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<journal-title>Quaderns de Psicologia</journal-title>
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<issn pub-type="ppub">0211-3481</issn>
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<publisher-name>Universitat Aut&#x00F2;noma de Barcelona</publisher-name>
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<article-id pub-id-type="publisher-id">QPs.1760</article-id>
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<subject>Se&#x00E7;&#x00E3;o tem&#x00E1;tica</subject>
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<article-title>A contribui&#x00E7;&#x00E3;o dos estudos cr&#x00ED;ticos da branquitude para compreens&#x00E3;o do preconceito racial na psicologia social</article-title>
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<trans-title xml:lang="en">The contribution of critical whiteness studies to the understanding of racial prejudice in social psychology</trans-title>
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<contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0002-0584-3424</contrib-id>
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<surname>Carvalho</surname>
<given-names>Felipe N.</given-names>
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<bio><p>Pesquisador de p&#x00F3;s-doutorado em filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Possui mestrado e doutorado em filosofia pela &#x00C9;cole des Hautes &#x00C9;tudes en Sciences Sociales de Paris. Seu trabalho diz respeito &#x00E0; filosofia das emo&#x00E7;&#x00F5;es e aos aspectos afetivos e fenomenol&#x00F3;gicos do racismo e do antirracismo.</p></bio>
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<email>felipencarvalho@ufmg.br</email>
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<contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0001-7659-4632</contrib-id>
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<surname>Vainer Schucman</surname>
<given-names>Lia</given-names>
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<bio><p>Professora adjunta da Universidade Federal de Santa Catarina. Possui gradua&#x00E7;&#x00E3;o e mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina e doutorado em Psicologia Social pela Universidade de S&#x00E3;o Paulo. Atua principalmente nos seguintes temas: racismo, psicologia social, branquitude, rela&#x00E7;&#x00F5;es raciais e movimentos sociais.</p></bio>
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<email>liavainers@gmail.com</email>
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<copyright-statement>&#x00A9; 2022 Els autors / The authors</copyright-statement>
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<license-p>Aquesta obra est&#x00E0; sota una llic&#x00E8;ncia internacional Creative Commons Reconeixement 4.0. CC BY</license-p>
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<abstract>
<title>Resumo</title>
<p>Este artigo tem como objetivo apresentar as principais abordagens em que a psicologia social cl&#x00E1;ssica norte-americana teorizou sobre o preconceito racial, o racismo e o antirracismo e, a partir delas, trazer os estudos cr&#x00ED;ticos da branquitude como possibilidades para superar os limites identificados nessa corrente, que ora apresenta um indiv&#x00ED;duo fora da estrutura, ora a estrutura sem indiv&#x00ED;duos. Para isto, neste artigo definimos tr&#x00EA;s abordagens propostas pela psicologia social norte-americana: teste de associa&#x00E7;&#x00E3;o impl&#x00ED;cita; teoria do contato intergrupal e racismo aversivo; e emo&#x00E7;&#x00F5;es espec&#x00ED;ficas. A partir da&#x00ED; mostramos como os estudos cr&#x00ED;ticos da branquitude se apresentam como uma s&#x00ED;ntese entre essas duas posi&#x00E7;&#x00F5;es opostas, que oscilam entre o indiv&#x00ED;duo e a estrutura. Nesta perspectiva, a estrutura se manifesta na pr&#x00F3;pria experi&#x00EA;ncia subjetiva do indiv&#x00ED;duo, que se torna capaz de identific&#x00E1;-la em seu pr&#x00F3;prio campo experiencial.</p>
</abstract>
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<title>Abstract</title>
<p>The goal of this article is to present the main approaches through which classical North American social psychology has theorized about racial prejudice, racism and antiracism, and on that basis present critical whiteness studies as possibilities to overcome the limits identified within these approaches, which presents us either with individuals outside the structure, or with a structure with no individuals. For that purpose, in this article we identify three main approaches in North American social psychology: implicit association test; intergroup contact theory and aversive racism; and specific emotions. On that basis we show how critical whiteness studies may be presented as a synthesis between these two extremes, which oscillates between the individual and the structure. In this perspective, the structure is manifested in the individual&#x2019;s subjective experience in the world, and thus identifiable in one&#x2019;s own experiential field.</p>
</trans-abstract>
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<title>Palavras-chave:</title>
<kwd><bold>Psicologia Social</bold></kwd>
<kwd><bold>Racismo</bold></kwd>
<kwd><bold>Antirracismo</bold></kwd>
<kwd><bold>Estudos cr&#x00ED;ticos da branquitude</bold></kwd>
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<title>Keywords:</title>
<kwd><bold><italic>Social Psychology</italic></bold></kwd>
<kwd><bold><italic>Racism</italic></bold></kwd>
<kwd><bold><italic>Antiracism</italic></bold></kwd>
<kwd><bold><italic>Critical whiteness studies</italic></bold></kwd>
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<institution>Coordena&#x00E7;&#x00E3;o de Aperfei&#x00E7;oamento de Pessoal de N&#x00ED;vel Superior &#x2014; Brasil (CAPES)</institution>
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<funding-statement>O presente trabalho foi realizado com o apoio da Coordena&#x00E7;&#x00E3;o de Aperfei&#x00E7;oamento de Pessoal de N&#x00ED;vel Superior &#x2014; Brasil (CAPES) &#x2014; C&#x00F3;digo de Financiamento 001.</funding-statement>
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<sec id="sec-1-1760" sec-type="intro">
<title>I<sc>ntrodu&#x00E7;&#x00E3;o</sc></title>
<p>O racismo estrutural tem sido a principal resposta para justificar as desigualdades inquestion&#x00E1;veis entre brancos e negros nas sociedades banhadas pelo Atl&#x00E2;ntico. Aqui, entendemos esse fen&#x00F4;meno como a naturaliza&#x00E7;&#x00E3;o de pr&#x00E1;ticas econ&#x00F4;micas, culturais, institucionais e interpessoais que perpetuam desigualdades materiais e simb&#x00F3;licas entre diferentes grupos raciais. No Brasil, foi apenas no ano de 2020 que o termo se popularizou ganhando for&#x00E7;a e densidade em quase todos os campos das ci&#x00EA;ncias sociais e humanas, bem como no debate p&#x00FA;blico local. Dessa forma, a psicologia tamb&#x00E9;m foi chamada para responder sobre os efeitos psicossociais nas v&#x00ED;timas do racismo antinegro, bem como sobre os mecanismos que se perpetuam e proporcionam aos brancos lugares mais altos na estrutura social.</p>
<p>Diante de um fen&#x00F4;meno sist&#x00EA;mico com componentes hist&#x00F3;ricos, sociais, econ&#x00F4;micos, culturais e que tamb&#x00E9;m diz respeito aos comportamentos dos indiv&#x00ED;duos dentro de uma sociedade, coube, ent&#x00E3;o, &#x00E0; psicologia responder ao questionamento: qual o papel dos indiv&#x00ED;duos diante da estrutura? Ou seja: de que forma os indiv&#x00ED;duos se apropriam, agem, constroem e/ou podem desconstruir o racismo em seu cotidiano? Como afirma <xref ref-type="bibr" rid="ref-4-1760">S&#x00ED;lvio Almeida (2018)</xref>,</p>
<disp-quote>
<p>Pensar o racismo como parte da estrutura n&#x00E3;o retira a responsabilidade individual sobre a pr&#x00E1;tica de condutas racistas e n&#x00E3;o &#x00E9; um &#x00E1;libi para os racistas. Pelo contr&#x00E1;rio: entender que o racismo &#x00E9; estrutural, e n&#x00E3;o um ato isolado de um indiv&#x00ED;duo ou de um grupo, nos torna ainda mais respons&#x00E1;veis pelo combate ao racismo e aos racistas. (p. 46)</p>
</disp-quote>
<p>Essa l&#x00F3;gica se sustenta atrav&#x00E9;s da concep&#x00E7;&#x00E3;o de que n&#x00E3;o h&#x00E1; estrutura e tampouco institui&#x00E7;&#x00F5;es que funcionem sem os indiv&#x00ED;duos, portanto, para desmantelar o racismo &#x00E9; preciso que cada um de n&#x00F3;s se engaje na luta antirracista, ou, como afirma <xref ref-type="bibr" rid="ref-8-1760">Angela Davis (2017)</xref>, &#x201C;Numa sociedade racista, n&#x00E3;o basta n&#x00E3;o ser racista &#x00E9; preciso ser antirracista&#x201D;.</p>
<p>Posto isso, diante do desafio de compreender o racismo impl&#x00ED;cito (nomeado nas empresas como &#x201C;vieses inconscientes&#x201D;), muitas das teorias psicol&#x00F3;gicas constru&#x00ED;das pela psicologia social cl&#x00E1;ssica norte-americana come&#x00E7;am a ser usadas dentro de empresas, organiza&#x00E7;&#x00F5;es sociais, terceiro setor, escola, &#x00F3;rg&#x00E3;os governamentais, entre outros, com o intuito combater o racismo de nossa sociedade, de sensibilizar os brancos para que se engajem na luta antirracista.</p>
<p>Tendo em vista que essas teorias foram e s&#x00E3;o importantes na luta antirracista, este artigo tem como prop&#x00F3;sito apontar alguns limites dessas concep&#x00E7;&#x00F5;es e pensar como os estudos cr&#x00ED;ticos da branquitude podem contribuir para a compreens&#x00E3;o do racismo no campo da psicologia social. Para tanto, iremos primeiramente descrever como essas abordagens foram produzidas e quais s&#x00E3;o suas hip&#x00F3;teses centrais, para, posteriormente, a partir dos estudos cr&#x00ED;ticos sobre ra&#x00E7;a e branquitude, apontar alguns limites e possibilidades.</p>
</sec>
<sec id="sec-2-1760">
<title>A <sc>psicologia social norte</sc>-<sc>americana e os estudos sobre preconceito racial</sc></title>
<p>Sem d&#x00FA;vida devemos &#x00E0; psicologia social norte-americana das &#x00FA;ltimas d&#x00E9;cadas o grande esfor&#x00E7;o em compreender as diversas formas em que o preconceito racial se manifesta &#x201C;implicitamente&#x201D;, isto &#x00E9;, independente de cren&#x00E7;as explicitamente professadas e sem pressupor uma inten&#x00E7;&#x00E3;o discriminat&#x00F3;ria consciente. Talvez o fen&#x00F4;meno mais conhecido do preconceito impl&#x00ED;cito seja o &#x201C;Teste de Associa&#x00E7;&#x00E3;o Impl&#x00ED;cita&#x201D; (TAI) da Universidade de Harvard (<xref ref-type="bibr" rid="ref-5-1760">Banaji e Greenwald, 2013</xref>). O objetivo do TAI &#x00E9; mensurar quantitativamente o grau de atitude impl&#x00ED;cita em rela&#x00E7;&#x00E3;o a um determinado est&#x00ED;mulo, atrav&#x00E9;s do tempo de associa&#x00E7;&#x00E3;o entre diferentes representa&#x00E7;&#x00F5;es mentais. Em um teste t&#x00ED;pico de associa&#x00E7;&#x00E3;o racial impl&#x00ED;cita, &#x00E9; preciso pressionar uma tecla, o mais r&#x00E1;pido poss&#x00ED;vel, cada vez que se v&#x00EA; na tela um rosto negro ou uma palavra designando uma qualidade negativa, e pressionar uma outra tecla sempre que se v&#x00EA; um rosto branco ou uma palavra designando uma qualidade positiva. Depois, as regras se invertem, e deve-se pressionar uma tecla sempre que se v&#x00EA; um rosto negro ou uma qualidade positiva, e outra tecla quando se v&#x00EA; um rosto branco ou uma qualidade negativa. Os resultados mostram que a grande maioria das pessoas &#x00E9; mais r&#x00E1;pida em associar rostos negros a qualidades negativas e rostos brancos a qualidades positivas. Isso &#x00E9; explicado pelo fato de que temos associa&#x00E7;&#x00F5;es impl&#x00ED;citas que guiam nossos processos cognitivos de forma autom&#x00E1;tica, contribuindo para a manuten&#x00E7;&#x00E3;o de comportamentos discriminat&#x00F3;rios inconscientes.</p>
<p>Como os resultados do TAI supostamente capturam quantitativamente o grau de preconceito impl&#x00ED;cito de uma pessoa, as interven&#x00E7;&#x00F5;es antidiscriminat&#x00F3;rias dentro desse paradigma s&#x00E3;o mensuradas por sua capacidade de afetar positivamente os resultados do TAI: conseguir uma redu&#x00E7;&#x00E3;o do tempo de associa&#x00E7;&#x00E3;o entre um rosto negro e uma qualidade positiva, por exemplo, seria uma indica&#x00E7;&#x00E3;o confi&#x00E1;vel de uma interven&#x00E7;&#x00E3;o bem-sucedida. Um exemplo dessa estrat&#x00E9;gia pode ser encontrado em <xref ref-type="bibr" rid="ref-7-1760">Nilanjana Dasgupta e Anthony Greenwald (2001)</xref>, que mostraram que a exposi&#x00E7;&#x00E3;o pr&#x00E9;via a fotografias de personalidades negras admiradas como Martin Luther King ou Denzel Washington poderia alterar positivamente o tempo de rea&#x00E7;&#x00E3;o em um TAI racial. Com base nesses resultados, <xref ref-type="bibr" rid="ref-16-1760">Jerry Kang e Mahzarin Banaji (2006</xref>, p. 1108) sugeriram que uma forma efetiva de diminuir o preconceito impl&#x00ED;cito seria ent&#x00E3;o incentivar as pessoas a exibirem imagens decorativas de personalidades negras em suas casas e ambientes de trabalho.</p>
<p>H&#x00E1; tamb&#x00E9;m boas raz&#x00F5;es para supor que os resultados do TAI est&#x00E3;o relacionados com um comportamento aversivo em intera&#x00E7;&#x00F5;es interraciais (<xref ref-type="bibr" rid="ref-19-1760">McConnel e Leibold, 2001</xref>). Nesse estudo, os experimentadores filmaram intera&#x00E7;&#x00F5;es de estudantes brancos com entrevistadores brancos e negros, e capturaram uma s&#x00E9;rie de diferen&#x00E7;as comportamentais mais ou menos sutis entre os dois casos, manifestas em comportamentos e posturas tais como: (1) orienta&#x00E7;&#x00E3;o corporal em dire&#x00E7;&#x00E3;o ao entrevistador ou se afastando do entrevistador; (2) bra&#x00E7;os relaxados ou cruzados; (3) tempo de contato visual direto; (4) quantidade de sorrisos; (5) quantidade de erros gramaticais e hesita&#x00E7;&#x00F5;es verbais; (6) movimentos corporais inquietos; etc. Essas filmagens foram ent&#x00E3;o comparadas aos resultados do TAI dos estudantes e os pesquisadores encontraram uma correla&#x00E7;&#x00E3;o entre o grau de preconceito impl&#x00ED;cito obtido no TAI e a quantidade de comportamentos aversivos observada nos v&#x00ED;deos.</p>
<p>Uma forma de compreender esse resultado &#x00E9; atrav&#x00E9;s do conceito de &#x201C;racismo aversivo&#x201D; proposto pelos psic&#x00F3;logos norte-americanos <xref ref-type="bibr" rid="ref-11-1760">Samuel Gaertner e John Dovidio (1986)</xref>. Esse conceito foi cunhado para explicar porque brancos que dizem professar cren&#x00E7;as antirracistas ainda assim podem exibir comportamentos aversivos. A hip&#x00F3;tese de Gaertner e Dovidio &#x00E9; que esses comportamentos surgem quando h&#x00E1; um conflito entre cren&#x00E7;as igualit&#x00E1;rias e sentimentos negativos em rela&#x00E7;&#x00E3;o a pessoas negras, dando origem ao <italic>racismo aversivo</italic>. Segundo os autores, um dos maiores problemas do racismo aversivo &#x00E9; que ele leva a uma tend&#x00EA;ncia generalizada de evas&#x00E3;o de intera&#x00E7;&#x00F5;es interraciais (<xref ref-type="bibr" rid="ref-12-1760">Gaertner e Dovidio, 2005</xref>).</p>
<p>Essas observa&#x00E7;&#x00F5;es nos levam a uma outra teoria influente da psicologia social norte-americana, a &#x201C;hip&#x00F3;tese do contato&#x201D; originalmente desenvolvida por <xref ref-type="bibr" rid="ref-2-1760">Gordon Allport em 1954</xref>. Segundo Allport, um aumento da intera&#x00E7;&#x00E3;o entre grupos sociais sob certas condi&#x00E7;&#x00F5;es ideais (<italic>status</italic> similar, coopera&#x00E7;&#x00E3;o, interesses comuns, apoio institucional) seria capaz de diminuir o preconceito entre esses grupos. Essa hip&#x00F3;tese foi posteriormente desenvolvida por <xref ref-type="bibr" rid="ref-25-1760">Thomas Pettigrew (1997)</xref> como a &#x201C;teoria do contato intergrupal&#x201D;, que sugeriu, a partir de uma extensa e influente meta-an&#x00E1;lise de 713 amostras de 515 estudos, que o mero aumento da intera&#x00E7;&#x00E3;o intergrupal j&#x00E1; seria suficiente para diminuir o preconceito entre esses grupos, independente das condi&#x00E7;&#x00F5;es ideais impostas por Allport (<xref ref-type="bibr" rid="ref-26-1760">Pettigrew e Tropp, 2006</xref>). A hip&#x00F3;tese de Pettigrew &#x00E9; apoiada por estudos da psicologia cognitiva que mostraram que a mera exposi&#x00E7;&#x00E3;o repetida a um est&#x00ED;mulo &#x00E9; capaz de gerar uma prefer&#x00EA;ncia por esse est&#x00ED;mulo (<xref ref-type="bibr" rid="ref-33-1760">Zajonc, 1980</xref>). Aplicada aos estudos sobre preconceito racial, a ideia &#x00E9; que o aumento da intera&#x00E7;&#x00E3;o interracial geraria familiaridade, o que por sua vez poderia diminuir o preconceito. Como dizem os autores &#x0022;<italic>familiarity breeds liking</italic>&#x0022; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-26-1760">Pettigrew e Tropp, 2006</xref>, p. 766).</p>
<p>Ora, se isto &#x00E9; verdade, ent&#x00E3;o uma interven&#x00E7;&#x00E3;o poss&#x00ED;vel para se diminuir o racismo aversivo e aumentar a intera&#x00E7;&#x00E3;o interracial seria modificar os sentimentos e emo&#x00E7;&#x00F5;es respons&#x00E1;veis pelo conflito interno que leva ao racismo aversivo. Estudos mostraram que fomentar emo&#x00E7;&#x00F5;es e sentimentos positivos como a empatia e admira&#x00E7;&#x00E3;o em rela&#x00E7;&#x00E3;o a negros leva a uma maior disposi&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E0; intera&#x00E7;&#x00E3;o interracial (<xref ref-type="bibr" rid="ref-9-1760">Esses e Dovidio, 2002</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="ref-29-1760">Seger et al., 2017</xref>), o que, segundo Pettigrew, j&#x00E1; seria suficiente para uma diminui&#x00E7;&#x00E3;o do preconceito racial.</p>
<p>Essa abordagem afetiva da psicologia social norte-americana foi fundamental para estabelecer a import&#x00E2;ncia das emo&#x00E7;&#x00F5;es nas rela&#x00E7;&#x00F5;es interraciais, o que deu origem a uma frut&#x00ED;fera linha de pesquisa que investigou o papel de emo&#x00E7;&#x00F5;es espec&#x00ED;ficas que surgem na intera&#x00E7;&#x00E3;o interracial. Nessa abordagem, Colin Leach e colaboradores enfatizaram a import&#x00E2;ncia de emo&#x00E7;&#x00F5;es negativas como culpa, vergonha e indigna&#x00E7;&#x00E3;o moral, para al&#x00E9;m de emo&#x00E7;&#x00F5;es e sentimentos positivos enfatizados na linha de pesquisa anterior (<xref ref-type="bibr" rid="ref-18-1760">Leach et al., 2002</xref>). Segundo esses estudos, quando a intera&#x00E7;&#x00E3;o intergrupal &#x00E9; marcada por uma avalia&#x00E7;&#x00E3;o de que o outro grupo social sofreu uma injusti&#x00E7;a, a culpa pode levar ao apoio a pol&#x00ED;ticas compensat&#x00F3;rias, enquanto a indigna&#x00E7;&#x00E3;o moral leva a uma maior participa&#x00E7;&#x00E3;o em protestos e manifesta&#x00E7;&#x00F5;es a favor do grupo injusti&#x00E7;ado em quest&#x00E3;o. Dessa forma, uma interven&#x00E7;&#x00E3;o antirracista poss&#x00ED;vel seria induzir essas emo&#x00E7;&#x00F5;es ao chamar aten&#x00E7;&#x00E3;o para certos aspectos das situa&#x00E7;&#x00F5;es de injusti&#x00E7;as sofrida por negros (enfatizar o papel do grupo social do participante, por exemplo, pode levar &#x00E0; culpa, enquanto enfatizar o papel de outros agentes externos na injusti&#x00E7;a pode levar &#x00E0; indigna&#x00E7;&#x00E3;o moral). Para resumir, temos ent&#x00E3;o tr&#x00EA;s abordagens importantes da psicologia social norte-americana e tr&#x00EA;s sugest&#x00F5;es de interven&#x00E7;&#x00F5;es antirracistas associada a cada uma delas (<xref ref-type="table" rid="tabw-1-1760">tabela 1</xref>).</p>
<table-wrap id="tabw-1-1760">
<label>Tabela 1.</label>
<caption><title>Abordagens psicologia social norte-americana e interven&#x00E7;&#x00F5;es antirracistas</title></caption>
<table id="tab-1-1760" frame="hsides" border="1" rules="all">
<col width="30%"/>
<col width="70%"/>
<thead>
<tr>
<th valign="top" align="center"><p>Abordagem</p></th>
<th valign="top" align="center"><p>Proposta de interven&#x00E7;&#x00E3;o antirracista</p></th>
</tr>
</thead>
<tbody>
<tr>
<td valign="top" align="left"><p>Teste de associa&#x00E7;&#x00E3;o impl&#x00ED;cita (TAI) (<xref ref-type="bibr" rid="ref-5-1760">Banaji e Greenwald, 2013</xref>).</p></td>
<td valign="top" align="left"><p>Aumento da exposi&#x00E7;&#x00E3;o a imagens de personalidades negras admiradas (ou qualquer outra interven&#x00E7;&#x00E3;o que afete positivamente os resultados do TAI) (<xref ref-type="bibr" rid="ref-16-1760">Kang e Banaji, 2006</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="ref-7-1760">Dasgupta e Greenwald, 2001</xref>).</p></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" align="left"><p>Teoria do contato intergrupal e racismo aversivo (<xref ref-type="bibr" rid="ref-25-1760">Pettigrew 1997</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="ref-11-1760">Gaertner e Dovidio 1986</xref>).</p></td>
<td valign="top" align="left"><p>Fomentar sentimentos e emo&#x00E7;&#x00F5;es positivas que aumentem a disposi&#x00E7;&#x00E3;o ao contato interracial (<xref ref-type="bibr" rid="ref-9-1760">Esses e Dovidio, 2002</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="ref-29-1760">Seger et al., 2017</xref>).</p></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" align="left"><p>Emo&#x00E7;&#x00F5;es espec&#x00ED;ficas (<xref ref-type="bibr" rid="ref-18-1760">Leach et al., 2002</xref>).</p></td>
<td valign="top" align="left"><p>Induzir emo&#x00E7;&#x00F5;es negativas que podem levar a a&#x00E7;&#x00F5;es antirracistas espec&#x00ED;ficas (<xref ref-type="bibr" rid="ref-15-1760">Iyer et al., 2003</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="ref-18-1760">Leach et al., 2002</xref>).</p></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</table-wrap>
<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="ref-17-1760">Helmut Kr&#x00FC;ger (1986)</xref>, a psicologia social norte-americana tem como principais aspectos: 1) o individualismo; 2) o experimentalismo; 3) a microteoriza&#x00E7;&#x00E3;o; 4) o etnocentrismo &#x2014; generaliza&#x00E7;&#x00E3;o te&#x00F3;rica de experimentos norte-americanos para a aplica&#x00E7;&#x00E3;o em outras culturas &#x2014;; 5) o cognitivismo; e 6) o a-historicismo &#x2014; devido &#x00E0; busca de formula&#x00E7;&#x00E3;o te&#x00F3;rica de leis generaliz&#x00E1;veis para o comportamento do indiv&#x00ED;duo em sociedade, em que se essencializa o indiv&#x00ED;duo e sua rela&#x00E7;&#x00E3;o com a sociedade retirando seu componente hist&#x00F3;rico criador (<xref ref-type="bibr" rid="ref-3-1760">Almeida, 2012</xref>). Dessa forma, n&#x00E3;o foi diferente a forma como psicologia social norte-americana teorizou o racismo. Exatamente por isso, trazemos aqui os estudos cr&#x00ED;ticos da branquitude como o contraponto para compreender o racismo tamb&#x00E9;m a partir dos interesses econ&#x00F4;micos, hist&#x00F3;ricos e sociais e sua legitima&#x00E7;&#x00E3;o pelos sujeitos.</p>
</sec>
<sec id="sec-3-1760">
<title>O<sc>s estudos cr&#x00ED;ticos da branquitude e sua contribui&#x00E7;&#x00E3;o para o campo da psico</sc>-<sc>logia social</sc></title>
<p>O olhar cr&#x00ED;tico sobre a branquitude tem sua maior d&#x00ED;vida intelectual com o trabalho de W.E.B. Du Bois (1935). O autor apresenta uma din&#x00E2;mica que entrela&#x00E7;a as categorias de ra&#x00E7;a, classe e <italic>status</italic>, demonstrando que a aceita&#x00E7;&#x00E3;o do racismo e filia&#x00E7;&#x00E3;o na categoria racial &#x201C;branca&#x201D; pela classe trabalhadora de imigrantes do leste e sul da Europa, que ao chegarem nos EUA n&#x00E3;o eram considerados totalmente brancos, foi uma forma de se apropriar de benef&#x00ED;cios da classe dominante e se diferenciar dos ex-escravizados rec&#x00E9;m libertos. Du Bois nomeou esse lugar de prestigio da brancura de &#x201C;sal&#x00E1;rio p&#x00FA;blico e psicol&#x00F3;gico&#x201D;, que resultavam em acesso a bens materiais e simb&#x00F3;licos dos quais os negros n&#x00E3;o podiam compartilhar. Ou seja, os brancos trabalhadores, ao aceitarem a ra&#x00E7;a como um divisor dessa classe, aproximavam-se dos brancos de todas as outras classes sociais, dividindo com eles os mesmos acessos a lugares p&#x00FA;blicos, o mesmo direito a voto e, portanto, o <italic>status</italic> dado &#x00E0; branquitude.</p>
<p>No n&#x00ED;vel material, os trabalhadores brancos podiam monopolizar recursos econ&#x00F4;micos, sociais e estatais. No n&#x00ED;vel psicol&#x00F3;gico, todos os trabalhadores brancos, particularmente os brancos trabalhadores nas margens econ&#x00F4;micas ou sociais, foram fornecidos com um &#x201C;sal&#x00E1;rio&#x201D; inesgot&#x00E1;vel na forma de <italic>status</italic> social, capital simb&#x00F3;lico e distin&#x00E7;&#x00E3;o dos negros que a ado&#x00E7;&#x00E3;o da supremacia branca proporcionou. Assim, ao adotarem as cren&#x00E7;as e pr&#x00E1;ticas racistas do grupo dominante, os trabalhadores do sul e do leste da Europa foram capazes de se livrar do estigma de ocupar uma identidade racial mediana entre brancos e negros. As recompensas materiais da brancura foram substanciais para trabalhadores imigrantes e a ades&#x00E3;o da branquitude concedeu aos trabalhadores pobres uma mobilidade social na estrutura de classes que garantiu para as pr&#x00F3;ximas gera&#x00E7;&#x00F5;es a &#x201C;entrada&#x201D; no grupo de brancos e, ent&#x00E3;o, a capacidade de acumular e transferir riquezas</p>
<p>Dessa forma, a ideia de que a branquitude &#x00E9; um lugar de valor e uma posi&#x00E7;&#x00E3;o cuja ocupa&#x00E7;&#x00E3;o oferece aos sujeitos o recebimento e a distribui&#x00E7;&#x00E3;o de benef&#x00ED;cios simb&#x00F3;licos e materiais apenas por pertencerem a esse grupo social foi constru&#x00ED;da por Du Bois e permanece at&#x00E9; hoje como o maior legado para o que, na d&#x00E9;cada de 90 do s&#x00E9;culo passado, foi nomeado como &#x201C;estudos cr&#x00ED;ticos sobre a branquitude&#x201D; (<italic>critical whiteness studies</italic>). Isso significa que ser branco produz cotidianamente situa&#x00E7;&#x00F5;es de vantagem em rela&#x00E7;&#x00E3;o aos n&#x00E3;o brancos. Diferentes pesquisas demonstram que h&#x00E1; para os brancos mais facilidades no acesso &#x00E0; habita&#x00E7;&#x00E3;o, &#x00E0; hipoteca, &#x00E0; educa&#x00E7;&#x00E3;o, &#x00E0; oportunidade de emprego e &#x00E0; transfer&#x00EA;ncia de riqueza herdada entre as gera&#x00E7;&#x00F5;es. No Brasil, tais dados s&#x00E3;o evidentes em diferentes pesquisas de cunho quantitativo e qualitativo (<xref ref-type="bibr" rid="ref-13-1760">Hasenbalg, 1979</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="ref-23-1760">Munanga, 1996</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="ref-27-1760">Schucman, 2012</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="ref-4-1760">Almeida, 2018</xref>). A literatura dos estudos raciais demonstra a presen&#x00E7;a e a persist&#x00EA;ncia das desigualdades raciais e da situa&#x00E7;&#x00E3;o subalterna dos n&#x00E3;o brancos em rela&#x00E7;&#x00E3;o aos brancos na sociedade brasileira e um olhar focado nos brancos demonstra as vantagens que adquirem no que diz respeito ao acesso &#x00E0; educa&#x00E7;&#x00E3;o, &#x00E0; sa&#x00FA;de, ao emprego, &#x00E0; moradia e &#x00E0;s diferentes formas de bem-estar social.</p>
<p>Aqui cabe ressaltar que os privil&#x00E9;gios que os brancos recebem em rela&#x00E7;&#x00E3;o aos negros j&#x00E1; foram interpretados por diferentes discursos sociol&#x00F3;gicos como um fator relacionado apenas &#x00E0; condi&#x00E7;&#x00E3;o de classe em que os negros foram inseridos ap&#x00F3;s o regime escravagista, bem como &#x00E0; condi&#x00E7;&#x00E3;o de vida rural que os &#x00ED;ndios brasileiros t&#x00EA;m como modo de vida. Contudo, vale dizer que os estudos de desigualdades raciais iniciados nos anos 1970 por <xref ref-type="bibr" rid="ref-13-1760">Carlos Hasenbalg (1979)</xref> demonstram como o racismo no Brasil faz com que a estrutura de desigualdade racial permane&#x00E7;a. Para o autor, a maioria dos brancos tem vantagens tanto com a opress&#x00E3;o racial quanto com o racismo, pois s&#x00E3;o os mecanismos racistas que fazem com que a popula&#x00E7;&#x00E3;o branca tenha vantagem no preenchimento das posi&#x00E7;&#x00F5;es da estrutura de classes que comportam privil&#x00E9;gios materiais e simb&#x00F3;licos mais desejados. Al&#x00E9;m disso, para o autor os brancos t&#x00EA;m privil&#x00E9;gios menos concretos, mas que s&#x00E3;o fundamentais no que se refere ao sentimento e &#x00E0; constitui&#x00E7;&#x00E3;o da identidade dos indiv&#x00ED;duos, tais como honra, <italic>status</italic>, dignidade e direito &#x00E0; autodetermina&#x00E7;&#x00E3;o.</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="ref-20-1760">Peggy McIntosh (1988)</xref> argumenta que a ideia de privil&#x00E9;gio bem como as rela&#x00E7;&#x00F5;es de poder s&#x00E3;o essenciais para a compreens&#x00E3;o da branquitude, e que tais privil&#x00E9;gios n&#x00E3;o s&#x00E3;o percebidos pelos sujeitos que os obt&#x00EA;m, pois as sociedades ocidentais ainda s&#x00E3;o em sua maioria sociedades eurocentradas e, por isso, tendem a ser &#x201C;monoculturais&#x201D;; ou seja, a constitui&#x00E7;&#x00E3;o de uma determinada perspectiva sobre o mundo que se baseia centralmente nos padr&#x00F5;es culturais dos grupos dominantes, mantendo uma vis&#x00E3;o &#x00FA;nica sobre as formas de viver e ser no mundo que n&#x00E3;o permite que os sujeitos consigam perceber sua singularidade e seu pr&#x00F3;prio fechamento. &#x201C;O monoculturalismo, como toda forma de &#x2018;sistema&#x00FA;nico de vis&#x00E3;o&#x2019;, &#x00E9; cego &#x00E0; sua pr&#x00F3;pria especificidade cultural. Ele n&#x00E3;o consegue perceber a si mesmo. Ele confunde seus particularismos com neutralidade&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-21-1760">McIntosh, 1990</xref>, p. 1).</p>
<p>Desse modo, uma das perguntas a serem feitas aqui &#x00E9; de que forma e como os sujeitos brancos agem para que esses privil&#x00E9;gios sejam mantidos e perpetuados. Ou o que faz com que grande parcela da sociedade tenha estes privil&#x00E9;gios e n&#x00E3;o os perceba. <xref ref-type="bibr" rid="ref-6-1760">Maria Aparecida Bento (2002)</xref> argumenta que os brancos em nossa sociedade agem por um mecanismo que ela denomina de pactos narc&#x00ED;sicos, ou alian&#x00E7;as inconscientes, intergrupais, caracterizadas pela ambiguidade e, no tocante ao racismo, pela nega&#x00E7;&#x00E3;o do problema racial, pelo silenciamento, pela interdi&#x00E7;&#x00E3;o de negros em espa&#x00E7;o de poder, pelo permanente esfor&#x00E7;o de exclus&#x00E3;o moral, afetiva, econ&#x00F4;mica e pol&#x00ED;tica do negro no universo social. Assim, a branquitude &#x00E9; &#x201C;um lugar de privil&#x00E9;gio racial, econ&#x00F4;mico e pol&#x00ED;tico, no qual a racialidade, n&#x00E3;o nomeada como tal, carregada de valores, de experi&#x00EA;ncias, de identifica&#x00E7;&#x00F5;es afetivas, acaba por definir a sociedade&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-6-1760">Bento, 2002</xref>, p. 5.)</p>
<p>No entanto, os estudos cr&#x00ED;ticos da branquitude n&#x00E3;o se limitam a pensar a estrutura do sistema que confere vantagens sistem&#x00E1;ticas aos brancos enquanto grupo social, mas se prop&#x00F5;em a pensar tamb&#x00E9;m o papel do indiv&#x00ED;duo dentro dessa estrutura e como tal estrutura determina sua experi&#x00EA;ncia concreta e vivida no mundo. Em particular, a literatura filos&#x00F3;fica da fenomenologia da branquitude tem se mostrado frut&#x00ED;fera na an&#x00E1;lise e compreens&#x00E3;o da experi&#x00EA;ncia subjetiva da branquitude como uma orienta&#x00E7;&#x00E3;o corporal pr&#x00E9;-reflexiva, que estrutura a percep&#x00E7;&#x00E3;o do ambiente com um campo de &#x201C;<italic>affordances</italic>&#x201D;, ou oportunidades de a&#x00E7;&#x00E3;o, pelo qual os sujeitos brancos movem e interagem. Segundo a fil&#x00F3;sofa <xref ref-type="bibr" rid="ref-1-1760">Sarah Ahmed (2007</xref>, p. 154), &#x201C;a branquitude &#x00E9; uma orienta&#x00E7;&#x00E3;o que coloca certas coisas ao nosso alcance&#x201D;, como objetos materiais, capacidades, aspira&#x00E7;&#x00F5;es, t&#x00E9;cnicas e h&#x00E1;bitos. Nessa an&#x00E1;lise, a branquitude &#x00E9; compreendida fenomenologicamente como aquilo que faz com que certas coisas apare&#x00E7;am na experi&#x00EA;ncia como dispon&#x00ED;veis para serem manuseadas e certos caminhos abertos para serem explorados. Essa estrutura experiencial, para Ahmed, &#x00E9; <italic>herdada</italic> de pessoas brancas e institui&#x00E7;&#x00F5;es que colaboram diretamente para que esses sujeitos brancos tenham de fato a mobilidade e agentividade manifestas em suas experi&#x00EA;ncias do mundo, e passa a ser transmitida para outras pessoas brancas a partir do momento em que o espa&#x00E7;o de a&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; tomado como um espa&#x00E7;o neutro e n&#x00E3;o como um espa&#x00E7;o <italic>branco</italic> do ponto de vista fenomenol&#x00F3;gico. A estrutura da experi&#x00EA;ncia da branquitude &#x00E9; radicalmente diferente da estrutura da experi&#x00EA;ncia do outro racializado no mundo, em que o espa&#x00E7;o &#x00E9; dado na experi&#x00EA;ncia como um espa&#x00E7;o de restri&#x00E7;&#x00E3;o e bloqueio e n&#x00E3;o de oportunidades de a&#x00E7;&#x00E3;o e movimento.</p>
<p>Em suma, os estudos cr&#x00ED;ticos da branquitude constituem um campo de estudos capaz de pensar ao mesmo tempo a estrutura do racismo e o papel do indiv&#x00ED;duo dentro dessa estrutura. Como tal, esses estudos t&#x00EA;m o potencial de superar a crise da psicologia social norte-americana que, como argumentamos a seguir, flutua entre dois extremos: por um lado, lan&#x00E7;a um olhar sobre o indiv&#x00ED;duo abstra&#x00ED;do do lugar que ocupa dentro de uma estrutura de privil&#x00E9;gios e, por outro lado, foca em um sistema impessoal de privil&#x00E9;gios que n&#x00E3;o leva em conta o modo como esse sistema &#x00E9; mantido e perpetuado por certos indiv&#x00ED;duos que se beneficiam com ele. Nossa proposta neste artigo &#x00E9; que os estudos cr&#x00ED;ticos da branquitude se apresentam como uma s&#x00ED;ntese dessas duas posi&#x00E7;&#x00F5;es, em que a estrutura se manifesta na pr&#x00F3;pria experi&#x00EA;ncia subjetiva do indiv&#x00ED;duo, que pode ser percebida como tal atrav&#x00E9;s de um processo de &#x201C;de-sutura&#x00E7;&#x00E3;o&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-31-1760">Yancy, 2015</xref>).</p>
<p>Iremos a seguir analisar criticamente as tr&#x00EA;s abordagens da psicologia social norte-americana vistas anteriormente, e ap&#x00F3;s levantar alguns problemas dessas abordagens, iremos mostrar, na &#x00FA;ltima se&#x00E7;&#x00E3;o, como os estudos cr&#x00ED;ticos da branquitude e sua an&#x00E1;lise fenomenol&#x00F3;gica podem nos ajudar a super&#x00E1;-los.</p>
<p>Comecemos ent&#x00E3;o com a teoria do contato intergrupal e o racismo aversivo, que supostamente seria um obst&#x00E1;culo a uma maior intera&#x00E7;&#x00E3;o interracial. Essa teoria pressup&#x00F5;e que o preconceito racial acabaria ou diminuiria caso existissem rela&#x00E7;&#x00F5;es mais pr&#x00F3;ximas entre brancos e negros, pois isso geraria maior familiaridade entre esses dois grupos e, consequentemente, sentimentos positivos de respeito, admira&#x00E7;&#x00E3;o, coopera&#x00E7;&#x00E3;o etc. Nesse ponto, tanto o trabalho de <xref ref-type="bibr" rid="ref-30-1760">Neusa Santos Souza (1983)</xref> quanto de Elizabeth Hordge-Freeman (2018) e de <xref ref-type="bibr" rid="ref-28-1760">Lia Vainer Schucman (2018)</xref>, ao pesquisarem racismo em rela&#x00E7;&#x00F5;es familiares, apontam que mesmo nas rela&#x00E7;&#x00F5;es mais &#x00ED;ntimas e pr&#x00F3;ximas como casais, m&#x00E3;es e filhos e parentes pr&#x00F3;ximos brancos e negros adquirem posi&#x00E7;&#x00F5;es desiguais nas din&#x00E2;micas familiares, mostrando que a proximidade n&#x00E3;o impede rela&#x00E7;&#x00F5;es de poder hier&#x00E1;rquicas e que mesmo no conv&#x00ED;vio di&#x00E1;rio com a diferen&#x00E7;a &#x00E9; poss&#x00ED;vel negar a alteridade com mecanismos bastante cru&#x00E9;is e muitas vezes vindos daqueles em que o v&#x00ED;nculo &#x00E9; afetivo. Ou seja, mesmo quando se diminui a ansiedade da intera&#x00E7;&#x00E3;o e consequentemente o racismo aversivo &#x2014; e se promove uma intera&#x00E7;&#x00E3;o interracial t&#x00E3;o &#x00ED;ntima como um n&#x00FA;cleo familiar &#x2014; isso n&#x00E3;o impede que essa intera&#x00E7;&#x00E3;o seja estruturada por rela&#x00E7;&#x00F5;es de poder.</p>
<p>Observa&#x00E7;&#x00F5;es similares podem ser feitas em rela&#x00E7;&#x00E3;o ao paradigma do teste de associa&#x00E7;&#x00E3;o impl&#x00ED;cita (TAI) de Harvard. <xref ref-type="bibr" rid="ref-16-1760">Jerry Kang e Mahzarin Banaji (2006)</xref> afirmam que os efeitos delet&#x00E9;rios do racismo no acesso da popula&#x00E7;&#x00E3;o negra &#x00E0; educa&#x00E7;&#x00E3;o e ao mercado de trabalho, entre outras coisas, chegariam ao fim a partir do momento em que tiv&#x00E9;ssemos resultados similares em rela&#x00E7;&#x00E3;o a brancos e negros em um TAI racial. &#x00C9; exatamente por isso que esses autores prop&#x00F5;em que pol&#x00ED;ticas de a&#x00E7;&#x00E3;o afirmativa s&#x00F3; fazem sentido enquanto houver discrep&#x00E2;ncia nos tempos de rea&#x00E7;&#x00E3;o do TAI em rela&#x00E7;&#x00E3;o a brancos e negros (<xref ref-type="bibr" rid="ref-16-1760">Kang e Banaji, 2006</xref>, p. 1067). Uma vez que tal diferen&#x00E7;a fosse eliminada, isso significaria que um empregador, por exemplo, n&#x00E3;o teria mais vieses raciais inconscientes que pudesse prejudicar candidatos negros em uma entrevista de emprego, garantindo o acesso igualit&#x00E1;rio ao mercado de trabalho a ambos os grupos sociais.</p>
<p>Mas ser&#x00E1; que o problema do acesso &#x00E0; educa&#x00E7;&#x00E3;o e ao mercado de trabalho &#x00E9; apenas &#x2014; ou majoritariamente &#x2014; devido a vieses raciais inconscientes da parte dos empregadores? Parece evidente que n&#x00E3;o. Por mais que o empregador associe com a mesma facilidade qualidades positivas a brancos e negros, isso n&#x00E3;o altera o fato de que os empregadores com poder de tomada de decis&#x00E3;o em uma entrevista de emprego s&#x00E3;o em sua grande maioria brancos, e que candidatos negros chegam em baix&#x00ED;ssima propor&#x00E7;&#x00E3;o em rela&#x00E7;&#x00E3;o a candidatos brancos a entrevistas para cargos mais altos dentro de uma empresa. Em outras palavras, o paradigma do TAI torna invis&#x00ED;vel o lugar do empregador branco dentro de um sistema estruturalmente racista e seu papel na manuten&#x00E7;&#x00E3;o e distribui&#x00E7;&#x00E3;o de privil&#x00E9;gios para outras pessoas brancas, al&#x00E9;m de uma s&#x00E9;rie de quest&#x00F5;es econ&#x00F4;micas, sociais e estruturais que fazem com que, em primeiro lugar, os candidatos negros n&#x00E3;o cheguem a essa entrevista. Ou seja, o teste da associa&#x00E7;&#x00E3;o impl&#x00ED;cita ignora que o racismo n&#x00E3;o &#x00E9; apenas um processo cognitivo, mas sobretudo um princ&#x00ED;pio estruturante da estratifica&#x00E7;&#x00E3;o social e da organiza&#x00E7;&#x00E3;o da economia, da cultura e da pol&#x00ED;tica das na&#x00E7;&#x00F5;es modernas (<xref ref-type="bibr" rid="ref-4-1760">Almeida, 2018</xref>). Nessa rela&#x00E7;&#x00E3;o estrutural de poder, brancos com diferentes posi&#x00E7;&#x00F5;es identificat&#x00F3;rias com a branquitude obt&#x00EA;m vantagem para acessar oportunidades e, consequentemente, ocupam posi&#x00E7;&#x00F5;es centrais em nossa sociedade n&#x00E3;o apenas pela falta de significados positivos em rela&#x00E7;&#x00E3;o aos negros, mas porque essas posi&#x00E7;&#x00F5;es s&#x00E3;o galgadas e reproduzida por quest&#x00F5;es sociais e hist&#x00F3;ricas. E aqui caberia perguntar: em uma sociedade neoliberal em que a competi&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; alt&#x00ED;ssima e os lugares s&#x00E3;o escassos, os brancos estariam dispostos a deixarem seus postos para que indiv&#x00ED;duos de outros grupos raciais os ocupem?</p>
<p>Assim chegamos &#x00E0; terceira abordagem da psicologia social norte-americana ressaltada na primeira se&#x00E7;&#x00E3;o, que envolve uma an&#x00E1;lise de emo&#x00E7;&#x00F5;es espec&#x00ED;ficas que surgem da intera&#x00E7;&#x00E3;o interracial, como a culpa ou indigna&#x00E7;&#x00E3;o moral. Segundo a defini&#x00E7;&#x00E3;o que aparece em <xref ref-type="bibr" rid="ref-18-1760">Leach et al. (2002)</xref>, a culpa &#x00E9; uma emo&#x00E7;&#x00E3;o autocentrada (<italic>self-focused</italic>) que resulta do reconhecimento de uma rela&#x00E7;&#x00E3;o expropriativa imoral em que h&#x00E1; a avalia&#x00E7;&#x00E3;o de responsabilidade de si ou do pr&#x00F3;prio grupo social em rela&#x00E7;&#x00E3;o a uma injusti&#x00E7;a observada. Subjetivamente, a culpa &#x00E9; caracterizada como um sentimento desagrad&#x00E1;vel, o que leva o sujeito a tentar interromper o sentimento com maior brevidade poss&#x00ED;vel. Estudos mostram que essa interrup&#x00E7;&#x00E3;o tipicamente toma a forma de pedidos de desculpas ou apoio a a&#x00E7;&#x00F5;es compensat&#x00F3;rias como compensa&#x00E7;&#x00E3;o material (<xref ref-type="bibr" rid="ref-18-1760">Leach et al, 2002</xref>). Alguns exemplos dessas a&#x00E7;&#x00F5;es podem ser encontradas no pedido de desculpas do primeiro ministro Japon&#x00EA;s Junichiro Koizu &#x00E0; Cor&#x00E9;ia do Sul em 2001 pelos efeitos negativos da ocupa&#x00E7;&#x00E3;o japonesa naquele pa&#x00ED;s entre 1910 e 1945, ou na cria&#x00E7;&#x00E3;o do Comit&#x00EA; Sul-africano de Repara&#x00E7;&#x00E3;o e Reabilita&#x00E7;&#x00E3;o (<italic>Reparation and Rehabilitation Committee</italic>), com o prop&#x00F3;sito de gerenciar compensa&#x00E7;&#x00F5;es financeiras da parte do governo &#x00E0;s v&#x00ED;timas do <italic>apartheid</italic>.</p>
<p>&#x00C0; primeira vista, a culpa parece ser uma emo&#x00E7;&#x00E3;o importante na redu&#x00E7;&#x00E3;o dos efeitos delet&#x00E9;rios do racismo, ao confrontar o passado e promover a&#x00E7;&#x00F5;es compensat&#x00F3;rias que s&#x00E3;o de vital import&#x00E2;ncia em diversos casos. Mas justamente por isso os pr&#x00F3;prios autores apontam um limite para os efeitos motivacionais da culpa, que se restringe a pedidos de desculpas e compensa&#x00E7;&#x00E3;o material. Um estudo mostrou que induzir culpa nos participantes por a&#x00E7;&#x00F5;es espec&#x00ED;ficas de seu grupo social levou apenas ao apoio a pol&#x00ED;ticas compensat&#x00F3;rias e n&#x00E3;o ao apoio a outras pr&#x00E1;ticas institucionais de promo&#x00E7;&#x00E3;o da igualdade que iam al&#x00E9;m daquelas a&#x00E7;&#x00F5;es espec&#x00ED;ficas (<xref ref-type="bibr" rid="ref-15-1760">Iyer et al., 2003</xref>).</p>
<p>Al&#x00E9;m disso, os autores enfatizam que a estrutura avaliativa da culpa requer identifica&#x00E7;&#x00E3;o com a branquitude enquanto grupo social, mas como autoras como <xref ref-type="bibr" rid="ref-27-1760">Lia Vainer Schucman (2012)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="ref-10-1760">Ruth Frankenberg (1993)</xref> j&#x00E1; ressaltaram, isso n&#x00E3;o &#x00E9; algo que acontece com frequ&#x00EA;ncia. Os brancos tendem a se identificar com um sujeito neutro universal e, consequentemente, nem ao menos reconhecem a exist&#x00EA;ncia da branquitude enquanto grupo social. Isso faz com que, na maioria dos casos, o sujeito branco n&#x00E3;o se sinta respons&#x00E1;vel pelo racismo, o que leva a um tipo espec&#x00ED;fico de culpa conhecido como &#x201C;culpa existencial&#x201D;: uma culpa sem responsabilidade, decorrente do simples fato de se ter privil&#x00E9;gios. Um bom exemplo da culpa existencial pode ser visto em um estudo com mulheres brancas norte-americanas da classe alta (<xref ref-type="bibr" rid="ref-24-1760">Ostrander, 1984</xref>). A maioria dessas mulheres reconheciam seus privil&#x00E9;gios e admitiam sentir culpa, mas n&#x00E3;o se sentiam respons&#x00E1;veis por eles, preferindo descrev&#x00EA;-los como &#x201C;um acidente de nascimento&#x201D;. A &#x00FA;nica a&#x00E7;&#x00E3;o ligada &#x00E0; culpa existencial nesse estudo envolvia doa&#x00E7;&#x00F5;es para institui&#x00E7;&#x00F5;es de caridade e outros apoios individualizados a causas espec&#x00ED;ficas.</p>
<p>Talvez uma emo&#x00E7;&#x00E3;o mais eficaz nesse sentido seja a indigna&#x00E7;&#x00E3;o moral, que tamb&#x00E9;m aparece nos estudos de Colin Leach e colaboradores. De acordo com os autores, a indigna&#x00E7;&#x00E3;o moral decorre do reconhecimento de um privil&#x00E9;gio ileg&#x00ED;timo, mas, diferentemente da culpa, a responsabilidade &#x00E9; atribu&#x00ED;da a um agente externo, como governantes ou objetos mais abstratos como o &#x201C;sistema&#x201D;. A indigna&#x00E7;&#x00E3;o moral &#x00E9; tamb&#x00E9;m uma emo&#x00E7;&#x00E3;o altamente motivadora e est&#x00E1; diretamente relacionada &#x00E0; participa&#x00E7;&#x00E3;o em protestos e manifesta&#x00E7;&#x00F5;es, al&#x00E9;m de outras a&#x00E7;&#x00F5;es como peti&#x00E7;&#x00F5;es e press&#x00E3;o institucional (<xref ref-type="bibr" rid="ref-22-1760">Montada e Schneider, 1989</xref>). Justamente por sua forte caracter&#x00ED;stica motivacional, a indigna&#x00E7;&#x00E3;o moral &#x00E9; a emo&#x00E7;&#x00E3;o mais comumente reportada entre ativistas brancos antirracistas (<xref ref-type="bibr" rid="ref-22-1760">Montada e Schneider, 1989</xref>).</p>
<p>Mas, embora a indigna&#x00E7;&#x00E3;o moral seja de fato importante como emo&#x00E7;&#x00E3;o motivadora do ativismo pol&#x00ED;tico, algo essencial para os momentos em que o curso mais apropriado de a&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; sair &#x00E0;s ruas e exigir medidas mais dr&#x00E1;sticas e imediatas, h&#x00E1; um limite para essa emo&#x00E7;&#x00E3;o enquanto uma an&#x00E1;lise mais profunda do sistema de privil&#x00E9;gios em que pessoas brancas est&#x00E3;o imbricadas. O caminho para uma sociedade mais justa ser&#x00E1; alcan&#x00E7;ado n&#x00E3;o s&#x00F3; pela participa&#x00E7;&#x00E3;o em protestos caracter&#x00ED;stica da indigna&#x00E7;&#x00E3;o moral, mas por um confronto profundo e doloroso dos beneficiados por esse sistema com seus pr&#x00F3;prios privil&#x00E9;gios e com sua participa&#x00E7;&#x00E3;o e perpetua&#x00E7;&#x00E3;o desse sistema. Como diz a fil&#x00F3;sofa <xref ref-type="bibr" rid="ref-32-1760">Naomi Zack (2015)</xref>,</p>
<disp-quote>
<p>O privil&#x00E9;gio dos brancos &#x00E9; frequentemente discutido como se fosse um sistema impessoal e totalmente institucional de recompensas diretas para os brancos [...]. O resultado &#x00E9; que a localiza&#x00E7;&#x00E3;o do interlocutor branco no pr&#x00F3;prio sistema que ela deve reconhecer e criticar &#x00E9; negligenciada. [...] O que os interlocutores brancos no discurso do privil&#x00E9;gio branco muitas vezes falham em reconhecer &#x00E9; que, como pessoas brancas, eles pr&#x00F3;prios dispensam o que est&#x00E3;o identificando como &#x201C;privil&#x00E9;gios&#x201D;, para outras pessoas brancas. [...] O sistema de poder que apoia o privil&#x00E9;gio branco &#x00E9; em si o sistema de privil&#x00E9;gio branco. (pp. 19-20)</p>
</disp-quote>
<p>Ou seja, o ativista antirracista branco que n&#x00E3;o reconheceu sua branquitude &#x00E9; o pr&#x00F3;prio sistema contra o qual sua indigna&#x00E7;&#x00E3;o moral &#x00E9; dirigida, na medida em que n&#x00E3;o reconhece seu papel dentro desse sistema de receber, manter e distribuir esses privil&#x00E9;gios entre outras pessoas brancas. Para que a indigna&#x00E7;&#x00E3;o moral seja de fato uma emo&#x00E7;&#x00E3;o importante no combate ao racismo, &#x00E9; preciso se reconhecer como o interlocutor branco de que nos fala Naomi Zack.</p>
<p>Para concluir esta se&#x00E7;&#x00E3;o, identificamos aqui alguns limites importantes de algumas das principais an&#x00E1;lises do racismo advindas da psicologia social norte-americana. Ou foca-se excessivamente no indiv&#x00ED;duo e em seu sistema cognitivo e afetivo abstra&#x00ED;do das rela&#x00E7;&#x00F5;es de poder que estruturam o lugar desse indiv&#x00ED;duo em um sistema de desigualdades e privil&#x00E9;gios, ou foca-se em um sistema impessoal em que o indiv&#x00ED;duo n&#x00E3;o mais aparece como mantenedor e perpetuador desse sistema. Na pr&#x00F3;xima se&#x00E7;&#x00E3;o iremos mostrar como os estudos cr&#x00ED;ticos da branquitude e sua an&#x00E1;lise fenomenol&#x00F3;gica superam essa tens&#x00E3;o e apontam o caminho para que sujeitos brancos passem a enxergar a branquitude na pr&#x00F3;pria estrutura de sua experi&#x00EA;ncia no mundo, reconhecendo de que forma agem para manter e perpetuar o racismo.</p>
</sec>
<sec id="sec-4-1760">
<title>L<sc>imites e</sc> P<sc>ossibilidades das emo&#x00E7;&#x00F5;es na luta antirracista</sc>: <sc>o que podem os in</sc>-<sc>div&#x00ED;duos</sc>?</title>
<p>O grande desafio colocado neste texto &#x00E9; pensar quais emo&#x00E7;&#x00F5;es e a&#x00E7;&#x00F5;es pol&#x00ED;ticas e sociais os brancos precisam mobilizar para um real engajamento na luta antirracista. &#x00C9; poss&#x00ED;vel a&#x00E7;&#x00F5;es individuais produzirem fissuras e desmantelamento em uma estrutura de poder que produz sistematicamente vantagens para essa popula&#x00E7;&#x00E3;o?</p>
<p>Uma das caracter&#x00ED;sticas mais marcantes da branquitude &#x00E9; que, ao mesmo tempo em que &#x00E9; caracterizada como um lugar de privil&#x00E9;gio racial, social, econ&#x00F4;mico e pol&#x00ED;tico, do ponto de vista subjetivo ela n&#x00E3;o &#x00E9; experienciada como tal pelos sujeitos brancos, que experienciam o mundo, atrav&#x00E9;s de sua branquitude, como um mundo neutro e n&#x00E3;o-racializado. Como diz o fil&#x00F3;sofo <xref ref-type="bibr" rid="ref-31-1760">George Yancy (2015)</xref>:</p>
<disp-quote>
<p>A realidade social, psicol&#x00F3;gica e fenomenol&#x00F3;gica da ra&#x00E7;a para os brancos &#x00E9; constitu&#x00ED;da atrav&#x00E9;s da matriz intersubjetiva e interpessoal em termos da qual os brancos realizam um modo compartilhado de ser-racializado-no-mundo, uma forma de estar-no-mundo que &#x00E9; marcada como benigna e natural, mas &#x00E9; nefastamente opressora e astuciosamente enganadora. (p. xii)</p>
</disp-quote>
<p>Este modo de ser-racializado-no-mundo pode ser descrito, como sugere <xref ref-type="bibr" rid="ref-1-1760">Sarah Ahmed (2007)</xref>, como uma orienta&#x00E7;&#x00E3;o pr&#x00E9;-reflexiva em que certas coisas (objetos materiais, capacidades, aspira&#x00E7;&#x00F5;es, t&#x00E9;cnicas etc.) s&#x00E3;o percebidas como estando ao alcance. Atrav&#x00E9;s dessa orienta&#x00E7;&#x00E3;o os sujeitos brancos agem e se movem em um espa&#x00E7;o &#x2014; seja um restaurante, um shopping center, um banco, uma universidade ou uma confer&#x00EA;ncia acad&#x00EA;mica &#x2014; como se fosse um espa&#x00E7;o neutro, sem perceber que se trata na verdade de um espa&#x00E7;o branco e, consequentemente, racista ou antinegro. Afinal de contas, a confian&#x00E7;a atribu&#x00ED;da a um sujeito branco para exercer sua agentividade e liberdade nesse espa&#x00E7;o &#x00E9; fundamentada sobre a constru&#x00E7;&#x00E3;o de negros como pessoas moralmente suspeitas e a <italic>dist&#x00E2;ncia</italic> dos sujeitos brancos dessa imagem.</p>
<p>George Yancy chama o processo atrav&#x00E9;s do qual os brancos instalam formas de fechamento e prote&#x00E7;&#x00E3;o que os impedem de enxergar a pr&#x00F3;pria branquitude e perceber a viol&#x00EA;ncia e o racismo do espa&#x00E7;o que ocupam de <italic>sutura&#x00E7;&#x00E3;o</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="ref-31-1760">2015</xref>). A sutura&#x00E7;&#x00E3;o faz com que os brancos continuem a agir e se mover nesses espa&#x00E7;os como se fossem espa&#x00E7;os neutros, contribuindo diretamente para a manuten&#x00E7;&#x00E3;o desses espa&#x00E7;os como racistas e violentos.</p>
<p>Contudo acreditamos que &#x00E9; poss&#x00ED;vel algumas mudan&#x00E7;as. De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="ref-31-1760">Yancy (2015)</xref>, para que os brancos possam perceber a branquitude e reconhecer seu papel na manuten&#x00E7;&#x00E3;o do racismo e viol&#x00EA;ncia dos espa&#x00E7;os em que agem e se movimentam, &#x00E9; preciso que passem por um processo de <italic>de-sutura&#x00E7;&#x00E3;o</italic>, removendo as suturas que os impedem de enxergar a pr&#x00F3;pria branquitude tal como ela se manifesta em sua experi&#x00EA;ncia do mundo. A de-sutura&#x00E7;&#x00E3;o para Yancy &#x00E9; um processo n&#x00E3;o apenas cognitivo mas principalmente afetivo, que envolve a ado&#x00E7;&#x00E3;o de uma nova postura afetiva em rela&#x00E7;&#x00E3;o ao mundo que transforma o conforto da branquitude no desconforto do pr&#x00F3;prio racismo. De-suturar-se &#x00E9; estar disposto a viver com a &#x201C;ferida aberta&#x201D;, como diz <xref ref-type="bibr" rid="ref-31-1760">Yancy (2015</xref>, p. xvii), estando plenamente consciente de que cada a&#x00E7;&#x00E3;o realizada e cada oportunidade percebida no mundo n&#x00E3;o &#x00E9; uma a&#x00E7;&#x00E3;o ou percep&#x00E7;&#x00E3;o neutra, mas carrega consigo s&#x00E9;culos de viol&#x00EA;ncia e explora&#x00E7;&#x00E3;o racial, necess&#x00E1;rios para que brancos pudessem exercer sua agentividade desta forma.</p>
<p>Quando se fala no papel das emo&#x00E7;&#x00F5;es e sentimentos no racismo e antirracismo, portanto, a de-sutura&#x00E7;&#x00E3;o se apresenta como uma estrat&#x00E9;gia mais eficaz do que simplesmente promover empatia, admira&#x00E7;&#x00E3;o, culpa ou indigna&#x00E7;&#x00E3;o moral, justamente porque torna a branquitude e seus efeitos dolorosamente vis&#x00ED;veis, ao contr&#x00E1;rio das abordagens anteriores, que foram criticadas justamente por deixar a branquitude apenas impl&#x00ED;cita em suas an&#x00E1;lises e interven&#x00E7;&#x00F5;es. A desutura&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; descrita por Yancy como uma experi&#x00EA;ncia emocional de dor, desconforto e desorienta&#x00E7;&#x00E3;o, em que as a&#x00E7;&#x00F5;es e oportunidades n&#x00E3;o s&#x00E3;o mais percebidas como neutras, mas como profundamente racializadas, levando o sujeito branco a reconhecer sua pr&#x00F3;pria branquitude em suas a&#x00E7;&#x00F5;es e rela&#x00E7;&#x00F5;es.</p>
<p>No entanto, &#x00E9; importante frisar que a de-sutura&#x00E7;&#x00E3;o n&#x00E3;o leva o sujeito branco para um <italic>outro</italic> lugar al&#x00E9;m da branquitude. N&#x00E3;o h&#x00E1; um lugar de fora da branquitude de onde o sujeito branco possa olhar para ela e critic&#x00E1;-la. A de-sutura&#x00E7;&#x00E3;o, portanto, &#x00E9; um processo cont&#x00ED;nuo, que n&#x00E3;o se encerra ou transporta aos brancos para um lugar onde ela n&#x00E3;o seja mais necess&#x00E1;ria. De-suturar-se envolve aprender a <italic>permanecer</italic> com a dor e a desorienta&#x00E7;&#x00E3;o da verdade sobre a pr&#x00F3;pria branquitude, &#x00E9; uma posi&#x00E7;&#x00E3;o de observa&#x00E7;&#x00E3;o constante.</p>
<p>Mas embora estejamos aqui olhando para a experi&#x00EA;ncia subjetiva do indiv&#x00ED;duo, a de-sutura&#x00E7;&#x00E3;o n&#x00E3;o &#x00E9; um processo <italic>introspectivo</italic>, que pode ser realizado por um indiv&#x00ED;duo abstra&#x00ED;do de seu meio social. A sutura&#x00E7;&#x00E3;o &#x00E9; um processo relacional que se d&#x00E1; a partir das a&#x00E7;&#x00F5;es e rela&#x00E7;&#x00F5;es de um indiv&#x00ED;duo no mundo, em que o indiv&#x00ED;duo instaura formas de fechamento e prote&#x00E7;&#x00E3;o dentro dessas rela&#x00E7;&#x00F5;es para que n&#x00E3;o sinta ou perceba o modo como s&#x00E3;o racistas. Se de-suturar, portanto, tamb&#x00E9;m &#x00E9; um processo relacional, em que se deve olhar &#x201C;para a cultura e pr&#x00E1;ticas culturais, e aprender a ler os sinais que essas for&#x00E7;as externas deixaram em n&#x00F3;s&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="ref-31-1760">Yancy, 2015</xref>, p. xxv).</p>
<p>Ou seja, a partir dos estudos cr&#x00ED;ticos da branquitude e de sua an&#x00E1;lise fenomenol&#x00F3;gica, n&#x00E3;o focamos no indiv&#x00ED;duo abstra&#x00ED;do do lugar que ocupa em um sistema estruturalmente racista, nem tampouco no sistema abstra&#x00ED;do dos indiv&#x00ED;duos que a comp&#x00F5;em. Ao inv&#x00E9;s disso, foca-se no modo como a branquitude estrutura a experi&#x00EA;ncia de sujeitos brancos no mundo e perpetua a viol&#x00EA;ncia e o racismo dos espa&#x00E7;os em que esses sujeitos brancos agem e se movimentam, e aponta-se o caminho para que se possa perceber e se relacionar com a pr&#x00F3;pria branquitude de uma outra forma, atrav&#x00E9;s da de-sutura&#x00E7;&#x00E3;o e da desconstru&#x00E7;&#x00E3;o da estrutura da experi&#x00EA;ncia vivida no mundo. Neste sentido a de-sutura&#x00E7;&#x00E3;o se torna uma mudan&#x00E7;a na posi&#x00E7;&#x00E3;o do sujeito no mundo, o que incide necessariamente nas a&#x00E7;&#x00F5;es dos sujeitos, como uma pr&#x00E9;-condi&#x00E7;&#x00E3;o para que os sujeitos brancos possam agir a partir da compreens&#x00E3;o de suas localiza&#x00E7;&#x00F5;es na estrutura social.</p>
<p>Por fim, sabemos que h&#x00E1; limites no que a psicologia pode contribuir, portanto n&#x00E3;o temos aqui respostas totalizantes, e compreendemos que as rela&#x00E7;&#x00F5;es interpessoais s&#x00E3;o apenas um aspecto deste fen&#x00F4;meno multidimensional. E &#x00E9; dessa pequena parte da engrenagem do racismo que elaboramos algumas quest&#x00F5;es neste artigo. Desse modo, sabemos que para uma real transforma&#x00E7;&#x00E3;o no tecido social brasileiro &#x00E9; preciso que, para al&#x00E9;m dos indiv&#x00ED;duos brancos serem precursores de mudan&#x00E7;as em si mesmos e em seus lugares de poder e atua&#x00E7;&#x00E3;o, &#x00E9; tamb&#x00E9;m preciso um engajamento em uma luta para uma transforma&#x00E7;&#x00E3;o das rela&#x00E7;&#x00F5;es econ&#x00F4;micas e modos de produ&#x00E7;&#x00E3;o da vida. Nesse sentido &#x00E9; preciso ter em vista que apenas quando os bens materiais e simb&#x00F3;licos produzidos pelos homens e mulheres desta sociedade forem distribu&#x00ED;dos para todos os grupos raciais de forma igualit&#x00E1;ria a brancura da pele pode se tornar apenas uma caracter&#x00ED;stica fenot&#x00ED;pica e n&#x00E3;o um lugar de poder.</p>
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<p>F<sc>inanciamento</sc></p>
<p>O presente trabalho foi realizado com o apoio da Coordena&#x00E7;&#x00E3;o de Aperfei&#x00E7;oamento de Pessoal de N&#x00ED;vel Superior &#x2014; Brasil (CAPES) &#x2014; C&#x00F3;digo de Financiamento 001.</p>
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<title>R<sc>efer&#x00EA;ncias</sc></title>
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