pol&#x00ED;tico. O que podemos afirmar &#x00E9; que abordar as quest&#x00F5;es raciais na psicologia, n&#x00E3;o necessariamente a torna uma ci&#x00EA;ncia antirracista. &#x00C9; necess&#x00E1;rio algo mais. Nesse algo a mais certamente encontra-se uma cr&#x00ED;tica cada vez mais nomeada nos debates sobre psicologia e quest&#x00F5;es raciais que &#x00E9; a quest&#x00E3;o da branquitude. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="ref-1-1932">Sueli Carneiro (2011</xref>, p. 81): &#x201C;a desconstru&#x00E7;&#x00E3;o da brancura como ideal de ego na sociedade &#x00E9; imperativo para a liberta&#x00E7;&#x00E3;o e cura de todos: negros, brancos, ind&#x00ED;genas, orientais. E talvez nisso resida o papel mais estrat&#x00E9;gico que os psic&#x00F3;logos t&#x00EA;m a cumprir&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-1-1932">Carneiro, 2011</xref>, p. 81).</p>
<p>Esse exerc&#x00ED;cio &#x00E9; de fundamental import&#x00E2;ncia para a psicologia e nos coloca um paradoxo importante: somos uma ci&#x00EA;ncia que constitutivamente toma a branquitude como ideal de ego, reproduzindo teoriza&#x00E7;&#x00F5;es racistas, e que quer promover um giro antirracista. Quais as ferramentas devemos usar para tanto? Produ&#x00E7;&#x00F5;es em psicologia em diversos contextos est&#x00E3;o buscando responder e mais do que isso, experimentar o giro. Claro est&#x00E1; que para tanto, n&#x00E3;o basta uma metodologia inovadora, ou teorias que nos ajudem a fazer leituras cr&#x00ED;ticas de como o poder opera nas subjetividades. &#x00C9; fundamental que a posi&#x00E7;&#x00E3;o pol&#x00ED;tica antirracista esteja presente. Tal exerc&#x00ED;cio &#x00E9; complexo e exige a reflexividade permanente. Quais os efeitos racistas de nossos estudos? Quais os efeitos emancipat&#x00F3;rios e antirracistas nossas teorias podem produzir? &#x00C9; fundamental que sigamos na constru&#x00E7;&#x00E3;o dessas respostas.</p>
</sec>
<sec id="sec-2-1932">
<title>D<sc>ossi&#x00EA;</sc> T<sc>em&#x00E1;tico</sc>: P<sc>sicologia</sc>, R<sc>acismo e</sc> A<sc>ntirracismo</sc></title>
<p>Apresentamos o dossi&#x00EA; tem&#x00E1;tico &#x201C;Psicologia, Racismo e Antirracismo&#x201D; que teve sua primeira parte publicada no volume 23, n&#x00FA;mero 3 de 2021 da Revista Quaderns de Psicologia e cuja segunda parte pulicamos neste n&#x00FA;mero.</p>
<p>Os artigos foram selecionados por Chamada P&#x00FA;blica com o objetivo de publicizar contribui&#x00E7;&#x00F5;es e reflex&#x00F5;es acerca das distintas din&#x00E2;micas do racismo e tamb&#x00E9;m das lutas, pr&#x00E1;ticas e pol&#x00ED;ticas antirracistas que vem sendo desenvolvidas. Os artigos aqui publicados prop&#x00F5;em an&#x00E1;lises dos aspectos distintos do racismo e antirracismo a partir de perspectivas psicol&#x00F3;gicas e de outras &#x00E1;reas do conhecimento. Os artigos abordaram quest&#x00F5;es relacionadas a contextos sociais, pol&#x00ED;ticos e culturais marcados por hist&#x00F3;rias coloniais; problematiza&#x00E7;&#x00F5;es sobre racismo e sua rela&#x00E7;&#x00E3;o com a sa&#x00FA;de mental; o papel reprodutor e tamb&#x00E9;m trans-formador das institui&#x00E7;&#x00F5;es, das pol&#x00ED;ticas p&#x00FA;blicas e dos movimentos sociais. As experi&#x00EA;ncias de sujeitos e grupos sociais como crian&#x00E7;as, mulheres negras e ind&#x00ED;genas, estudantes universit&#x00E1;rios foram abordadas por meio de metodologias que envolvem desde an&#x00E1;lise documental at&#x00E9; as perspectivas participativas. No&#x00E7;&#x00F5;es como identidade, subjetiva&#x00E7;&#x00E3;o, racismo institucional, interseccionalidade, eurocentrismo, branquitude e decolonialidade foram tomadas como pontos de partida para essas an&#x00E1;lises. Por fim, a pr&#x00F3;pria Psicologia e suas diversas perspectivas foram problematizadas como reprodutoras do racismo, mas tamb&#x00E9;m como campos de produ&#x00E7;&#x00E3;o do conhecimento cr&#x00ED;tico acerca das quest&#x00F5;es raciais com abertura para olhares e pr&#x00E1;ticas que colaborem para um mundo menos marcado por eixos de opress&#x00E3;o e desigualdade.</p>
<p>Na PRIMEIRA PARTE do dossi&#x00EA; foram publicados os artigos apresentados abaixo, publicada em Quaderns de Psicologia, vol. 23, n&#x00FA;mero 3, 2021.</p>
<p>No primeiro artigo intitulado <italic>A rela&#x00E7;&#x00E3;o entre racismo, sa&#x00FA;de e sa&#x00FA;de mental: Psicologia e educa&#x00E7;&#x00E3;o antirracista</italic>, Marcos Ant&#x00F4;nio Batista da Silva e Ivani Francisco de Oliveira prop&#x00F5;em uma reflex&#x00E3;o sobre racismo estrutural e desigualdades &#x00E9;tnico-raciais como determinantes sociais das condi&#x00E7;&#x00F5;es de sa&#x00FA;de, incluindo os saberes psicol&#x00F3;gicos. Destaca-se a necessidade da inclus&#x00E3;o do debate sobre rela&#x00E7;&#x00F5;es raciais na forma&#x00E7;&#x00E3;o dos profissionais da sa&#x00FA;de mental, destacando a necessidade do foco em uma educa&#x00E7;&#x00E3;o para a equidade.</p>
<p>No ensaio intitulado <italic>Racismo institucional en educaci&#x00F3;n: reflexiones sobre la interculturalidad</italic>, Cristina Zhang-Yu tamb&#x00E9;m discute, a partir de um percurso auto-etnogr&#x00E1;fico de uma mulher chinesa, a predomin&#x00E2;ncia das perspectivas euroc&#x00EA;ntricas fortemente presentes no campo da educa&#x00E7;&#x00E3;o. Aponta a necessidade de explicitar o racismo institucional presente na educa&#x00E7;&#x00E3;o.</p>
<p>No artigo seguinte intitulado <italic>As (re)configura&#x00E7;&#x00F5;es subjetivas e identit&#x00E1;rias de negros na Universidade: Fric&#x00E7;&#x00F5;es epist&#x00EA;micas e aquilombamento acad&#x00E9;mico</italic>, Jo&#x00E3;o Paulo Siqueira e Rodrigo Maciel Ramos partem de uma perspectiva decolonial para analisar os processos de subjetiva&#x00E7;&#x00E3;o, sofrimento e resist&#x00EA;ncia que perpassam as trajet&#x00F3;rias de estudantes negros da Universidade de Bras&#x00ED;lia, Brasil. Por meio de metodologia qualitativa, a an&#x00E1;lise das entrevistas aponta que as reconfigura&#x00E7;&#x00F5;es subjetivas e o aquilombamento acad&#x00EA;mico protagonizados pelos sujeitos s&#x00E3;o centrais para a sua perman&#x00EA;ncia na universidade e sua sa&#x00FA;de mental.</p>
<p>Em <italic>Una mirada interseccional a las pr&#x00E1;cticas de salud en Ays&#x00E9;n. Procesos de racializaci&#x00F3;n en Chile</italic>, Caterine Galaz Valderrama et al. analisam, a partir de uma perspectiva interseccional, processos e situa&#x00E7;&#x00F5;es de desigualdade e discrimina&#x00E7;&#x00E3;o vivenciados por grupos de migrantes no contexto chileno. Mais uma vez o racismo institucional &#x00E9; problematizado juntamente com as pr&#x00E1;ticas de resist&#x00EA;ncia protagonizadas pelos &#x201C;outros&#x201D;.</p>
<p>Em <italic>A produ&#x00E7;&#x00E3;o do conhecimento em psicologia a partir das experi&#x00EA;ncias de mulheres negras diasp&#x00F3;ricas. Aspectos te&#x00F3;rico-metodol&#x00F3;gicos</italic>, Vivane Martins Cunha, Camila Rodrigues Francisco e Lisandra Esp&#x00ED;ndula Moreira dialogam com moradoras de periferias e favelas de diferentes munic&#x00ED;pios do estado de Minas Gerais, Brasil, que tiveram seus filhos assassinados devido &#x00E0; viol&#x00EA;ncia policial e tamb&#x00E9;m com mulheres negras haitianas estudantes universit&#x00E1;rias no Brasil. Reflex&#x00F5;es epistemol&#x00F3;gicas e metodol&#x00F3;gicas sobre os di&#x00E1;logos que podem ser constru&#x00ED;dos com essas mulheres dos lugares da pesquisa acad&#x00EA;mica.</p>
<p>No artigo <italic>Racismo y prejuicios encubiertos: Las luchas antirracistas de mujeres mapuche en Chile</italic>, Alicia del Pilar Raintamb&#x00E9;m vai analisar as discrimina&#x00E7;&#x00F5;es e exclus&#x00F5;es vivenciadas pelas mulheres mapuche no contexto chileno, com destaque aos enfrentamentos e lutas que as mesmas travam para resistir a essa situa&#x00E7;&#x00E3;o. As an&#x00E1;lises das 20 entrevistas realizadas apontam para elementos relacionados &#x00E0; naturaliza&#x00E7;&#x00E3;o do preconceito que impossibilita o reconhecimento, por parte de setores da sociedade, do problema por elas vivenciado.</p>
<p>No artigo <italic>Tornar-se negro: ra&#x00E7;a, identidade e biopoder</italic>, Mario Santos Morel e Danichi Hausen Mizoguchi analisam a coloniza&#x00E7;&#x00E3;o como um processo de subjetiva&#x00E7;&#x00E3;o, articulando a dimens&#x00E3;o da cl&#x00ED;nica psicol&#x00F3;gica e a pol&#x00ED;tica. Baseando-se em Gilles Deleuze e F&#x00E9;lix Guattari, os autores problematizam a ra&#x00E7;a e o racismo procurando interrogar os modos de enfrentamento &#x00E0; viol&#x00EA;ncia racial dos quais a psicologia pode e deve participar.</p>
<p>De forma inovadora, a interpreta&#x00E7;&#x00E3;o decolonial da produ&#x00E7;&#x00E3;o de Jacques Lacan, a partir das coordenadas decoloniais e antirracistas &#x2014; especialmente latinoamericanas, surgidas no s&#x00E9;culo XXI &#x2014; &#x00E9; apresentada por Andr&#x00E9;a Maris Campos Guerra et al. no artigo <italic>Ocupa&#x00E7;&#x00E3;o antirracista e decolonial do espa&#x00E7;o psicanal&#x00ED;tico</italic>. A discuss&#x00E3;o do racismo &#x00E9; feita a partir da perspectiva da decolonialidade e tamb&#x00E9;m da branquitude, chegando a uma proposta de virada decolonial no pensamento de Lacan.</p>
<p>No artigo <italic>Perspectivas y luchas antirracistas en el Movimiento Loco y los Estudios Locos: una revisi&#x00F3;n</italic>, Grecia Guzm&#x00E1;n Martinez coloca em di&#x00E1;logo, a partir de uma perspectiva decolonial, o movimento louco e o movimento antirracista. Vai explicitar como a reprodu&#x00E7;&#x00E3;o do racismo lan&#x00E7;a m&#x00E3;o das no&#x00E7;&#x00F5;es de loucura e doen&#x00E7;a mental ao longo da hist&#x00F3;ria e dar&#x00E1; destaque as formas como a dimens&#x00E3;o racial &#x00E9; frequentemente invisibilizada dentro do movimento louco. Aponta tamb&#x00E9;m possibilidades de interse&#x00E7;&#x00E3;o e articula&#x00E7;&#x00E3;o entre esses dois movimentos.</p>
<p>A constru&#x00E7;&#x00E3;o da identidade racial de crian&#x00E7;as brasileiras &#x00E9; analisa por Jefferson Andrade Silva et al. no artigo intitulado <italic>O efeito da cor de pele na constru&#x00E7;&#x00E3;o da identidade racial em crian&#x00E7;as</italic>. O estudo demonstra que as crian&#x00E7;as s&#x00E3;o agentes ativos na constru&#x00E7;&#x00E3;o de suas identidades raciais e que a cor de pele destas incide efeitos significativos no processo, cujo debate precisa ser ampliado e democratizado.</p>
<p>A dimens&#x00E3;o necropol&#x00ED;tca do capitalismo que se materializa na atua&#x00E7;&#x00E3;o mort&#x00ED;fera de policiais contra popula&#x00E7;&#x00F5;es perif&#x00E9;ricas no Brasil &#x00E9; analisado por Waldenilson Teixeira Ramos et al. no artigo intitulado <italic>As rela&#x00E7;&#x00F5;es entre o Estado e a popula&#x00E7;&#x00E3;o pobre e negra no Brasil: necropol&#x00ED;tica tropical</italic>. Tais pr&#x00E1;ticas s&#x00E3;o relacionadas com a escravid&#x00E3;o institucional e as rela&#x00E7;&#x00F5;es coloniais entre Estado e popula&#x00E7;&#x00E3;o pobre e negra no Brasil.</p>
<p>Por fim, no artigo <italic>Racismo epist&#x00E9;mico en el &#x201C;sert&#x00E3;o&#x201D; del nordeste brasile&#x00F1;o: un abordaje geneal&#x00F3;gico de la salud mental</italic>, Emilene Andrada Donato prop&#x00F5;e uma an&#x00E1;lise do racismo epist&#x00EA;mico na regi&#x00E3;o do sert&#x00E3;o brasileiro a partir de categorias como ra&#x00E7;a, mesti&#x00E7;agem, territ&#x00F3;rio e sert&#x00E3;o. Destaca que a racializa&#x00E7;&#x00E3;o e a subalterniza&#x00E7;&#x00E3;o do territ&#x00F3;rio se associam &#x00E0;s no&#x00E7;&#x00F5;es de identidade nacional com forte rela&#x00E7;&#x00E3;o com as refer&#x00EA;ncias da psiquiatria.</p>
<p>Para a SEGUNDA PARTE do dossi&#x00EA;, publicada neste n&#x00FA;mero de Quaderns de Psicologia, apresentamos os artigos que se seguem.</p>
<p>No artigo intitulado <italic>A contribui&#x00E7;&#x00E3;o dos estudos cr&#x00ED;ticos da branquitude para compreens&#x00E3;o do pre-conceito racial na psicologia social</italic> Felipe Nogueira Carvalho e Lia Vainer Schucman apresentam uma an&#x00E1;lise relevante para o debate acerca da branquitude das principais abordagens da psicologia social norte-americana sobre a quest&#x00E3;o e apontam que os estudos cr&#x00ED;ticos sobre branquitude oscilam entre perspectivas ora mais focadas no individuo, ora na estrutura. Apontam os limites e sugerem uma s&#x00ED;ntese pr&#x00F3;pria a partir dessas perspectivas.</p>
<p>No artigo seguinte, intitulado <italic>La articulaci&#x00F3;n del racismo y la homofobia en los valores de la poblaci&#x00F3;n europea</italic> Leon Freude e N&#x00FA;ria Verg&#x00E9;s apresentam uma an&#x00E1;lise da rela&#x00E7;&#x00E3;o entre racismo e homofobia e utiliza dois conceitos centrais para tanto: s&#x00ED;ndrome de inimizade grupal e homonacionalismo. Analisa os dados do European Values Study de 2017 em 4 pa&#x00ED;ses europeus e observa poucos elementos e articula&#x00E7;&#x00F5;es que apontem para uma sociedade inclusiva.</p>
<p>Em <italic>Umbrales del &#x201C;no-ser&#x201D;: figuraciones fanonianas sobre la sociogenia y el &#x201C;doble narcisismo&#x201D; del cuerpo epidermizado,</italic> Carlos Aguirre prop&#x00F5;e uma an&#x00E1;lise da no&#x00E7;&#x00E3;o de zona do n&#x00E3;o-ser desenvolvida por Franz Fanon na obra Pele Negra, M&#x00E1;scaras Brancas. Discute a rela&#x00E7;&#x00E3;o entre corpo racializado e exist&#x00EA;ncia e aponta o potencial descolonial da experi&#x00EA;ncia do n&#x00E3;o-ser.</p>
<p>Por fim, Leon Freude apresenta a recens&#x00E3;o do livro <italic>Out o Time. The Queer Politics of Postcoloniality</italic> de Rahul Rao impresso pela Oxford Press no ano de 2020.</p>
<p>Esperamos que as produ&#x00E7;&#x00F5;es reunidas nesses dois n&#x00FA;meros possam proporcionar leituras que contribuam para uma compreens&#x00E3;o e debate cr&#x00ED;ticos acerca dos diversos elementos e processos que envolvem as quest&#x00F5;es raciais. Que contribuam tamb&#x00E9;m para interpelar a pr&#x00F3;pria Psicologia que ao longo da hist&#x00F3;ria contribuiu para a reprodu&#x00E7;&#x00E3;o do racismo, articulado com outras opress&#x00F5;es e viol&#x00EA;ncias. Esperamos, sobretudo, que a dimens&#x00E3;o inventiva que o enfrentamento ao racismo exige, em termos epistemol&#x00F3;gicos, te&#x00F3;ricos, metodol&#x00F3;gicos e pol&#x00ED;ticos possa ser instigada junto aos/&#x00E0;s leitores/as.</p>
<p>Agradecemos aos/&#x00E0;s autores por compartilharem suas produ&#x00E7;&#x00F5;es, aos avaliadores/as que colaboraram com o necess&#x00E1;rio e desej&#x00E1;vel di&#x00E1;logo cient&#x00ED;fico e especialmente &#x00E0; equipe editorial da Quaderns de Psicologia por acolher a proposta desse dossi&#x00EA; tem&#x00E1;tico.</p>
<p>Desejamos a todos/as uma &#x00F3;tima leitura!</p>
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<title>R<sc>efer&#x00EA;ncias</sc></title>
<ref id="ref-1-1932"><element-citation publication-type="book"><person-group person-group-type="author"><name><surname>Carneiro</surname> <given-names>Sueli</given-names></name></person-group> <year>2011</year> <source><italic>Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil</italic></source> <publisher-name>Selo Negro</publisher-name></element-citation>
<mixed-citation>Carneiro, Sueli (2011). <italic>Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil</italic>. Selo Negro.</mixed-citation></ref>
<ref id="ref-2-1932"><element-citation publication-type="thesis"><person-group person-group-type="author"><name><surname>Mayorga</surname> <given-names>Claudia</given-names></name></person-group> <year>2007</year> <source><italic>Otras identidades: Mujeres, Inmigraci&#x00F3;n y Prostituci&#x00F3;n</italic></source> <comment>Tesis Doctoral in&#x00E9;dita</comment> <publisher-name>Universidad Complutense de Madrid</publisher-name></element-citation>
<mixed-citation>Mayorga, Claudia (2007). <italic>Otras identidades: Mujeres, Inmigraci&#x00F3;n y Prostituci&#x00F3;n.</italic> (Tesis Doctoral in&#x00E9;dita). Universidad Complutense de Madrid.</mixed-citation></ref>
<ref id="ref-3-1932"><element-citation publication-type="journal"><person-group person-group-type="author"><name><surname>Pav&#x00F3;n-Cuellar</surname> <given-names>David</given-names></name></person-group> <year>2021</year> <article-title>Hacia una descolonizaci&#x00F3;n de la Psicolog&#x00ED;a Latinoamericana: condici&#x00F3;n poscolonial, giro decolonial y lucha anticolonial</article-title> <source><italic>Cadernos Prolam/USP &#x2013; Brazilian Journal of Ltin Amrican Studies</italic></source> <volume>20</volume><issue>39</issue> <fpage>95</fpage><lpage>127</lpage> <pub-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.1676-6288.prolam.2021.182217</pub-id></element-citation>
<mixed-citation>Pav&#x00F3;n-Cuellar, David (2021). Hacia una descolonizaci&#x00F3;n de la Psicolog&#x00ED;a Latinoamericana: condici&#x00F3;n poscolonial, giro decolonial y lucha anticolonial. <italic>Cadernos Prolam/USP &#x2013; Brazilian Journal of Ltin Amrican Studies</italic>, <italic>20</italic>(39), 95-127. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://dx.doi.org/10.11606/issn.1676-6288.prolam.2021.182217">http://dx.doi.org/10.11606/issn.1676-6288.prolam.2021.182217</ext-link></mixed-citation></ref>
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