Quaderns de Psicologia | 2022, Vol. 24, Nro. 1, e1732 | ISNN: 0211-3481 | 
https://doi.org/10.5565/rev/qpsicologia.1732

Cyrulnik and his pioneering role in the articulation between psychological resilience and psychoanalytic theory
Paula Adriene Duarte
Monah Winograd
Ney Klier
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
Resumo
Boris Cyrulnik exerce significativa influência no debate sobre as possíveis articulações entre o conceito de resiliência e a teoria psicanalítica, sobretudo, pós-freudiana. O pioneirismo de Cyrulnik é o objeto de nossa investigação, uma vez que serve como ponto de partida para o trabalho de outros profissionais que se debruçam na interlocução resiliência-psicanálise. Em sua extensa obra sobre o assunto, que se inicia nas searas da teoria do apego, o autor realça pontos chaves que sintetizam o seu percurso conceitual e as conexões potenciais de suas ideias com a psicanálise, em meio à abordagem multidisciplinar que lhe é tão cara. Revisamos tópicos férteis para o estabelecimento de conexões, tais como a relevância das interações precoces e as perspectivas de aprofundamento de seu conceito de nicho sensorial; assinalamos também vinculações que podem ser desenvolvidas a partir da abordagem que o autor empreende das respostas ao trauma psíquico e do desenvolvimento da confiança.
Palavras-chave: Resiliência psicológica; Psicanálise; Teoria do apego; Boris Cyrulnik
Abstract
Boris Cyrulnik has a significant influence on the debate about the possible links between the concept of resilience and psychoanalytic theory, especially post-Freudian. Cyrulnik's pioneering endeavor is the object of our investigation, since it serves as a starting point for the work of other professionals who focus on the resilience-psychoanalysis dialogue. In his extensive work on the subject, which begins in the fields of attachment theory, the author highlights key points that synthesize his conceptual path and the potential connections of his ideas with psychoanalysis, amid the multidisciplinary approach that is so dear to him. We review fertile topics for establishing connections, such as the relevance of the child's early interactions and the prospects for deepening his concept of sensory niche; we also point out links that can be developed from the author's approach to responses to psychic trauma and the development of reliance.
Keywords: Psychological resilience; Psychoanalysis; Attachment theory; Boris Cyrulnik
Sem dúvida, um dos precursores e principais responsáveis por incentivar a articulação do conceito de resiliência psicológica no panorama teórico da psicanálise atual foi o professor francês Boris Cyrulnik. Neuropsiquiatra, etólogo, psicanalista e chefe de ensino da “clínica do apego” na Universidade de Toulon, suas obras estão enraizadas no arcabouço bibliográfico da maior parte das publicações que buscam fazer a ponte entre resiliência e psicanálise, como também entre resiliência e outros campos do saber. Com efeito, isto ocorre por Cyrulnik ser um profícuo fomentador de diálogos multidisciplinares, tornandose, assim, um dos expoentes mundiais no que tange à teoria e clínica da resiliência.
Em 1999, com seu livro Un merveilleux malheur, o autor francês inicia uma série de publicações que se estende até os dias de hoje e nas quais o conceito de resiliência é o protagonista incontestável de seus estudos. Ao utilizar a teoria do apego como base para suas reflexões e hipóteses, aproximando-as de concepções freudianas como a de trauma, Cyrulnik trouxe essa discussão para as cercanias do ambiente psicanalítico, abrindo possibilidades instigantes de debate.
Notamos a sua postura multidisciplinar inclusive através da visão sistêmica que preconiza para a metodologia de pesquisa nos estudos sobre a resiliência. Apreende uma consideração atenta às descobertas da neurobiologia, por meio dos estudos epigenéticos que comprovam a importância dos ambientes que circundam a criança desde o útero. Àquelas acrescentam-se as influências moduladas pelas trocas emocionais entre mãe e criança, altamente definidas por fatores históricos e culturais. Diante disso, Cyrulnik (2012a) ressalta a imprescindibilidade da colaboração entre pesquisadores de diferentes disciplinas (neurologia, etologia, biologia, psicanálise, entre outras) coletando dados heterogêneos e descobrindo fatores que devem ser integrados em um único sistema — uma vez que cada campo do saber tem seus limites e não pode ser totalmente explicativo. Nas palavras do autor: “o homem pode moldar o ambiente que o molda: esta é sua principal liberdade” (Cyrulnik, 2014, p. 21, tradução nossa). E nesse sentido, como veremos, possivelmente o fator que interliga todas essas disciplinas residiria na ênfase dada por Cyrulnik ao ambiente, inclusive sob sua perspectiva biológica.
Tal ênfase, lembremos, não impede que Cyrulnik (2014) deixe de nos chamar à atenção especialmente para a psicanálise quando buscamos por um entendimento profundo das condições que viabilizam a resiliência. Afirma ser esta uma ferramenta privilegiada para a compreensão de como o mundo interior de um sujeito traumatizado veio a ser esfacelado, chegando ao ponto de jogá-lo ao desamparo e à dor psíquica para depois, a partir de um possível refinamento na vivência desse sofrimento pungente, vir a elaborá-lo e recomeçar a viver, quiçá mais plenamente. Ou seja, a psicanálise permite explorar a constituição dos recursos internos capazes de uma transformação e superação do trauma. Para tanto, faz-se necessária uma leitura pautada na pluralidade e no diálogo entre diferentes escolas e gerações psicanalíticas, alicerces da psicanálise exercida na contemporaneidade — desde sua perspectiva originária, escorada na metapsicologia freudiana, passando pela articulação inovadora de conceitos e abordagens de autores pós-freudianos, a partir da década de 1960 até os dias atuais (Green, 1990, 2002; Laplanche, 1989/2013; Urribarri, 2012).
Não obstante, vale lembrar que Cyrulnik (2014) mesmo com seus constantes enaltecimentos à resiliência, também pontua alguns pontos frágeis do conceito delineado em sua obra. Como toda empreitada interdisciplinar, há dificuldades inerentes ao convívio entre os diversos pressupostos epistemológicos e metodologias específicas das distintas áreas de conhecimento. Além disso, evidentemente, das simplificações conceituais que afetam as concepções quando bem penetradas na cultura e tendo sua divulgação pouco criteriosa, em especial no que diz respeito a conceitos como o de trauma e, certamente, o de resiliência. O uso pouco criterioso dessas noções pelo senso comum faz com que, nas palavras do autor, elas “corram o risco de serem diluídas” ao “sofrerem inchaços semânticos” (Cyrulnik, 2014, p. 193, tradução nossa). Neste ponto, segundo Cyrulnik, residiria uma das fragilidades do conceito de resiliência, encontrando ressonância na voz de outros autores, tal como Serge Tisseron (2006), cuja crítica ao conceito também é traçada por esse viés.
De modo majoritário, Cyrulnik (2004a) desenvolve seu raciocínio em torno de burilar a definição de resiliência e investigar as condições que a promoveriam – o que significa olhar não somente para os recursos pessoais do resiliente, mas igualmente para aqueles oferecidos pelas condições afetivas e socioculturais que o circundam. Em uma de suas definições mais famosas, utiliza-se da linguagem metafórica, dizendo ser a resiliência “a arte de navegar nas torrentes” (Cyrulnik, 2004a, p. 207). Construindo a imagem de uma pessoa que, ao sofrer um trauma, teria o curso de seu desenvolvimento forçado a um desvio repleto de adversidades, Cyrulnik pontua que, no caso do resiliente, a diferença residiria justamente na condição singular de retomar o seu rumo com confiança e alegria, mesmo enfrentando severas dificuldades. Para tal superação, contaria tanto com recursos internos forjados na primeira infância e impregnados na sua memória quanto com “uma mão estendida que lhe ofereça um recurso externo, uma relação afetiva, uma instituição social ou cultural” (Cyrulnik, 2004a, p. 207). É possível observar o peso dado pelo autor à condição do resiliente de aproveitar a oferta de ajuda externa. E até mesmo de que tais recursos internos estariam relacionados à construção de um temperamento particular, de comportamentos cativantes que atrairiam o que ele denomina de tutor de resiliência.
Juntamente à definição acima, Cyrulnik (2012b) escreve sobre a resiliência não ser uma vacina contra o sofrimento, uma imunidade mental que o indivíduo teria — desdobrando-se em uma espécie de invulnerabilidade —, assim como não está relacionada ao êxito social, a uma adaptação bem-sucedida. Em suas próprias palavras, “o sucesso social não é necessariamente prova de resiliência, pois pode ser, em termos psicanalíticos, um ganho secundário quando acompanhado de forte dificuldade de relacionamentos emocionais nos indivíduos traumatizados” (Cyrulnik, 2012b, p. 199, tradução nossa). Quer dizer, a resiliência, contrariamente ao conceito de invulnerabilidade, expressaria peculiar condição íntima que permite, após a absorção do golpe sofrido e as dificuldades impostas por esse evento, o surgimento de um impulso pessoal para reagir e retomar novo desenvolvimento psicológico, “uma espécie de renascimento após condições adversas” (Cyrulnik, 2004a, p. 7). E essa reação está relacionada ao trabalho diário, similar ao do tecelão quando cria malha coesa, um tecido feito a partir do urdir de filigranas, tanto de alegrias quanto de experiências traumáticas, de onde as cores impressas pelas marcas do trauma não irão desaparecer da trama, mas farão parte do tecido sem que suas tonalidades sombrias comprometam sua beleza.
Vejamos que, para Cyrulnik, “(a) metáfora da tessitura da resiliência permite dar uma imagem do processo da reconstrução de si mesmo” (2004a, p. 113) e na qual também está implícita que não há reversibilidade possível após o trauma, incitando a pressão para a metamorfose. Para o pensador francês, “não existe atividade mais íntima que o trabalho de atribuir sentido, uma vez que o que ficou impregnado pelo trauma real alimenta sempre representações de lembranças que constituem nossa identidade íntima. Este sentido persiste em nós e tematiza a nossa vida” (Cyrulnik, 2006a, p. 13). Permeando as diversas formulações de seu conceito de resiliência, avulta nas obras de Cyrulnik a dimensão ética de luta contra a resignação, da qual emerge a recusa do aspecto passivo e a obstinação em não admitir o destino humano em termos de fatalidade.
No que concerne à gestação de nuances específicas do seu conceito de resiliência, tais quais a ênfase notável à importância do ambiente, Cyrulnik (2006a) a relaciona explicitamente com sua história de vida. Vítima de trauma significativo quando criança — seus pais e familiares foram assassinados pelos nazistas e ele próprio por pouco escapou — Cyrulnik não sucumbiu frente às dores de suas feridas (Czerny, 2006). Soube cuidá-las de maneira que as mesmas servissem como ímpeto de seu crescimento pessoal, para a compreensão do comportamento humano e como inspiração constante de seus escritos. Entendemos, pois, como se teria gerado uma pergunta fundamental para sua elaboração teórica, qual: como aqueles que foram gravemente feridos podem voltar a ter prazer de viver?
A partir desse ponto de interrogação, avaliamos que Cyrulnik nos oferece elementos para o estabelecimento de ligação fecunda de suas ideias com a psicanálise, por meio de uma dimensão pluralista e contemporânea da última, alicerçada no legado e interlocução das linhagens freudiana e pós-freudiana — especialmente na articulação entre os modelos intrassubjetivo (teoria das pulsões) e intersubjetivo (teoria das relações de objeto), emblemática do trabalho empreendido pelo influente psicanalista francês André Green (2002). O autor, em sua extensa obra, revisita conceitos freudianos essenciais como narcisismo e pulsão de morte (Freud, 1914/2004, 1920/2006), construindo linha de argumentação que os coloca no centro do debate, problematizando-os a partir dos avanços e contribuições de autores pós-freudianos como Winnicott e Bion, entre outros. Cabe assinalar que a abordagem de Green (2002) prioriza a segunda teoria pulsional da matriz freudiana — tracejada a partir do modelo econômico do “além do princípio de prazer”, da compreensão do trauma na circunstância de um rompimento do para-excitação e, por fim, da observação clínica das agruras da compulsão à repetição (Freud, 1920/2006).
Green (1983/2016) irá opor, segundo a vocação agonística fundamental da psicanálise, o narcisismo de vida àquele de morte. Como não é possível se referir à pulsão de morte sem aludir ao par formado com a pulsão de vida, e se a primeira corresponde ao desligamento (ou, na especificidade de sua leitura, desinvestimento dos objetos) e a última à ligação (investimento nos objetos, a partir de uma função objetalizante) pretendemos refletir como, face às situações nas quais a integridade psíquica do sujeito está visceralmente ameaçada, sua libido pode ser “religada” de maneira a corresponder à função resiliente, nos moldes do pensamento de Cyrulnik. Pode-se indagar em que magnitude tal “religação” dependeria da intervenção de outra figura afetiva poderosa ou da melhor utilização de seus recursos internos pelo próprio indivíduo.
Segundo Czerny (2006), o título do livro de Cyrulnik Falar de amor à beira do abismo (2006a) associa dois termos antagônicos, no que já seria uma primeira concepção, quase paradoxal, de resiliência — ou seja, a possibilidade de aproximar o amoroso e o caloroso do apavorante e do sinistro ao vencer um trauma. Nesta mesma obra, Cyrulnik delineia as possibilidades de o sujeito emergir do ferimento profundo, a partir de uma atividade de restauração, à medida que seja capaz de retomar o curso de desenvolvimento psíquico salutar, previamente sustado pelo abalo traumático. Para tal, necessita de cotidiano afetivo com pessoas de seu convívio e de discurso cultural que dê sentido a suas perdas e marcas. Sobre esse ponto, como será visto adiante, é importante separar os conceitos de resiliência e resistência, posto que, frequentemente, a resistência impede a resiliência (Cyrulnik, 2004a).
Veja-se o exemplo daqueles que ficariam submersos no trauma. Embora possam resistir ao sofrimento e sobreviver desse modo, não se modificam estruturalmente como ocorre com os resilientes. Os traumatizados que desenvolveram tão somente a resistência — ou seja, a condição de apenas resistir/suportar a tensão e os efeitos negativos do trauma, sem elaborá-los de alguma forma, não tiveram capacidade de acionar ou desenvolver a resiliência. Não teriam encontrado um tutor de resiliência — elemento que Cyrulnik (2004a) valoriza essencialmente —, alguém ou um meio favorável que os tivesse ajudado a ir além do trauma. Em termos de uma aproximação do vocabulário psicanalítico, estaríamos falando aqui de um tipo de identificação implicando em boa relação afetiva e conduzindo a um investimento positivo — erótico/vitalizado — do narcisismo e seus pilares integrativos, unificantes e restauradores, de acordo com a concepção de narcisismo de vida de Green (1983/2016, 2002). Essa dinâmica, ao intensificar o sentimento de potência de si, poderia vir a favorecer os trabalhos de elaboração e superação da experiência ruinosa.
Desde a gestação, as experiências sensoriais e emocionais tanto do bebê quanto da mãe funcionam como as primeiras linhas de tecedura da resiliência, podendo tanto criar bases seguras quanto fatores de vulnerabilidade no desenvolvimento dessa trama. E, para justificar esse posicionamento, Cyrulnik (2014) faz uso substancial do seu conceito de nicho sensorial. A princípio, este é descrito como o elemento que esculpe o cérebro e sem o qual nenhum desenvolvimento é possível, pois seria “o ‘plaque tournante’ da intersubjetividade, a encruzilhada de pressões que orientam o desenvolvimento” (Cyrulnik, 2014, p. 46, tradução nossa). A constituição do nicho sensorial inicia-se no mundo uterino, a partir da membrana e do líquido amniótico que envolvem o bebê e estimulam seus órgãos sensoriais e seu cérebro. A própria sonoridade que reverbera, composta de sons de baixas frequências, vibraria no osso frontal do bebê. No caso de ser intensa e inesperada, alarmaria o feto. No entanto, pode igualmente acalmá-lo, caso ecoe a familiaridade da voz da mãe. Por seu diálogo constante com o bebê, constituiria informação conhecida e potencialmente tranquilizadora. Já haveria aqui uma maneira preferencial de tratar as informações, uma incipiente forma de memória, de aprendizagem.
Outro momento importante destacado nesses primórdios, conforme formulação de Cyrulnik (2009), é o trauma do nascimento — embora refutado por Freud (1926/1996) —, uma vez que o bebê sairia de um ambiente uterino acolhedor e seria, nas palavras do autor, “brutalizado pela nova sensorialidade que o cerca” (Cyrulnik, 2009, p. 116). Entretanto, nesse mesmo momento, “surge um enorme envoltório sensorial chamado ‘mãe’ que, ao colocá-lo em seus braços, o aqueceria, que tocaria em sua pele, passaria o seu cheiro e que, com sua voz reconhecida pelo filho, traria tranquilidade e apaziguaria o grande mal-estar desse início” (Cyrulnik, 2009, p. 116). Ou seja, a experiência do nascimento, mesmo que possa ser dotada de uma carga penosa — lembremos, há diversos tipos de partos, o que torna difícil generalizar o acontecimento —, receberia igualmente uma intensidade vital por meio do encontro entre mãe e bebê.
Sendo assim, após o nascimento, há uma reorganização do nicho sensorial. Nesse momento, em circunstâncias favoráveis, a presença inteira da mãe fornece um substituto afetivo às membranas do útero — e, impregnando-se na memória da criança, a envolve em uma atmosfera segura de proteção. A “resiliência neural” — assim descrita por Cyrulnik (2014, pp. 9-10) — tornar-se-ia, então, facilmente desencadeada, tendo por base esse quadro oportuno. Tal circunstância funciona a partir de um mecanismo similar ao de uma espiral, desde os primeiros dias: é na mãe que o bebê procura as informações sensoriais (cheiro, brilho dos olhos, baixa frequência da voz) que lhe são necessárias para construir e reconhecer um sentimento de familiaridade. Só após essa base estar assegurada, ele ousará a explorar o entorno, uma vez que gradativamente adquire recursos próprios capazes de estabilizar as suas reações emocionais. Neste caso, o nicho sensorial tem papel tranquilizador, servindo de espaço para que o bebê possa recuperar a confiança não só após o seu nascimento, mas após experiências de estresse vividas posteriormente, como todas aquelas decorrentes do estar vivo, do movimento natural e esperado de exploração (Cyrulnik, 2009).
Não obstante, haveria, pois, um ritmo favorável ao desenvolvimento determinado pela oposição proximidade-separação, na qual a intensidade produzida é experimentada de forma suportável. Cyrulnik (2009) ressalta ainda que o bebê, ao se apegar ao objeto-mãe (ou a quem cumpra a função de promoção do bemestar após períodos de tensão), acaba por adquirir a capacidade de se tranquilizar não apenas em contato com uma realidade sensorial — com seus cheiros, voz etc. —, mas igualmente com a representação pré-verbal (inscrição psíquica de índices de percepção e/ou traços mnésicos anterior à possibilidade de sua enunciação em palavras) desse contato do qual espera o apaziguamento. Em menos de três meses o bebê terá adquirido, pois, uma maneira de procurar por si mesmo os elementos sensoriais, embebidos neste campo que Cyrulnik (2004a) denomina detector (sensé) de significados preliminares. São elementos que atuarão como tranquilizantes naturais e estimulantes exploratórios capazes, por assim dizer, de uma função homeostática na incipiente vida emocional do bebê.
Vale destacar que Cyrulnik (2004a) utiliza frequentemente a expressão “meio sensorial detectado (sensé)”, por conceber que a sensorialidade é influenciada decisivamente pelas formas nas quais certas sensações teriam sido experimentadas e significadas pelos pais, que as demonstram por meio de comportamentos dirigidos à criança. A forma de a criança sentir seria influenciada pela história dos pais, pois os gestos manifestos destes transmitiriam como eles próprios sentiram e significaram certos objetos — ou seja, como foram “detectados”. As diversas modalidades possíveis dessa exploração do mundo pela criança dependerão de como a mãe (ou quem cumpra esse papel) tenha respondido à necessidade de segurança implícita na busca de familiaridade da criança e dos significados dados às experiências dela.
Outra propriedade relevante quanto ao nicho sensorial é como ele provê um ambiente interno estável, em termos de um compasso regular de excitações e apaziguamentos das tensões. Quando os estímulos provenientes da mãe respeitam os ritmos do bebê, a criança pode experimentar comportamentos de tranquilização e se sentir mais confiante para explorar os seus arredores. Nesse sentido, podemos aventar ter havido alguma influência do ilustre psicanalista inglês Donald W. Winnicott (1965/1983), uma vez que Cyrulnik o cita algumas vezes, de forma não muito específica.
Já em um quadro de desenvolvimento desfavorável, desde a gestação pode haver falha na comunicação intrauterina entre a mãe e o feto. De acordo com a hipótese de Cyrulnik (2014), inserido num contexto amplamente interdisciplinar, cujo diálogo com a neurobiologia é evidente, os bebês recém-nascidos chegariam então ao mundo com acentuada atrofia fronto-límbica. Nesse caso, a resiliência neuronal será difícil de se desencadear. Essa mesma falha, ainda no período uterino, ocorre quando a mulher grávida é perturbada por um acidente em sua vida. O ambiente uterino sofre uma espécie de colapso, circunstância que aumenta o nível de cortisol amniótico. O bebê, fisiologicamente afetado pelo estresse materno, desenvolveria ainda no útero significativa “vulnerabilidade neuro-emocional” (Cyrulnik, 2014, p. 11, tradução nossa), cujas repercussões posteriores nas esferas psíquica e relacional seriam desastrosas. A forma de mitigar tal vulnerabilidade seria fornecer ao bebê um nicho sensorial ainda mais estável e seguro do que os outros bebês em geral necessitam.
Assim como o desconforto e o sofrimento, a infelicidade materna também pode funcionar como um fator de empobrecimento do nicho sensorial — fato que, como consequência, serve como um freio ao desenvolvimento. Segundo Cyrulnik (2006a), uma mãe deprimida emite sensorialidade correspondente: “rosto pouco expressivo, ausência de brincadeiras corporais, olhares desviados, verbalidade [verbalização] morna. Nesse banho sensorial que traduz o mundo mental da mãe, o bebê aprende a reagir por comportamentos de retração” (p. 81). Antes de adquirir a fala, um bebê recém-nascido é capaz de entender e responder a certos problemas. “Perder” a mãe na fase pré-verbal provocaria um efeito de esgotamento emocional no nicho sensorial.
De outro modo, quando os pais “sufocam” os filhos com excesso de zelo ou, ao contrário, de negligência, o envoltório sensorial sofreria igualmente reveses. Toda experiência de separação é vivida como ameaça de perda da segurança, tenha sido esta falsamente alimentada (pelo excesso de zelo) ou muito danificada (pela concreta ausência de cuidados). Contudo, segundo Cyrulnik (2014), o que parece ser mais prejudicial é o “isolamento total” (p. 41), por ser capaz de desorganizar todo o circuito neurológico e arruinar o nicho sensorial. Em pouquíssimo tempo, esse isolamento causaria “atrofia do cérebro, embotamento emocional, medo do outro e aumento das atividades autocentradas” (Cyrulnik, 2014, p. 41). Essencialmente, para o autor, não haveria constituição de nicho sensorial satisfatório, de desenvolvimento da resiliência, sem uma presença afetiva, investida de forma equilibrada nos cuidados do bebê. E aqui entra a figura do apego e os diferentes estilos afetivos que podem ser processados, concepção originalmente de John Bowlby (1984), amplamente explorada por Cyrulnik em sua argumentação sobre a resiliência.
É possível observar que, embora Cyrulnik (2014) não se detenha em explicações pormenorizadas de seus conceitos, preferindo um apelo retórico para transmitir suas significações, em relação a noção de nicho sensorial, há correlação neurológica e psíquica que pode gerar controvérsias, de acordo com o ponto de vista do interlocutor. Freud (1891/2013), por exemplo, teria refutado a tese do suporte orgânico/cerebral desde seu ensaio sobre as afasias, distinguindo o âmbito psíquico do neuronal. Em via contrária, o nicho sensorial de Cyrulnik é definido como o conjunto de elementos de ordem neuronal, fisiológica, ambiental, cultural e psicológica que permite à criança, desde os primórdios da vida, sentir-se aconchegada em rede de segurança e afeto, no encalço de estreita correspondência à relação estabelecida com a mãe e/ou seus substitutos simbólicos. Fundamentalmente, o nicho sensorial se articula à criação de recursos internos e, consequentemente, a um aumento ou diminuição das possibilidades de desenvolvimento da resiliência (Cyrulnik, 2012b).
Uma vez que o nicho sensorial do bebê pode ser obstruído por diversos fatores, Cyrulnik (2014) destaca que, além de padecimentos atemporais (situações de pobreza, miséria, luto, entre outros), a evolução tecnológica-cultural é outro agente observado no engendramento de comprometimentos sensoriais. A mudança na estrutura familiar frequentemente constatada nos dias atuais — decorrente do fato de crianças não serem mais cercadas por um sistema de múltiplos apegos, como aquele oferecido por um núcleo familiar extenso ou mesmo por uma comunidade vizinha mais participativa —, evidencia telas e geladeiras que serviriam de babás. Contribuiria para esse cenário, ainda, um estilo de vida cada vez mais sedentário que tornaria inútil a força muscular.
No livro De corpo e alma: a conquista do bem-estar (2009), a partir de um Cyrulnik influenciado pela neurobiologia e pelos estudos etológicos, chama-nos a atenção a sua constante utilização dos termos tranquilização e apaziguamento, para justificar a importância de um apego seguro nos primeiros anos de vida do indivíduo, aos quais se refere como período sensível. Isto nos faz pensar que a capacidade de regulação dos afetos, das intensidades, seja um ponto central da resiliência.
Partindo desse ponto de vista, Cyrulnik (2006a) destaca o papel do cuidador, inicialmente, na regulação do bebê. De uma forma geral, na maioria das vezes, a figura de apego é a mãe, podendo ser substituída por qualquer pessoa significativa que cuide regularmente do bebê, como, por exemplo, o pai, os avós ou mesmo uma instituição. Juntamente à sua função de proteção, de prover a satisfação das necessidades deste ser, ela possui outro papel de grande valor: o de possibilitar a criação de um estilo de desenvolvimento emocional, isto é, uma forma preferencial de aprendizagem, que se tornará tendência para governar os relacionamentos posteriores (Cyrulnik, 2014). A figura de apego descrita por Cyrulnik (2006a) é “composta de imagens, de sensorialidades e de atos dirigidos ao recém-nascido. De gesto em gesto, esse real sensorial se impregna na memória do pequenino e ensina-lhe a esperar certos comportamentos que virão dessas figuras de apego” (p. 81).
Como previamente mencionado, as condições para o desenvolvimento possível da resiliência em diversos graus, de acordo com Cyrulnik (2012b), estão estreitamente relacionadas à aquisição, nos primeiros anos de vida, “de um estilo socializante afetivo”, que impregna uma tendência relacional na memória, gerando diferentes formas de os indivíduos reagirem aos impactos traumáticos. Quer dizer, essa tendência determina não só o caminho a ser seguido no desenvolvimento do indivíduo, mas também “o grau de resiliência ante os acontecimentos estressantes da vida” (Cyrulnik, 2004a, p. 9-10).
Partindo desse referencial, Cyrulnik (2004a) classifica os que permanecem submetidos ao trauma, com dificuldades de desenvolver a resiliência, em três grupos, seguindo o esquema de apego: os evitativos (aqueles que têm medo de exprimir as emoções), os ambivalentes (por angústia, agridem quem amam), e os desorganizados (que estão sempre aflitos e confusos). É possível delinear, mesmo que de forma incipiente e experimental, certa correlação dessa terminologia da teoria do apego com uma tradução aproximada da terminologia psicanalítica. Assim, os mecanismos psíquicos evitativos apresentariam semelhanças com aqueles do recalque [Verdrängung] — defesa psíquica contra determinadas representações e circulações pulsionais (Freud, 1915/2004a); os ambivalentes, das dinâmicas sadomasoquistas (posições de agressão e/ou submissão ao objeto de investimento pulsional erótico) (Freud, 1905/1996; Freud, 1915/2004b); e os desorganizados, de certas angústias primordiais, próprias dos casos fronteiriços nos quais haveria extrema porosidade dos limites psíquicos que organizam a relação ego-objeto, dando margem à constante instabilidade narcísica (Green, 1990, 2002).
Por outro lado, as crianças capazes de desenvolver um esquema de apego seguro na primeira infância têm mais condições de se tornarem resilientes ao sofrer possíveis abalos desorganizadores, mas Cyrulnik (2004a) nos faz lembrar que estes “estilos afetivos básicos” adquiridos nessa época não são imutáveis e submetidos a uma causalidade fatalista. Na verdade, constituem uma tendência que orienta as relações posteriores, sempre abertas a remanejamentos, diante de novas aprendizagens nas interações afetivas, quando novas configurações podem ser criadas — por exemplo, diante de um acontecimento afetuoso comovente, um encontro com um artista, um psicoterapeuta, um primeiro amor etc.
Em suas palavras, “quando o contexto muda, um breve momento de desadaptação possibilita as mudanças da criança em direções opostas” (Cyrulnik, 2004a, p. 56). Isto acontece porque, durante essas desadaptações, fatores determinantes de origens diferentes podem se conjugar de outra forma e, assim, mudar o ambiente que envolve a criança e molda seu comportamento. Entretanto, vale salientar, que essas mudanças de “estilo relacional por ocasião das mudanças do entorno dependem então da defasagem entre comportamentos temperamentais adquiridos pela criança e as interpretações diferentes que os adultos podem dar a elas” (Cyrulnik, 2004a, p. 57).
Retomando a descrição das formas mais ou menos saudáveis de desenvolvimento de “apegos”, comecemos por falar sobre aquele que é a referência de Cyrulnik (2004a) para o desenvolvimento ótimo da resiliência, sendo também o mais frequente e facilmente observado, o apego seguro. Ele provê um sentimento de segurança à criança e, consequentemente, a condição necessária para que ela ouse se separar e se afastar do objeto/figura de apego (em geral a mãe). “Quando a mãe se vai, a criança a simboliza inventando objetos tranquilizadores para substituí-la” (Cyrulnik, 2004a, p. 58), postulação evidentemente tributária da concepção de objeto transicional de Winnicott (1971/1975). Dessa maneira, a criança “sai” para explorar seu pequeno mundo desconhecido e retorna para a mãe com quem compartilha o entusiasmo de suas descobertas. A implicação desse apego é que, em caso de desventura na vida da criança, ela já terá adquirido um comportamento cativante que mobiliza os adultos e os transforma tão logo possível em base de segurança. O indivíduo que teve um apego seguro quando criança saberá buscar o substituto de que precisa para regular os seus afetos após uma situação traumática: “Ele já adquiriu a capacidade de transformar qualquer adulto em boa mãe” (Cyrulnik, 2009, p. 92).
Assim, já dentro das correlações possíveis com a psicanálise, o “apego seguro” seria o sinal de que foi desenvolvido um tipo de narcisismo primário — de acordo com a releitura do conceito freudiano empreendida por autores pósfreudianos e contemporâneos, desde Green (1983/2016, 1990, 2002) até Marion Péruchon (2013) — propício ao florescimento da autoestima, das condições psíquicas que favorecem os sentimentos de segurança, confiança, autonomia e entusiasmo, segundo uma abordagem que estabelece proveitoso e imprescindível diálogo entre os modelos intrassubjetivo e intersubjetivo da psicanálise pós-freudiana.
Passando agora às condições menos favoráveis de desenvolvimento da resiliência, temos a formação do apego evitativo, que nos é explicada por Cyrulnik (2004a) por meio de um viés de sua expressão pelo negativo. Sua referência é aquela criança que não teve uma figura de apego calorosa nos primeiros anos de vida, uma figura que fosse capaz de reabastecer a criança de alegria no retorno de cada experiência de exploração, de lhe prover a segurança necessária para buscar um novo vínculo diante de seu afastamento. O autor descreve esse apego com a criança que, na presença da mãe, brinca e explora, mas não compartilha. Quando sua mãe “desaparece”, fica muito angustiada, só que quando ela volta, a criança não vai à sua direção.
Cabe destacar aqui, a partir de uma leitura psicanalítica paralela, significativa analogia com o pensamento de Green (1990, 1993/2016, 2002) sobre a dimensão do negativo na esfera da constituição psíquica e sua indissociabilidade da qualidade da relação objetal estabelecida entre criança e objetos primários. O infans responderia psiquicamente às variações e turbulências excitatórias, relacionais e ambientais de forma análoga aos recursos adquiridos numa dinâmica que é tanto pulsional quanto objetal, a partir da qualidade do investimento libidinal depositado dos objetos sobre ele. Dessa forma, o pequeno ser adquiriria ou não a possibilidade de negativizar (anular, desinvestir) na medida certa — ou seja, de forma, circunstancial e propícia ao estabelecimento de autonomia – a presença maciça de um objeto que se faz absolutamente necessário nos primeiros anos de vida (Green, 1990, 1993/2016, 2002). A complexidade dessa dinâmica apreende fatores cuja similaridade com os postulados de Cyrulnik é bastante evidente.
Nesta mesma linha, encontramos o apego ambivalente, descrito por Cyrulnik (2004a) como característico de uma criança muito pouco exploradora quando a mãe está presente e que fica demasiadamente aflita quando ela desaparece. E, mesmo quando a mãe volta, a criança fica inconsolável, pois ela aprendeu a estabelecer uma relação de ajuda apenas pela expressão da sua aflição. Sem esta, segundo ele, resta somente um deserto sensorial no qual da aflição brota a esperança de um socorro (Cyrulnik, 2004a). Em aproximada tradução psicanalítica, a partir da perspectiva apresentada acima, haveria aqui incontestável fragilidade do processo de negativização do objeto primário, que permaneceria demasiadamente solicitado e necessário para garantir alguma estabilidade psíquica para a criança (Green, 1990, 1993/2016, 2002).
Análoga à ideia de deserto sensorial (Cyrulnik, 2004a), pode-se mencionar a ideia de “branco” em Green (1990) na qual a perda do objeto conduziria o infante a uma perda de sentido, por meio de um colapso da transicionalidade, desinvestimento radical dos demais objetos (transicionais), que terminaria por culminar em estados psíquicos “em branco”, com sérios prejuízos para a atividade representativa e acesso a componentes afetivos.
Por último, temos o apego desorganizado. Trata-se de bebês que construíram um apego imprevisível, porque a relação entre o próprio mal-estar íntimo e o envoltório afetivo dos adultos à sua volta não possibilitou a impregnação de um apego estável, necessário para a criação de recursos comportamentais tranquilizantes e exploratórios (Cyrulnik, 2009). Em termos comportamentais, Cyrulnik (2004a) descreve os bebês que não sabem utilizar a mãe como base de segurança quando ela está presente, nem se tranquilizar quando ela volta, uma vez que não possuem os recursos internos de tranquilização nos anos precoces. O problema desse padrão de comportamento é que eles provocam afastamento ou rejeição dos adultos, pois se tornam crianças difíceis de amar.
O psicanalista francês René Roussillon (2004a, 2004b), como será apresentado mais à frente, argumenta sobre a dimensão de reflexividade na relação adultocriança, baseada numa espécie de “coreografia do encontro”, na qual a reciprocidade, o ajuste dos ritmos, a harmonização de cadências e, mais significativamente, o prazer subjetivo produzido na dinâmica mãe-bebê estabeleceriam valiosos alicerces para o funcionamento psíquico em estágios posteriores da vida do sujeito.
Para finalizar, Cyrulnik (2004a) destaca que um dos fatores, nos primeiros dois anos de vida da criança, que aumentaria o prognóstico de resiliência no decorrer do seu desenvolvimento é se o ambiente, nesses anos precoces, for constituído por múltiplos apegos, pois, uma vez que a figura principal de apego falhe, a criança pode recorrer a outras pessoas ao seu redor que cumpram as funções de assegurá-la e estimulá-la afetivamente dentro de suas necessidades, de forma que favoreçam a possibilidade de resiliência no futuro.
Para o estudo das dinâmicas psíquicas potencialmente envolvidas no processo de resiliência, Cyrulnik (2014) direciona sua atenção para determinados mecanismos de defesa. Estes constituiriam valioso alicerce para a descrição do mundo interior do sujeito que enfrenta sofrimento psíquico, podendo ser divididos entre os mecanismos que facilitam o processo e os que impedem a resiliência. Ressaltamos aqui que Cyrulnik faz referência a trabalhos prévios de outros autores que já haviam explorado essa tematização, tais como Claude de Tychey e Joëlle Lighezzolo (2006) e Anthony Bateman e Peter Fonagy (2003, 2006) — os últimos, especialmente, no que diz respeito à mentalização.
Sobre os mecanismos facilitadores, isto é, propícios a uma retomada do desenvolvimento, Cyrulnik (2014) assinala a importância da mentalização, uma vez que o trauma sendo representado por meio de palavras e compartilhado com uma pessoa de confiança teria mais possibilidades de ser elaborado e superado. Em face à importância creditada pelo autor a esse mecanismo, iremos dedicar particular atenção ao mesmo. De uma maneira geral, o conceito de mentalização é descrito como a capacidade a ser desenvolvida no indivíduo de, principalmente, perceber a si próprio e perceber os outros como seres psicológicos, isto é, de considerar os estados mentais, tais como os pensamentos, sentimentos, intenções, desejos e motivações subjacentes aos comportamentos (Ensink et al., 2015). Em outras palavras, podemos dizer que se refere à condição do indivíduo de refletir sobre e compreender o seu estado de espírito e dos outros.
Já sobre a origem do termo, podemos colocá-lo como pertencendo a um movimento de expansão da teoria do apego, encabeçado por Peter Fonagy e seus colaboradores, tais como Anthony Bateman (Bateman e Fonagy, 2003, 2006), Mary Target (Fonagy e Target, 2006) e Jon Allen (Allen e Fonagy, 2006). Segundo o próprio Fonagy, o conceito foi desenvolvido a partir de um estudo empírico na década de 1990 do qual concluíram que “havia uma sinergia vital entre os processos de apego e o desenvolvimento da capacidade da criança de compreender o comportamento interpessoal em termos de estados mentais” (Fonagy, 2010, p. 38, tradução nossa). Além disso, Fonagy reconhece como inspiração o trabalho psicanalítico com pacientes limítrofes.
Vera Regina Röhnelt Ramires e Lucia Rech Godinho (2011) realçam o trabalho de Jeremy Holmes (2006), no qual o autor analisa o conceito de mentalização sob uma perspectiva psicanalítica identificando quatro matrizes distintas: a) na teoria da mente, que propõe a noção de que reconheceríamos a existência de mentes similares à nossa; b) na função alpha de Wilfred Ruprecht Bion (1962/1997; 1967/1994), ou seja, na capacidade de pensar os pensamentos desenvolvida, a princípio, com o auxílio da mãe; c) na psicossomática de Pierre Marty (1991), na qual a mentalização seria o oposto do pensamento operatório ou acting out, o avesso da incapacidade de colocar os sentimentos em palavra; d) e, por fim, na psicopatologia do desenvolvimento de Fonagy e Target (2006), na qual a capacidade de mentalização corresponderia àquela de dimensionar a contribuição dos seus próprios sentimentos na sua apreciação do mundo, a partir de um self robusto capaz de distinguir as realidades interna e externa.
Pode-se perceber que, em todos esses enfoques, a importância das figuras parentais na infância é acentuada. Nesses casos, a boa qualidade das relações objetais primárias viabilizaria ou não a emergência da mentalização, uma vez que, segundo Fonagy (2010), isso acontece quando o indivíduo consegue perceber a si próprio de forma que lhe parece similar ao modo pelo qual teria sido percebido na mente de um outro indivíduo durante a infância, num contexto de apego seguro, condição imprescindível para seu amadurecimento (Ramires & Godinho, 2011).
Ideia muito similar à de reflexidade de Roussillon (2004a), articulada à possibilidade de constituição de um laço suficientemente seguro com o adulto cuidador, objeto investido e construído subjetivamente pelo infante, nos primórdios da vida psíquica, como um duplo de si. Nessa direção, a reflexidade denota a condição sine qua non para a criança conquistar asseguração narcísica por meio da reciprocidade, previsibilidade e regularidade (dos ritmos, ajustes e investimentos afetivos) na relação estabelecida com seus objetos primários, que refletiriam em seus esforços, carinhos e dedicações, tanto a similaridade (espelhando identificações) e a diferença (evitando a confusão eu-outro) necessárias para a consolidação de fronteiras salutares da vida psíquica. “Não podemos mais pensar a pulsão e seu emergir psíquico sem levar também em conta a maneira pela qual ela é recebida, acolhida ou rejeitada pelo objeto que visa” (Roussillon, 2004b, pp. 737-738, tradução nossa). Em última instância, o sucesso da reflexidade garantiria a efetivação dos processos de representação e simbolização, alicerces da elaboração psíquica, da condução satisfatória das intensidades pulsionais, articuladas à efetiva separação eu-outro, na qual a criança adquire a capacidade de representar — ou, melhor, “reapresentar” — o objeto perdido da realidade externa em sua realidade interna.
Voltando à conceituação de Fonagy (2010) e seus colaboradores, há um destaque sobre a mentalização ser de grande importância para o que chamam de regulação emocional e controle da atenção, sendo esse aspecto tido como uma das principais características dos transtornos de personalidade (Fonagy & Allison, 2011). Paralela à mentalização, a sublimação artística, ao transformar o sofrimento em beleza estética, abre espaço para o compartilhamento do mundo mental. O humor também permitiria a expressão do sofrimento de forma amena sem causar desconforto ao seu redor. E sublimações de cunho social como o engajamento em causas humanitárias funcionariam como alicerces, já que o altruísmo estimula a empatia de que o resiliente necessita.
Do outro lado do espectro, no pensamento de Cyrulnik (2014), encontra-se os mecanismos de defesa que impediriam a resiliência. Os primeiros deles, o recalque, o atordoamento e a indiferença, apesar de permitirem uma diminuição do sofrimento, impedem que o problema seja efetivamente enfrentado. A regressão, por sua vez, traz um comportamento de renúncia, de resignação frente aos fatos. Apesar do “efeito calmante” como ganho secundário, afeta a autoestima e a motivação, fatores fundamentais à resiliência. Por último, a agressividade, a raiva expressa em atitudes antissociais, repele os outros levando ao isolamento, sendo esse mecanismo considerado por Cyrulnik (2014) como “principal fator de anti-resiliência” (p. 14, tradução nossa).
Haveria ainda dois mecanismos que seriam “temporariamente aceitáveis”: a negação e a clivagem. Se por um lado a negação alivia o aspecto sofrido de uma lembrança ou constatação penosa, por outro impossibilita a elaboração — que, como foi visto, Cyrulnik (2014) denomina ‘mentalização’. A clivagem, de modo similar, atua como subtração psíquica da existência do problema, causando cisões desagregadoras. Ao lançar mão desses mecanismos, o indivíduo assiste uma parte significativa de seu mundo íntimo ficar inacessível para si próprio (inconsciente). Mesmo que ele compartilhe com os mais próximos a parte consciente que é capaz de suportar, isto não é o suficiente para evitar, em alguns casos, crises de depressão ou raiva. Crises aparentemente inexplicáveis para aqueles que estão ao seu redor. Somado a estes últimos “tipos” de mecanismo, há o devaneio, cuja função protetora de refúgio momentâneo tornaria a vida mental menos dolorosa, fornecendo tempo para que a agonia possa ser mentalizada. No entanto, como ressalta Cyrulnik (2014), em casos graves, a persistência desses devaneios pode vir a tomar um rumo patológico de fuga permanente da realidade.
É digno de nota observar o quanto Cyrulnik (2004a, 2004b, 2006a, 2006b, 2009, 2014, 2016) utiliza metáforas para construir o seu sistema de pensamento, que se inspira, talvez excessivamente, de uma força retórica do convencimento, atributo de uma escrita poética engajada. Esse estilo pode ser pertinente, em termos de exemplificações pontuais, uma vez que a arte e a psicanálise têm vínculos tradicionais em comum no que tange à descrição de sentimentos. Porém, o recurso excessivo à metaforização no relato de vicissitudes afetivas se afasta consideravelmente do tipo de reflexão que desperta maior interesse para a elaboração metapsicológica no panorama da psicanálise.
Desse modo, como interlocutores, somos “envoltos” em uma atmosfera que busca, antes de tudo, encontrar no leitor um eco em termos de empatia afetiva para com o sofrimento e reações a ele dos indivíduos resilientes. Em paralelo, deixa-se de ter a oportunidade de dimensionar e questionar aspectos psíquicos mais precisos para o entendimento das circunstâncias nas quais a resiliência teria se desenvolvido como, por exemplo, os diferentes tipos de trauma e as condições psíquicas anteriores e posteriores dos indivíduos que o sofreram.
Na tentativa de aproximar a resiliência ainda mais do âmbito psicanalítico e metapsicológico — uma vez que, como vimos, a resiliência para Cyrulnik (2004a) está inserida prioritariamente na teoria do apego —, gostaríamos de refletir sobre as definições expostas acima. Quando o autor define resiliência como a arte de navegar nas torrentes, comparamos essa metáfora não apenas a uma espécie de habilidade em lidar com o sofrimento gerado pelo choque traumático de um evento real trágico (vítimas de guerras, maus tratos, abusos, acidentes, etc.), mas também da pressão gerada pelas “torrentes internas”, avalanches psíquicas (modelo econômico da metapsicologia freudiana, trans-bordamentos pulsionais). No último caso, tais torrentes se expressam por meio da angústia gerada pelos anseios, medos, ambivalências, fantasias, ou pela própria pressão advinda das intensidades excitatórias, sem condução representativa. E, para lidar com esse excesso do aparelho, o indivíduo resiliente deveria, na linha de raciocínio de Cyrulnik, apelar aos recursos internos impregnados em sua memória nos anos precoces do desenvolvimento.
Vale destacar que, quando o autor francês escreve que “a aquisição de recursos internos deu ao resiliente confiança e alegria” (Cyrulnik, 2004a, p. 207), em nossa avaliação, isso poderia ser interpretado como o aspecto da vitalidade, termo muito ressaltado e valorizado por autores caros à psicanálise pósfreudiana e contemporânea como Donald W. Winnicott (1971/1975), Daniel N. Stern (2010), Thomas H. Ogden (2013) e Luís Claudio Figueiredo (2018a, 2018b). A vitalidade, dentro do escopo freudiano e pós-freudiano, poderia ser lida como a própria pujança da pulsão da vida trabalhando para sobrepor-se aos desinvestimentos da pulsão de morte.
Se levarmos em consideração ainda que a confiança e a alegria são efeitos de “aptidões facilmente adquiridas ao longo dos primeiros anos” (Cyrulnik, 2004a, p. 207), aqui estaria aberta a possibilidade de discussão sobre a origem da resiliência estar no desenvolvimento do narcisismo, uma vez que esse conceito freudiano comporta ressonâncias com os aspectos da confiança em si mesmo, da força de suportar a pressão das tensões pulsionais sem grandes desestruturações, assim como dos choques traumáticos. Além disso, a correlação da confiança com o apego seguro de Bowlby (1984) nos faz pensar justamente no desenvolvimento do ego frente à relação satisfatória com o objeto primário.
Estes aspectos de confiança e alegria também são descritos por Cyrulnik (2004a) como correspondentes a comportamentos “cativantes” — termo que, em nossa hipótese de trabalho, associamos mais ao “encantamento” do que à “sedução”. Comportamentos que viabilizariam ao indivíduo, mesmo quando imerso nas torrentes de angústia, ser capaz de constituir com outra pessoa um tipo de aliança voltada para a vida, que lhe permitiria emergir do sofrimento. Assim, desde já, em nossa avaliação, imprimimos uma conotação menos dependente ao termo “tutor de resiliência” — a nosso ver, muito impregnado nas ideias de Cyrulnik (2004a) de um “aproveitar da oportunidade de ajuda oferecida por outra pessoa”. Aqui já começamos a desenhar que haveria uma espécie privilegiada de dinâmica psíquica identificatória com certos traços do objeto primário capaz de vir a ajudar significativamente no desenvolvimento do narcisismo pautado em alicerces suficientemente estruturantes (Green, 1983/2016, 2002; Péruchon, 2013) e, consequentemente, os mecanismos/processos resilientes.
Vale notar que Cyrulnik (2004a) também reforça a potência do indivíduo por meio de uma metáfora de natureza ígnea no que se refere à criança capaz de resiliência:
Essa centelha afetiva lhe permitiu não perder os encontros com as personagens significantes que possibilitaram as primeiras malhas da tecedura de sua resiliência. Sem dúvida, foi o acaso que as colocou em seu caminho, mas foi um acaso significante, já que ele soube identificá-lo. Sem essa centelha afetiva, ele o teria simplesmente deixado passar. (Cyrulnik, 2004a, p. 159)
Cyrulnik (2004a) reforça o aspecto vital incandescente de sua apreciação da potência dessas crianças quando diz que elas teriam a capacidade de reter impressões precoces positivas — anteriores ao trauma — em sua memória, a qual ficaria marcada como que “em brasa” pelo signo da resiliência. Assim, esta representação de si agrega na memória o sentido tanto do dilaceramento quanto do fulgor da brasa. Malgrado o sofrimento posterior, a criança sente que pode vir a ser amada depois do trauma, pois foi amada e apreciada antes do evento perturbador. Assim, terá condições de se engajar nos riscos e deleites da aventura amorosa.
E ainda sobre a retomada pós-trauma dos resilientes, Cyrulnik (2004a) descreve a admiração expressa por eles ao fazerem uma retrospectiva de como foram capazes de reaprender a viver. Entretanto, essa superação, em suas palavras “esta passagem da sombra para a luz, a escapada do porão ou a saída do túmulo implicam a necessidade de reaprender a viver uma outra vida” (p. 3). Por um lado, isto denota que a resiliência psicológica não deve ser correspondida ao termo em sua origem física, de retorno a um ponto ou condição original — uma vez que, em termos psíquicos qualitativos, isto é, das representações, o arcabouço simbólico de um resiliente estaria passando por processos de transformações profundas e, naturalmente, não seria mais o mesmo após o retorno do choque traumático. Mas, por outro lado, se pensarmos em termos quantitativos, de uma certa força da pulsão de vida (ou seja, de predomínio desta em relação à pulsão de morte), poderíamos falar de um retorno do resiliente a uma certa “homeostase” do aparelho — a uma condição específica, “compensada”, de tensão que permite ao indivíduo ser capaz de retomar seu desenvolvimento psíquico, emocional. Capacidade de retorno à vida tal como Cyrulnik (2004a) costuma descrever a resiliência.
Nesse caso, o conceito de nicho sensorial parece revelar-se um operador fértil na inserção e discussão da resiliência no campo da psicanálise, a partir de uma interlocução com as contribuições de Winnicott, Green e Roussillon, entre outros autores. Nessa direção, a ideia de nicho sensorial se articula à construção de um sistema favorável à elaboração psíquica a partir do emaranhado de estímulos, comunicações e encontros pré-verbais na estruturação do narcisismo primário, de acordo com o diálogo entre o modelo intrassubjetivo (relação do Eu com as pulsões e a realidade externa) e o modelo intersubjetivo (papel da relação objetal na constituição do Eu e seus recursos) defendido no paradigma da psicanálise contemporânea.
Para finalizar, deixemos a observação de que, na obra de Cyrulnik, não são bem definidas as nuances da resiliência que existiriam entre a dependência (só receber e sobreviver) e a autonomia (transmitir e transformar). Nesta diferença, a elaboração mais especificamente psicanalítica teria muito a contribuir.
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PAULA ADRIENE DUARTE
Psicóloga, Doutora em Psicologia Clínica pelo Programa de Pós-Graduação do Depar-tamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
pdriduarte@icloud.com
https://orcid.org/0000-0003-4004-6364
MONAH WINOGRAD
Psicanalista, Professora Associada do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clí-nica do Departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio); Coordenadora do Laboratório de Pesquisas Avançadas em Psica-nálise e Subjetividade (LAPSU). Doutora em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.
monahwinograd@icloud.com
https://orcid.org/0000-0002-9388-4014
NEY KLIER
Psicólogo, Pós-Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica do Departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Doutor em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Ja-neiro (UFRJ). Bolsista (Pós-Doutorado nota 10) da FAPERJ.
neyklier@gmail.com
https://orcid.org/0000-0002-3809-479X
APOIO E FINANCIAMENTO
Este artigo é derivado da tese de doutorado “Traçados de esperança na escuridão: A pertinência da resiliência para a psicanálise contemporânea” (2021) de Paula Adriene Duarte, realizada no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), sob orientação da Prof.ª Dr.ª Monah Winograd e coorientação do Prof. Dr. Ney Klier.
Coorientação de pesquisa financiada pelo Programa de Pós-Doutorado Nota 10 (PDR Nota 10) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ). Processos n. E-26/202.405/2017 e n. E-26/202.406/2017.
FORMATO DE CITACIÓN
Duarte, Paula Adriene; Winograd, Monah & Klier, Ney (2022). Cyrulnik e seu pionei-rismo na articulação entre o conceito de resiliência e a teoria psicanalítica. Qua-derns de Psicologia, 24(1), e1732. https://doi.org/10.5565/rev/qpsicologia.1732
HISTORIA EDITORIAL
Recibido: 17-12-2020
Aceptado: 24-02-2022
Publicado: 26-04-2022